27 novembro 2015

Deus conosco

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Uma das maiores bênçãos descritas na Escritura é a de que Deus habita no meio do seu povo. No jardim do Éden, Adão contava com a presença de Deus que andava com ele na viração do dia (Gn 3.8). No deserto, Deus mandou que o povo construísse o tabernáculo que seria o lugar da sua habitação e a representação de que Deus habitava com eles (Ex 25.8-9). Além do tabernáculo, a Arca da Aliança também era sinal da presença de Deus no meio do povo. Isso era tão importante que quando ela foi roubada declarou-se que a glória do Senhor tinha se ido de Israel (1Sm 4.21).

Moisés, em certa ocasião, chegou a dizer ao Senhor: “se a tua presença não for comigo, não nos faça subir deste lugar” (Ex 33.15) e Josué, seu substituto, teve a garantia da presença de Deus com ele (Js 1.9). Assim como o tabernáculo, o templo também simbolizava a presença do Senhor (Sl 27.4; Sl 65.4; Sl 84.1,2,10).

Quando Maria engravidou e José quis deixa-la secretamente, um anjo apareceu a ele para falar a respeito da concepção milagrosa do Salvador. Mateus afirma em seu evangelho que “tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emmanuel” (Mt 1.22,23). Mas porque a menção desse nome é importante? Exatamente por causa daquilo que o próprio evangelista registra em seguida, “(que quer dizer: Deus conosco)”.

A encarnação é o momento em que a presença de Deus é vista de forma mais plena, até agora, na história do homem. Jesus é Deus conosco e, antes de ser assunto aos céus, prometeu estar conosco todos os dias, até à consumação dos séculos (Mt 28.20).

Sua presença é importante, pois:

a) Ele é o nosso mediador – Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Somente por ele podemos ter acesso à presença do Pai (Jo 14.6; Hb 10.19-22). Nele temos um advogado que intercede diante do Justo Juiz, quando pecamos (1Jo 2.1).

b) Ele é o maravilhoso Conselheiro – um dos títulos atribuídos ao Senhor em Isaías é que ele é o nosso Conselheiro (Is 9.6), mas não só um simples conselheiro, ele é “O” maravilhoso Conselheiro. Ele nos aconselha por meio de sua Palavra viva e eficaz (Sl 107.11; Pv 8.14; Hb 4.12) que é o meio para a santificação de nossas vidas (Jo 17.17).

c) Nele temos tudo o que é preciso para a vida e piedade – Pedro afirma que todas as coisas que conduzem à vida e à piedade estão no conhecimento completo de Cristo (2Pe 1.3). Em Cristo somos co-participantes da natureza divina, ou seja, por causa dele podemos ser aquilo que não somos ao descender de Adão, santos, e isso nos livra das paixões desse mundo. Somos chamados para ser cada dia mais parecidos com ele (Rm 8.29) que é a imagem do Deus invisível (Cl 1.13-23) sendo ele mesmo o nosso maior exemplo para a vida e para a piedade (Ef 5.1; Fp 2.4; 1Pe 2.21). Ser parecido com Jesus, portanto, é o alvo para voltarmos a espelhar perfeitamente ao Pai, o que não é possível após a queda, mas que o será quando formos plenamente restaurados.

c) Ele é a nossa força – É ele quem nos sustenta nos momentos de tribulação. Não precisamos ter medo, pois Cristo é o nosso pastor (Sl 23.4). É ele também que nos fortalece, a despeito das circunstâncias (Fp 4.11-13), sendo a nossa força quando confessamos nossa fraqueza e nos achegamos a ele (2Co 12.10).

Jesus é o Deus conosco! Podemos confiar a ele cada aspecto de nossa vida e buscar, por seu próprio poder, viver para a sua glória.

20 novembro 2015

Aprenda com seus erros ou tome um caminho melhor: leia a Bíblia!

Bíblia em pedaçosHoje pela manhã eu ouvia num programa de rádio a resposta de um analista a uma consulta feita. Alguém queria abrir uma empresa, mas estava receoso quanto a empreender num momento de crise financeira no país, além de não ter experiência na área pretendida. A resposta foi simples. Antes de se arriscar, ele deveria aguardar para ver como se comportaria o mercado. Enquanto isso, deveria arranjar um emprego numa empresa da área, a fim de aprender na prática sobre o risco de seu empreendimento. No fim, aquele que respondia disse: “É melhor aprender com os erros dos outros do que errar para aprender”.

Sábias palavras! De certo vai contra o que muitos pensam, principalmente no que diz respeito às “coisas da vida”, amizades, relacionamentos, entretenimento, etc. Nesse caso é comum ouvir alguns dizendo: “Deixe fulano quebrar a cara, desse jeito ele aprende” ou “cada um deve ter suas experiências e aprender com elas”.

Conquanto seja verdadeiro e importante termos as nossas experiências de vida, a ideia de que precisamos “quebrar a cara” para aprender está distante daquilo que a Escritura ensina. Ao escrever sua epístola aos Romanos o apóstolo Paulo afirmou que “tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito” (Rm 15.4).

Aos Coríntios, após relatar a história de pecado do povo de Israel e a punição de Deus, ele afirmou: “Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram” (1Co 10.6) e, depois disso, exortou que os irmãos não fizessem como eles, advertindo novamente: “Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para a advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1Co 10.11).

A lição é clara! Olhe para as Escrituras a fim de tomar conhecimento do que muitos sofreram, por desobediência a Deus, e não repita a experiência. É como se Paulo dissesse você não precisa “quebrar a cara”, basta olhar para as Escrituras, confiar naquilo que está relatado e viver para a glória de Deus.

A despeito disso, muitos cristãos têm sofrido com suas escolhas. Na tentativa de caminhar conforme seus próprios corações, deixam de lado tudo aquilo que foi escrito para o seu ensino. O coração é enganoso e, não poucas vezes, quer nos conduzir a caminhos que não deveríamos trilhar. Devemos estar atentos a isso, lembrando-nos sempre daquilo que escreveu Salomão no fim de sua vida: “Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o seu coração nos dias de tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de todas essas coisas Deus te pedirá contas (Ec 11.9).

Diante disso, podemos pensar na responsabilidade que temos diante de Deus. Temos de conhecer as Escrituras a fim de viver de modo agradável diante de Deus, fazendo escolhas que reflitam sua vontade revelada.

Não é sem razão que o salmista afirma ser bem-aventurado o homem que tem “o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido” (Sl 1.2-3).

Se os cristãos se lembrassem mais dessas verdades, evitariam muitas escolhas que parecem caminhos direitos, “mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Pv 14.12).

Mas isso pode ser ainda pior. Muitos desses que desprezam as instruções da Palavra de Deus e querem seguir as cobiças de seus próprios corações, na ânsia de ouvir algo que desculpe ou justifique suas ações, buscam conselhos com pessoas que não temem a Deus. Esquecem-se de que o salmista também diz que feliz é o homem que não anda no conselho de ímpios (Sl 1.1) e devem ser lembrados das palavras do Senhor Jesus: “Ora, se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco” (Mt 15.14).

Em sua infinita sabedoria, Deus nos deu a sua Palavra bendita a fim de ser a lâmpada para os nossos pés e a luz para o nosso caminho (Sl 119.105). Você pode viver de modo digno do Evangelho, honrando ao Senhor em suas escolhas pautadas na Escritura, ou pode pagar para ver, fazendo o que é contrário a ela e aprendendo com os erros. Mas lembre-se: há pessoas que nem errando muito conseguem aprender. O melhor caminho é confiar em Jesus e dar ouvidos à sua voz, que ecoa na Escritura.

13 novembro 2015

Luz ou escuridão?

Sem-título

Instruindo a seus discípulos em Mateus 6.22 e 23, o Senhor Jesus falou dos olhos. Eles são a lâmpada do corpo. Jesus usou essa figura para ensinar sobre aquilo a que damos atenção ou que “enxergamos”. A ideia do texto não é a de que o olho seja a fonte de luz para o corpo, mas como afirma Hendriksen, “que ele é, por assim dizer, o receptor de luz, o guia do qual todo o corpo depende para a iluminação e direção”[1]. Essa interpretação pode ser corroborada por aquilo que Davi afirma no Salmo 19.8b, acerca da Palavra de Deus: “o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos”.

Diante disso, podemos entender que os olhos serão bons à medida em que enxergam, ou dão atenção, à Palavra de Deus, razão de o salmista rogar: “desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (Sl 119.18). Sendo os olhos bons, todo o corpo será luminoso, ou seja, quando o homem dá atenção à Palavra ele vai bem em seu caminho e estará iluminado.

Há, evidentemente, um paralelo aqui com o que o Senhor havia dito anteriormente, sobre ajuntar tesouros do céu (Mt 6.19-21). Aquilo que procuramos ajuntar está ligado àquilo que temos como o nosso foco. Se queremos ajuntar tesouros celestiais, necessariamente temos que voltar os olhos para a Palavra. Não há como dissociar essas duas coisas.

Os tesouros celestiais são, então, ajuntados quando o homem olha para a Palavra e pratica a sua justiça. Como exemplo temos as próprias bem-aventuranças (Mt 5.2-12) que tratam de como o crente deve viver, vindo cada uma delas com uma promessa para a eternidade. Perceba que o texto termina com Jesus dizendo: “Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus”. Não há aqui nenhuma questão meritória, mas de consequência. Aqueles que foram iluminados e praticam a luz da Palavra de Deus, necessariamente farão boas obras e receberão o galardão por elas.

Há ainda uma advertência enfatizada na expressão de contraste “se porém”, ou, em outras palavras, caso vocês não tenham olhos bons e “os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas” (Mt 6.23a).

A expressão “olhos maus” aparece duas vezes no Antigo Testamento. A primeira em Deuteronômio, quando o Senhor estabelece leis em relação aos pobres e adverte para que o povo não tenha “olhos malignos” para com o irmão pobre, não lhe dando nada daquilo que ele necessitava (Dt 15.9). A segunda aparece em Provérbios 28.22 e está traduzida como “olhos invejosos”, ainda que a palavra hebraica seja a mesma usada em Deuteronômio. Em ambos os casos ela está ligada à avareza sendo que em Deuteronômio diz respeito a quem não quer dar, e em Provérbios àquele que corre atrás de ajuntar riquezas.

