20 fevereiro 2020

A Palavra de Deus e a salvação

Quando escreveu sua segunda epístola a Timóteo, Paulo, após elogiá-lo, fez uma recomendação: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Tm 3.14,15).

O texto é claríssimo e ensina que a Palavra de Deus é suficiente, ou melhor, é a única fonte para que alguém se torne sábio para a salvação pela fé em Cristo. Para isso, “O Espírito de Deus torna a leitura e, especialmente, a pregação da Palavra, meios eficazes para convencer e converter os pecadores, para os edificar em santidade e conforto, por meio da fé para a salvação” (Resposta à Pergunta 89 da CFW: Como a Palavra se torna eficaz para a salvação?).

Você se lembra da história de Lídia? Lucas registra que por ocasião da estada de Paulo em Filipos o apóstolo foi até um rio em que havia um lugar de oração. Lá havia algumas mulheres e Paulo pregou para elas. O texto diz que “certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia (At 16.14). Apesar de o texto não mencionar especificamente o Espírito Santo podemos ter certeza de que esta foi uma ação dele, pois Jesus afirmou: “quando ele vier convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8).

A despeito disso, muitas denominações evangélicas têm se deixado influenciar pelo pragmatismo e têm recorrido a vários métodos que supostamente têm dado certo para trazer pecadores ao “arrependimento”. O problema aqui é que, na ânsia de trazer pessoas para as igrejas, os métodos não têm sido questionados e analisados pelo crivo da Santa Palavra de Deus.

Como exemplo disso temos as várias igrejas ligadas a um movimento denominado “Sensível aos Interessados”. Esta ideia está presente em um livro que há alguns anos foi moda no Brasil, Uma igreja com propósitos. Neste livro o autor, Rick Warren, divulga ideias do tipo: pregar o evangelho nos termos do incrédulo a fim de que seja agradável e fácil eles se tornarem crentes, e mudar os métodos sempre que necessário. Para isso, ele ensina: “Estabeleça um culto voltado intencionalmente ao objetivo de que os membros da igreja tragam seus amigos. E torne esse culto tão atraente, agradável e relevante aos sem-igreja, que os membros de sua igreja ficarão ansiosos por compartilhar esse culto com os perdidos pelos quais eles se interessam”[1].

John MacArthur afirma que alguns dos gurus desse movimento aconselham inclusive a retirar do sermão todas as referências explícitas à Bíblia e ensinam a nunca pedir à congregação para abrir a Bíblia em um texto específico, pois os “interessados” ficam desconfortáveis com essa atitude[2]. Para esse tipo de movimento, a quantidade de pessoas atraídas ao culto valida o método, afinal, os fins justificam os meios.

É preciso voltar os olhos para o que Paulo afirmou a Timóteo: as Escrituras é que tornam o homem sábio para a salvação. O próprio Senhor Jesus afirmou certa vez: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38). Paulo, agora escrevendo aos romanos, assevera que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17).

É por meio da Palavra de Deus, e não de técnicas humanas, que o Espírito Santo convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Por esta razão é que Paulo, depois de afirmar a Timóteo que a Palavra de Deus é que torna o homem sábio para a salvação, continua sua argumentação dizendo que toda a Escritura é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2 Tm 3.16). Essa utilidade da Escritura, conforme Paulo, tem um fim: é para “que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.17).

Ao crer na suficiência das Escrituras para a salvação, a igreja não precisará recorrer a métodos humanos para que os homens creiam e, assim, glorificará o Senhor.

“Para que a Palavra se torne eficaz para a salvação devemos ouvi-la com diligência, preparação e oração; recebê-la com fé e amor, guardá-la em nosso coração e praticá-la em nossa vida” (Resposta à Pergunta 90 do BCW: Como se deve ler e ouvir a Palavra a fim de que ela se torne eficaz para a salvação?). Isso quer dizer que a fé cristã é racional. Há muitos que acham que em matéria de fé é preciso deixar a razão de lado. Isso explica a quantidade de pessoas que “tomaram uma decisão por Cristo” pautados na emoção que sentiram.

