19 novembro 2010

Universidade Mackenzie: Em defesa da liberdade de expressão religiosa

mackenzie1 A Universidade Presbiteriana Mackenzie vem recebendo ataques e críticas por um texto alegadamente “homofóbico” veiculado em seu site desde 2007. Nós, de várias denominações cristãs, vimos prestar solidariedade à instituição.
 
Nós nos levantamos contra o uso indiscriminado do termo “homofobia”, que pretende aplicar-se tanto a assassinos, agressores e discriminadores de homossexuais quanto a líderes religiosos cristãos que, à luz da Escritura Sagrada, consideram a homossexualidade um pecado. Ora, nossa liberdade de consciência e de expressão não nos pode ser negada, nem confundida com violência. Consideramos que mencionar pecados para chamar os homens a um arrependimento voluntário é parte integrante do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Nenhum discurso de ódio pode se calcar na pregação do amor e da graça de Deus.
 
Como cristãos, temos o mandato bíblico de oferecer o Evangelho da salvação a todas as pessoas. Jesus Cristo morreu para salvar e reconciliar o ser humano com Deus. Cremos, de acordo com as Escrituras, que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Somos pecadores, todos nós. Não existe uma divisão entre “pecadores” e “não-pecadores”. A Bíblia apresenta longas listas de pecado e informa que sem o perdão de Deus o homem está perdido e condenado. Sabemos que são pecado: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, rivalidades, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias” (Gálatas 5.19). Em sua interpretação tradicional e histórica, as Escrituras judaico-cristãs tratam da conduta homossexual como um pecado, como demonstram os textos de Levítico 18.22, 1Coríntios 6.9-10, Romanos 1.18-32, entre outros. Se queremos o arrependimento e a conversão do perdido, precisamos nomear também esse pecado. Não desejamos mudança de comportamento por força de lei, mas sim, a conversão do coração. E a conversão do coração não passa por pressão externa, mas pela ação graciosa e persuasiva do Espírito Santo de Deus, que, como ensinou o Senhor Jesus Cristo, convence “do pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8).
 
Queremos assim nos certificar de que a eventual aprovação de leis chamadas anti-homofobia não nos impedirá de estender esse convite livremente a todos, um convite que também pode ser recusado. Não somos a favor de nenhum tipo de lei que proíba a conduta homossexual; da mesma forma, somos contrários a qualquer lei que atente contra um princípio caro à sociedade brasileira: a liberdade de consciência. A Constituição Federal (artigo 5º) assegura que “todos são iguais perante a lei”, “estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença” e “estipula que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Também nos opomos a qualquer força exterior – intimidação, ameaças, agressões verbais e físicas – que vise à mudança de mentalidades. Não aceitamos que a criminalização da opinião seja um instrumento válido para transformações sociais, pois, além de inconstitucional, fomenta uma indesejável onda de autoritarismo, ferindo as bases da democracia. Assim como não buscamos reprimir a conduta homossexual por esses meios coercivos, não queremos que os mesmos meios sejam utilizados para que deixemos de pregar o que cremos. Queremos manter nossa liberdade de anunciar o arrependimento e o perdão de Deus publicamente. Queremos sustentar nosso direito de abrir instituições de ensino confessionais, que reflitam a cosmovisão cristã. Queremos garantir que a comunidade religiosa possa exprimir-se sobre todos os assuntos importantes para a sociedade.
 
Manifestamos, portanto, nosso total apoio ao pronunciamento da Igreja Presbiteriana do Brasil publicado no ano de 2007 [LINK] e reproduzido parcialmente, também em 2007, no site da Universidade Presbiteriana Mackenzie, por seu chanceler, Reverendo Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes. Se ativistas homossexuais pretendem criminalizar a postura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, devem se preparar para confrontar igualmente a Igreja Presbiteriana do Brasil, as igrejas evangélicas de todo o país, a Igreja Católica Apostólica Romana, a Congregação Judaica do Brasil e, em última instância, censurar as próprias Escrituras judaico-cristãs. Indivíduos, grupos religiosos e instituições têm o direito garantido por lei de expressar sua confessionalidade e sua consciência sujeitas à Palavra de Deus. Postamo-nos firmemente para que essa liberdade não nos seja tirada.
Este manifesto é uma criação coletiva com vistas a representar o pensamento cristão brasileiro.
Para ampla divulgação.

18 novembro 2010

Mudança de comportamento: E a Bíblia com isso?

correndo-atras-dinheiro_thumb[1] 1. O problema aparente

Thiago é um adolescente cristão, filho de um pastor evangélico. Foi criado segundo os princípios bíblicos e teve uma excelente formação cristã. Sempre foi atuante na igreja, e em seu lar estava acostumado com a rotina dos cultos domésticos. Costumava ser frequentemente citado por aqueles que o conheciam como um bom modelo a ser imitado, contudo, nos últimos tempos, depois de mudar de escola e fazer uma nova turma de amigos, Thiago não parecia mais o mesmo. Aquele que sempre foi um moço bem-educado agora vivia xingando. Os palavrões saiam de seus lábios com tanta naturalidade e frequência que era impossível não ficar incomodado e, tudo isso, já estava começando a “pegar mal” para o seu pai, afinal, filho de pastor não xinga.

Jair é diácono da igreja. Sempre foi muito responsável com o seu trabalho e, geralmente, era bastante polido no seu modo de falar. Porém, algumas pessoas da igreja já tiveram o desprazer de vê-lo irritado e, quando isso acontecia, aquela linguagem polida dava lugar aos mais terríveis palavrões. Em casa, sua esposa e filhos eram também, muitas vezes, insultados com xingamentos, o que levava a brigas ainda maiores.

O pastor Enoque, que já vinha se sentindo envergonhado por causa do linguajar do seu filho Thiago, começou a receber reclamações por parte dos membros ofendidos pelo diácono Jair. Além disso, a esposa do diácono também procurou o pastor para queixar-se do modo como o marido muitas vezes a tratava e de como estavam brigando em decorrência disso, estavam a ponto de separar-se.

Aparentemente o problema era o mesmo, um adolescente e um diácono que pecavam falando palavrões, e foi com esse entendimento que o pastor Enoque tentou tratar os dois casos.

2. Deus não é um mero extintor de incêndio

Primeiro o pastor chamou o filho e falou que por causa do seu linguajar, ele, como pastor da igreja, estava sendo envergonhado e sendo motivo de chacotas: “o pastor não sabe cuidar nem do filho...”. Abriu a Bíblia e, citando os textos de Efésios 4.29 e Tito 2.8, afirmou que dizer palavras torpes é pecado e que Deus puniria o seu pecado. Não haveria como fugir do juízo de Deus porque o homem colhe o que planta, esbravejou citando Gálatas 6.7. Se não quisesse experimentar o peso da mão do Senhor, Thiago deveria imediatamente parar de falar palavrões.