Isso está em pleno acordo com o que Jesus está ensinando aqui, pois da mesma forma que aqueles que buscam tesouros celestiais têm olhos bons, iluminados pela Palavra, aqueles que buscam tesouros terrenos têm olhos maus, pois acabam pecando por manter os olhos nas riquezas. Eles demonstram que estão comprometidos apenas com esse mundo em trevas e agem de acordo com suas leis. A figura aqui é que se os olhos são trevas, todo o corpo está mergulhado na treva moral. Não é sem razão que João, ao falar a respeito do julgamento final, afirmou que o veredito é este: “Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” (Jo 3.19).

Diferente dos servos de Deus que tem a promessa do galardão nos céus, os que buscam tesouros terrenos e mantem os olhos neles já receberam sua recompensa, como foi o caso dos fariseus ao receber o louvor dos homens (Mt 5.2,5,16).

Por fim o Senhor faz uma dura afirmação: “Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grande trevas serão!” (Mt 6.23b). A declaração ganha um tom irônico, pois aqueles que estão nas trevas não conseguem sequer reconhecer isso e acham que têm luz. Sendo assim, se essa luz é na verdade trevas, isso se torna ainda mais terrível, tal como a afirmação de Jesus aos fariseus: “Sê fosseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado” (Jo 9.41).

Seus olhos são maus ou bons? Eles estão voltados para os tesouros da terra ou para os tesouros do céu? A resposta a essa pergunta demonstrará se você está “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” ou se tem se deixado seduzir pelas coisas desse mundo.


[1] William Hendriksen, Comentário de Mateus, vol. 1, p. 488 – Ed. Cultura Cristã

16 outubro 2015

Cuidado com a “piedade” impiedosa

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Se você observar atentamente o sermão do monte verá que o Senhor Jesus criticou duramente os fariseus porque davam esmolas, oravam e faziam jejum, e ordenou a seus discípulos que fossem diferentes deles. Os discípulos deveriam dar esmolas, orar e fazer jejum!

Sim, é isso mesmo que você está lendo e isso significa que a diferença entre os discípulos de Jesus e os fariseus não está, necessariamente, nas ações, mas no motivo pelo qual alguém faz o que faz. Relembre comigo. Jesus chamou os fariseus de hipócritas, pois ao fazer todas essas coisas eles não tinham como objetivo a glória de Deus, mas a glória de si mesmos. Eles queriam ser “glorificados pelos homens”, “vistos dos homens” e “parecer aos homens” (Mt 6.2,5,16). Os discípulos deveriam ter outra motivação, sua luz deveria brilhar diante dos homens para que estes, vendo suas boas obras, glorificassem o Pai que está nos céus (Mt 5.16). Por isso mesmo Jesus afirmou que não veio revogar a Lei, mas que a justiça de seus discípulos deveria exceder em muito a dos escribas e fariseus (Mt 5.20).

Diante disso, fica fácil entender por que Agostinho, sistematizando o ensino bíblico, afirmou que o homem, após a queda e sem a redenção em Cristo, é incapaz de não pecar. Suas melhores ações constituem pecado pois, em última instância, ele não as realiza para a glória de Deus, além de não ter um Mediador para interceder por ele.

Mas há mais a se pensar diante dessa realidade. A simples adequação aos preceitos da Lei não é sinal de uma vida piedosa diante de Deus. Isso fica claro quando vemos Deus rejeitando o culto de Israel em Isaías 1. A despeito de o povo oferecer sacrifícios (Is 1.11), o que era requerido pelo próprio Deus, o coração estava enfermo, longe do Senhor (Is 1.5) e, por isso, suas ofertas eram vãs (1.13). Amós, contemporâneo de Isaías, foi usado por Deus para anunciar que o povo cumpria os ritos cúlticos porque gostava e não por causa do Senhor, o que era evidenciado por seu pecado. O que os judeus ouviram, de uma forma bastante irônica, foi:

“Vão a Betel e ponham-se a pecar; vão a Gilgal e queimem ainda mais. Ofereçam seus sacrifícios cada manhã, o seu dízimo no terceiro dia. Queimem pão fermentado como oferta de gratidão e proclamem em toda parte suas ofertas voluntárias; anunciem-nas, israelitas, pois é isso que vocês gostam de fazer (Am 4.4-5).

Deus quer o nosso culto, a nossa adoração, mas, antes de tudo, quer o nosso coração. Não adianta render louvores ao Senhor estando com o coração distante dele. Essa é a atitude que foi reprovada nos fariseus (Mt 15.8).

Guardemos o nosso coração de fazer coisas certas por razões erradas. Infelizmente, muito do que tem sido ensinado no meio evangélico brasileiro não tem a ver com a glória de Deus, mas com o bem-estar dos homens. Li, certa vez, um escritor afirmando que os crentes deveriam “liberar” perdão, pois quem guarda mágoa no coração acaba por destruir a si mesmo. O problema aqui é que, quando a motivação de alguém para perdoar é “não destruir a si mesmo”, a razão é egoísta e até esse tipo de perdão é pecaminoso. O pecado é abominável não por causa das consequências em nós, mas por causa da afronta a um Deus Santo. Devemos perdoar porque fomos perdoados pelo Senhor e ele ordena que façamos o mesmo em relação ao próximo. A glória de Deus é o alvo, não o nosso bem-estar.

De igual forma, uma pessoa pode não se vingar, o que é um mandamento bíblico (Rm 12.19), e ainda assim pecar, por ter como motivação demonstrar que está acima daquele que pecou contra ela, quebrando o mandamento de não pensar de si mesma além do que convém (Rm 12.3); um pastor pode se esmerar no estudo e pecar na entrega do sermão por ter como motivação o ser bem visto em vez de edificar, exortar e consolar a igreja (1Co 14.3); pais podem se dedicar ao ensino e orientação dos filhos e ter como motivação o pecado do orgulho de ser reconhecido e glorificado pelo seu bom trabalho; enfim, podemos fazer muitas coisas biblicamente corretas e ainda assim pecar profundamente contra o nosso Deus.

Um indício de que nossas intenções ao cumprir a Lei são pecaminosas é a constante comparação com outros irmãos e o julgamento daqueles que ainda não são tão “santos” como nós.

Por tudo isso, devemos vigiar nossas intenções, pedir constantemente que o Senhor sonde o nosso coração, prove nossos pensamentos e verifique se há em nós caminho mau e nos guie pelo caminho eterno (Sl 139.23-24), a fim de que ele receba a glória devida a seu nome quando, no poder do Espírito Santo, colocamos em prática os preceitos do nosso Redentor.

09 outubro 2015

Restabelecendo a comunhão com o irmão

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“E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mt 6.12). Essa é uma das petições da oração que o Senhor Jesus ensinou a seus discípulos e nos mostra o quão importante é atentar ao que oramos. Pedimos que o Senhor nos perdoe como temos perdoado! Se você é um leitor atento, vai lembrar que após encerrar a oração o Senhor fez um adendo: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14-15).

Isso aponta para uma verdade incontestável: o perdão é um imperativo! A Escritura não dá a mínima margem para que exista a falta de perdão. Não poderia ser diferente, pois somos chamados para ser povo do Senhor, corpo de Cristo e, como corpo, precisamos dar suporte uns aos outros e “preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.3).

Infelizmente muitos cristãos têm uma ideia equivocada sobre o perdão e, quando “perdoam”, o fazem segundo o seu próprio entendimento. É preciso, entender o que as Escrituras falam acerca do perdão.

Não espere sentir vontade para perdoar

Muitos colocam o perdão no nível do sentimento. “Mas eu ainda não senti no coração a vontade de perdoar...”, dizem. Jesus não disse que a condição para o perdão seria “sentir no coração”, mas o reconhecimento da falta por parte daquele que pecou contra nós.

Em uma ocasião ele ensinou aos discípulos que se um irmão pecasse contra eles sete vezes num mesmo dia e viesse arrependido, deveria ser perdoado. Diante disso os apóstolos pediram para que ele aumentasse sua fé, mas em vez de ouvir que, de fato, era preciso ter uma grande fé para agir assim, ouviram a parábola do servo inútil cujo ensino é que devemos fazer o que nos foi ordenado. Em outras palavras, eles não precisavam de mais fé, precisavam ser obedientes ao Senhor que ordenou o perdão (Lc 17.3-10). Mudando o que deve ser mudado, para perdoar não é preciso “sentir vontade no coração”, mas ter um coração obediente e submisso ao Senhor. Costumo brincar dizendo que sentir no coração é caso de cardiologista, não de fé.

Não esqueça que você já foi perdoado por uma ofensa maior

A parábola do credor incompassivo ensina sobre isso (Mt 18.23-35). Um homem devia cem denários. Um denário era o salário de um dia de serviço, ou seja, ele devia o equivalente a cem dias de serviço, uma dívida que certamente poderia ser paga. Entretanto, quanto encontrou o seu credor e pediu paciência a fim de que pudesse pagar toda a dívida não encontrou misericórdia. Seu credor o lançou na prisão até que saldasse a dívida.

Ao ver essa história, alguns homens procuraram o patrão daquele credor que ficou enfurecido. A razão? Esse credor já estivera no papel de devedor. Ele devia a seu patrão dez mil talentos, uma dívida impagável, mas pediu paciência a seu senhor a fim de pagar a dívida e recebeu dele misericórdia, ao ser perdoado daquilo que ele devia. Só para entendermos, um talento era o equivalente a seis mil denários. Dez mil talentos, portanto, equivalia a sessenta milhões de denários. Faça as contas! Enquanto um homem devia o equivalente a 3 meses e 10 dias de serviço o outro devia o equivalente a 164.384 anos de serviço. Tá bom, vamos ajudar esse homem, consideremos que seu salário fosse de 100 denários por dia. Ainda assim sua dívida continuaria alta, equivalente a 1.644 anos.