Uma história que sempre me chama a atenção é a do encontro de Filipe com o Eunuco. Deus enviou o diácono para um caminho deserto que descia de Jerusalém a Gaza e lá ele viu o eunuco que vinha lendo o profeta Isaías. Ao se aproximar do eunuco a pergunta de Filipe não foi: “sentiu algum arrepio, alguma sensação gostosa?”, mas sim: “compreendes o que vens lendo?”. Diante da negação ele explicou e o eunuco, após compreender, creu. A emoção está somente no final da história. Depois que entendeu, creu e foi batizado, o eunuco seguiu cheio de júbilo. A fé cristã não é baseada em emoções, mas no entendimento da Palavra. A emoção é consequência do entendimento correto acerca da obra do Redentor em nosso favor.

Entendida e crida, pela ação do Espírito, a Palavra precisa ser vivida. É Tiago, irmão do Senhor, quem alerta os crentes a se tornarem “praticantes da palavra e não somente ouvintes” a fim de não enganarem a si mesmos (Tg 1.22). Seu ensino ecoa as palavras de Jesus, que após proferir o sermão do monte alertou de que todo aquele que o ouvia e praticava, seria como um homem que edificou sua casa sobre a rocha, preparado para enfrentar todas as intempéries da vida, ao passo que os que ouvem e não praticam, seriam como um homem que edificou a casa sobre a areia que, diante das tribulações, veio a ser grande a sua ruína (Mt 7.24-27).

Ouça com atenção, medite na Palavra de Deus. Busque o auxílio do Espírito Santo que iluminará a sua mente e o capacitará a viver para a glória de Deus.


[1] Rick Warren. Uma igreja com propósitos. São Paulo: Vida, 1997, p. 253

[2] John MacArhur. Pregação Superficial. In “Fé para Hoje”, nº 30 – ano 2007: São José dos Campos: Fiel, p. 7

07 fevereiro 2020

Salvação graciosa em Cristo

A Bíblia afirma que o homem natural está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1). É esta a razão de ele não conseguir cumprir os mandamentos. A consequência natural é, então, a condenação eterna, pois o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). Se você já crê em Cristo, esta era a sua condição. Se você não reconhece a Jesus, um dia receberá o seu salário.

“Para escaparmos da ira e maldição de Deus, em que incorremos pelo pecado, Deus exige de nós fé em Jesus Cristo e arrependimento para a vida, com o uso diligente de todos os meios exteriores pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção” (Resposta à Pergunta 85 do BCW: O que Deus exige de nós para que possamos escapar de sua ira e maldição em que incorremos pelo pecado?).

A pergunta que se segue é: como o homem que está morto em seus pecados pode crer em Jesus e arrepender-se dos seus pecados? Quando eu estava para ir ao seminário, durante o exame que já citei anteriormente, foi-me perguntado o que vem primeiro, a fé ou o arrependimento. Sem pensar muito respondi que era a fé. O pastor que me questionava, diante da minha resposta perguntou: “Então porque é que a Bíblia diz arrependei-vos e crede?”. Eu nunca tinha estudado formalmente este assunto, afinal, ainda estava indo ao seminário, mas pensando de acordo com o que eu tinha lido na Escritura perguntei de volta: “Como vou me arrepender sem ter fé que Jesus pode me perdoar?”. Diante do impasse o que ouvi foi: “estude mais isso meu jovem”.

Hoje afirmo não só que a fé vem antes do arrependimento, mas que ambos provém de uma ação sobrenatural de Deus anteriormente, que chamamos de novo nascimento. Lembre-se, o homem está morto em seus delitos e pecados e, a não ser que seja vivificado, nunca poderá crer e se arrepender. Tratando deste assunto a Confissão de fé de Westminster ensina que “todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só estes, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente, pela sua Palavra e pelo seu Espírito, tirando-os daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transportando-os para a graça e salvação, em Jesus Cristo. Isso ele faz iluminando espiritualmente o entendimento deles, a fim de que compreendam as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes coração de carne, renovando as suas vontades e determinando-as, pela sua onipotência, para aquilo que é bom, e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vão mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça” (CFW X.I).