Com o “sermão” pronto, ficou fácil. O pastor convocou o diácono Jair, repetiu as mesmas palavras, incluiu alguns versículos que falam sobre o cuidado do marido em relação à esposa e afirmou que, caso acontecesse o divórcio, a culpa seria toda do diácono. Se não quisesse sentir o peso da mão do Senhor e perder a esposa, Jair deveria parar de xingar as pessoas.

Isso me faz lembrar de um programa a que assisti com o “Dr. Pet”, adestrador de animais. Nesse programa ele foi chamado para resolver um problema com alguns cachorros que viviam brigando. Eram uns cinco ou seis cachorros de porte grande que, ao serem soltos pelo dono, começavam a se morder, mesmo com o dono gritando para que parassem. A solução do Dr. Pet foi fantástica. Instruiu o dono dos animais de que, munido de um extintor de incêndios, se aproximasse dos cachorros no momento da briga. Ele teria de dar a ordem: pare!, e em seguida acionar o extintor em direção aos cães que dispersariam com medo daquele jato de pó. Isso deveria se repetir algumas vezes, até que os cães cessassem a briga simplesmente ouvindo o comando para parar. E foi o que, de fato, aconteceu. Ao ouvir a ordem “pare!”, os cães associavam ao extintor e, por medo de levar mais um jato, obedeciam.

Apesar de os personagens citados nos exemplos acima serem fictícios, as situações descritas não são diferentes daquelas que podemos perceber todos os dias no cotidiano de muitos cristãos. Pior ainda é saber que a forma como têm sido tratadas essas questões assemelha-se mais ao método do Dr. Pet para adestrar os cães que com a perspectiva bíblica para a mudança de comportamento. Muitos crentes têm evitado o pecado somente por medo da consequência e não por causa do entendimento de que devem viver para a glória de Deus (1Co 10.31; Rm 11.36). Para eles, a ideia de Deus é simplesmente a de um extintor de incêndio pronto para ser acionado. O pecado é então evitado por causa da consequência que se sofre e não por causa da ofensa ao Senhor.

O problema na abordagem descrita é que ela se limita a “tratar” os sintomas sem descobrir a causa. É como alguém que constantemente sente dor de cabeça e simplesmente toma um analgésico. Várias são as causas que podem levar alguém a sofrer com isso, mas, somente como exemplo, pense na hipertensão. Alguém que tenha “pressão alta” pode frequentemente sentir dor de cabeça e o analgésico será um simples paliativo, servindo para mascarar o verdadeiro problema, pois, se não há dores não há o que se verificar e o problema continuará lá até o momento de se manifestar de forma mais grave, como um AVC.

Conquanto os princípios bíblicos citados pelo pastor Enoque sejam verdadeiros, para que a mudança de comportamento honre ao Senhor ela deve ir além de regras cumpridas por medo da punição. Não é simplesmente parar de xingar, mas fazer isso por causa de uma motivação correta. Como então proceder de forma bíblica a fim de que a mudança seja duradoura e honre ao Senhor?

3. Um caminho bíblico: tratando o problema na raiz

A perspectiva bíblica quanto à mudança de comportamento está ligada à santificação. Como afirma Booth: “A Santificação é um processo contínuo pelo qual Deus, por sua misericórdia, muda os hábitos e o comportamento do crente, levando-o a praticar obras piedosas.”[1] Sabendo que “a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta par discernir os pensamentos e propósitos do coração (Hb 4.12), precisamos recorrer a ela para entender não só como agimos, mas por que agimos como agimos.

É muito importante entender que, na dinâmica da igreja, somos responsáveis por “admoestar uns aos outros” (cf. Rm 15.14). Como indica o excelente livro do Dr. Paul Tripp, somos “Instrumentos nas mãos do Redentor – pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação”[2]. Para isso precisamos entender três princípios:

1. O homem é governado pelo coração – Ao advertir os discípulos que não procurassem ajuntar tesouros na terra, mas no céu, Jesus afirmou: “porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.19-21). O ensino aqui é evidente. Buscamos aquilo ao qual damos maior valor em nosso coração. Se os discípulos tivessem como “tesouro” os bens, era isso que governaria seus corações e motivaria as suas ações, mas se o “tesouro” fosse o Reino de Deus e sua justiça, agiriam em conformidade com a justiça do Senhor. Foi também o Senhor Jesus quem afirmou que do coração procedem os maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, falsos testemunhos, blasfêmias (Mt 15.19) e que a boca fala do que está cheio o coração (Mt 12.34).

Por causa de tudo isso é que o livro de Provérbios orienta: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23).

Se o pastor Enoque tivesse esse entendimento conseguiria verificar que o problema do seu filho e do diácono não era simplesmente o linguajar torpe, mas aquilo que estava governando seus corações em lugar do Senhor. No caso do filho o desejo de ser aceito no novo grupo de amigos, no caso do diácono, o desejo de ser ouvido e respeitado.

Mas como o pastor Enoque chegaria a essa conclusão? Observando o próximo princípio.

2. Pessoas e circunstâncias revelam o nosso coração – De um modo geral a tendência do homem, ao pecar, é colocar a culpa em outras pessoas ou nas circunstâncias. Porém, diante da verdade bíblica de que somos dirigidos pelo nosso coração, devemos entender que pessoas e circunstâncias simplesmente revelam o que está em nosso coração, elas servem como a antiga pomada de basilicão, usada em pessoas com furúnculos. Ao ser aplicada a pomada “trazia para fora” o carnegão[3] e, é lógico, isso só acontecia porque ele já estava lá. A pomada não produzia o carnegão, simplesmente o revelava.

Ao analisar os casos sob essa ótica, o pastor veria que a razão de o seu filho estar xingando constantemente era o medo de ser rejeitado pelo novo grupo de amigos. Ser aceito era tão “importante e necessário” que, nessa ânsia, ele deixava de lado todos os princípios bíblicos aprendidos outrora demonstrando, ao contrário da atitude dos discípulos em Atos 5.29, que importava obedecer aos homens que a Deus.

No caso do diácono, o pastor Enoque perceberia que o xingamento era a forma de “punir” aqueles que não o respeitavam como ele achava que merecia. Como diácono da igreja, entendia que não podia ser contestado e como chefe do lar, nunca questionado. Seu desejo por respeito passou a ser uma “necessidade” que ele agora exigia e qualquer um que o privasse daquilo que ele tanto queria logo era julgado e punido, no caso, com xingamentos.