Dá para entender claramente o ponto de Jesus. A razão de esse senhor ficar irado foi ver que aquele que havia sido perdoado de tão grande dívida não tratou com igual misericórdia aquele que lhe devia tão pouco. Diante de uma situação onde temos de perdoar, devemos lembrar da cruz, que mostra quão grande era a nossa dívida. Diante da nossa ofensa a Deus, perdoada em Cristo, qualquer ofensa que soframos, por maior que seja, é mínima.

Não esqueça que somos falhos

Vivemos em uma comunidade de pecadores remidos. Até que o Senhor extirpe totalmente o pecado de nossas vidas, no dia final, pecaremos uns contra os outros. A falta de perdão pode revelar que esquecemos dessa verdade, de duas formas.

Primeiro quando temos expectativas muito altas acerca de nós mesmos. A forma como encaramos o pecado alheio demonstra o que pensamos sobre nós. A história do fariseu que orou no templo junto com o publicano exemplifica isso. Ele orava de si para si mesmo dizendo: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano” (Lc 18.11). Ao não perdoar, muitos estão, sem dizer, afirmando que nunca cometeriam pecado como aquele da qual foram alvo.

Segundo quando temos expectativas muito altas sobre o outro. Quando dizemos coisas do tipo: “eu esperava isso de qualquer um, menos de você”, declaramos que esperamos do nosso irmão uma perfeição que não é possível para ele. Nos frustramos com uma falsa expectativa e acabamos não perdoando aquele que “nos decepcionou”.

Não coloque condições para o perdão

É claro que estou tratando de condições além daquela estabelecida pelo Senhor, que é o arrependimento. Isso é também algo que acontece, não poucas vezes, e eu chamo de “perdão desde que...”. “Eu perdoo, desde que não precise mais me relacionar com você, cada um no seu canto”, ou então, “eu perdoo, mas você tem que prometer que nunca mais fará isso...”.

Imagine se Deus nos tratasse de igual forma? Agora lembre-se de que você muitas vezes ora pedindo isso, “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mt 6.12). Já imaginou se Deus dissesse, “eu perdoo, mas você nem precisa orar mais, pois não falo mais com você”, ou, “eu perdoo, mas que seja esta a última vez que você peca contra mim”.

O perdão deve restaurar o relacionamento, unir aqueles a quem o pecado separou. Devemos perdoar da mesma forma que somos perdoados pelo Senhor, como foi demonstrado por Jesus na parábola do credor incompassivo. É isso que ele espera de nós.

Ao sofrer com o pecado de terceiros, tome atitudes bíblicas, para a glória do Senhor, restauração do faltoso e restabelecimento da comunhão.

18 setembro 2015

Não se esqueça, o Senhor continua no trono!

coração do reiUzias foi um destacado rei de Judá. Chegou ao trono aos 16 anos e seu reinado durou 52 anos. Com ele a nação estava indo muito bem. Uzias fortaleceu as defesas de Jerusalém, beneficiou o povo ao abrir poços animando, assim, a agricultura. O próprio rei deu exemplo ao povo cultivando os campos e plantando vinhas. Além disso, edificou torres para proteger os rebanhos contra ladrões e predadores, enfim, ele foi mesmo um grande governante.

O profeta Isaías registra que o seu comissionamento para chamar o povo ao arrependimento se deu, exatamente, no ano da morte do rei Uzias (Is 6.1). Essa menção não é despropositada. Com a morte do grande rei, como ficaria o povo? Haveria esperança para ele?

Isaías, então, afirma:

No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono.

A mensagem é inequívoca! Uzias morreu, mas o verdadeiro Soberano permanece no mesmo lugar em que sempre esteve. Não há o que temer, não há porque se desesperar, pois no alto e sublime trono está o rei que governa de forma sábia e justa.

O profeta continua descrevendo sua visão. Serafins, criaturas sem pecado, não ousam contemplar o Rei! Eles escondem sua face e proclamam o caráter desse governante: “Santo, santo, santo” (Is 6.3). A repetição é para enfatizar esse atributo de Deus, ele é santíssimo! Há aqui um contraste interessante. Uzias, por melhor rei que tenha sido, foi ferido de lepra por causa de seu pecado. Orgulhoso, ele havia intentado queimar incenso ao Senhor, o que era lícito apenas aos sacerdotes (2Cr 26.16-21).

Além de mais poderoso do que o rei pecador, o Soberano Senhor é Santo e é quem garante a vitória, pois é “o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3), cuja glória enche toda a terra.

Diante dessa visão o povo não deveria temer pelo futuro da nação, pelo menos no que diz respeito a quem substituiria Uzias à frente do povo, pois independente de quem assumisse o reinado terreno, o Soberano Rei continuaria em seu trono.

Por outro lado, essa mesma verdade deveria levar o povo a temer, e muito! O temor deveria decorrer do entendimento de que, diante de um Deus Santo, não se pode caminhar em pecado, mas esse povo é acusado pelo próprio Senhor, no primeiro capítulo, de não o conhecer e de não ter entendimento (Is 1.3). O povo experimentava prosperidade, sob o reinado de Uzias, mas estava longe dos caminhos do Senhor.

Isaías é levantado para anunciar o juízo de Deus, mas ao contemplar o Senhor no templo, ele entende que também é pecador, por isso teme:

…ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos” (Is 6.5).

Ao confessar os pecados o profeta é purificado e enviado a pregar para um povo que não atenderá à sua mensagem e será enviado pelo Senhor para o cativeiro.

Essa história nos mostra que, independentemente da situação do país, seja com o governo de um bom rei, com a incerteza da capacidade do próximo rei ou ainda com mau governante, o povo de Deus deve descansar no governo do Senhor Jesus Cristo que, conforme escreveu João, foi aquele a quem Isaías viu assentado no trono (Jo 12.41) e que permanecerá no trono para todo o sempre (Hb 1.8-9). E não só isso, a igreja do Senhor deve também caminhar em santidade, honrando o Senhor em tudo aquilo que faz, vivendo de modo digno do evangelho de Cristo Jesus.

Vivemos dias complicados em nossa nação. Diferente de como o povo de Judá olhava para Uzias, não é possível ver em nossa presidente a figura de uma boa governante. A corrupção está estabelecida, os cofres públicos assaltados e a ida ao supermercado anuncia que a inflação vem subindo. Muitos já têm o impeachment como certo e, em minha opinião, não há problema algum em desejar que isso aconteça, o que é, particularmente, minha expectativa.

Entretanto, ao mesmo tempo em que podemos desejar que isso aconteça, pelos meios legais, não podemos ceder à tentação de pecar contra uma autoridade instituída por Deus e, consecutivamente, contra Deus. É com tristeza que vejo cristãos debochando, compartilhando piadas jocosas e notícias infundadas sobre a presidente, esquecendo-se que “a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20).

Lembrando que a nossa esperança não vem do Planalto, mas do Senhor, tenhamos, como Isaías, a certeza de que o Santíssimo Soberano permanece assentado em seu trono, conduzindo todas as coisas segundo o seu bem querer querer e que o coração do rei está em suas mãos (Pv 21.1). Que essa certeza nos leve a viver em santidade horando a Deus e as autoridades instituídas por ele, ainda que tenhamos de nos opor a elas, mas sempre de forma piedosa.

22 agosto 2015

Arrependimento ou remorso? Como se entristecer para a glória de Deus

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Na vida tomamos várias decisões. Diariamente estamos diante de escolhas sobre o que fazer e o que não fazer e as fazemos de acordo com as inclinações do nosso coração.

É do coração que procedem as fontes da vida (Pv 4.23), aquilo que pensamos (Hb 4.12), falamos (Mt 15.18) e fazemos (Mt 15.19), razão de a Bíblia, insistentemente, chamar a atenção ao cuidado com o coração.

Pois bem, ao tomar decisões, inevitavelmente estaremos fazendo segundo o nosso coração. Algum cristão desavisado poderia pensar que, se é desta forma, as coisas estão resolvidas, pois o Senhor já nos deu um novo coração; mas apesar de essa ser uma verdade, ela não é toda a verdade. Esta consiste em entender que fomos salvos e tivemos o coração renovado pelo Senhor, mas ainda não o fomos plenamente, o que só vai ocorrer por ocasião da vinda do Redentor (1Jo 3.2).

Infelizmente, até que chegue esse dia, ainda faremos escolhas e agiremos de forma errada e pecaminosa colhendo sempre os frutos disso. Não poucas vezes sofreremos com as nossas escolhas e atitudes e acabaremos lamentando o que foi feito. Nesses momentos é importante saber distinguir arrependimento de remorso, pois apesar de o resultado de ambos ser sofrimento e tristeza, a causa de um e de outro são bem distintas.

Pense, por exemplo, na história de Jacó e Esaú. Isaque sabia que o propósito de Deus era abençoar seu filho mais novo, Jacó, em vez do mais velho, Esaú. Apesar disso, ele tinha em seu coração o desejo de abençoar o mais velho. Pediu então que Esaú fosse caçar e que preparasse para ele uma comida saborosa, para depois ser abençoado.

Rebeca estava ouvindo os planos do marido e, quando Esaú saiu para caçar, tramou com Jacó um plano para enganar Isaque a fim de que ele abençoasse o mais moço. E assim foi feito. Enganado (mas não fora do propósito de Deus), Isaque abençoou a Jacó. Entretanto, quando Esaú chegou com sua caça e se deu conta de que o irmão havia “roubado” a sua bênção ficou amargurado e, chorando, pediu que o pai também o abençoasse, recebendo uma negativa como resposta (Gn 27.30-38). A partir de então, Esaú passou a odiar seu irmão por causa de ele ter sido abençoado e planejou matar a Jacó assim que Isaque falecesse (27.39).

É interessante notar como o Novo Testamento interpreta a história de Esaú. O escritor da carta aos hebreus exorta para que não haja na igreja “algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado” (12.16-17).

A pergunta a ser respondida aqui é o que significa Esaú não ter achado lugar de arrependimento, principalmente quando sabemos que Deus não despreza um coração compungido e contrito (Sl 51.17).