O ensino confessional está em acordo com as Escrituras. Foi por meio do profeta Ezequiel que o Senhor prometeu a seu povo que tiraria o coração de pedra e colocaria um coração de carne, com um objetivo bem definido, “para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (Ez 11.19-20). Foi por esta razão que Jesus afirmou a Nicodemos que “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, e para ficar claro que isso acontecia de acordo com a soberania de Deus, o Senhor disse: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3.1-15).

Geralmente quando eu estou ensinando a respeito disso costumo perguntar a alguém que esteja entre os ouvintes qual foi dia em que ele nasceu. Após a resposta da data, pergunto quando foi que ele decidiu isso e, lógico, a resposta é invariavelmente: “Eu não decidi, apenas nasci”. Isso ilustra o que ocorre com aqueles que Deus elegeu antes da fundação do mundo, no tempo designado pelo Senhor, eles serão renovados em seu coração, vivificados, para irem à Cristo por meio da fé.

Daí entendermos que “fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora, pela qual o recebemos e confiamos só nele para a salvação, como ele nos é oferecido no evangelho” (Resposta à Pergunta 86 do BCW: O que é fé em Jesus Cristo?). Quando o Senhor, soberanamente traz aquele que estava morto espiritualmente à vida, ele o capacita a crer. Crer não é obra do homem, para que ninguém se glorie (Ef 2.8). Crer em Jesus é mais do que simplesmente acreditar que ele existe, mas compreender a sua obra em favor de pecadores, tendo fé de que ele é poderoso para perdoar os pecados.

“Arrependimento para a vida é uma graça salvadora, pela qual o pecador, tendo um verdadeiro sentimento de seu pecado e percepção da misericórdia de Deus em Cristo, se enche de tristeza e de horror pelos seus pecados, abandona-os e volta-se para Deus, inteiramente resolvido a prestar-lhe nova obediência” (Resposta à Pergunta 87 do BCW: O que é arrependimento para a vida?).

Ao falarmos sobre novo nascimento, fé e arrependimento, estamos tratando de algo que acontece no interior do homem, mais precisamente no seu coração que é renovado por Cristo. O chamado interno do Espírito Santo é irresistível e todos aqueles que forem transformados por Deus irão a Cristo. Como afirmou Jesus “todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”, e disse mais, “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.37,44).

Estes que são renovados por Cristo, no devido tempo, são chamados exteriormente. “Os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção são as suas ordenanças, especialmente a Palavra, os sacramentos e a oração, os quais todos ser tornam eficazes nos eleitos” (Resposta à Pergunta 88 do BCW: Quais são os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção?).

Você está consciente de tudo aquilo que o Senhor fez em seu favor? Consegue entender que se não fosse o amor de Cristo por você ainda estaria perdido em seus delitos e pecados? A salvação é graciosa, é uma maravilhosa obra em que o Deus Trino está envolvido. O Pai o escolheu antes da fundação do mundo, o Filho deu a sua própria vida pagando o preço do seu pecado e o Espírito Santo o convenceu do pecado, da justiça e do juízo.

Estas verdades devem levar o cristão à humildade. Não somos melhores do que aqueles que caminham sem Cristo. Não fosse o Senhor, teríamos o mesmo destino daqueles que o rejeitam. Estas verdades devem fazer com que você se empenhe a fim de proclamar aos homens, a tempo e fora de tempo, que existe um Salvador bendito que os conclama ao arrependimento, enquanto ora para que o chamado externo, a sua pregação, venha acompanhado do chamado gracioso e irresistível do Espírito de Deus.