Ao observar o princípio de que as pessoas e circunstâncias revelam o coração, o pastor Enoque teria condições de avaliar também a postura da esposa do diácono. Ao ameaçar deixá-lo, o que ela tentava fazer era manipulá-lo para que ele a tratasse melhor. Ela também, por causa do seu desejo, tentava mudar o comportamento do marido infligindo medo.

Mais ainda, o pastor poderia avaliar seu próprio coração e descobrir que sua motivação para corrigir o filho não estava sendo a glória de Deus, mas a vergonha a que ele estava sendo submetido por causa do seu mau comportamento.

Pessoas e circunstâncias são usadas por Deus para revelar o que controla o nosso coração e, com os desejos do coração expostos, podemos, com o auxílio do Espírito do Senhor, abandonar a nossa vontade e nos submeter à vontade do Senhor. Isso nos leva ao terceiro princípio.

3. Os ídolos do coração devem ser abandonados – No primeiro mandamento o Senhor ordena: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). Costumamos pensar em idolatria somente no que diz respeito a imagens de escultura, mas a Bíblia nos adverte contra os “ídolos do coração” (Ez 14.1-9). Incorremos em idolatria todas as vezes que buscamos alegria, prazer, satisfação e realização fora do Senhor. Se pecamos para conseguir o que desejamos, ou pecamos quando não conseguimos o que desejamos, é porque esse desejo já se tornou um ídolo, um falso deus que faz promessas vãs acerca daquilo que achamos que nos trará satisfação.

O caminho bíblico é o de identificar a idolatria, arrepender-se por confiar em falsos deuses e voltar-se de todo o coração ao Senhor (Ez 14.6) buscando de coração fazer a sua vontade.

O adolescente Thiago deve rejeitar o ídolo da “aprovação dos homens” e entender que a alegria não é encontrada num grupo de amigos, mas no Senhor e, por isso, é a ele que precisamos agradar. O diácono Jair tem de abandonar o ídolo do “respeito” e entender que o pecado de outros ao não respeitá-lo não autoriza o seu pecado ao revidar as afrontas. Ao invés de revidar ele deve entregar tudo àquele que julga retamente (1Pe 2.23). De igual modo a sua esposa deveria abandonar o ídolo do “controle” e, ao invés de tentar mudar o marido manipulando-o pelo medo, deveria ganhá-lo sem palavra alguma, por meio de um honesto comportamento (sobre isso, veja o post do Samuel “A Reforma começa em casa II”). Por último, o Pastor Enoque deveria entender que a motivação para corrigir o filho deveria ser exclusivamente a glória de Deus, abandonando o ídolo da “reputação”.

Conclusão

Entender os motivos do coração é essencial para uma mudança de comportamento que seja duradoura. Qualquer mudança externa, que não leve em conta a raiz do problema, será mero paliativo e servirá unicamente para produzir fariseus que não se preocupam com a glória do Senhor, mas com seus próprios desejos.

É bom salientar que os desejos não são maus em si mesmos. Pensando nos casos citados, não há mal em querer ser aprovado, ser respeitado ou ter uma boa reputação. O problema é quando essas coisas tomam uma importância tão grande que passam a governar o coração e nos levam a pecar.

Que o governo de nossa vida seja exclusivamente de Cristo Jesus, aquele que já nos redimiu e nos santificará para ele mesmo, até o dia final. Vivamos para sua glória e louvor.

Publicado originalmente em “E a Bíblia com isso?”


[1] A. Booth. Somente pela graça. São Paulo, PES, 1986, p. 44-45.

[2] A obra do Dr. Tripp foi publicada no Brasil pela Ed. NUTRA e é um excelente livro-texto para aqueles que se interessam por aconselhamento bíblico.

[3] Regionalismo para “carnicão”, a parte central dos furúnculos e tumores (Dicionário eletrônico Houaiss).

12 novembro 2010

06 novembro 2010

Após as eleições...

faixa-presidente “Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades” (Tt 3.1).

Não há mais lugar para especulações sobre quem governará o país a partir de 1º de janeiro de 2011. No domingo passado o povo brasileiro escolheu, democraticamente, a Sra. Dilma Roussef que será, querendo o Senhor, a primeira mulher a ocupar a presidência da nação.

Preferências eleitorais à parte, os cristãos devem ser lembrados, como Paulo ordenou a Tito fazer, que devem se sujeitar às autoridades. Não deve haver dúvidas de que na eleição da Sra. Dilma foi feita a vontade de Deus e é justamente esta a razão alegada por Paulo quando escreveu aos Romanos falando da sujeição às autoridades: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas (Rm 13.1). É bom lembrar que o governante no tempo em que Paulo escreveu aos Romanos era Nero, aquele mesmo que ateou fogo na cidade e que pôs a culpa nos cristãos, fato que culminou na perseguição e morte de muitos irmãos. É a este governante que Paulo ordena que a igreja de Roma se sujeite.

É dever da igreja não somente submeter-se aos governantes, mas também interceder por eles diante de Deus (1Tm 2.1,2). A Confissão de Fé de Westminster, símbolo de fé aceito pela Igreja Presbiteriana do Brasil, ensina:

“É dever do povo orar pelos magistrados, honrar as suas pessoas, pagar-lhes tributos e outros impostos, obedecer às suas ordens legais e sujeitar-se à sua autoridade, e tudo isto por amor da consciência. Incredulidade ou indiferença de religião não anula a justa e legal autoridade do magistrado, nem absolve o povo da obediência que lhe deve, obediência de que não estão isentos os eclesiásticos.” (XXIII.IV)

É claro que essa sujeição não é cega nem é requerida quando as autoridades se opõem à Lei do Senhor. Como exemplo podemos ver que no livro de Atos os apóstolos, quando foram proibidos de falar no nome de Jesus, afirmaram em duas ocasiões: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus” (At 4.19) e “antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

Se o governo da Sra. Dilma será bom para o país não só em termos econômicos, mas, sobretudo, nas questões morais, o tempo dirá. Porém, ainda que as evidências apontem para um comprometimento dela com aquilo que as Escrituras desaprovam, devemos estar bem certos de que “Deus reina sobre as nações; Deus se assenta no seu santo trono” (Sl 47.8) e que “como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina” (Pv 21.1).

Portanto, oremos pela presidente eleita e, como cidadãos cristãos, não deixemos de lado a responsabilidade de clamar e denunciar o pecado, inclusive o dos governantes, apontando para a justiça e o juízo do Supremo Rei de toda a terra.