Para ter essa resposta é preciso saber mais algumas informações a respeito da história de Esaú. Sendo o primogênito, a bênção era, por direito, dele. Entretanto, num dia em que estava faminto, pediu a Jacó um pouco do cozinhado de lentilhas que este havia feito. Jacó se aproveitou da situação para “comprar” o direito de primogenitura de Esaú que, desdenhando do seu privilégio respondeu: “Estou quase morrendo; de que me vale esse direito?” (Gn 25.32 – NVI).

O desejo por comida era tão grande que ele desdenhou de sua condição, preferindo um prato de lentilhas em vez da bênção do Senhor. Por conta disso é que o escritor de Hebreus o trata como um profano que, “por um repasto, vendeu seu direito de primogenitura”. O que ele buscou com lágrimas não foi o perdão, mas a bênção que havia perdido. O choro não era o lamento pelo pecado cometido contra Deus, de desprezar a bênção da primogenitura, mas somente pelo fato de ter perdido a bênção.

A diferença entre o remorso e o arrependimento é que este lamenta o pecado cometido enquanto aquele lamenta somente as consequências do pecado. É por causa dessa diferença que Paulo diz ter ficado alegre com a tristeza que sua carta produziu nos coríntios, mas não pela tristeza em si, e sim porque foi uma tristeza para arrependimento, e logo conclui: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte” (2Co 7.8-10).

Diante disso, temos de entender que o pecado não é ruim por causa das consequências e problemas que traz sobre nós, mas por causa da afronta que é feita a um Deus Santo. Infelizmente, muitos cristãos têm aprendido a lamentar as consequências do pecado e não o pecado em si.

Quando pais ensinam aos filhos que eles devem ser bons com os amigos para não os perder; jovens são estimulados a não se envolverem sexualmente antes do casamento para evitar filhos e, assim, não comprometerem os estudos; ou ainda quando maridos são ensinados a ajudar as esposas a fim de receberem algo em troca, o que está em jogo não é o pecado contra Deus, mas aquilo que se vai perder fazendo essas coisas. O produto final, quando há então a prática contrária ao que foi ensinado, não pode ser outro, senão o remorso.

Se você quer viver para a glória de Deus lembre-se, então, que a tristeza segundo o mundo (remorso) só produz morte, mas a tristeza segundo Deus leva ao arrependimento e, consequentemente, ao perdão dos pecados e reconciliação com o Senhor.

18 julho 2015

O chamado de Isaías, e o do Thalles…, ou, “pensando de si mesmo além do que convém!”

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Mais uma vez o “superastropopgóspil” Thalles Roberto causou alvoroço na rede mundial de computadores. Em um vídeo de uma apresentação recente, disse aos seus fãs:

“vocês gostam das minhas músicas? Quem gosta? Mas eu vou dizer, o próximo disco não vai ser para vocês, me desculpe entristecer vocês, mas meu deus [minúsculo mesmo] me pediu [...] sai daí e vai lá pra fora” [e eu, que escrevo esse texto, pergunto: posso ouvir um amém!!!?].

Com isso, Thalles afirmou que o Senhor o mandou parar de pregar para a igreja e ir pregar “lá fora”, que queria vê-lo fazer sucesso “lá fora”, pois, fazer sucesso no meio gospel é fácil por estar no meio de gente fraca (referindo-se a outros artistas), é como bater em bêbado.

Assim que vi o vídeo fiquei pensando sobre outro homem que ouviu o chamado de Deus, o profeta Isaías. Há aqui dois homens que, aparentemente, tiveram uma experiência semelhante, a de ouvir a voz de Deus. Mas a semelhança termina na alegação de ter ouvido a Deus. O resultado do ouvir a voz de Deus foi bem diferente. Vejamos:

Isaías, no ano da morte do rei Uzias, entrou na casa de Deus e viu o Senhor dos Exércitos assentado num alto e sublime trono. Viu ainda serafins que louvavam a Deus, proclamando a sua santidade. Antes mesmo de Deus dizer alguma palavra, Isaías declarou: “ai de mim! Estou perdido! Porque sou um homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Is 6.5). Ao declarar sua indignidade e pecado um anjo tomou uma brasa viva do altar, tocou os lábios do profeta e o purificou do seu pecado. Foi após isso que, ao ouvir a pergunta de Deus sobre quem ele poderia enviar, Isaías respondeu que era para enviá-lo. Deus, então o mandou pregar a Palavra. Mais à frente o profeta ainda ouviria de Deus: “assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará aquilo que me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Is 55.11).

O que é mais curioso é que a Palavra de Deus que seria pregada por Isaías, e que prosperaria naquilo para o que Deus havia designado, teria por intuito endurecer o coração do povo a fim de que viesse o juízo sobre eles (veja Is 6.1-13).

Mas com Thalles as coisas são diferentes. Quando deus começou a falar com ele sua resposta foi: “Senhor, mas eu estou acima da média”. O pior disso não foi nem ouvir a baboseira soberba do Thalles, foi ouvir as palavras que ele atribuiu ao seu deus, confirmando sua megalomania ao dizer: “Thalles, tudo o que você podia fazer por eles você já fez. Os filhos dos desviados ouviram o evangelho, você falou do evangelho de uma forma diferente para todo mundo e só você faz o que você faz, do jeito que você faz”.

Além disso, diferente de Isaías que ouviu que a Palavra pregada prospera naquilo para o que Deus a designou, Thalles relata que um pastor disse a ele que “a música é mais poderosa que as palavras” (o que torna isso ainda pior é o fato de ele cantar heresias). Pobre Isaías, que não sabia cantar...

Você percebe a diferença entre o chamado de Isaías e o chamado do Thalles? Isaías se viu pecador, foi perdoado e enviado a pregar a Palavra que Deus faria prosperar. Thalles se viu acima da média, teve sua megalomania confirmada e foi enviado a cantar e fazer sucesso “lá fora”, sob o pretexto de fazer o que ninguém mais poderia.

A diferença está naquele que chamou a cada um deles. Isaías foi chamado pelo Senhor dos Exércitos, o Deus revelado nas Escrituras, que usa pecadores indignos para cumprir os seus desígnios. Thalles foi chamado por um ídolo, um deus que depende de um popstar altivo que acha que faz o que ninguém mais pode fazer, um deus que reconhece e não vê problema em seu “instrumento” seja venerado por fãs em vez de ele mesmo receber a glória.

Enquanto escrevia, vi que um site publicou uma nota da assessoria do cantor (há que ponto chegamos, já imaginou Isaías com uma assessoria?...) que confirma a megalomania altiva (perdoe a redundância) do cantor. Diz ele:

“Deus me deu uma chave poderosa chamada música autêntica! Todos os artistas seculares me procuram [você leu certo, todos e não alguns ou muitos, mas todos] pra receber palavras, pra contar que Deus está fazendo algo forte na vida deles através da minha música [não da Palavra, mas da sua música], e TB que eles encontraram em mim uma ponte pra JESUS! Eles dizem que as coisas começam a ficar mais claras, mas que não entendem muita coisa!” (grifos meus)

O Deus da Bíblia não é assim! O problema é que Thalles confunde o seu ídolo com o Santo de Israel e se esquece, ou não sabe, daquilo que o Senhor falou por meio do próprio Isaías: “A minha glória, não dou a outrem” (Is 48.11).

04 junho 2015

Quem controla você?

43e8b0957fdc621aAbsalão finalmente conseguira ordem do Rei Davi, seu pai, para que voltasse a Jesusalém. Ele havia fugido após assassinar seu meio-irmão e ao retornar, poderia ficar em sua casa, mas sem ver o rei. Dois anos se passaram e Absalão foi admitido à presença de Davi. A paz entre os dois parecia ter sido selada, entretanto, Absalão começou um plano a fim de tomar o reino de seu pai. Durante quatro anos ele se colocou diariamente à frente do palácio e sempre que alguém chegava com alguma demanda para que o rei julgasse, Absalão insinuava: “Você até que tem uma boa causa, mas não será ouvido... Ah se eu é que fosse o rei, eu ajudaria todos aqueles que viessem com alguma questão, estabelecendo a justiça”. Além disso, não permitia que os homens se inclinassem perante ele, antes, estendia a mão e os beijava. O texto bíblico diz que “desta maneira fazia Absalão a todo o Israel que vinha ao rei para juízo e, assim, ele furtava o coração dos homens de Israel (2Sm 15.1-6). Quando Absalão proclamou o golpe contra o rei, o povo já estava do seu lado.

Creio que essa história é uma boa ilustração daquilo que o Senhor Jesus afirmou a seus discípulos, “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.21). O que alguém tem como seu desejo mais precioso (tesouro) governará o seu coração, logo, o desejo que controlar o seu coração, controlará também a sua vida. Não é, então, sem razão, a advertência do livro de provérbios, “acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida (Pv 4.23 – NVI).

Sendo, então, verdade que somos controlados pelos desejos que governam o nosso coração, pode-se afirmar que aqueles que sabem o que controla o nosso coração podem também nos controlar ou manipular. Absalão sabia o que o povo desejava, o que estava em seu coração. Eles queriam ser ouvidos e ter suas causas julgadas e foi assim que se apresentou, cativando-os e levando-os a tomar parte em sua conspiração [qualquer semelhança com o populismo do nosso governo não é mera coincidência].

Infelizmente, muitas vezes controlamos e somos controlados por outras pessoas mais do que gostaríamos de admitir e o controle sempre se dará por conta daquilo que se tem como “o” tesouro do coração.

Seja no caso de um pai dizer ao filho que se ele se comportar vai ganhar aquele vídeo game que tanto queria ou de um político prometer aquilo que o povo tanto anseia a fim de angariar votos ou de uma empresa investir na valorização do cliente para que seus lucros aumentem ou ainda quando um rapaz flerte com uma moça elogiando aquilo que ele entende de que ela se agradará, o que está por trás é sempre o mesmo: ser bem sucedido em sua investida ao oferecer aquilo que o outro tanto deseja. É exatamente por isso que ao oferecer aquilo que o outro não deseja, a tendência é que cada uma dessas investidas citadas seja mal sucedida. Um filho não se comportará em troca de um brinquedo que não goste, o eleitor não votará em um político que prometa aumentar ao máximo os impostos, um cliente não procurará uma empresa que o trate como “um qualquer”, tampouco uma moça aceitaria namorar um rapaz que, de cara, dissesse que ela não vale tanto a pena, mas que seria sua única opção.