31 janeiro 2020

Incapacidade e condenação

Há uma confusão em certos círculos evangélicos no que diz respeito à doutrina da salvação. É o entendimento equivocado de que no Antigo Testamento o homem era salvo pelo cumprimento da Lei. Paulo explica isso ao dizer que “é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (Gl 3.11). O mesmo apóstolo declara que “sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras de lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado (Rm 3.19-20).

Isto é assim porque “nenhum homem, desde a queda de Adão, é capaz, nesta vida, de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus; mas diariamente os quebra por pensamentos, palavras e obras” (Resposta à Pergunta 82 do BCW: Alguém será capaz de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus?). É bem verdade que existe também no meio evangélico aqueles que entendem que o cristão pode viver sem pecar, razão de precisarmos ter sempre em mente o que afirmou João, de que “se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1.10).

Já foi dito anteriormente que após a queda o homem passou a amar a si mesmo em vez de amar a Deus e ao próximo. Esta nova condição implica na incapacidade de guardar os mandamentos. Até mesmo quando o homem natural age em conformidade com a Lei, só o consegue fazer de forma externa. Um ímpio, ainda que seja honesto (conformação externa), está pecando contra Deus, pois a razão para a sua honestidade não é a glória de Deus, mas motivações diversas como o medo da punição, a vergonha de ser visto como alguém desonesto ou mesmo o entendimento de que ele não pode fazer a outros o que não gostaria que fosse feito com ele. Cada uma dessas razões tem como motivação a preocupação consigo mesmo.

O homem natural não faz outra coisa senão pecar. Como aponta Sproul,

“Agostinho explicou que na queda, a raça humana perdeu o posse non peccare [posso não pecar], e nossa posição se tornou non posse non peccare [não posso não pecar], e isso significa que não temos mais a capacidade de não pecar. Em outras palavras, o poder de pecar está tão profundamente arraigado no coração e na alma de pessoas mortais que é impossível não pecarmos. Somos tão pecaminosos por natureza que nunca encontraremos alguém que não peque”[1].

Quando falamos em quebra da Lei é importante pontuar que “alguns pecados, em si mesmos, e em razão de circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros” (Resposta à Pergunta 83 do BCW: Todas as transgressões da lei são igualmente odiosas?).

Não é difícil você encontrar cristãos afirmando que não existe esse negócio de “pecadinho e pecadão”, pois todos os pecados são iguais. Esta afirmação contém uma verdade e um erro. A verdade é que “cada pecado merece a ira e a maldição de Deus, tanto nesta vida como na vindoura” (Resposta à Pergunta 84 do BCW: O que merece cada pecado?), seja ele grande ou pequeno. Como afirma a Confissão de Fé de Westminster, “não há pecado tão pequeno que não mereça a condenação” (CFW XV.IV), ou seja, se fosse possível uma pessoa cometer somente um pecado em toda a sua vida ela seria lançada no inferno, fosse por roubar um docinho da festa ou por ter cometido um genocídio. Isso aponta para a gravidade do pecado, pois é cometido contra um Deus Santíssimo.

O erro está no fato de que se até mesmo os homens pecadores sabem diferenciar delitos, entendendo ser uns mais outros menos graves, quanto mais não saberia o Justo Deus? O texto em que Jesus repreende as cidades em que ele havia feito muitos milagres demonstra isso: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (Mt 11.19).

O texto não poderia ser mais claro. Aqueles que estavam diante do Messias que realizava milagres sofreriam juízo mais severo que aqueles que contemplavam de longe a sua vinda. Alexander Hodge afirma que os sofrimentos dos que forem condenados no juízo “serão de diversos graus, proporcional ao demérito de cada pessoa (em função da menor ou maior gravidade dos pecados de cada pessoa)”[2]. Packer diz que os descrentes “terão um destino proporcional ao modo de vida ímpio que escolheram, e esse destino lhes virá de acordo com seu próprio demérito (Rm 2.6-11). O quanto eles conheceram da vontade de Deus será o gabarito pelo qual seu demérito será medido (Mt 11.20-24; Lc 11.42-48; Rm 2.12)”[3].