Que Deus abençoe nossa nação.

28 outubro 2010

Reforma Protestante – mantendo vivos os ideais

Lá se vão 493 anos desde que Lutero afixou suas 95 teses às portas da igreja de Wittemberg, e, à medida que nos distanciamos cronologicamente daquele 31 de outubro de 1517, mais o evangelicalismo brasileiro, que reverbera e consegue piorar em muito as heresias que vêm de fora, se afasta dos ideais dos Reformadores.

Os famosos Solas da Reforma, se não são totalmente desconhecidos, têm sido completamente deixados de lado pela maioria dos evangélicos tupiniquins.

Ao invés do Sola Scriptura (só a Escritura é regra de fé e prática), o que vemos são líderes ensinando e o rebanho acreditando em várias aberrações retiradas sabe-se lá de qual mente fértil e inconsequente. Não é mais necessário ter uma ordenança bíblica, basta alguma experiência que “deu certo”. Com isso a evangelização e, sobretudo, o culto, para não citar outros problemas, têm sido pensados em termos de como agradar às pessoas para que simpatizem com a igreja.

Solus Christus (salvação somente por Cristo), Sola Gracia (somente a graça de Deus é a causa da salvação do homem) e Sola Fide (somente a fé é o instrumento dessa salvação) são doutrinas que, apesar de algumas vezes proclamadas, na prática, são negadas. Em lugar de ensinar que o homem é incapaz de agradar a Deus e fazer algo em favor de sua salvação, que a salvação só é possível pelos méritos de Cristo, por causa de sua obediência perfeita à Lei, de sua morte expiatória e sua ressurreição, e que basta o pecador crer nisso para que a justiça de Cristo lhe seja creditada (Rm 4.1-5), “apóstolos” e afins têm levado o povo para longe das Escrituras. O que fazem é ensinar o povo a confiar em campanhas, correntes e esforços pessoais a fim de ter salvação, isso quando mencionam a salvação, pois para a maioria Jesus é simplesmente o “gênio da Bíblia maravilhosa”, disposto a realizar nossos desejos a fim de termos uma vida mais feliz, esquecendo-se, porém, da exortação paulina de que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19).

Esta semana li um texto em que uma estudante de teologia relata sua ida à seita Mundial do Poder de Deus a fim de realizar uma pesquisa sobre liturgia. Para exemplificar o que citei no parágrafo anterior, transcrevo aqui suas palavras:

“O que me chamou a atenção foi a total negação da salvação pela fé, diferencial do discurso protestante. Ao contrário, o pastor enfatizou (muitíssimo) que não basta ir à igreja, o fiel tem que se esforçar para conseguir a salvação. Ir à igreja está no menu, mas também contribuir com a obra, ajudar os outros, dar testemunho...”[1]

Com tudo isso, não seria nem preciso mencionar que não há lugar para o Soli Deo Gloria (somente Deus é digno de ser glorificado). Se o homem pode, por seus esforços, alcançar a salvação e o favor divino, se são métodos pragmáticos, aplicados, transformados em livro e recebidos como o que há de melhor para o crescimento da igreja os responsáveis pelo sucesso desse ou daquele ministério, Deus, de fato, não merece glória, pelo menos não sozinho.

Aqueles que têm se mantido fiéis aos princípios da Reforma têm sobre si a responsabilidade de influenciar e chamar ao arrependimento os que estão no erro. Mais do que nunca precisamos reafirmar e viver coerentemente o mote “Igreja reformada, sempre se reformando”, vivendo a simplicidade do Evangelho a fim de que o Senhor seja glorificado.


[1] Texto de Nani Rezende no blog Genizah

07 outubro 2010

Simão, o mágico, e os “Simões” modernos

negocio bencao a parteO livro de Atos narra, no capítulo 8, a história de Simão, um mágico da cidade de Samaria que era um grande “sucesso” entre o povo. Ele iludia a população com mágicas, o que lhe rendeu grande fama. O texto diz que todos lhe davam ouvidos chamando-o, inclusive, de “Grande Poder”.

Quando a mensagem salvadora do Evangelho chegou a Samaria por meio de Filipe, diácono da Igreja primitiva, que anunciava a Cristo e realizava sinais e prodígios (8.4-8), a multidão que andava após Simão creu no Senhor. Aparentemente o próprio Simão abraçou a fé, sendo até batizado. Digo aparentemente porque o texto sugere que o que despertou o interesse de Simão não foi propriamente a Palavra pregada, mas os sinais realizados. O versículo 13 diz que ele “acompanhava a Filipe de perto, observando extasiado, os sinais e grandes milagres praticados.

Notamos, porém, que Simão não estava preocupado com a glória de Deus, mas com a sua própria, queria mesmo era voltar a ser visto como o “Grande Poder”. Cristo Jesus não era o Deus digno de adoração, mas simplesmente aquele que poderia conceder o que ele realmente queria, voltar a ser notado pelo povo.

A evidência disso está nos versículos subsequentes. Quando os apóstolos tomam conhecimento da conversão de samaritanos, enviam para lá Pedro e João. Lucas narra que, quando Simão viu que mediante a imposição de mãos dos apóstolos os que creram recebiam o Espírito Santo, tratou de tentar “comprar a bênção”, ofereceu dinheiro aos apóstolos para que lhe fosse concedido o mesmo poder, e isso rendeu a ele uma dura repreensão por parte de Pedro, que afirmou: “o teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus” (8.20). Pedro afirmou ainda que Simão não tinha parte naquele ministério, que seu coração não era reto e que ele deveria se arrepender, o que não sabemos se, de fato, ocorreu.

Mudando o que tem de ser mudado, notamos que quase dois mil anos depois do ocorrido com Simão e devidamente registrado nas Escrituras para o nosso ensino, o evangelicalismo brasileiro, sobretudo no meio neopentecostal, padece do mesmo pecado. A grande diferença é que no caso bíblico foi Simão que tentou comprar dos apóstolos a bênção, enquanto hoje são os “apóstolos”, “pastores” e “missionários” que tentam vender os favores divinos aos milhares de incautos “Simões” hodiernos.

Não é preciso pesquisar muito para verificar. Basta perder (esse é o termo exato) tempo assistindo à maioria dos programas evangélicos ou navegar um pouco pela internet para encontrar “pastor” chamando de trouxa aqueles que ofertam simplesmente porque amam a Deus, sem esperar nada em troca, “apóstolo” pedindo o trízimo (pasme! 10% para cada pessoa da Trindade.) e garantindo que após isso os ofertantes terão um bom ano, e “missionário” pedindo “contribuição” a fim de orar pela salvação dos que foram indicados pelos associados.