Mas essa dinâmica pode ocorrer também de forma inversa. Por exemplo, uma pessoa que tem como seu tesouro o “ser aceito pelos outros” tenderá a nunca desagradar ou contrariar ninguém, na esperança de ser acolhido; aquele que “ama a sua reputação” poderá ser tentado a mentir sobre si mesmo somente para manter o seu status; uma esposa que tem como seu tesouro mais precioso o seu marido, pode sofrer várias humilhações sem confrontá-lo, com medo de perdê-lo. A realidade é triste! Se o homem não tiver o Senhor como seu tesouro mais precioso, certamente será controlado por aquilo a que ele conferir esse status.

Não é de se admirar, então, que o mandamento mais importante, conforme respondeu o Senhor à pergunta do intérprete da Lei, seja: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.37). Para que isso pudesse ser uma realidade, o Senhor prometeu, por meio do profeta Ezequiel, que tiraria do povo o coração de pedra e colocaria um coração de carne para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (Ez 11.19-20).

Aqueles que nasceram da água e do espírito e que têm esse novo coração são capacitados a viver para Deus. Entretanto, como o Senhor já nos resgatou, mas ainda não fomos plenamente transformados (1Jo 3.2), até o dia final enfrentaremos a luta que acontece diariamente da carne contra o Espírito. Graças a Deus não estamos sozinhos nessa luta e, pela graça de Deus, podemos mortificar os desejos da carne (Rm 8.13), desfrutar da liberdade que temos em Cristo ao não nos submetendo novamente a jugo de escravidão (Gl 5.1), tendo sempre em mente que, apesar de todas as coisas serem lícitas, não podemos nos deixar dominar por nenhuma delas (1Co 6.12).

Vivendo assim, os desejos do seu coração estarão no lugar correto e você não pecará para realizá-los, antes, colocará cada um deles aos pés da cruz do Redentor, esperando nele a concretização, se assim for do seu sábio querer. Você também não será manipulado por ninguém, pois sempre terá a Palavra de Deus como crivo para o que for realizar, tampouco desejará manipular a outros. Pela graça de Deus, procure viver sempre em submissão, mas somente a Cristo Jesus, nosso Redentor!

30 maio 2015

Ateísmo, uma questão de fé!

O ateísmo de nossos dias tem uma característica peculiar, ele é militante. Multiplicam-se as páginas da internet e as comunidades nas redes sociais em que ateus tentam livrar os “incautos” das garras da religião, que dizem eles ser um dos piores males da humanidade. Há, inclusive, uma associação de ateus (ATEA) que há uns anos colocou, em alguns estados do nosso país, uma série de propagandas em ônibus e em outdoors numa tentativa de conseguir mais adeptos para a sua ideologia.

Um dos mais famosos ateus da atualidade, Richard Dawkins, que junto com outros três ateus ficaram conhecidos como os quatro cavaleiros do neoateísmo, concedeu entrevista à Revista Veja na semana passada. Ele é o autor do best seller “Deus, um delírio” e, atualmente, um dos mais ferozes críticos da fé cristã.

Algo me chamou bastante atenção em sua entrevista. Em certo ponto ele respondeu: “A evolução também é contingencial na medida em que o seu curso exato depende, fortemente, de fatores desconhecidos e aleatórios”.
Uau! Eis aí uma declaração de fé! O que ele diz, em outras palavras, é que sua “certeza” sobre a evolução só é possível caso se entenda que houve fatores que não são conhecidos, logo, que não podem ser provados, ou seja, é preciso ter fé. É claro que ele não chama assim, mas não deixa de ser irônico, não?

As tentativas humanas de negar a existência de Deus não são novidade do século XXI. Há muitos séculos atrás, Davi escreveu: “Diz o insensato no seu coração: Não há Deus” (Sl 53.1a). Mas ele não parou por aí, antes, tratou de demonstrar o resultado desse tipo de crença: “corrompem-se e praticam iniquidade. Já não há quem faça o bem” (Sl 53.1b). Ao partir do pressuposto de que Deus não existe, o homem acha que está livre para ele mesmo estabelecer padrões de conduta e moralidade. Se não há um Deus que é a fonte de todo o bem e de quem emanam os princípios de justiça, moral e ética, resta ao homem pecador estabelece-los.

Não é difícil perceber isso utilizando como exemplo o próprio Dawkins. Ano passado ele se envolveu em uma polêmica quando afirmou no twitter que “uma mulher, se estivesse grávida de um feto com síndrome de Down, ‘deveria abortar e tentar novamente. Seria imoral trazê-lo para o mundo, se você tem a escolha’” (Jornal O Globo).

Por mais que seja chocante, a declaração de Dawkins é indiscutivelmente coerente com a fé que ele professa. Sendo o homem um simples produto da evolução pela seleção natural, não é difícil descartar os que “não deram certo” e, se não há um Deus que é o doador da vida, a decisão fica ainda mais simples de ser feita.

Qual a diferença da fé professada por Dawkins para a fé cristã? Fácil responder. Sua fé é cega, pois depende de fatores desconhecidos, enquanto a fé cristã está fortemente alicerçada naquilo que o Senhor quis dar a conhecer ao homem, por meio de sua Palavra. Por isso o autor de Hebreus pôde dizer que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1). Só para exemplificar, a fé do patriarca Abraão era a certeza de que receberia uma herança (esse era o fato), pois o Senhor havia revelado isso para ele. Foi por isso que ele saiu de sua terra, em obediência ao Senhor.

Entre a fé no desconhecido e a fé naquilo que o Senhor deu a conhecer em sua Palavra, opto pela segunda opção. Como bem afirmou Norman Geisler no título de um de seus livros, “não tenho fé suficiente para ser ateu”.

20 maio 2015

O “após-tolo” Lameque

11Dia desses me mostraram um vídeo de um autodenominado apóstolo demonstrando todo o seu “poder”. No vídeo, o culto é interrompido por um obreiro que informa que um suposto feiticeiro tinha ido desafiar o após-tolo afirmando que não havia poder de Deus que pudesse convertê-lo. O que vem depois disso é uma encenação das mais toscas que já vi. O “feiticeiro” caminha até o púlpito no pior estilo das lutas de “vale tudo” (ao som de uma música de suspense para criar o clima) e encara o tal após-tolo Agenor Duque. O após-tolo dá uns gritos e o feiticeiro cai no chão, aos brados da plateia. Mas não para aí, aos gritos de algo parecido com “Holy Espírito”(?) (agora com uma trilha sonora de vitória) a “galera” fica ensandecida, grita e pula, comemorando a vitória do “após-tolo” no UFC gospel.

Agenor continua a manipulação da massa histérica gritando: “Vale a pena ser fiel”, mas o que mais me chamou a atenção foi o que veio após isso. Ele olha com cara de mau para a câmera e ameaça: “Vem desafiar! Vem desafiar!”. O recado está dado: Não ouse mexer ou desafiar um homem com tamanho poder. Uma variação do já famoso e desgastado “Cuidado! Não toque no ungido do Senhor”, também usado como ameaça por muitos líderes de igrejas.

Ao ver isso me veio à mente a história de Lameque. Ela está registrada no capítulo 4 do livro de Gênesis. Ao listar a genealogia daqueles que estavam em oposição a Deus, encabeçada por Caim, Moisés escreve que Lameque havia quebrado o padrão monogâmico estabelecido pelo Senhor, tomando duas esposas: Ada e Zilá. Esse homem um dia se dirigiu às suas esposas nesses termos: “Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4. 23,24).

Lameque se vangloriava de sua maldade e violência. Ele afirma ser ainda pior que seu ancestral Caim, que havia matado seu irmão, Abel. A palavra hebraica, traduzida por rapaz, indica que não passava de uma criança aquele que o havia pisado, o que torna ainda mais desproporcional a sua violência. Mas creio que há algo mais do que a simples exaltação de sua maldade. Ao que tudo indica, relatando o caso às esposas, ele também manda a elas um recado: “Cuidado comigo! Vejam o que sou capaz de fazer, então, andem na linha”, bem parecido com o “vem desafiar” do após-tolo Agenor.

A liderança pelo medo não é algo novo, entretanto, é triste perceber que dentro do cenário evangélico brasileiro, muitos olham para o tal Agenor e o consideram, de fato, um homem de Deus, revelando assim um total desconhecimento do padrão bíblico quanto às qualificações dos pastores, das quais destaco aqui o ser temperante, sóbrio, não violento e inimigo de contendas (1Tm 3.1-7; Tt 1.5-9). Mais ainda, há desconhecimento quanto às características de um falso mestre, ou, no caso, falso apóstolo, como veremos agora.

Começando com a advertência de Pedro, percebemos que os falsos mestres estariam na igreja, introduziriam heresias destruidoras (procure na Escritura algo parecido com o que esse homem faz), seriam seguidos por muitos, estariam movidos por avareza fazendo comércio dos fiéis com palavras fictícias. Louvado seja o Senhor, pois Pedro declara também que o juízo sobre esses não tarda e que sua destruição não dorme (Confira 2Pe 2.1-3).

Na segunda epístola aos coríntios temos também Paulo acusando aqueles que pregavam “outro Jesus” de serem “falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo”, mas que a igreja não deveria se admirar, “porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça;”, além de, como fez Pedro, declarar a condenação deles: “e o fim deles será conforme as suas obras” (2Co 11.13-15).

Tanto Pedro, quanto Paulo, não estavam ensinando nenhuma novidade. O próprio Senhor Jesus, em seu ministério, exortou os discípulos: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.15,16a).

Aos pastores fiéis, fica a palavra de Pedro: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (1Pe 5.2-4).

A liderança bíblica não é estabelecida pelo medo. O líder bíblico, à semelhança do Senhor Jesus, é servo e receberá sua recompensa das mãos do Supremo Pastor.