Na parábola do servo vigilante Jesus ensina isso afirmando que o servo que conheceu a vontade do seu Senhor, mas foi negligente, será punido. Entretanto, o servo que não soube a vontade do seu Senhor e procedeu mau, levaria poucos açoites pois “a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12.35-48). Tiago também adverte aos seus leitores de que aqueles que querem ser mestres receberão um maior juízo (Tg 3.1).

Tudo isso aponta para a sua responsabilidade em viver de forma coerente com aquilo que tem aprendido de Cristo. Por causa de Cristo, aqueles que estão unidos a ele, podem viver uma vida agradável diante de Deus, na força e no poder do Espírito Santo. Isso significa que é também sua responsabilidade, como testemunha de Cristo, notificar aos homens as suas faltas, anunciar o santo Evangelho, pois, voltando ao ensino da Confissão de Fé, “como não há pecado tão pequeno que não mereça a condenação, assim também não há pecado tão grande que possa trazer a condenação sobre os que se arrependem verdadeiramente” (CFW XV.IV).

Louve a Deus pela salvação em Cristo e proclame-o a fim de os eleitos de Deus sejam chamados à fé no Salvador.


[1] R.C. Sproul. Somos todos teólogos, p. 165

[2] A.A. Hodge. Esboços de teologia, p. 811

[3] J.L. Packer. Teologia concisa, p. 236

20 janeiro 2020

Os membros da IPB e os símbolos de fé

Recentemente tive notícia de uma série de posts no Twitter de presbiterianos que se dizem contra o pedobatismo. Apesar de fazer tanto sentido quanto alguém se dizer pentecostal, mas não crer em dom de línguas e revelação, isso não é necessariamente uma novidade. Desde que eu me tornei membro da IPB que sei de membros da igreja que não apresentam seus filhos ao batismo, sob a crença de que somente quando eles crescerem é que poderão tomar uma decisão por Cristo e, consequentemente, serem batizados. A pergunta aqui deveria ser por qual razão tais irmãos escolheram fazer parte de uma igreja pedobatista em vez de filiar-se a uma igreja credobatista[1].

Neste post não pretendo provar que a prática do batismo infantil é bíblica. Essa é minha convicção e já escrevi sobre isso em outro post (clique e leia), mas hoje vou me deter em outra questão, da qual também já fui defensor, a saber, a tese de a IPB não exigir dos membros a subscrição dos símbolos de fé, sendo esta exigência a ser feita apenas aos oficiais.

Estudando sobre este assunto em nossos padrões de fé e na Constituição da Igreja (CI/IPB), cheguei à conclusão de que os membros devem sim acatar todas as doutrinas expostas na Confissão a fim de serem recebidos como membros da IPB. Para ilustrar, aproveitando o momento em que muitos falam contra o pedobatismo, vou usar esta doutrina para exemplificar o que penso agora.

Primeiramente é preciso lembrar o que preceitua o primeiro artigo da CI/IPB:

Art.1 - A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de Igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve; rege-se pela presente Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo por meio de Concílios e indivíduos, regularmente instalados.

Ou seja, está bem claro que a IPB tem uma doutrina bem estabelecida, expressa em nossos símbolos de fé. Ao olhar para a Confissão de Fé nota-se que está estabelecido que a igreja visível “consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos” (CFW XXV.II). Ao tratar do sacramento do batismo, a Confissão de Fé afirma que “não só os que professam a sua fé em Cristo e obediência a ele, mas os filhos de pais crentes (embora só um deles o seja) devem ser batizados” (CFW XXVIII.IV).

Esta é a razão de você ler no artigo 2 da CI/IPB que “A Igreja Presbiteriana do Brasil tem por fim prestar culto a Deus, em espírito e verdade, pregar o evangelho, batizar os conversos, seus filhos e menores sob sua guarda”.