Se vivesse hoje, Simão, o mágico, teria como escolher o melhor investimento, pechinchar e ficaria até indeciso de quem comprar devido à grande quantidade de oferta no vergonhoso mercado “da fé”.

A triste ironia é que tudo isso tem acontecido em igrejas que são tidas por muitos como “herdeiras” da Reforma Protestante, mas que desconhecem, ou fingem não saber, que um dos grandes problemas atacados por Lutero em suas 95 teses foi justamente a simonia, nome dado à compra ou venda ilícitas das coisas espirituais, que tem origem na história de Simão, o mágico.

Na verdade, tanto os estelionatários da fé, que têm vendido bênçãos, como os que têm comprado cometem o mesmo pecado de Simão, tentam usar Deus para os seus próprios interesses. Estes pensando que conseguirão o favor divino com ofertas, aqueles querendo faturar com a fé alheia, contudo, sempre com a mesma motivação egoísta.

Como se vê, não é de hoje que os homens querem se aproximar de Deus para os seus próprios benefícios. Cuidemos para não cair nessa mesma cilada e entendamos que o Senhor deve ser adorado não por aquilo que ele pode nos dar, mas por quem ele é como afirma o salmista: “grande é o Senhor e mui digno de ser louvado, temível mais que todos os deuses” (Sl 96.4).

01 setembro 2010

25 agosto 2010

28 julho 2010

E a Bíblia com isso?

logo bci5
Gostaria de indicar um novo blog que tenho o privilégio de assinar juntamente com mais sete amigos, todos pastores presbiterianos. A proposta é responder às questões que se nos apresentam no dia-a-dia partindo de uma perspectiva bíblico-reformada, fomentando assim um debate democrático.
Visite-nos, opine sobre os posts e ajude-nos a divulgar esse espaço que tem por objetivo a glória do Redentor.

25 julho 2010

Sobre leis e referenciais

Palmadas Quando eu ainda estava no seminário, presenciei momentos muito engraçados e um, especificamente, me veio à memória quando comecei a escrever este texto. Havia um “calouro”, recém-chegado do interior para a capital do Estado de São Paulo, que estava aprendendo a andar na cidade. Certo dia perguntamos se ele já sabia em qual ponto de ônibus saltar a fim de chegar ao alojamento em que morávamos e a resposta foi um rápido sim. Segundo ele, era só saltar no ponto que ficava logo após um outdoor com a propaganda de um determinado carro.

Bastou isso para cairmos na gargalhada por razões óbvias. As propagandas de outdoor mudam com uma rapidez impressionante e logo aquela imagem de carro daria lugar para qualquer outra coisa. Se o referencial para chegar ao destino era aquela propaganda, era um péssimo referencial que deixaria o sujeito perdido.

A história serve para ilustrar o que penso a respeito da chamada “lei da palmada”, projeto assinado pelo presidente Lula, que modifica o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – sigla apropriada) em seu artigo 18 e que agora segue para aprovação do Congresso Nacional. A revista Veja informa que:

“pelo novo texto, fica vedado aos pais usar castigos corporais de qualquer tipo na educação dos filhos. Um parágrafo define o castigo corporal como ‘ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso de força física que resulte em dor ou lesão à criança ou adolescente’. De acordo com a nova lei [...] o pai ou mãe que, por exemplo, der uma palmada na mão do filho que insiste em enfiar o dedo na tomada elétrica poderá se sujeitar a penas que variam da advertência à obrigatoriedade de se submeter a acompanhamento psicológico ou programas de orientação à família” (edição 2174).

Não bastassem tantos outros problemas do ECA, agora vemos essa tentativa de ingerência do governo sobre a criação dos nossos filhos, que tem como referencial algo bastante questionável que é a psicologia. Veja, por exemplo, que a psicologia afirma que é proibido dizer “não” às crianças e também que é necessário dizer “não”, dependendo sempre da linha que é seguida já que há várias “psicologias”. O mais cruel é que, concordando ou não com esse referencial, como lemos, aprovada a lei, pais que a desobedecerem serão submetidos a acompanhamento psicológico ou programas de orientação à família.

Os cristãos já têm um “Maravilhoso Conselheiro”, o Senhor Jesus Cristo, e o seu próprio “programa de orientação à família”, que é a Palavra infalível e inerrante de Deus. A Escritura nos fala da responsabilidade de educar e ensinar aos filhos a Lei do Senhor (Dt 4.10; Dt 6.4-7) que “é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra” (2Tm 3.16-17).

Essa mesma Escritura ensina que há momentos em que a correção física é necessária, justamente por amor aos filhos: “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina” (Pv 13.24, veja também Pv 22.15; 23.13,14; 29.15), mas alerta para que não haja excesso (Pv 19.18). Logo no começo do livro de Provérbios encontramos um paralelo fantástico entre a correção do Senhor e a dos pais, que demonstra que a correção é motivada pelo amor: “Porque o Senhor repreende a quem ama, assim como pai, ao filho a quem quer bem” (3.12).

Aprovada a “lei da palmada”, haverá para os cristãos, portanto, um dilema, em minha opinião, fácil de ser resolvido. Basta lembrar as palavras de Pedro diante da ordem dada pelo Sinédrio: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros que a Deus” (At 4.19) e, mais à frente, “antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

Se sofrermos pela nossa decisão, temos o consolo do próprio Pedro que afirma: “mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois” (1Pe 3.14).

Fiquemos, portanto, com as Escrituras que, diferente do outdoor no ponto de ônibus, são um referencial que não nos deixa perdidos.

21 julho 2010

De volta…

Caríssimos leitores do blog,
Depois de um tempo sem postar estou de volta.
Na semana passada tive o privilégio de palestrar no acampamento de inverno da Igreja Presbiteriana de Aracaju, pastoreada pelo meu amigo Alan Kleber, bem como de pregar no domingo pela manhã. O sermão do domingo pode ser visto no vídeo abaixo.
Grande abraço. 

Atitudes Para se Evitar o Pecado from iparacaju on Vimeo.
">Atitudes Para se Evitar o Pecado from iparacaju on Vimeo.

09 junho 2010

Aconselhamento bíblico

O Palavra da Vida Caldas Novas promoverá sua 1ª Conferência de Aconselhamento bíblico entre os dias 9 e 13 de Agosto. O preletor será o Dr.  Lou Priolo que tem dois excelentes livros publicados em português pela Editora Nutra: “O caminho para o filho andar” e “O coração da ira”.