Quanto ao após-tolo Agenor “Lameque”, ao ver sua grotesca encenação, lembrei-me também de uma frase que li em algum lugar, com a qual concordo plenamente: “apóstolo bom é apóstolo morto” e, para que não me acusem de igualmente incitar a violência, deixo bem claro: não estou desejando a morte do tal Agenor, antes, enfatizando que o último apóstolo autorizado pela Escritura morreu no início do primeiro século.




07 maio 2015

Amar a quem?

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Em nossos dias a palavra “amor” tem perdido completamente o seu sentido e isso ocorre porque a compreensão sobre ela é equivocada. Um poeta secular, ao falar sobre esse assunto, expressa sua compreensão dizendo que o amor não é imortal, posto que é chama, mas deve ser infinito enquanto durar.

Isso se agrava ainda mais quando não se têm uma compreensão bíblica sobre o alvo do amor. A ênfase no amor-próprio como requisito para outras “conquistas” é difundida por todos os lados. Uma música da década de 80 serve para exemplificar isso, na última estrofe e no refrão temos:

Foi tão difícil pra eu me encontrar,

é muito fácil um grande amor acabar,

mas eu vou lutar por esse amor até o fim

não vou mais deixar eu fugir de mim.

Agora eu tenho uma razão pra viver,

agora eu posso até gostar de você.

Completamente eu vou poder me entregar,

é bem melhor você sabendo se amar.

Eu me amo, eu me amo,

não posso mais viver sem mim”[1] (grifos meus)

Essa forma de pensar é encontrada também nas igrejas que assumiram o “dogma” da autoajuda.

A Escritura, porém, caminha na contramão de tudo isso. Vemos no Evangelho que, ao ser questionado por um intérprete da Lei sobre qual seria o grande mandamento, Jesus respondeu que o principal era amar a Deus de todo o coração, alma e entendimento e que o segundo era amar ao próximo como a si mesmo. Disse mais ainda: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.40). Devemos notar que Jesus não fala em momento algum de amor próprio, ainda que muitos tentem enxergar no texto este “terceiro mandamento”, demonstrando um total descompromisso com a interpretação do texto.

O mais espantoso é perceber que raciocínio dos cristãos que pensam assim é semelhante ao do autor da música citada acima: se alguém não se ama não conseguirá amar o próximo.

Esse “terceiro mandamento” não está no texto por uma simples razão: o homem, por natureza, já se ama demais e não precisa ser estimulado a se amar mais ainda. Jesus parte do princípio de que esse amor por si mesmo já existe. As palavras de Paulo corroboram esse pensamento. O apóstolo afirma: “Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida” (Ef 5.29).

Quando a Escritura menciona o amor próprio, trata-o como um problema: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas (amantes de si mesmos na versão Revista e Corrigida de Almeida)” (1Tm 3.1,2), afirma Paulo a Timóteo.

A despeito disso, várias publicações cristãs e inúmeros pregadores têm afirmado que o homem deve amar a si mesmo. Com isso, ensinam que o homem precisa fazer justamente aquilo que a Escritura aponta como um dos males dos últimos tempos.

Se queremos honrar a Deus agindo de forma bíblica precisamos entender o que a Escritura, de fato, ensina sobre o amor e o que ela requer que façamos. Somos alvo do amor maior, o amor do Senhor demonstrado na cruz do Calvário, e, por isso, podemos e devemos amá-lo da forma correta, colocando-o em primeiro lugar em nossas vidas e também dispensando esse amor ao próximo.

Segundo Paulo, “o amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba” (1Co 13.4-8). Esse amor deve ser sem hipocrisia (Rm 12.9), cordial, fraternal, preferindo o próximo em honra (Rm 12.10), edificante (1Co 8.1), demonstrado de fato e de verdade (1Jo 3.18).

Somos exortados a não nos conformar com este século (Rm 12.1-2) e, por isso, devemos deixar de lado o que o mundo ensina sobre o amor egoísta (amor próprio) e viver o amor bíblico, por Deus e pelo próximo, para a glória daquele que nos amou primeiro.

*Texto republicado, com modificações.


[1] Música: Eu me amo; Banda: Ultraje a rigor

10 abril 2015

O que você acredita sobre Deus?

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Você certamente conhece muitas pessoas. Se, como eu, você mora em um edifício, tem muitos vizinhos e muitos deles você, às vezes, nem conhece. Você sabe que moram no seu edifício, mas não tem contato com eles. Entretanto, sabe bem que essas pessoas existem e, a não ser que seja alguém que julgue pela aparência, posso afirmar que você não teria problema com alguma dessas pessoas.

Geralmente não temos problemas com as pessoas em si. Todos os dias passamos por várias pessoas que não conhecemos, elas vêm e vão, e isso não afeta em nada a nossa vida.

Mas suponha que uma dessas pessoas o parasse na rua e dissesse: “Eu acho que você ficaria melhor de cabelo pintado de verde!”. Ou, no caso do vizinho “desconhecido”, imagine que ele passe um dia pelo corredor e sua porta esteja aberta. Ele olha para dentro do seu apartamento e diz: “Esse sofá está no lugar errado. Do jeito que está disposto você perde muito espaço em sua sala”. No outro dia ele passa novamente, olha para você e diz: “Você está deixando sua casa muito jogada, porque você não arruma essa bagunça?”. O que você acharia de pessoas assim? Certamente que são inconvenientes e que não deveriam se meter em sua vida. Por que não tomam conta de sua própria vida? Afinal, você não pediu nenhuma opinião!

A verdade é que não gostamos que alguém fique nos dizendo o que fazer, ainda que esse alguém esteja certo. No exemplo acima, talvez a casa esteja mesmo bagunçada e precise, de fato, de uma boa arrumação, mas não queremos ninguém “metendo o nariz onde não é chamado”.

Creio, firmemente, que o problema do ateu é esse! Ele não tem problema com a pessoa de Deus. O problema é que Deus ordena como ele deve viver, o que ele deve ser e como tem de proceder. O problema é, então, com a Lei de Deus! Se Deus existisse e ficasse “no seu canto”, não haveria problema, mas esse Deus afirma que é Soberano e ordena o que todos devem fazer, sob pena de juízo caso isso não aconteça.

Qual é, então, a forma mais fácil de negar a Lei de Deus? É negando o próprio Deus. Se Deus não existe, não há Lei, se não há Lei eu procedo como bem entendo. Essa é a verdade descrita pelo Salmo 14.1: ”Diz o insensato em seu coração: Não há Deus” – e o resultado é – “Corrompem-se e praticam abominação”.

O salmista está dizendo, então, que o insensato (ou tolo na NVI) vive de acordo com sua convicção de que Deus não existe e, por causa dessa certeza, ele vive da forma que bem entende. Ou seja, aquilo que alguém acredita sobre Deus determina toda a sua maneira de viver.

Mas pense bem! Essa não é uma verdade relacionada apenas a ateus, mas também àqueles que professam (ou dizem professar) a fé no Senhor Jesus Cristo. Dia a dia somos tentados a desconfiar do caráter do nosso Deus e, assim, não dar ouvidos à sua voz. Essa sempre foi a estratégia de Satanás, minar a nossa crença a respeito de Deus.

Em Gênesis o tentador se aproxima da mulher e questiona se Deus havia proibido de comer do fruto das árvores do Jardim. Diante da resposta da mulher, de que do fruto das árvores podiam comer, exceto daquela que ficava no meio do jardim, sob pena de morrer, a serpente coloca em dúvida o caráter de Deus: “Certamente não morrerão! Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.4,5 - NVI). A insinuação do diabo era a de que Deus estava blefando, não era bom (pois os havia privado daquele fruto) e não queria “concorrência”, ninguém que fosse como ele. Isso levou a mulher a olhar para o fruto e ver que “a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter entendimento” – e diante disso – “tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também” (Gn 3.6 – NVI).

Veja que, no deserto, a investida do diabo contra o Senhor Jesus seguiu a mesma direção. O Senhor, depois de jejuar 40 dias, teve fome. A palavra do tentador parece plausível: “Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4.3). Isso pode ser entendido assim: “Um pai trata bem os seus filhos. Você está dizendo que é Filho de Deus, mas está aí com fome, isso não é bom. Se você é mesmo Filho, basta mandar essas pedras se transformarem em pão e você saciará sua fome. Isso provará que você está certo em sua alegação”.

Mas Jesus não precisa de provas. Ele conhece o caráter de seu Pai e sabe que ele não mente. Dias atrás, ao ser batizado, ele havia ouvido sua voz, que dos céus dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17) e, por isso, responde ao tentador: “Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus”. Por saber quem é seu Pai, Jesus confia em sua Palavra.

O homem nasce, naturalmente em pecado, como Adão, mas aqueles que creem em Cristo Jesus são recebidos na família de Deus como seus filhos e têm a promessa de serem feitos semelhante ao Salvador (Rm 8.29; 1Jo 3.2). Foi ele mesmo quem afirmou que “ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Essa revelação do Pai ocorre por meio de sua Palavra e isso implica no dever que temos de meditar diariamente nas Escrituras.

Fazendo assim conheceremos mais o Senhor e, na força do Espírito Santo, confiaremos cada vez mais naquilo que ele diz, estando aptos a negar nossas vontades e desejos a fim de fazer aquilo que ele ordena e determina em sua Palavra, para o bem dos seus filhos e para o louvor de sua glória.

02 abril 2015

José, o justo!

Ao escrever o evangelho, Mateus, após mencionar que Maria achou-se grávida pelo Espírito Santo, fala sobre o caráter de José: “sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente” (Mt 1.19). Certamente José conhecia o que estabelecia a Lei em Deuteronômio 22.23,24 para estes casos e não quis expor Maria ao castigo determinado. Um dos sentidos da palavra traduzida no texto por “infamar” é “expor à desgraça pública”. Um detalhe importantíssimo aqui é que ele ainda não tinha conhecimento do milagre efetuado por Deus, ou seja, o que o texto indica é que José agiu com misericórdia em favor de sua esposa.