Quando a Constituição trata dos deveres dos membros da igreja, temos dois desses deveres que precisam ser observados para a nossa discussão: “a) viver de acordo com a doutrina e prática da Escritura Sagrada; d) obedecer às autoridades da Igreja, enquanto essas permanecerem fiéis às Sagradas Escrituras” (CI/IPB Art. 14).

É claro que o crivo para aferir a fidelidade dos oficiais da Igreja à Escritura são os símbolos de fé, adotados pela IPB como sistema expositivo de doutrina. É fácil perceber isso ao verificar o nosso código de disciplina que, ao definir o que é uma falta passível de disciplina, afirma que “falta é tudo que, na doutrina e prática dos membros e concílios da Igreja, não esteja de conformidade com os ensinos da Sagrada Escritura, ou transgrida e prejudique a paz, a unidade, a pureza, a ordem e a boa administração da comunidade cristã” e em seu parágrafo único sustenta que “Nenhum tribunal eclesiástico poderá considerar como falta, ou admitir como matéria de acusação aquilo que não possa ser provado como tal pela Escritura, segundo a interpretação dos Símbolos da Igreja (CI/IPB, Art. 1º)” (CD/IPB Art. 4).

Não é sem razão, então, que uma das funções privativas do Conselho da igreja local seja “velar por que os pais não se descuidem de apresentar seus filhos ao batismo” (CI/IPB, Art. 83, letra u).

Diante disso, penso que aqueles que são recebidos como membros, ao se comprometerem a obedecer às autoridades da igreja estão também reconhecendo que o ensino dessas autoridades, que precisa ser segundo o que está exposto nos símbolos de fé, é um ensino correto.

Seria um contrassenso receber membros que não acatam a doutrina da Igreja, sendo que eles estarão sujeitos à disciplina, como é o caso daqueles que não apresentam os seus filhos ao batismo.

Respondendo à objeções

A despeito de tudo isso há por parte de muitos o entendimento de que a aceitação das doutrinas expostas nos símbolos de fé é uma exigência apenas para os oficiais, por isso, é preciso responder às objeções.

Objeção 1: O Manual de Culto da IPB não traz uma pergunta a respeito da aceitação das doutrinas dos símbolos de fé.

Resposta: Como já afirmei, esta foi minha posição por bastante tempo, mas mediante tudo o que expus a respeito do que está na Confissão, na Constituição da Igreja e em seu código de disciplina, cheguei à conclusão de que esta exigência está sim nas perguntas do código de disciplina, não explicitamente, mas de forma implícita, considerando tudo o que dizem os símbolos de fé e o Manual Presbiteriano.

A última das perguntas que constam no Manual de Culto é a seguinte: “E prometeis mais que, como membros desta Igreja, vos sujeitareis sempre à sua disciplina, e às autoridades nela constituídas para seu ensino e governo, enquanto forem fiéis às Sagradas Escrituras?”.

Diante de tudo o que foi exposto, não é difícil entender que ao prometer que se sujeitará às autoridades para o ensino e governo, o membro está acatando, no fim das contas, a doutrina expressa nos símbolos de fé, visto que os oficiais não podem ensinar nada que esteja em oposição a eles.

Objeção 2: Não podemos negar a água do batismo a quem já foi batizado pelo Espírito Santo, só por não aceitar um ou outro ponto doutrinário.

Resposta: Se isso é verdade, por coerência, nenhum Conselho pode disciplinar membros que não queiram, por exemplo, apresentar seus filhos ao batismo.

Ainda que em nossos Princípios de Liturgia esteja claro que “os membros da Igreja Presbiteriana do Brasil devem apresentar seus filhos para o batismo, não devendo negligenciar esta ordenança” (PL/IPB, Art. 11), que a Constituição da IPB estabeleça que o Conselho deve velar para que os pais não descuidem de apresentar os filhos ao batismo e o Código de Disciplina da IPB afirmar que falta é tudo que na doutrina e prática dos membros não esteja em acordo com as Escrituras conforme a interpretação dos símbolos, nenhum Conselho teria o direito de negar a comunhão da igreja a um membro somente por uma “simples discordância”.