Vale a pena o investimento.

Mais informações abaixo:

conferencia aconselhamento

04 junho 2010

Motivos, emoções e idolatria

marionete-2 Certa vez me perguntaram se no céu teríamos lembrança daquilo que ocorreu em nossa vida e das pessoas que conhecemos. Sei que esse é um assunto controverso e que há posições bem diferentes, mas no meu entender não sofreremos de amnésia, lembraremos de tudo, sim. Ouvi como resposta que se for desse jeito ficaremos tristes no céu. A razão é que, lembrando de tudo, vamos saber caso algum parente nosso não esteja lá e certamente isso nos entristecerá.

Enquanto escrevo estas primeiras linhas, vem à minha mente uma conversa que tive com uma amiga, bem no começo da minha caminhada cristã. Na ocasião discutíamos a afirmação de um pregador que havia dito que homens de cabelo comprido não iriam para céu. Como ela pertencia a uma igreja que confundia “usos e costumes” com a própria Escritura, a conversa acabou girando em torno dos tais. No fim perguntei se eu, não observando os mesmos “costumes” que ela, mas crendo em Cristo, poderia ir para o céu e ouvi: “até pode ir, mas vai ficar com inveja porque meu galardão será maior”. Como novo convertido, limitei-me a responder que não iria para o mesmo céu que ela, pois para o que iria não haveria pecado.

Minha intenção nesta pastoral não é tentar provar se no céu haverá lembrança de tudo, tampouco discutir se homens podem ou não ter as madeixas crescidas, mas analisar como nossos sentimentos e motivações são afetados pelo pecado, por isso as duas histórias foram citadas.

A Escritura ensina que o homem foi criado para que Deus seja glorificado (Rm 11.36; 1Co 10.31) e nos instrui também de que o verdadeiro prazer, alegria, satisfação, esperança, segurança, etc. somente podem ser encontrados nele (Sl 73.25,26; Sl 1.2; Sl 16.11; Sl 18.2). Tanto é assim que no primeiro mandamento o Senhor ordena: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3), ou seja, nossa motivação deveria ser sempre a glória de Deus e o relacionamento com ele deveria satisfazer todos os nossos anseios.

Com a queda, o homem passou a buscar prazer em coisas e pessoas, aprovação dos homens e sua motivação se tornou egoísta. O problema é que sempre que dependemos de qualquer coisa ou pessoa para ser felizes, seguros ou plenamente realizados, estamos quebrando o primeiro mandamento e somos culpados pelo pecado da idolatria. Podemos voltar então aos exemplos citados no início para ver de forma prática o quanto o pecado aflige e distorce a vontade de Deus para a vida do homem.

No primeiro caso a alegria no céu está vinculada ao fato de ter os entes queridos também por lá, a ponto de achar que se lembrarmos de algum que não foi salvo (caso seja verdadeira a afirmação de que no céu teremos lembrança de tudo) ficaremos tristes, o que demonstra que a presença bendita do Senhor e a comunhão plena com ele ficariam ofuscadas de tal modo que não conseguiríamos estar alegres.

No segundo exemplo verificamos que a motivação para cumprir determinadas práticas não era glorificar ao Senhor, mas ganhar mais galardão e, por que não, o medo de ficar triste e invejar aqueles que ganharão mais.

É claro que não são somente as pessoas das histórias citadas que sofrem com os efeitos do pecado. Cada um de nós, membros da raça humana, caídos em Adão, padece os mesmos problemas.

Isso explica o porquê de muitas vezes pecarmos simplesmente para ser aceitos por homens, para ser bem vistos. Explica também o fato de muitas vezes sermos controlados pelo que as pessoas vão pensar, numa motivação totalmente egoísta. Você se lembra de Pedro afastando-se dos gentios com quem comia, pois temia o que “os da circuncisão” iam achar (Gl 2.11ss)?

Diante do que foi exposto devemos dar ouvidos à exortação do apóstolo João: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos”, e verificar que ela vem logo após a afirmação de que estamos no verdadeiro Deus: Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1Jo 5.20-21).

Que creiamos nisso de todo o coração e aprendamos a estar plenamente satisfeitos em Deus, motivados a fazer todas as coisas somente para a sua glória.

15 maio 2010

Um jovem exemplar

Foram duas as cartas que o apóstolo Paulo enviou ao jovem Timóteo, que ele havia rogado que permanecesse na cidade de Éfeso para pastorear aquela igreja.

Em seu trabalho Timóteo deveria, dentre outras coisas, admoestar alguns que queriam ensinar outra doutrina (1Tm 1.3) e promover a eleição de diáconos e presbíteros (1Tm 3.1-13).

Para realizar tudo isso ele deveria expor a boa doutrina que seguia (1Tm 4.6), mas havia uma questão importante a se considerar, Timóteo era um jovem de cerca de 30 anos, conforme alguns estudiosos, e naquele tempo um cargo tão influente não era ocupado por alguém tão jovem.

É em razão disso que Paulo encoraja Timóteo: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis...” (1Tm 4.12). O que o apóstolo estava dizendo, em outras palavras, era: “não deixe que as pessoas o desprezem pelo fato de ser moço, para isso, torne-se um exemplo.”

Paulo também demonstra em que ele deveria ser padrão dos fiéis: “na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1Tm 4.12), ou seja, Timóteo deveria ter um linguajar adequado a um cristão, uma conduta sadia com hábitos, costumes e relacionamento interpessoal coerentes com sua fé, um amor verdadeiro à semelhança do de Cristo por nós, uma fé genuína, e uma pureza advinda da sua conformidade à Lei de Deus.

É claro que tudo isso dependeria de sua relação com o Senhor e é por isso que Paulo o exorta a aplicar-se à leitura das Escrituras (1Tm 4.13) e ter cuidado dele e da doutrina (1Tm 4.16).

Por ser jovem, Timóteo estaria sujeito às tentações típicas da idade e o que vemos na segunda carta é Paulo exortando-o enfaticamente: “Foge, outrossim, das paixões da mocidade” – e propondo um caminho melhor – “Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o nome do Senhor” (2Tm 2.22).

Note que esse caminho proposto por Paulo na segunda carta é parecido com o que ele já tinha dito a respeito de Timóteo ser padrão (amor, fé, pureza); e adivinhe? Paulo vincula novamente tudo isso ao conhecimento da Escritura. Alguns versículos antes ele disse: “procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15), e pouco depois afirmou: “tu porém, permanece naquilo que aprendeste [...] e que, desde a infância sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.14-15).