É curioso notar que não temos nos evangelhos um relato sequer de algum discurso de José, mas, apesar de ele “não falar” suas ações revelam bastante sobre a razão de ele ser tido como justo. Além de ter agido com misericórdia para com Maria, podemos encontrar nele outras características piedosas.

Um crente atento à voz do Senhor

Na narrativa bíblica José está o tempo todo ouvindo o Senhor por meio de um anjo. Por ocasião da gravidez de Maria o anjo fala a ele que não era preciso temer ao recebê-la como mulher, instrui a respeito do nome que o bebê deveria receber e avisar que a promessa de redenção se cumpriria, pois Jesus salvaria o seu povo dos pecados deles (Mt 1.19-21).

Após o nascimento o anjo ordenou que José tomasse a Maria e Jesus e fugisse para o Egito. Ele deveria ficar lá até que o Senhor, por meio do anjo, o avisasse, pois Herodes procuraria a criança para tirar a vida (Mt 2.13).

Assim que Herodes morre, novamente José ouve o Senhor. Agora o anjo ordena que ele pegue a família e vá para Israel, pois não havia mais a ameaça contra a vida do menino (Mt 2.19,20).

Esta mesma atitude de José todos devemos ter. Devemos atentar à voz do Senhor que hoje não fala mais por meio de anjos, mas continua falando nas páginas das Escrituras Sagradas.

Um servo obediente

José não apenas estava atento à voz do Senhor, mas logo tratava de colocar em prática aquilo que lhe era ordenado. Voltando aos textos citados anteriormente vemos que após ouvir do anjo que ele deveria receber a Maria como esposa, “despertado José do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu sua mulher” (Mt 1.24). Não houve questionamentos, não houve murmuração, mas simplesmente uma obediência irrestrita à voz do Senhor.

No episódio em que foi avisado de que o furioso Herodes estaria procurando a criança para matar, José mostra-se novamente um servo obediente. O texto diz: “Dispondo-se ele, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito; e lá ficou até à morte de Herodes [...]” (Mt 2.14,15a).

Por último, na ocasião em que o anjo avisa que Herodes havia morrido e que José deveria se dispor e ir para Israel o texto registra: “Dispôs-se ele, tomou o menino e sua mãe e regressou para a terra de Israel” (Mt 2.21). Mais uma vez não vemos questionamentos, somente um servo que, irrestritamente, obedece a voz do seu Senhor.

Como necessitamos ser como José. Em muitas circunstâncias pelas quais passamos até sabemos o que diz a Palavra de Deus, mas falta-nos a disposição de obedecer ao Senhor.

Um marido dedicado

É muito interessante e importante notar que sempre que o Senhor comunica algo sobre o destino da família, para onde fugir, para onde regressar, é à José que ele se dirige. Ele é o cabeça do lar, o responsável pela família diante do Senhor.

Em sua obediência a Deus José demonstra cuidado para com sua esposa e filho, evitando que eles estejam expostos aos perigos. Certamente vemos aqui um exemplo claro daquilo que ordena Paulo mais à frente na história, ao escrever aos efésios sobre o papel do marido para com a esposa.

Diferente do que muitos pensam, José não é um mero coadjuvante na história do nascimento de Jesus. Sua piedade, obediência e cuidado com a família devem servir de exemplo para cada um daqueles que amam ao Senhor. Você, homem, mire-se nesse exemplo e busque também honrar ao Senhor vivendo de forma justa.

26 fevereiro 2015

Convicção, alegria e esperança

Ainda me recordo bem do dia em que conheci Marília (nome fictício, porém, história real). Ela veio à igreja numa quarta-feira, dia de estudo bíblico, e assentou-se mais atrás. Após o estudo perguntou se poderia conversar um pouco comigo e fomos até o gabinete pastoral.

Sua história era triste. Apesar de frequentar uma igreja evangélica durante bastante tempo, chegou completamente cética, triste e sem esperança. A razão? Marília havia sido diagnosticada com câncer há um tempo e iniciado o tratamento, mas o interrompeu por acreditar que havia sido curada. É claro que ela não chegou a essa convicção sozinha. Um dos pastores da igreja em que era membro havia orado por ela e declarado que o Senhor havia retirado a terrível doença. Com isso ela ficou muito alegre e grata a Deus e, pela fé, interrompeu a medicação.

O problema é que, após um tempo, os sintomas persistiam. Ela voltou então à sua médica que fez novos exames e a mostrou que a doença permanecia. Marília não podia acreditar. Como Deus poderia ter feito isso com ela? Essa situação fez com que ela começasse a questionar a existência de Deus e, sem esperança, vivia triste.

Essa história é mais comum do que se imagina. Diariamente muitas pessoas são levadas a acreditar, diferente do que a Bíblia ensina, que crentes nunca vão sofrer com as intempéries da vida. A “teologia” da prosperidade, também chamada de confissão positiva, ensina que aqueles que creem em Jesus terão prosperidade financeira e cura, bastando para isso ter fé. Marília havia aprendido isso e, agora, estava decepcionada com Deus, pois mesmo tendo fé não havia sido curada.

Quando alguém chega com essa convicção, a primeira coisa que deve ser feita é demonstrar que esse não é o Deus da Bíblia. Caminhamos então, em algumas sessões de aconselhamento, olhando para as Escrituras a fim de que ela compreendesse que o deus em que ela estava confiando não passava de um ídolo, ainda que tivesse sido apresentado como o Deus verdadeiro. Sim! O Senhor Jesus foi enfático: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.36). A crença em um Jesus diferente do que a Bíblia ensina, não passa de uma crença em um falso deus. Marília não poderia estar decepcionada com o Deus verdadeiro pelo simples fato de que, a despeito de a Bíblia relatar que o Senhor curou várias pessoas, não há uma promessa sequer de que isso se daria com todos os crentes (Lc 4.27; Gl 4.13; 1Tm 5.23; 2Tm 4.20).

Apesar de entender que Deus não era o responsável pelo falso anúncio de sua cura e que, de fato, estava crendo em Deus de forma errada, permanecia a tristeza e a falta de esperança. A doença estava ali, tomando pouco a pouco seus órgãos e não havia perspectiva de um “final feliz”, pelo menos por parte da medicina.

Um pequeno parêntese: Até mesmo cristãos que não creem na “teologia” da prosperidade acabam, muitas vezes, oferecendo falsa esperança em casos como esse, limitando-se, ao aconselhar ou visitar o enfermo, a dizer “vai dar tudo certo”. Aos ouvidos do enfermo isso geralmente soa como: “Você vai sair dessa”, o que não é sempre verdadeiro.

É claro que crentes conservadores continuam crendo que Deus pode curar (ou pelo menos deveriam crer), mas é preciso lidar de forma bíblica com a realidade da morte, pois esse é, em muitos casos, o caminho natural.

No caso de Marília essa era uma realidade. Como, então, cultivar esperança em um coração aflito pela realidade da morte? Foi preciso olhar novamente para as Escrituras e aprender que o Senhor, o nosso Pastor, não prometeu nos livrar do vale da sombra da morte, mas que estaria conosco ali (Sl 23.4). O Senhor Jesus reafirmou a realidade de sua presença quando disse que estaria conosco todos os dias, até a consumação dos séculos (Mt 28.20). Vimos também como o apóstolo Paulo ansiava em estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor (Fl 1.23).

Olhamos ainda para 1Tessalonicenses 4.13-18. Que texto maravilhoso! Paulo começa falando que não podemos ser ignorantes (sem conhecimento) com respeito aos mortos, exatamente para não nos entristecermos como os demais, que não têm esperança. E, após isso, Paulo não diz que eles não morreriam, mas que da mesma forma que o Senhor ressuscitou, aqueles que creem também ressuscitarão no último dia. A morte não é o destino final. Ou seja, as palavras de consolo de uns aos outros, ordenadas pelo apóstolo, não são: “Deus vai nos livrar da morte”, mas “ressuscitaremos com Cristo e viveremos para sempre com ele”.

Foram alguns encontros que tivemos, estudando a respeito da esperança bíblica. A cada encontro, Marília estava mais debilitada. Seu corpo já cheirava mal, corroído pela terrível doença, mas a cada visita que eu fazia para estudar a Palavra, ao chegar, a encontrava cantando louvores a Deus e com um sorriso no rosto! A tristeza que havia em seu coração foi substituída pela alegria de pertencer a Cristo e de estar segura nele.

O último texto que estudei com ela foi o da segunda epístola a Timóteo 4.7-8: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2Tm 4.7-8). Confesso que ao abrir a Bíblia para ler, estava temeroso pela reação de Marília, contudo, o que ouvi ao final do texto foi: “eu creio nisso, pastor”.

Quando Marília faleceu eu estava viajando e não pude ir ao seu sepultamento, mas antes disso ela já havia se tornado membro da igreja e estava convicta, alegre e cheia de esperança, apesar das circunstâncias, pois aprendeu que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19).

Louvo a Deus por me ter feito conhecer a Marília e, mesmo imperfeito que sou, ter sido usado como instrumento de edificação em sua vida. Agradeço também por meu crescimento, pois a cada visita que fazia eu saia de sua casa ainda mais convicto a respeito da benevolência do Salvador, da certeza de que ele certamente completa a boa obra que começa em seus filhos, aperfeiçoando-os a cada dia, da autoridade e da suficiência das Escrituras, que são a única fonte para o conhecimento completo de Cristo, que nos doa tudo aquilo que é suficiente para a vida e para a piedade (2Pe 1.3).

Oro para que o Senhor abençoe a cada um de nós, que fazemos parte do seu povo, mantendo-nos também convictos, alegres e esperançosos, sabendo que um dia estaremos todos juntos com o Senhor que “enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.4).

19 fevereiro 2015

Sobre guerra e paz

Reinos são estabelecidos por meio da guerra. Referindo-se à sua morte, o Senhor Jesus afirmou: “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso (Jo 12.31). O Senhor Jesus colocou fim à guerra ao esmagar a cabeça da Serpente, vencer o pecado, matar a morte e estabelecer a paz entre Deus e todo aquele que crê e é recebido como súdito em seu reino.