Logo, não precisaríamos nem ter tudo isso explícito em nossos documentos, visto que na prática, não poderíamos sustentar estas posições.

Pra terminar

Há outras objeções que poderiam ser levantadas, mas creio que estas duas são as mais aparentes e que causam mais incômodo. A Igreja Presbiteriana do Brasil tem doutrina definida e a adesão à membresia da igreja é algo voluntário.

Por um lado, os Conselhos das Igrejas precisam ser mais zelosos na recepção de membros, a fim de não trazerem para a igreja problemas que poderiam ser facilmente evitados. Não faz o menor sentido receber um membro que discorde de uma doutrina como o batismo infantil sabendo que ele deverá ser disciplinado quando não apresentar os seus filhos para receberem o sinal e selo do Pacto.

Por outro lado, aqueles que desejam filiar-se à uma denominação, no nosso caso à IPB, devem fazê-lo de uma forma que sejam abençoados e que também sejam uma bênção para a igreja. Aqueles que não concordam com as doutrinas expressas em nossos símbolos de fé têm diante de si várias denominações que creem de forma distinta da nossa. Que se filiem a elas e trabalhem para a glória de Deus, conforme a sua consciência e entendimento bíblico. Creio que isto é melhor do que ser um problema dentro de uma igreja local.


[1] A posição pedobatista defende o batismo dos filhos dos crentes, por entender que eles estão inseridos no Pacto. A posição credobatista entende que o batismo é somente para aqueles que expressam a sua fé em Cristo, deixando de fora, por razões lógicas, as crianças. Estas somente serão batizadas quando declararem a sua fé.

11 janeiro 2020

Você está satisfeito?

Muitos são os que sonham em ganhar muito dinheiro sem esforço algum. Prova disto são as filas e mais filas que se formam em nosso país diante de casas de aposta. Normalmente elas já são grandes, mas basta anunciar um prêmio acumulado e pronto, a fila multiplica enormemente o seu tamanho. Em decorrência disso muitas pessoas perdem dinheiro, bens, dignidade, respeito e até a família por conta dos jogos de azar. A escravidão ao jogo é uma grande desgraça.

É possível afirmar categoricamente que o que leva uma pessoa a viver desta forma, trazendo problemas para si e para outros, é a cobiça. “O décimo mandamento é: ‘Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo’ (Ex 20.17) (Resposta à Pergunta 79 do BCW: Qual é o décimo mandamento?). Como se percebe, não só o dinheiro, mas nada pode ser cobiçado.

A palavra traduzida aqui por cobiça significa, literalmente, desejo. Contudo, a ideia de cobiça é de um desejo desordenado de adquirir, sobretudo, o que é de outrem. No Novo Testamento Tiago fala da dinâmica do pecado e afirma que “cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz ao pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.14-15).

Biblicamente não há problema com o desejo em si, mas com o mau desejo, que é a forma como a Bíblia Nova Versão Internacional traduz a palavra cobiça no texto de Tiago. Podemos pensar em mau desejo em pelo menos dois sentidos: primeiro, é mau desejo tudo aquilo que é diretamente proibido pela lei de Deus. Entretanto, há outro sentido em que é preciso considerar. Bons desejos podem tornar-se maus quando queremos que eles se concretizem custe o que custar. A partir desse momento eles deixam de ser simples desejos para serem os nossos senhores. Eles dominam e ordenam que ajamos desta ou daquela maneira em seu nome. Bons desejos podem se tornar senhores cruéis, é por isso que precisamos manter em mente a exortação paulina, “todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12).

O décimo mandamento ensina, portanto, que o pecado nasce no coração. Como afirma Calvino, “por meio destas palavras, é como se o Senhor pusesse rédeas curtas em todos os nossos fortes desejos que ultrapassam os limites impostos pelo amor aos outros. Todos os outros mandamentos proíbem a prática de atos contra a regra do amor, mas este proíbe até concebê-los no coração”[1].