Na primeira carta Paulo ainda ordena Timóteo a exercitar-se na piedade demonstrando que ela para tudo é proveitosa enquanto o exercício físico é pouco proveitoso, pois este é para o aqui, agora, mas aquela para a vida que agora é e para a que há de ser (cf. 1Tm 4.8).

É a Palavra de Deus que ensina como ter uma vida de piedade e é a prática dela que permite ser padrão dos fiéis, portanto, o que Paulo escreveu a Timóteo deve falar profundamente ao coração de cada um daqueles que amam o Salvador e querem honrar seu Santo nome.

Neste terceiro domingo do mês, dia em que comemoramos o Dia do Jovem Presbiteriano, convido cada um de vocês, jovens, e todos nós que fazemos parte da IPBPC a roguar ao Senhor a iluminação do Espírito Santo e nos aprofundar no conhecimento das Escrituras. Procuremos viver em conformidade com a Palavra lembrando-nos sempre daquilo que afirmou o Senhor Jesus: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21).

Que a busca de Timóteo para ser padrão dos fiéis seja também a nossa busca.

Deus nos abençoe.

30 abril 2010

Cuidado! Levitas na lagoa

jacaré3 

No mundo animal o temido jacaré tem a parte da barriga formada por um couro mais fino que o restante do corpo, o que torna essa parte mais vulnerável a ataques. Vem daí o ditado popular que diz que “em rio que tem piranha, jacaré nada de costas”. A intenção do dito é clara, mostrar que as pessoas devem ser precavidas e não se expor a eventuais perigos.

Quando escreveu aos colossenses, Paulo também advertiu aqueles irmãos para que fossem precavidos: Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8). Aos efésios (4.11-14) ele afirmou que para os crentes não serem enredados foram concedidos “dons de ensino”. A razão de ser desses dons é para que não sejamos “levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro”.

Não só nas epístolas paulinas, mas também em outras cartas do NT temos vários avisos para ter cuidado com os falsos ensinos e a afirmação de que o “instrumento de aferição” do ensino é sempre a sã doutrina, ou seja, o que a Escritura ensina.

Vivemos um tempo confuso no que diz respeito a doutrinas. Na medida em que as igrejas evangélicas têm se multiplicado, multiplica-se também a confusão. Podemos observar muitas pessoas ensinando supostas revelações de Deus, mas sem a devida preocupação de falar de acordo com o que o Senhor de fato revelou em sua Palavra infalível e inerrante.

Penso que um dos grandes problemas que enfrentamos hoje é na área musical. Os autodenominados “levitas” têm cantado coisas difíceis de se explicar, para não dizer heréticas.

Sem entrar no mérito da impropriedade do termo “levita”, pois nenhum deles nasceu na tribo de Levi, e na nova Aliança não há um grupo especialmente designado para ajudar os sacerdotes, até porque todos somos sacerdotes (1Pe 2.9), a verdade é que eles acabam “doutrinando” os seus fãs com aquilo que cantam.

Por conta dessa má doutrinação, há um grande número de “adoradores extravagantes”, crentes “apaixonados” por Jesus e irmãos que se acham “A geração de adoradores”, para não falar daqueles que querem estar no “lugar secreto da adoração”, seja lá onde for isso. Pior ainda é ouvir pessoas pedindo para “ficar com Jesus”, “tocar em Jesus”, “deitar no colo de Jesus”, dentre outras aberrações que têm sido cantadas, mas que não são encontradas nas Escrituras.

Quando essa turma da cantoria que parece não ler a Bíblia, ou se leem a ignoram, resolve “profetizar”, aquilo que estava ruim pode ficar muito pior. Dia desses recebi um vídeo em que uma famosa “pastora” e um “apóstolo” falavam de tal principado boiadeiro que tem um tripé com base em três locais do mundo, Dallas, Barretos e Madri. Isso, segundo o apóstolo, explicaria a ida da pastora para Dallas para combater uma das bases. O apóstolo, que reside em Barretos, afirma ainda que sempre tem levado “homens e mulheres” de Deus a Barretos para profetizar, tocando numa ferradura que há na cidade, que Barretos é do Senhor Jesus.

Se não bastasse isso, a pastora conta que Deus a mandou comprar uma bota de couro de cobra Python e com aquela bota ela enfrentou principados de python, mas nos EUA a bota estragou e Deus a mandou comprar uma bota de cowboy. No fim das contas, tudo isso serviu para fazer a propaganda do próximo CD que terá um figurino de cowboy e declarará que os peões são do Senhor Jesus, ou seja, no fim das contas, tudo é comércio. Ao ouvir isso é impossível não lembrar as palavras do apóstolo Pedro, que afirmou que os falsos mestres estariam dentro da igreja e “movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias” (confira 2Pe 2.1-3).

Essa mesma pastora já protagonizou outros episódios ridículos como, por exemplo, andar engatinhando em um show imitando um leão ao receber a “unção do Leão” e ao explicar a razão de tal ato descreveu tudo o que havia acontecido naquele dia, incluindo o figurino que Deus a tinha mandado usar naquela ocasião. Toda a loucura foi “em nome de Deus”.

O pior é que os fãs aplaudem, acreditam, defendem ferrenhamente tudo o que ela faz sem o respaldo das Escrituras e ai de quem falar que aquilo não procede de Deus.

No tempo em que vivemos, devemos estar bem atentos ao que escreveu o profeta Jeremias:

“Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvidos às palavras dos profetas que entre vós profetizam e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor. [...] Não mandei esses profetas; todavia, eles foram correndo; não lhes falei a eles; contudo, profetizaram. Mas, se tivessem estado no meu conselho, então, teriam feito ouvir as minhas palavras ao meu povo e o teriam feito voltar do seu mau caminho e da maldade das suas ações” (Jr 23.16,21,22).

Pensando nisso, bem que poderíamos fazer uma releitura do dito popular e afirmar: “Em lagoinha que tem levita, quem leva as Escrituras a sério não deveria nem nadar”. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

16 abril 2010

O véu de Moisés e o testemunho das Escrituras

            

No vídeo acima, o pastor Davi Silva do ministério “Casa de Davi”, bastante conhecido entre o evangelicalismo brasileiro por causa de suas músicas, conta uma experiência que teve quando foi a Salvador. Segundo ele, enquanto cantavam pediu que os instrumentos parassem de tocar para que fossem ouvidas somente as vozes, mas a bateria continuava sendo tocada. Ele continuou pedindo: “só as vozes”, mas o baterista, insistentemente, continuava tocando. Quando ele olhou para a bateria para repreender o músico, viu que a bateria estava vazia. Ao entender que um anjo é quem estava tocando, nessa parte do testemunho ele afirma: “com anjo eu não mexo, deixa ele aí à vontade, você pode tocar o que você quiser” – e logo depois pergunta e afirma – “[vocês acham que isso] é doido? Mas isso vai continuar acontecendo em nossos cultos, na presença do Senhor!”