O problema é que, mesmo após sermos recebidos no reino de Deus, muitas vezes paramos de trabalhar para este reino e tentamos edificar o nosso próprio reino. A consequência é que, inevitavelmente, estaremos em guerra com todos aqueles que se opuserem a nós, pois, como já foi dito, reinos são estabelecidos por meio da guerra.

Assim, não é difícil entender porque diversas vezes estamos em guerra com o cônjuge, com os filhos, com os pais, com o vizinho, com o companheiro de trabalho, etc. Sempre que estamos em conflito é porque entendemos que nosso reino está em perigo. Ou “nossos direitos” estão sendo negados ou “nossas leis” estão sendo descumpridas, então, partimos para o ataque.

Nunca vi ninguém brigar em benefício do outro que está envolvido na discussão. Há poucos anos recebemos em casa a visita de um pastor amigo juntamente com sua esposa e duas filhas. Minha filha Fernanda ficou muito feliz com duas amiguinhas em casa. A mais velha se chama Alana e a mais nova, da idade de minha filha, Riane. É claro que, vez por outra, elas brigavam por alguma coisa e uma das brigas da mais nova com a minha filha envolvia o ciúme pela irmã mais velha. Riane olhou para Fernanda e disse brava: “A Alana é minha irmã!”. Minha filha, para não ficar para trás, respondeu no mesmo tom: “Não! Ela é SUA irmã!”, e ficaram as duas reafirmando, cada vez mais bravas, a mesma coisa.

Aparentemente essa história demonstraria o oposto do que estou afirmando, e que minha filha brigava “em benefício” da Riane, visto que ela estava afirmando exatamente o que foi alegado primeiramente pela amiguinha, mas é bom pensar no que estava acontecendo, de fato, ali. Enquanto eu via a cena, que mais parecia conversa de doido, e achava graça da briga sem sentido, fiquei a pensar em quão orgulhosos somos e o quanto estamos dispostos a lutar pelo nosso reino. Em seu orgulho, cada uma delas defendia com afinco o seu “ponto de vista” e, por mais que estivessem dizendo a mesma coisa, brigavam para ter a palavra final na discussão. Em meu reino, a palavra final é sempre minha!

Tiago, em dos textos mais bélicos que temos na Escritura, definiu bem essa questão. Ele começa perguntando: “De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês?” – e logo responde – “Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês? Vocês cobiçam coisas, e não as têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm porque não pedem. Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres. Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus (Tg 4.1-4 – NVI).

Perceba que é muita guerra num texto só! Em suma, o que Tiago está ensinando é que quando amamos o mundo nos fazemos inimigos de Deus. Daí o que determina nossas ações não é mais Deus e seu reino, mas os nossos próprios desejos. Logo, em nome de nossos desejos (paixões) estabelecemos a guerra, cobiçamos, matamos, invejamos, vivemos a lutar. Estamos tão preocupados em edificar nosso reino, segundo nossa vontade, que sequer pedimos a Deus e, quando pedimos, não recebemos exatamente por estarmos com o foco no reino errado.

Se vivermos como súditos do reino de Deus faremos o possível, no que depender de nós, para estabelecer a paz (Rm 12.18). Se vivermos como soberanos do nosso reino, facilmente declararemos guerra. Assim, se alguém vive como súdito do reino de Deus e é ofendido pelo vizinho, dará a outra face (Mt 5.39); se vive para si mesmo, revidará a ofensa. Se um marido que está com o foco no reino de Deus se vê privado pela esposa de algo que ele entende ser seu direito, deixará também a capa (Mt 5.40); se o foco for seu reino, lutará por seus direitos. Se uma mãe comprometida com o reino de Deus tiver que instruir pela milésima vez a um filho desobediente, andará a segunda milha (Mt 5.41); se estiver comprometida apenas com seu reino, ou o deixará de lado ou o castigará com ira pecaminosa.

Nesse ponto você pode dizer, “mas é muito difícil viver assim!”, e a única coisa que posso honestamente responder é que você está com toda a razão. É de fato difícil, ou mesmo impossível, se você tentar lutar com suas forças. Contudo, a graça de Deus que é sempre abundante sobre todos aqueles que estão incluídos no corpo de Cristo, nos capacita a viver da forma como o Senhor ordenou. Em Cristo temos tudo o que necessitamos para a vida e para a piedade (2Pe 1.3).

O chamado cristão, em certo sentido, é sim para a guerra, entretanto, a guerra é contra a nossa própria vontade, nossa carne. O Senhor Jesus afirmou que os que o seguem devem negar a si mesmos (Lc 9.23) e Paulo ordenou aos colossenses que fizessem morrer (isso é guerra!) a sua natureza terrena (Cl 3.5). Devemos e podemos fazer isso, pois não lutamos sozinhos. Paulo afirmou aos romanos que, “se, pelo Espírito” eles mortificassem os feitos do corpo, viveriam (Rm 8.13).

“Ele morreu por todos, para os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.15), escreveu o apóstolo aos coríntios, e à medida em que vivemos cada vez mais para ele e não para nós mesmos conseguiremos seguir “a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

14 fevereiro 2015

Príncipe da Paz, mas também, homem de guerra

V20040816ocê já parou para pensar que aquele que é chamado na Bíblia de “Príncipe da Paz” (Is 9.6) e que disse a seus discípulos “deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou” (Jo14.27) é o mesmo que afirmou: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra.” (Mt 10.34)?

Como pôde o Senhor Jesus fazer afirmações aparentemente tão contraditórias? Como harmonizar essas duas declarações?

Quando Deus criou o primeiro casal à sua imagem e semelhança (Gn 1.26-28) e colocou-os no jardim do Éden havia paz. O homem obedecia ao seu Senhor e gozava de intimidade e comunhão com ele. Mas para que isso perdurasse, era necessário que o homem continuasse em obediência. Enquanto confiaram na bondade do Senhor isso ocorreu, mas a partir do momento em que deram ouvidos à voz da Serpente, que colocava em dúvida essa bondade, afirmando que a proibição de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal se dava pelo fato de Deus não querer que eles fossem como ele, conhecedor do bem e do mal (Gn 3.5), desobedeceram.

A mulher comeu do fruto e deu ao seu marido que também comeu. A partir de então, com o pecado, a sentença de morte que havia sido anunciada por Deus, caso eles desobedecessem, foi efetuada. O homem morreu espiritualmente, não tendo mais comunhão com Deus e estando separado dele por causa do pecado (Is 59.2). Mais à frente viria ainda a morte física, como consequência também da queda e, após essa, a morte eterna que é a justa ira de Deus sobre o homem que lhe deu as costas (Jo 3.19).

Diferente do primeiro cenário, de paz, o que impera agora é a guerra. O homem é agora inimigo de Deus e antes que você pense que não tem nada a ver com essa guerra, lembre-se de que Paulo afirma que o homem é por natureza filho da ira de Deus, morto em seus delitos e pecados, nos quais andam segundo o curso desse mundo (Ef 2.2-3).

Pura e exclusivamente por sua graça, o Senhor resolveu que iria redimir o homem. Ao amaldiçoar a serpente ele afirmou que haveria inimizade (guerra) entre a descendência da serpente e o descendente da mulher e que este descendente esmagaria a cabeça da serpente, a despeito de ser ferido no calcanhar (Gn 3.15). Esse é o primeiro anúncio acerca do Redentor, Cristo Jesus.

Foi na cruz do Calvário que o Senhor Jesus recebeu a justa ira do Pai a fim de estabelecer a paz. Ali ele tomou sobre si a dívida que era dos eleitos e, com sua morte, satisfez toda a justiça de Deus. Ainda mais, a sua justiça é atribuída a todo aquele que crê no evangelho que anuncia essa boa notícia ao revelar a justiça de Deus (Rm 1.16-17)! Àqueles que creem o apóstolo Paulo anuncia: “justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).

Foi nesse sentido, então, que o Senhor Jesus afirmou: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). O sacrifício de Cristo em favor dos seus satisfez plenamente a justiça de Deus e reconcilia com o Pai aqueles que, sendo por natureza filhos da ira (Ef 2.2), passam a ser filhos de Deus, ao crerem no nome de Jesus como afirmou o apóstolo João (Jo 1.12). Em relação a Deus, não há mais guerra!

Resta ainda entender a afirmação de Jesus de que não veio trazer paz, mas guerra, e creio que agora fica mais simples de se compreender. Deus havia dito à serpente que haveria inimizade entre a sua descendência e o descendente da mulher. O homem sem Cristo, que por natureza é filho da ira, conforme Paulo, ou, nas palavras de Jesus, que tem por pai o diabo (Jo 8.44), não é inimigo apenas de Cristo, mas também daqueles que, pela fé, fazem parte do seu reino. Como afirma Carson, “o mundo rejeitará tão violentamente a ele [a Jesus] e seu reino que os homens e as mulheres se dividirão em relação a ele” (Comentário de Mateus).

Isso fica evidente já no livro de Gênesis, quando Caim mata seu irmão Abel e é corroborado no Novo Testamento pelas palavras de João. Quando ele ordenou que os irmãos amassem uns aos outros, advertiu, “não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e porque o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo 3.12). O apóstolo já havia dito no começo do mesmo capítulo que o mundo não nos conhece, da mesma forma que não conheceu ao Senhor Jesus, exatamente pelo fato de sermos filhos de Deus (1Jo 3.1).

Haverá um dia, porém, em que a serpente será derrotada de uma vez por todas. Quando a igreja de Roma sofria com os falsos mestres, instrumentos de Satanás para provocar divisão entre eles, Paulo afirmou: “E o Deus de Paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás” (Rm 16.20) numa clara alusão à guerra anunciada em Gênesis 3.15. Não é à toa, então, que a Escritura se refira ao Deus de paz também como “o Senhor é homem de guerra; Senhor é o seu nome” (Ex 15.3).

Naquele dia a paz estará plenamente estabelecida para os que creem. Para os que não creem, entretanto, a advertência do salmista continua a ecoar: “Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam” (Sl 2.12).

Que o Senhor conceda paz a você!