Com este mandamento o Senhor quer também ensinar o seu povo a estar satisfeito com aquilo que possui. Este povo havia sido libertado da escravidão do Egito, mas continuamente murmurava diante de Deus cobiçando o que deixaram no Egito em vez de se alegrar com o que tinham recebido do seu Redentor. Nas palavras do Breve Catecismo, “o décimo mandamento exige pleno contentamento com a nossa condição, bem como disposição para com o nosso próximo e tudo o que lhe pertence” (Resposta à Pergunta 80 do BCW: O que o décimo mandamento exige?).

Robert Jones instrui sobre como saber se estamos descontentes:

“Um meio prático para identificar raízes do descontentamento é responder honestamente a essas perguntas diagnósticas: ‘O que eu creio que me faria contente? O que eu necessito que aconteça para que eu fique contente?’. Se as suas respostas envolvem alguma mudança de circunstância, ou melhora de um relacionamento, perceba que isso está agora funcionando como a sua fonte de contentamento. Se você tivesse isso, você seria feliz, e se você não tivesse, estaria triste. Você é como um iô-iô no cordão, essa coisa terá você amarrada a si e o lançará para cima e para baixo. Isso é um ídolo que funciona como o seu deus”[2].

É importante sondar sempre o coração, pois aqueles que vivem descontentes estão incorrendo no mesmo pecado dos israelitas no deserto, que esquecendo-se da bênção de ter sido libertos do Egito, ou, em nosso caso, do pecado, olhavam com cobiça para aquilo que seus corações tanto desejavam naquele momento.

“O décimo mandamento proíbe todo descontentamento com a nossa condição, todo movimento de inveja ou pesar à vista da prosperidade do nosso próximo e todas as tendências e afeições desordenadas a alguma coisa que lhe pertença” (Resposta à Pergunta 81 do BCW: O que o décimo mandamento proíbe?). Isso não significa que não possamos almejar ou desejar algo. A Escritura não estimula a passividade ou à falta de propósito na vida. É desejo sadio aspirar um bom emprego, uma melhor condição de vida, etc., desde que isso não nos domine ou que estejamos de olho naquilo que é de outrem.

Se você confia no cuidado de Deus e em sua Palavra, poderá vencer a tentação da cobiça. Olhe para o exemplo do Senhor. Mateus diz que ele foi “levado ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites teve fome” (Mt 4.1-2). Não seria errado que o nosso Senhor desejasse comida naquele momento. Entretanto, o diabo aparece na história e coloca em dúvida a sua filiação. Se ele era mesmo o Filho de Deus, bastava ordenar que as pedras se transformassem em pães.

Jesus responde que “está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). A resposta de Jesus, não entendida por muitos, revela sua confiança no Pai. Basta olhar para o contexto anterior e você percebe isso. Ao ser batizado, os céus se abriram, o Espírito desce sobre o Senhor e uma voz, vinda do céu, afirma: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16-17). A palavra que havia saído da boca de Deus já havia afirmado a filiação, não era preciso pão, ainda que com fome, para que isso fosse comprovado. O desejo lícito pelo pão, neste momento seria mau, caso levasse Jesus a duvidar da palavra do seu Pai.

Firmado na Palavra de Cristo você pode viver satisfeito e até mesmo cumprir a ordenança de se alegrar com os que se alegram, ainda que a alegria do outro seja por ter conseguido aquilo que você também almejava e não obteve, como uma vaga de emprego, a aprovação no vestibular ou a aquisição de uma casa própria, por exemplo. Não obstante, coloque seus desejos diante do Senhor, em nome de Jesus, lembrando-se sempre que precisamos rogar que seja feita a vontade dele e de que “Deus, o vosso [seu] Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.8).


[1] João Calvino. A verdade para todos os tempos, p. 33

[2] Robert Jones. Aprendendo o contentamento em todas as circunstâncias, p. 28