Ele continua a palestra e começa a se contorcer, da mesma forma que alguém faz tentando se livrar de insetos que vêm em direção ao rosto, e a rir, insinuando que estava sendo cutucado por um anjo, tudo isso sob o aplauso da sua plateia.

No último dia 14 de abril, o ministério “Casa de Davi” publicou em seu site dois vídeos em que Davi Silva pede perdão ao público. A razão do pedido ele apresenta logo no início de seu texto:

“Desde agosto de 1999 tenho ministrado junto com Mike pela nação brasileira e em outras nações também. Durante esses anos tenho compartilhado vários testemunhos, a começar com minha cura da Síndrome de Down, passando por sonhos, visões e arrebatamentos, e diversas experiências sobrenaturais.

Pois bem, em quase todos esses testemunhos eu acrescentei mentiras. Alguns deles são totalmente mentirosos. Inclusive um deles, eu roubei de um irmão em Cristo que teve a experiência que conto como sendo minha. Outros testemunhos são meus e em parte verdadeiros.”

No texto ele ainda se diz envergonhado por causa desses testemunhos dados tanto no Brasil como no exterior.

Bastou isso para que os fãs começassem a se manifestar. Uns desapontados, outros afirmando que agora admiram ainda mais o pastor, outros sem querer acreditar.

Sem entrar no mérito do arrependimento do sr. Davi, pois quem julga corações é o Deus Todo-Poderoso, chamo a atenção para o que acontece e o que sempre acontecerá quando experiências e não as Escrituras são a base da fé.

No meio pentecostal e neopentecostal as experiências são supervalorizadas. Pior ainda, elas não precisam nem sequer ter uma base bíblica, haja vista o testemunho citado anteriormente e outros tão esdrúxulos quanto esse que são contados na maioria dos programas “evangélicos” do rádio e TV. Ainda que não afirmem categoricamente, agem da seguinte maneira: “Se as Escrituras não apoiam a experiência, pior para as Escrituras.”

Outra questão a ser considerada é que quando se tenta “conquistar o público” com base em experiências ou no quanto o líder é íntimo do Senhor, fatalmente ocorrerá o que aconteceu com o próprio Moisés. Após descer do Monte Sinai, onde Deus falara com ele, seu rosto resplandecia a ponto de o povo temer falar com ele. Foi preciso ele cobrir um rosto com um véu. O problema é que, ao que parece, Moisés gostou da fama de ser tão íntimo de Deus e, percebendo que seu rosto não mais resplandecia, mantinha o véu para simular a experiência. Cativar um público baseando-se em experiências será sempre um buraco sem fundo. Sempre terá de haver uma experiência maior.

Paulo afirma que essa não pode ser a nossa atitude. Aos coríntios ele escreveu: “E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia” (2Co 3.13).

O apóstolo Pedro, ao escrever alertando a igreja quanto aos falsos mestres, afirma que a pregação dos apóstolos não era segundo fábulas engenhosamente inventadas, mas que eles tinham sido testemunhas oculares da majestade do Senhor e, como prova, conta a experiência que tiveram no monte da transfiguração (2Pe 1.16-18).

A despeito disso, Pedro chama a atenção dos irmãos para um testemunho maior que o deles que era o testemunho da própria Palavra de Deus. Ele diz: “Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la...” (2Pe 1.19-21). Em outras palavras, é como se o apóstolo estivesse dizendo: “Não é à minha experiência que vocês devem se apegar, mas ao que diz a Escritura.”

Se a igreja brasileira se apegasse mais firmemente às Escrituras, seria mais crente e menos crédula, tendo condições para julgar e rejeitar tantas “experiências” que têm sido divulgadas, mas que não procedem de Deus.

O resultado é que não haveria tantos irmãos surpresos e desapontados quando alguém contasse que mentiu sobre suas experiências ou quando a verdade viesse à tona, mesmo sem a confissão, pois, de antemão, saberíamos que aquilo não provinha de Deus.

Que o Senhor nos ajude a ser nobres como os bereanos que examinavam “as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram, de fato, assim” (At 17.11).

13 abril 2010

12 abril 2010

Cuidando do falar

palavrao-proibido Na primeira carta do apóstolo Paulo à igreja de Corinto lemos: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). Antes disso Paulo já tinha dito no versículo 23 do capítulo 10 que todas as coisas são lícitas, mas que nem todas convêm, e no versículo 31: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”. O motivo dessas recomendações era para que ninguém se tornasse “causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus” (1Co 10.32).

Isso deve nos levar a refletir sobre a nossa vida cristã. Tudo aquilo que fazemos deve ser para a glória de Deus, pois devemos ser imitadores de Cristo, e isso certamente inclui aquilo que sai de nossa boca.

Infelizmente muitos daqueles que estão dentro das igrejas e que professam ser de Cristo não têm tomado o devido cuidado com o que falam e de suas bocas saem palavras que não convêm a um cristão. Esquecem aquilo que Paulo disse a Tito, que ele deveria ser padrão e para isso a sua linguagem devia ser sadia (Tt 2.8).

Voltemos ao que Paulo disse aos coríntios: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”. Para ser imitadores de Cristo, devemos praticar suas obras. Surge então uma pergunta: Algum de nós consegue imaginar o Senhor Jesus falando palavras obscenas, chulas ou fazendo comentários pejorativos? A resposta com certeza é um enfático não!

Se estamos certos disso, que da boca de nosso Senhor não saiu nenhuma palavra torpe, e queremos ser realmente imitadores de Cristo, devemos também evitar esse tipo de linguajar.

Lembremos o que Paulo disse aos irmãos efésios: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe; e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29). Diante disso devemos refletir sinceramente: o nosso modo de falar transmite graça aos que nos ouvem ou temos sido causa de tropeço para a igreja de Cristo?

Fomos chamados para fazer diferença, para ser sal da terra e luz do mundo e proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a maravilhosa luz. O que falamos mostra aquilo que somos. Foi o próprio Senhor Jesus quem afirmou que a boca fala do que está cheio o coração (Mt 12.34).

Se queremos realmente ser cada dia mais parecidos com o Senhor, devemos encher o nosso coração da Palavra de Deus e rejeitar tudo aquilo que não convém a nós, cristãos.

Pela graça de Deus, esforcemo-nos para ser padrão dos fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza.