02 julho 2020

Sobre o culto on-line – isso é possível?

Vivemos um tempo difícil. Por causa da pandemia que o mundo enfrenta, a maioria das igrejas suspendeu suas atividades presencias, mas têm buscado alimentar os membros com transmissões de estudo da Palavra de Deus.

Isso tem levado muitos a pensar a respeito deste tema. Por mais que a tecnologia seja uma bênção e esteja sendo usada para edificar os crentes, até que ponto isso substitui ou está em pé de igualdade com as reuniões presenciais?

Dia desse li um artigo em defesa do culto on-line em que um dos argumentos usados foi o de que “digital e concreto se entrelaçam. Uma reunião virtual é uma reunião real. [...] Sendo assim, já não cabe mais falar de reunião on-line versus reunião presencial [...] tais reuniões são presenciais, ainda que a presença seja on-line. O digital nos coloca diante de um novo conceito e experiência de presença”[1].

Pensando nisso, gostaria de analisar o argumento pelo crivo da Escritura. Será que podemos encontrar na Escritura algo que nos leve a pensar sobre isso, ainda que analogicamente? Creio que a forma como o Senhor Jesus ensinou sobre a Lei no Sermão da Montanha pode nos ajudar neste ponto.

No sermão do Monte Jesus contrapôs o ensino errado dos fariseus com o verdadeiro ensino, conforme o espírito da lei. Dentre vários exemplos dados pelo Senhor Jesus, pensemos a respeito do sétimo mandamento. Para os fariseus o adultério acontecia quando um homem se deitava com uma mulher que não fosse a sua. Este pensamento está correto, mas não envolve todo o problema do pecado sexual.

É bom lembrar que o pecado é uma ofensa, primeiramente a Deus. Em razão disso Jesus afirma que um homem que olha para uma mulher com olhar impuro já adulterou com ela. Jesus está tratando a intenção já como pecado, ainda que a conjunção carnal não tenha ocorrido. Ainda que ninguém, a não ser aquele que imaginou, tenha ciência de tal desejo, o Senhor que conhece o coração condena o pecado que, primariamente é contra ele.

Por mais que saibamos que a intenção é pecaminosa, como afirmou Jesus, creio que ninguém defenderia, nem Jesus defendeu, o direito de a esposa separar-se de um marido que pensou de forma maliciosa em relação à sua vizinha. A despeito da intenção de adulterar, o adultério é consumado apenas quando há “comunhão”, ou seja, quando os dois se tornam uma só carne, o que é impossível “virtualmente”. Somente em caso de consumação carnal, “à parte inocente é lícito propor divórcio” (CFW XXIV.V).

Quando escreveu aos Coríntios Paulo afirmou: “Ou não sabeis que o homem que se une à prostituta forma um só corpo com ela? Porque, como se diz, serão os dois uma só carne” (1Co 6.16). É importante notar que a palavra traduzida por “unir” no texto de Coríntios é traduzida por “ajuntar” em Atos 5.13, quando Lucas afirma que dos restantes do povo, “ninguém ousava ajuntar-se a eles” e em Atos 10.28, quando Pedro afirma a Cornélio e sua família que eles bem sabiam “que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça”.

Isso corrobora o que eu mencionei acima. A despeito da intenção de adulterar (virtual, no campo do pensamento) ser pecado, isso não se iguala ao adultério consumado, ou seja, real. A consumação do adultério exige “presença física”.

Sendo assim, guardadas as devidas proporções, creio que podemos pensar de forma analógica em relação ao culto on-line. Ainda que haja uma intenção piedosa quando alguém se conecta ao mesmo tempo em que o restante dos irmãos, na frente de um computador, tal “ajuntamento virtual” nunca será um “ajuntamento real”.

O culto, sobretudo a santa convocação do Dia do Senhor, implica participação conjunta. Percebemos no Salmo 122 a alegria do salmista ao ouvir o chamado para ir à Casa do Senhor. A alegria é porque é para lá que “sobem as tribos, as tribos do Senhor, como convém a Israel, para renderem graças ao nome do Senhor” (1-4). O Salmo 133 ensina que no ajuntamento do povo “ordena o Senhor a sua bênção e a vida para sempre” (3).

O templo simbolizava a presença de Deus no meio do seu povo e apontava para o Senhor Jesus Cristo. É por isso que, com sua vinda, não precisamos mais do templo. Ele mesmo profetizou a destruição do templo, além de ter ensinado à mulher samaritana que o culto não estava restrito a um lugar específico, mas que havia chegado a hora “em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4.23).

Ainda que não haja um local específico para adorar, o ajuntamento da Igreja, templo do Senhor, se faz necessário. À luz do Novo Testamento, podemos ter a mesma alegria descrita no Salmo 122, não por causa de ir ao templo, mas de ir encontrar-se com a Igreja do Senhor para a adoração.

Somente quanto a Igreja está reunida para cultuar no mesmo lugar é que ela pode participar corretamente dos sacramentos e do serviço mútuo (1Co 11.20; 14.23). Isso demonstra a gravidade da exortação do escritor aos Hebreus: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.25). O sentido da palavra congregar que aparece aqui é de “reunir-se em um lugar”. Curiosamente esta palavra só aparece mais uma vez no Novo Testamento, na carta de Paulo aos Tessalonicenses, quando Paulo trata da “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele” (2Ts 2.1). Nem é preciso explicar o caráter presencial desta reunião!

Entendo que há boa intenção em muitos daqueles que têm considerado as transmissões on-line como culto. São irmãos sinceros que querem, de fato, adorar ao Senhor. Todavia, ainda que cada um esteja realmente adorando a Deus particularmente, tais reuniões estão longe de serem o culto ordenado pelo Senhor.

Temo, entretanto, que a defesa e legitimação de um culto on-line leve muitos crentes a permanecerem assistindo os cultos de seus lares quando as igrejas retornarem com as atividades presenciais. Afinal de contas, se o que se faz em casa conta como um culto coletivo, somente por ser no mesmo momento em que outros estão também conectados, pouco importa se a presença é real ou virtual.

Que Deus nos abençoe a fim de que as igrejas possam voltar às suas atividades regulares e presenciais, principalmente com o culto solene do Dia do Senhor, para a glória de Deus.


[1] https://www.misaelbn.com/a-era-digital-e-o-culto-cristao-em-defesa-do-culto-publico-on-line/ Acessado em 2/07/20

19 maio 2020

Não se perca entre narrativas, fique firmado na verdade

Dia desses vi um meme que expressa bem o meu sentimento nesses últimos tempos. Dizia: “quem não está confuso não está bem informado”. Parece que esta é mesmo a realidade de muitos, dentre os quais me incluo. Todos os dias somos bombardeados com notícias conflitantes sobre a origem do vírus, as intenções de governos, tanto mundiais quanto os de nossa nação, diversas teorias que conflitam entre si. Há uma guerra de narrativas em curso.

Se não é difícil perceber que há uma guerra de narrativas, não é tão fácil perceber quais as narrativas que estão em acordo com a verdade. Vou exemplificar com o que vi hoje no Twitter. Alguém postou uma série de prints, de várias pessoas diferentes, com exatamente o mesmo texto, sem tirar nem pôr uma vírgula sequer, sobre o benefício da cloroquina no tratamento do coronavírus. As pessoas que compartilharam tinham a mesma história, uma filha e um genro contaminados que tratados logo no início com a cloroquina foram curados rapidamente.

A intenção de quem compartilhou os prints era provar que os que são pró-Bolsonaro estão criando uma narrativa para que o público se convença de algo que de fato não é verdade. Em princípio talvez você pense: Há alguma dúvida sobre isso? Está muito clara a tentativa de manipular a opinião pública por meio de contas falsas. Mas pense um pouco mais...

Alguém comentou que o que está acontecendo, na realidade, é que aqueles que são contra Bolsonaro estão se passando por apoiadores da cloroquina e espalhando a mesma história na rede a fim de acusar o governo de criar uma fake news. Confuso, não?

Semanas atrás algo parecido ocorreu. Antes da saída do ministro da justiça, jornais afirmavam que ele logo estaria fora do governo. Diante da notícia, os apoiadores do governo diziam que aquilo era uma tentativa da imprensa de desestabilizar o governo, enquanto os contrários ao governo diziam que mais uma vez o presidente estava deixando “vazar” uma notícia falsa para a imprensa noticiar e, depois, não acontecendo o que se havia noticiado, a imprensa ficasse envergonhada.

Não pense que meu ponto neste texto é discutir sobre as narrativas. Minha preocupação é outra. Creio firmemente que tudo aquilo que assentimos como sendo verdade passa pela interpretação do nosso coração, pautado naquilo que ele almeja. Você percebe isto claramente ao observar o que Paulo escreve a Timóteo: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentido coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos” (2Tm 4.3-4).

Mudando o que deve ser mudado, já que o texto trata da recusa de ouvir a sã doutrina e da busca de algo que vá ao encontro dos anseios daquele que recusa a verdade, o princípio permanece para tudo aquilo que o homem deseja. Você precisa atentar àquilo que o seu coração anseia, pois ouvirá as notícias a partir desta perspectiva. Desta forma, os desejos do seu coração podem direcioná-lo a assumir como verdade somente aquilo que está de acordo com o que você tanto anseia, ainda que possa ser falso, fazendo-o cair numa grande armadilha.

Quando eu proponho no texto que você não se perca entre as narrativas e fique firmado na verdade, não estou querendo dizer que é para ficar firme na verdade de uma das narrativas. Por mais que uma delas, provavelmente, esteja mais correta que a outra, não é o que elas afirmam que trará segurança ao seu coração. É preciso ser claro aqui. Muitos estão acatando certa narrativa por colocarem a sua esperança no atual governo, enquanto outros estão aderindo à outra narrativa, por colocar a esperança em qualquer outro que não seja o atual presidente. Ambas as expectativas são idólatras e, por isso, em algum momento, trarão frustração.

A única narrativa que traz verdadeira paz ao coração é a que foi revelada pelo Senhor nas Sagradas Escrituras. Aquilo que o Senhor revelou é a verdade que liberta. Por isso Jesus afirmou: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.31).

Se você está em Cristo, poderá viver firmado na verdade da Escritura e saberá que:

1. Deus é soberano – Nada que aconteceu, está acontecendo ou virá a acontecer, fugiu, foge ou fugirá ao seu controle. “Dele é a sabedoria e o poder; é ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis” (Dn 2.20,21).

Sendo assim, o coronavírus é algo estabelecido por ele, independente de como surgiu, fabricado em laboratório ou naturalmente. O atual governo é estabelecido por ele, o que é verdade também em relação aos governos anteriores e àqueles que virão no futuro.

2. É sua obrigação orar e confiar no Senhor – Os filhos de Deus têm o privilégio de poder colocar diante dele as suas petições, sabendo que ele responderá às orações conforme a sua boa vontade. Peça ao Senhor pelo fim da pandemia, interceda pelas autoridades. Goste você ou não do atual Presidente, como cristão é seu dever interceder por ele (1Tm 2.2). Neste sentido, é triste constatar que muitos que têm enfatizado o dever de orar pelo Presidente Bolsonaro não fizeram o mesmo por presidentes anteriores, que mesmo sendo de esquerda também foram levantados pelo Senhor. Não é a sua concordância com o governo o que deve movê-lo a orar, mas o atendimento à ordenança do Senhor.

3. As circunstâncias não devem definir como você se porta – Diante da falta de certezas em relação ao futuro, muitos cristãos estão desanimados, ansiosos ou ainda irados.

Pensar que o atual Presidente permanecerá no cargo e poderá ser reeleito, ou temer que os contrários consigam o impedimento do seu mandato tem levado crentes pró e contra o governo a estarem furiosos, agredindo os seus irmãos e quaisquer outros que se opuserem às suas ideias. Por não saber quando ou se a situação da pandemia irá passar, muitos estão aflitos. Por causa de incertezas em relação à vida financeira outros beiram ao desespero.

É preciso lembrar que o Soberano Deus está no controle. É preciso lembrar que ele deu solução ao pior dos problemas do homem ao enviar seu Filho a fim de morrer pelos pecados de seu povo (Mt 1.21; Jo 3.16). É preciso lembrar que em Cristo o Senhor nos concede tudo o que é necessário para a vida e para a piedade (2Pe 1.3).

Firmado nestas verdades, faça como o salmista e pergunte a si mesmo: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?” – crendo de todo o coração no que vem a seguir – “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Sl 42.5). Ao proceder desta forma você poderá fazer coro com Paulo que diz: “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13).

A alegria de Paulo não dependia de circunstâncias, mas de estar em Cristo. Em Cristo você também encontrará alegria com ou sem o presidente que você almeja, com ou sem a pandemia e em quaisquer circunstâncias que venham pela frente, na certeza de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Continue tentando se informar e cuide para que o seu coração não o leve a escolher “a verdade” que mais se adeque aos seus anseios. Para isso, firme-se na verdade de Deus, estabelecida em sua Bendita Palavra!

12 maio 2020

Bendita certeza!

“Ao Senhor pertence a salvação!” (Jn 2.9). Esta bela declaração do livro de Jonas deveria levar todos os cristãos a uma confiança inabalável na obra de Cristo em seu favor. Entretanto, esta não é a realidade. Em muitos arraiais evangélicos, ao tratar da certeza da salvação, muitos titubeiam e afirmam que não se pode ter tal certeza, tachando de arrogantes aqueles que têm esta convicção.

Será que é de fato arrogante alguém que crê em Jesus afirmar que está plenamente convicto de que a sua salvação está garantida? Olhando para a Escritura temos abundantes exemplos de que a resposta é um sonoro não!

Pense, por exemplo, na afirmação de Paulo aos filipenses: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). As palavras do apóstolo deixam bem claro que ele não tinha dúvidas a respeito da permanência dos crentes na fé. Paulo entendia, como pode ser visto na epístola aos Romanos, que nada pode separar os crentes “do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39).

Esta convicção está baseada nos méritos de Cristo. É por causa de sua obra que os crentes podem descansar seguros em seu Redentor. No evangelho de João temos afirmações de Cristo que corroboram esta verdade. Jesus afirma que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, par que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). A palavra eterna indica que esta vida dada àquele que crê não tem fim. Esta nova vida tem início quando o coração é regenerado e permanecerá para sempre. Como explica Hendriksen, “a vida que pertence à era futura, ao domínio da glória, torna-se possessão do crente aqui e agora; ou seja, em princípio.[1]

Ainda no evangelho de João o Senhor Jesus afirma que a vontade de Deus é que todo aquele que crer no Filho tenha a vida eterna, e que seria ressuscitado por ele no último dia (Jo 6.40). Afirmar que a salvação pode ser perdida implica, então, na crença de que o Senhor é incapaz de cumprir a sua vontade. Entretanto, o Senhor declara de forma inequívoca, por meio de Isaías: “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10). Até mesmo o ímpio Nabucodonosor declarou que “não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35).

Todo aquele, portanto, que crê em Jesus Cristo pode tomar por certa a sua promessa: “eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que o Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10.28,29).

Por qual razão, então, muitos não conseguem ter segurança da salvação? Pelo simples fato de não crerem nas palavras de Cristo e de acharem que a salvação, de algum modo, depende de seus próprios esforços. Falta-lhes o entendimento da verdade afirmada por Paulo de que “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).

Diante disso, afirmar que se tem certeza da salvação por confiar nos méritos de Cristo não é arrogância. Arrogante é a pseudo-humildade de dizer que não tem certeza, mas que está se esforçando para ser salvo, pois ignora que quando a Escritura afirma que a salvação é pela graça, mediante a fé, significa que não é possível por esforço próprio, mas única e exclusivamente pela fé na obra do Redentor, Cristo Jesus.

Entretanto, é preciso dizer um pouco mais. Os teólogos de Westminster afirmaram acertadamente que “essa segurança infalível [da salvação] não pertence de tal modo à essência da fé que um verdadeiro crente, antes de possuí-la, não tenha de esperar muito e lutar com muitas dificuldades; contudo, sendo pelo Espírito habilitado a conhecer as coisas que lhe são livremente dadas por Deus, ele pode alcança-la sem revelação extraordinária, no devido uso dos meios ordinários” (CFW XVIII.III). Eles afirmaram ainda que “por diversos modos, podem os crentes ter a sua segurança da salvação abalada, diminuída e interrompida” (CFW XVIII.IV).

É claro que o fato de um crente ter a sua segurança da salvação interrompida não significa que ele perdeu a salvação. Você já passou pela experiência de procurar por algo que estava em seu poder? Por diversas vezes isto aconteceu comigo. Já revirei a casa procurando pela carteira que estava em meu bolso. Mudando o que deve ser mudado, é desta forma que vejo os crentes que perderam a segurança da salvação. Em algum momento eles perceberão, pela graça de Deus, que a salvação que julgavam não mais ter estava o tempo todo com eles, pois o Senhor Jesus não perde aqueles que são dele.

Não se apresse, então, em declarar que aqueles que não têm certeza da salvação não estão salvos. Voltando mais uma vez à Confissão de Fé de Westminster vemos que “por diversos modos, podem os crentes ter a sua segurança de salvação abalada, diminuída e interrompida – negligenciando a conservação dela, caindo em algum pecado especial que fira a consciência e entristeça o Espírito Santo, cedendo a forte e repentinas tentações, retirando Deus a luz de seu rosto e permitindo que andem em trevas e não tenham luz mesmo os que o temem; contudo, eles nunca ficam inteiramente privados daquela semente de Deus e da vida da fé, daquele amor a Cristo e aos irmãos, daquela sinceridade de coração e consciência do dever; dessas bênçãos, a certeza de salvação poderá, no tempo próprio, ser restaurada pela operação do Espírito, e por meio delas eles são, no entanto, suportados para não caírem no desespero absoluto” (CFW XVIII.IV).

Se você está firme na fé, louve a Deus pela bendita certeza da vida eterna. Mais ainda, no poder do Espírito Santo, busque desenvolver a sua salvação com temor e tremor, na certeza de que o Senhor tem efetuado em você o querer e o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.12,13) e, como ordenou Pedro, “procurem, com empenho cada vez maior, confirmar a vocação e a eleição de vocês; porque, fazendo assim, vocês jamais tropeçarão. Pois desta maneira é que lhes será amplamente suprida a entrada no Reino eterno do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.10,11).

Que esta convicção o leve a cantar com alegria: “Não sei se ainda longe está, ou muito perto vem, a hora em que Jesus virá na glória que ele tem. Mas eu sei em quem tenho crido e estou bem certo que é poderoso, guardará, pois, o meu tesouro, até o dia final.” (HNC – 105).


[1] William Hendriksen. Comentário de João. p. 166

14 abril 2020

A “ceia online” não une, divide

Quando escreveu sua primeira carta à igreja de Corinto, Paulo havia sido informado por uma família da igreja que um dos problemas que estava ocorrendo ali era de divisão. Uns se diziam de Paulo, outros de Apolo, outros de Pedro e outros de Cristo (1Co 1.11-12), possivelmente o grupo mais problemático, conforme alguns comentaristas do NT.

Este problema da divisão influenciou, inclusive, a forma como os crentes daquela igreja se portavam diante da Ceia do Senhor. No capítulo 11 da carta, a partir do verso 17 o apóstolo Paulo repreende aqueles irmãos afirmando que quando eles se ajuntavam não era o melhor, mas para o pior.

O que estava ocorrendo? Ele volta a afirmar no verso 18 que estava informado haver divisões entre os coríntios e que ele acreditava ser isto um fato. Paulo escreve: “quando vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis” (19). Note bem, a despeito de estarem juntos (no mesmo lugar) a disposição do coração dos crentes fazia com que eles se portassem de modo indevido, cada um pensando em seus próprios desejos.

É por isso que ele exorta: “não tendes, porventura, casas onde comer e beber?” (22). A exortação era necessária, pois, apesar de estarem juntos, alguns tomavam “antecipadamente, a sua própria ceia; e há [havia] quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague” (21).

Após esta repreensão há, então, a orientação sobre a maneira correta de se portar diante da mesa do Senhor (23-25). A ceia aponta para a obra de Cristo em favor de sua Igreja e ao realizá-la, anunciamos a sua morte enquanto ansiamos por sua vinda. Após isso, vem mais uma grave exortação: “Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, como do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (28-29).

A respeito deste ponto há controvérsias sobre o que seria “discernir o corpo”. Trata-se de entender que os elementos da ceia (pão e vinho) são distintos do restante da refeição que eles faziam (já que a ceia ocorria num contexto de um ajuntamento para uma refeição mútua) e representavam o corpo e o sangue do Cristo que está espiritualmente presente na Ceia? Ou significa que os que participam da mesa precisam ter um entendimento correto sobre a igreja, corpo místico de Cristo, o que faria com que eles abandonassem as divisões, fruto do egoísmo?

Argumentando que a Ceia é mais que mero memorial, Bannerman afirma acertadamente que as expressões usadas no contexto “apontam, evidentemente, para um discernimento e uma participação espirituais por parte do crente, não do símbolo, mas da bênção significada; e a um pecado terrível e espiritual, não de um abuso e profanação de símbolos exteriores, mas de um abuso e uma profanação de Cristo, que de fato está presente nesses símbolos”[1] (grifos meus).

Entretanto, entendo que o discernimento de que Cristo está espiritualmente presente nos símbolos não descarta a necessidade, também, de um correto entendimento sobre a unidade da Igreja, antes implica isso, afinal de contas, a morte de Cristo foi pelo seu corpo. Na oração sacerdotal Jesus disse: “Eu te glorifiquei na terá, consumando toda a obra que me confiaste para fazer” (Jo 17.4). Um dos resultados da obra de Jesus é descrito por ele na mesma oração: “a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (17.21).

A igreja de Corinto, em vez de demonstrar esta união ao se reunir para a Ceia, estava fazendo justamente o contrário, cada um pensando em si mesmo em vez de entender que faziam todos parte do mesmo corpo, sendo o momento da Ceia um momento de expressão desta unidade da igreja com Cristo e dos irmãos uns com os outros.

Corroboram com isto as palavras de Calvino ao comentar sobre aqueles que participam indignamente da Ceia do Senhor:

Pois, tal gênero de homens que, sem qualquer centelha de fé, sem qualquer sentimento de caridade, ao tomar a Ceia do Senhor se atropela à maneira de porcos, mui longe está de discernir o corpo do Senhor. Pois, até onde não crêem ser esse corpo sua vida, com a rebeldia com que podem o aviltam, despojando-o de toda sua dignidade; e, por fim, ao recebê-lo assim o profanam e contaminam. Na extensão, porém, em que, alienados dos irmãos e em desacordo com eles, ousam misturar o sagrado símbolo do corpo de Cristo com suas dissensões, não se deve a eles que o corpo do Senhor não seja rasgado e dilacerado, membro a membro[2] (grifos meus).

Diante disso, pense bem! Aqueles que têm advogado a ideia ou, sem nem mesmo refletir teologicamente, já têm feito o que chamam de “ceia online”, estão, na prática, fazendo exatamente aquilo que Paulo estava proibindo aos coríntios: dividir a igreja.

Os coríntios estavam divididos por conta do egoísmo daqueles que não consideravam e não esperavam seus irmãos e o que está por trás da prática da ceia online é a ideia de que não é preciso estar reunido com o corpo, não é preciso o ajuntamento solene no mesmo lugar a fim de participar do sacramento. Eu posso fazer isso da minha própria casa, assistindo a uma transmissão em que um pastor, distante de mim e dos demais irmãos, consagra os elementos. Não importa se não estou juntos aos meus irmãos, eu quero é participar da ceia. A “necessidade” individual está aqui sendo posta em primeiro lugar.

Para aqueles que, como eu, são presbiterianos, é preciso lembrar também daquilo que ensinam os nossos Símbolos de fé. Ao tratar da Ceia a Confissão de Fé de Westminster estabelece que

Nessa ordenança, o Senhor Jesus Constituiu os seus ministros para declarar ao povo a sua palavra de instituição, orar, abençoar os elementos, pão e vinho, e assim separá-los do uso comum para um uso sagrado, para tomar e partir o pão, tomar o cálice (dele participando também) e dar ambos os elementos aos comungantes, e tão somente aos que se acharem presentes na congregação (CFW XXIX.III – grifos meus).

Está bem claro aqui o caráter comunitário da Ceia onde todos os presentes no culto partilham do mesmo pão e do mesmo cálice. Isso fica ainda mais claro no parágrafo seguinte da confissão:

A missa particular ou recepção do sacramento por um só sacerdote ou por uma só pessoa, bem como a negação do cálice ao povo, a adoração dos elementos, a elevação ou procissão deles para serem adorados, e a sua conservação para qualquer uso religioso, são coisas contrárias à natureza deste sacramento, e à instituição de Cristo (CFW XXIX.IV – grifos meus).

Ao comentar estas seções, Van Dixhoorn esclarece:

A última linha do terceiro parágrafo especifica que a ceia do Senhor não deve ser recebida de forma privada. Um motivo pelo qual a Assembleia de Westminster desaprovava que o pão e o vinho fossem levados a pessoas ausentes no culto de adoração foi apresentado no parágrafo primeiro: o objetivo desta refeição é celebrar a comunhão não somente com Cristo, mas também com os demais cristãos.

Um segundo motivo relacionado ao porquê a assembleia desaprovava a comunhão privada é extraído da igreja disfuncional de Corinto: não somente a abordagem individualista dos crentes de Corinto mereceu uma repreensão apostólica (1Co 11.20; cf. 17-22), mas também parece ter sido o padrão estabelecido dos primeiros cristãos ‘reunidos’ [...] partir o pão’ e não o comer em isolamento (e.g., At 20.7).

Um terceiro motivo pelo qual a assembleia trabalhou para banir a prática ainda popular da comunhão privada é sugerido no parágrafo 2 e esclarecido na linha inicial do parágrafo 4: a Igreja Católica Romana há muito ensinava a eficácia da missa para a salvação; os sacerdotes ofereciam missas privadas como um tipo de graça salva-vidas. A assembleia considerava a continuação da comunhão privada um pobre exemplo, mesmo nas igrejas onde a teologia da ceia do Senhor tinha sido corrigida. Como os israelitas que deveriam se lembrar dos rebeldes dos dias pelo deserto, os protestantes deveriam se lembrar dos romanistas do deserto teológico e evitar os caminhos destes (1Co 10.6)”[3] (grifos meus).

Diante do ensino das Escrituras e do que estabelece a Confissão de Fé não há, portanto, a menor possibilidade de realizar a chamada “ceia online”, pelo menos para os presbiterianos.

Aqueles que estão tentando inovar com esta prática estão dividindo o corpo e repetindo erros do passado. Além disso, estão abrindo um precedente perigoso, pois, quando as coisas retornarem à normalidade, o que impedirá estas igrejas de continuarem a celebrá-la online? Mais ainda, estas igrejas acabam por estimular os desigrejados, que entendem não haver a necessidade de se estar ligado a uma igreja local, a permanecerem como estão, pois aquilo que eles antes não tinham, a comunhão da mesa do Senhor, pode ser agora “desfrutada” do sofá de suas casas sem precisarem se submeter aos líderes que o Senhor estabeleceu para a sua igreja, tampouco se envolverem com outros.

Os tempos de pandemia que vivemos têm sido terríveis para aqueles que amam o Senhor e à sua igreja. Entretanto, nada está fora do controle soberano de Deus que diz, por meio de Paulo, em sua Palavra que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28). Em vez de inovações, é tempo, então, de refletirmos a respeito de nossas convicções. É tempo de pensarmos sobre o quanto, de fato, consideramos a Bíblia a nossa regra de fé e de prática. É tempo de voltar os olhos para a história da igreja a fim de não incorrermos em erros do passado.

Almeje e ore para que o Senhor nos abençoe e nos dê mais uma vez a benção de estarmos reunidos como um só corpo, ouvindo sua voz por meio da pregação pública e participando do sacramento em que anunciamos a morte de Cristo em favor do seu povo que, unido, agora anseia pela vinda daquele que está vivo!


[1] Bannerman, James. A Igreja de Cristo: Um Tratado sobre a Natureza, Poderes, Ordenanças, Disciplina e Governo da Igreja Cristã (VOLUMES 1 e 2) . Os Puritanos. Edição do Kindle.

[2] Calvino, J. (2006). As Institutas. (Edição Clássica, Vol. 4, p. 391). São Paulo: Editora Cultura Cristã.

[3] Dixhoorn, Chad Van. (2017). Guia de estudos da Confissão de Fé de Westminster. p. 393. São Paulo: Editora Cultura Cristã.

08 abril 2020

A Ceia, alimento para a alma

O segundo dos sacramentos que temos no Novo Testamento é a Ceia do Senhor. Já vimos que o Senhor do Pacto, Jesus Cristo, substituiu a circuncisão pelo batismo. Da mesma forma, a Páscoa, dada pelo Senhor a Israel, foi substituída pela Ceia.

No Novo Testamento percebemos que foi exatamente na Páscoa que Cristo Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29), instituiu a Ceia, como uma lembrança de sua obra (Mt 26.26-30). A Ceia seria em memória daquele que deu o seu corpo e o seu sangue, “o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.28).

A Ceia representa para o cristão aquilo que a Páscoa representa para o judeu, libertação, mas não do cativeiro do Egito e sim do cativeiro do pecado (Cl 1.13). A Páscoa demonstrava, como sombra, aquilo que o Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro Perfeito, iria fazer em favor de sua igreja. Algo que demonstra isso de forma magnífica é o relato de João sobre a crucificação. Ele afirma que os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos que estavam crucificados, para que não houvesse corpos na cruz durante o sábado. Ao chegar perto de Jesus o guarda constatou que ele já estava morto e não lhe quebrou a pernas. João afirma que isso foi para cumprir a Escritura: “Nenhum dos seus ossos será quebrado” (Jo 19.31).

Esta foi uma citação direta de um dos Salmos messiânicos de Davi (Sl 34.20). Entretanto, é preciso voltar um pouco mais na história para perceber a que se refere tudo isso. Em Êxodo o Senhor, ao instituir a Páscoa, ordenou: “O cordeiro há de ser comido numa só casa; da sua carne não levareis fora da casa, nem lhe quebrareis osso nenhum” (Ex 12.46). Tudo isso apontava, então, para o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Jesus Cristo (Jo 1.29). É importante notar que, após a morte do Senhor, não há mais menção às comemorações da Páscoa pela igreja, mas às celebrações da Ceia do Senhor.

Portanto, “a Ceia do Senhor é um sacramento no qual, ao dar e receber pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a sua morte; e aqueles que participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal, mas pela fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos para o seu alimento espiritual e crescimento em graça” (Resposta à Pergunta 96 do BCW: O que é Ceia do Senhor?).

Na Ceia devemos nos examinar para comer do pão e beber do cálice (1Co 11.28), entendendo que não podemos permanecer em nosso pecado diante da lembrança do sacrifício do Cordeiro de Deus. Na carta aos Coríntios, Paulo afirmou que eles não poderiam se orgulhar do pecado exatamente porque “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1Co 5.7). Muitos coríntios estavam morrendo exatamente por participar da Ceia de modo indigno.

A Igreja de Roma erroneamente entende que na eucaristia os elementos se transformam no corpo de Cristo que é novamente oferecido em sacrifício. Esse não é o entendimento Reformado. A Confissão de Fé de Westminster explica essa questão afirmado que “Os que comungam dignamente, participando exteriormente dos elementos visíveis desse sacramento, também recebem intimamente, pela fé, a Cristo crucificado e a todos os benefícios da sua morte, e dele se alimentam, não carnal ou corporalmente, mas real, verdadeira e espiritualmente; não estando o corpo e o sangue de Cristo, corporal ou carnalmente nos elementos pão e vinho, nem com eles ou sob eles, mas, espiritual e realmente, presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos em relação aos seus sentidos corporais” (CFW XXIX.VII).

Em suma, na Ceia os crentes são espiritualmente fortalecidos em sua fé, por estarem unidos à Cristo. Em relação ao sacramento do batismo, temos algumas diferenças. Além da diferença dos elementos, água no batismo, pão e vinho na Ceia, o primeiro é administrado uma só vez, enquanto o segundo é continuamente administrado pela Igreja.

O batismo marca a entrada na igreja, enquanto a Ceia é para aqueles que já fazem parte do povo de Deus. A despeito disso, ela é vedada às crianças que, mesmo sendo batizadas e fazendo parte do povo de Deus, não fizeram ainda sua profissão de fé, por não terem “idade e aptidão para se examinarem a si mesmos” (CMW – pergunta 177 – Cf 1Co 11.28-29).

“Exige-se daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor que se examinem sobre o seu conhecimento em discernir o corpo do Senhor, sobre a sua fé para se alimentarem dele, sobre o seu arrependimento, amor e nova obediência, para não suceder que, vindo indignamente, comam e bebam para si a condenação” (Resposta à Pergunta 97 do BCW: O que é exigido para participar dignamente da Ceia do Senhor?).

Diante de tudo isso constatamos que é por não entenderem corretamente o que é a Ceia do Senhor que muitos cristãos tanto a negligenciam quanto ao mesmo tempo anseiam o ano inteiro pela Páscoa. Talvez isso se dê por conta dos inúmeros teatros e encenações sobre a Paixão de Cristo. Muitos são levados à emoção ao ver Jesus apanhando e saem impactados, muitas vezes sem entender o que de mais grave ocorreu por ocasião da sua morte, ele ter recebido sobre si a justa ira do Pai em lugar de pecadores que, pela fé, podem ter agora vida. Tais encenações, por mais profissionais que sejam, além de ser uma quebra do segundo mandamento, não conseguirão encenar isso e, se a Ceia, que deve ser tomada com entendimento, não encenar, nada mais o fará.

Sabendo disso, você não pode transigir com o pecado, mas, no poder do Espírito de Cristo, deve lutar contra ele. O puritano Thomas Watson escreveu:

se uma mulher viu a espada que matou seu marido, quão odiosa ela será à vista dela! Acaso consideraríamos leve aquele pecado que fez a alma de Cristo ‘profundamente triste até a morte (Mc 14.34)? Acaso nos seria motivo de júbilo aquilo que fez o Senhor Jesus Cristo ‘um homem de dores’ (Is 53.3)? Acaso ele não clamou: ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste’ (Mt 27.46)? Acaso esqueceríamos aquele pecado que fez Cristo esquecer-se de si mesmo? Oh, que olhemos para o pecado com profunda indignação![1].

Diante do imenso privilégio que é participar da Ceia do Senhor, lembre-se do quão terrível é o pecado que fez morrer o seu Senhor e receba de sua graça para viver em santidade a cada dia de sua vida, para a glória dele. Não se ausente da Ceia do Senhor!


[1] Thomas Watson. A Ceia do Senhor. Pg. 37,38

31 março 2020

Saudades do culto solene

“Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se não lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria”.

Salmo 137.5-6

O contexto do texto acima, claro, é diferente do nosso. Levado ao cativeiro, o povo de Deus ouvia os deboches dos seus opressores. Conforme Joel Beeke, os cânticos que eles pediam que fossem entoados, “segundo a definição mais aceita, são os salmos que começam com a palavra ‘Aleluia’. Eles falam da grandeza de Jerusalém, de Sião, do templo ou da proteção que o povo de Deus encontrava nele”[1]. Agora, os mesmos que arrasaram a Sião pediam ao povo que cantasse a respeito da grandeza da cidade e do seu Deus, certamente um grande escárnio.

É preciso saber disso a fim de compreender as duras palavras de imprecação, proferidas no final do salmo, que pediam a Deus que desse o pago aos inimigos pelo mal que haviam feito a eles. A oração é um clamor pela justiça de Deus, pois o que estava em jogo era o povo de Deus que, se exterminado, não veria cumprida a promessa de redenção, da parte do Senhor.

Mas meu ponto hoje diz respeito ao ajuntamento solene do povo de Deus. É bem verdade que estamos distantes desse contexto de guerra e perseguição que vivia o povo de Deus na antiga aliança, entretanto, certamente estamos junto deles no sentido de que também nos encontramos privados do culto solene, em decorrência da pandemia que assola o mundo.

Pense você o que quiser pensar a respeito da verdade ou não da epidemia, se o vírus é ou não tudo isso que dizem, se ela é ou não orquestrada por interesses político-econômicos, se a mídia está ou não em campanha para provocar a histeria, a verdade é que tudo isso está debaixo do governo de Deus, que soberanamente usa todos os atos bons ou maus, dos homens bons ou maus, para providencialmente cumprir a sua vontade.

Diante disso, a pergunta é: como você se sente ao estar sem o culto solene do Dia do Senhor? Atente bem à expressão do salmista: “Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria”. É preciso lembrar o que o templo que estava em Jerusalém significava para o povo de Deus. Ali estava o símbolo da presença de Deus no meio do povo.

É por causa disso que temos expressões como “uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo” (Sl 27.4), ou “eu amo, Senhor, a habitação da tua casa e o lugar onde tua glória assiste” (Sl 26.80), ou ainda, “quão amáveis são os teus tabernáculos, Senhor dos Exércitos! A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor; o eu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo!” (Sl 84.1-2).

Alguns podem objetar neste ponto, dizendo que os textos se referem ao templo e que hoje não temos mais necessidade dele, pois insistir com a figura do templo seria voltar às sombras. É claro que concordo que não temos mais o templo e que o espaço que a igreja usa para adoração, chamada por muitos de templo, não tem a mesma característica do Templo no Antigo Testamento, pois o culto ao Senhor não está restrito a um lugar, como afirmou Jesus à mulher samaritana (Jo 4).

Estou em acordo com Bannerman que escreveu:

Sem dúvida nenhuma é verdade que o Espírito de Deus habita em cada crente de forma individual, fazendo da alma e corpo deles o seu templo, e glorificando o lugar da sua presença com todas as graças celestiais e santas. Mas, acima e além disso, num sentido mais elevado que não se pode aplicar a nenhum crente de forma individual, o Espírito de Deus faz a sua habitação na igreja, enriquecendo-a com toda a plenitude de vida e poder e privilégio que nenhum crente pode receber ou conter individualmente[2] (grifos meus).

Sobre esta igreja Bannerman diz ainda que

as Escrituras nos asseguram que há uma igreja que é a santa Noiva de Cristo, unida a ele por um pacto eterno — uma associação que ele chama de seu corpo espiritual, do qual ele é o Cabeça exaltado — uma comunidade descrita como “templo do Espírito Santo”, cujos membros são “pedras vivas e espirituais” usadas na sua construção[3].

Ou seja, onde está o povo de Deus reunido em obediência à santa convocação para o culto do Dia do Senhor, ali está o Templo de Deus! Logo, você precisa olhar para todos os textos do Antigo Testamento em que o povo ansiava pelo templo, ou pela Casa do Senhor, entendendo que o princípio permanece: O ajuntamento para a adoração ao nome do Senhor é algo pelo que os cristãos precisam ansiar!

Em tempos de isolamento, os cristãos devem clamar ao Senhor que muito em breve conceda a bênção do retorno àquilo que lhes deveria ser mais caro, o ajuntamento do povo de Deus a fim de prestar culto ao seu nome!

O lamento do salmo 137 ecoa o de Jeremias, que escreveu: “Os caminhos de Sião estão de luto, porque não há quem venha à reunião solene (Lm 1.4). A Igreja do Antigo Testamento sabia e a Igreja neotestamentária tem de ter esta mesma convicção de “como é bom e agradável viverem unidos os irmãos”, pois, “ali [no ajuntamento] ordena o Senhor a sua bênção e a vida para sempre” (Sl 133).

Louvemos a Deus pelos recursos tecnológicos que temos hoje, que têm permitido que a Palavra de Deus chegue aos lares dos crentes que podem cultuar de forma doméstica neste tempo em que as autoridades orientam a evitar as aglomerações, mas não pensemos que o culto doméstico se equipara ao culto solene ordenado pelo Senhor, quando a Igreja, composta de várias famílias redimidas por Jesus Cristo, bendizem juntas o seu Salvador, compartilham dons e participam dos sacramentos.

Sobre isto, atentemos ao que ensina a Confissão de Fé de Westminster, padrão de fé para os presbiterianos:

Agora, sob o Evangelho, nem a oração, nem qualquer outro ato do culto religioso é restrito a um certo lugar, nem se torna mais aceitável por causa do lugar em que se ofereça ou para o qual se dirija, mas Deus deve ser adorado em todo lugar, em espírito e em verdade, tanto em família, diariamente, e em secreto, estando cada um sozinho, como também, mais solenemente, em assembleias públicas, que não devem ser descuidadas, nem voluntariamente desprezadas nem abandonadas, sempre que Deus, pela sua providência, proporcione ocasião. (CFW XXI.VI).

Minha oração é para que o povo de Deus aprenda a valorizar cada vez mais o ajuntamento solene, não o deixando por quaisquer descuidos. Que o Senhor, muito em breve, permita que a sua Igreja possa voltar a se reunir, para a sua própria glória e louvor!


[1] Bíblia de estudo Herança Reformada

[2] Bannerman, James. A Igreja de Cristo. Os Puritanos. Ed. Kindle

[3] [3] Bannerman, James. A Igreja de Cristo. Os Puritanos. Ed. Kindle

27 março 2020

Batismo, sinal e selo do Pacto da graça

O entendimento Reformado acerca do batismo difere da posição católico romana, que ensina em sua doutrina da regeneração batismal que o batismo é essencial para a salvação. Também difere dos irmãos evangélicos que entendem que ele é somente um sinal de arrependimento. Muitos cristãos, com base no texto de Marcos 16.16, “Quem crer e for batizado será salvo;” entendem que para que alguém receba o batismo deve primeiramente dar evidências de que creu e, exatamente por isso, não aceitam a pratica do batismo infantil.

“Batismo é um sacramento no qual o lavar com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo demonstra e sela a nossa união com Cristo, a participação das bênçãos no pacto da graça, e a promessa de pertencermos ao Senhor” (Resposta à Pergunta 94 do BCW: O que é Batismo?).

Como entendemos que o pacto da graça teve início no Antigo Testamento o que temos no Novo Testamento é a sua continuidade, pois o Senhor não volta atrás em sua Palavra (Nm 23.19; Tt 1.2). Diferente do primeiro pacto, o pacto da obras, em que a vida era prometida sob a condição de obediência perfeita, no pacto da graça o Senhor “livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação em Jesus Cristo, exigindo daqueles a fé neste para que sejam salvos” (CFW VII.III). A diferença é que no Antigo Testamento era preciso crer na promessa do Messias, enquanto no Novo Testamento deve-se crer no em seu sacrifício, efetuado em favor de pecadores.

Já vimos que o sinal dado por Deus no Antigo Testamento para marcar a inserção daqueles que criam, bem como daqueles que nasciam na comunidade da fé foi a circuncisão. Com a vinda do Senhor Jesus, muita coisa mudou quanto à administração do pacto. Como exemplo, temos o fim dos sacrifícios que apontavam para Cristo (Jo 1.29; Hb 7.26,27). Houve também a mudança do sinal do Pacto, como veremos agora.

No evangelho conforme Lucas, temos o relato da circuncisão de Jesus (Lc 2.21). Ele foi circuncidado, pois convinha cumprir toda a Lei. Também para cumprir a Lei ele se apresentou ao batismo de João (Mt 3.15), que era o ritual de purificação que havia no Antigo Testamento (Nm 8.5-7; Ml 3.1 cf Nm 8.6), como podemos entender a partir da pergunta feita a João, “Então, por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?” (Jo 1.25). Isso explica porque batizamos por aspersão. Entendemos ser esta a forma bíblica, apesar de aceitarmos o batismo feito por efusão ou imersão.

Quando, porém, o Senhor enviou seus discípulos a pregar o evangelho, mandou-os batizar os conversos, não com o batismo de João, mas agora em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mt 28.19; At 19.1-5). O Senhor do Pacto muda o sinal. Em vez da circuncisão, aqueles que são inseridos na comunidade da fé recebem o batismo cristão.

O texto de Colossenses 2.11-12 demonstra claramente que a circuncisão agora não é mais física, é uma “circuncisão espiritual”, ou seja, a união mística com Cristo por meio do batismo do Espírito Santo, que é simbolizado pelo batismo com água (ver também Rm 6.3-4). Semelhante à circuncisão, que representava a purificação necessária para o pecador relacionar-se com um Deus Santo, o batismo representa o lavar regenerador do Espírito Santo operado no pecador. Isso pode ser visto de forma abundante no Novo Testamento (At 22.16; Tt 3.5; 1Co 6.11).

Essa representação fica ainda mais evidente na carta aos Efésios. Paulo afirma que Jesus se entregou pela igreja “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água, pela palavra” (Ef 5.26). É mui certo que o batismo cristão representa a lavagem espiritual, realizada pelo Espírito na vida dos crentes.

Quando ordenou o batismo, o Senhor Jesus disse que ele deveria ser feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Com isso temos a identificação da Trindade na salvação do homem, como vemos em 1Pedro 1.2: “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”.

“O Batismo não deve ser ministrado àqueles que estão fora da igreja visível, enquanto não professarem sua fé em Cristo e obediência a ele, mas os filhos daqueles que são membros da igreja visível devem ser batizados” (Resposta à Pergunta 95 do BCW: A quem o Batismo deve ser ministrado?).

Em outras palavras, ele é ordenado e não deve ser visto como algo de somenos importância, pois é um sinal perceptível da graça da salvação efetuada graciosamente pelo Senhor em seus eleitos. Além da ordem do próprio Senhor, para que os novos convertidos o recebam (Mt 28.19) temos também a ordem e a prática, por parte dos apóstolos e da igreja primitiva (At 2.38,41; 8.12,36; 9.18; 10.47 16.33; 19.5).

Como a circuncisão, o batismo marca a inclusão no povo do Pacto. Se o pacto permanece o mesmo, mudando apenas a sua administração e sinal, por implicação deve haver o batismo de filhos de crentes e não somente daqueles que já deram prova de fé e arrependimento, como entendem algumas igrejas cristãs. O silêncio do Novo Testamento usado por eles para dizer que crianças não podem receber o sinal do pacto, pelo fato de não terem condições de crer, deve ser entendido justamente ao contrário. Se não há mudança no significado do sinal, na nova Aliança inaugurada pelo Messias é evidente que os filhos nascidos em um lar pactual são contados como povo de Deus. É claro que isso não os exime de crer e, no momento próprio, professarão a sua fé diante da igreja.

Isso implica na responsabilidade dos pais em instruírem os filhos nos caminhos do Senhor, da mesma forma que acontecia com o povo de Israel no Antigo Testamento (Dt 6.6-9) e está em pleno acordo com a ordem do Senhor de fazer discípulos, batizando-os e ensinando-os a guardar todas as coisas que ele ordenou (Cf. Mt 28.18-20).

Nesse ponto alguém poderia indagar: “mas se os filhos de crentes também têm a responsabilidade de crer, porque não esperar que isso seja evidenciado a fim de não correr o risco de se ministrar o batismo a alguém que não é, de fato crente?”. Levado às últimas consequências, esse pensamento protelaria muito o batismo até de adultos. Lembre-se que na igreja primitiva ele era administrado tão logo alguém declarasse que cria. Isso levou os apóstolos a batizarem Simão (At 8.13), que mais à frente se mostrou alguém que não havia crido verdadeiramente (At 8.20-24).

O Batismo, sinal e selo do Pacto, é uma bênção para o cristão. No caso daqueles que são batizados na infância, será também uma constante lembrança da rebeldia contra o Senhor, caso se afastem dos seus caminhos após terem tido o privilégio de nascer em um lar que ama o Deus do Pacto.

14 março 2020

As santas ordenanças

Diferente do catolicismo romano que afirma serem sete os sacramentos[1], as igrejas protestantes entendem que há somente dois sacramentos no Novo Testamento, a saber, o batismo e a ceia do Senhor. Esses dois são os únicos ordenados por Jesus Cristo e que devem ser administrados pela igreja do Senhor.

“Um sacramento é uma santa ordenança, instituída por Cristo, na qual, por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados nos crentes” (Resposta à pergunta 92 do BCW: O que é um sacramento?). Para os reformadores, a administração correta dos sacramentos constitui-se em uma das marcas da verdadeira igreja de Cristo, somado à pregação fiel das Escrituras e ao exercício fiel da disciplina.

Eles são sinais visíveis ordenados por Cristo à sua igreja a fim de representar realidades espirituais. Conforme Calvino, “uma ordenança é um sinal externo pelo qual o Senhor retrata e testifica a sua boa vontade para conosco, a fim de dar suporte à nossa débil fé. [...] é uma expressão da graça de Deus declarada por um sinal exterior”[2]. Eles constituem-se, portanto, os únicos sinais visíveis ordenados pelo Senhor Jesus no Novo Testamento. Neles temos visivelmente representadas as realidades espirituais proclamadas nas Escrituras a respeito da purificação do pecador e de sua comunhão com o corpo de Cristo. Como afirmou Thomas Watson, “a Palavra é uma trombeta que proclama Cristo; o sacramento é um espelho que o representa”[3].

Entretanto, no Antigo Testamento essas realidades já eram proclamadas por meio de sombras (Cl 2.16-17) e também representadas visivelmente ao povo de Israel. Aqui é preciso lembrar que cremos que o Pacto da Graça foi estabelecido tão logo o homem pecou, sendo administrado no Antigo Testamento por meio de sombras que apontavam para Cristo, a realidade vista no Novo Testamento. Sobre isso a Confissão de Fé de Westminster ensina que “os sacramentos do Antigo Testamento, quanto às coisas espirituais por esses significadas e representadas, eram, em substância, os mesmos que os do Novo Testamento”.

O primeiro deles, a circuncisão, foi ordenada por Deus à Abraão para marcar a inclusão das crianças no Pacto que Deus tinha com seu povo (Gn 17.12-13). Deveriam ser circuncidadas todas as crianças nascidas no povo de Deus, bem como aqueles que estavam sob a autoridade do líder da família. Também aqueles que se convertiam à fé dos judeus e queriam participar da Páscoa, deveriam receber o sinal do Pacto (Ex 12.48).

O sinal do Pacto era uma constante lembrança de que o Senhor exige obediência do seu povo e esse ato higiênico apontava para a necessidade de purificação e de uma vida santa diante de Deus (Dt 10.12-16).

O segundo sacramento do Antigo Testamento era a Páscoa. Ela foi ordenada pelo Senhor por ocasião da saída de Israel da escravidão do Egito. Deus iria derramar sua ira sobre o Egito, matando todos os primogênitos, mas faria distinção não matando os primogênitos do seu povo. Ele ordenou, então, que se tomasse um cordeiro, colocasse o seu sangue na verga das portas e o comessem assado. Quando o Senhor começasse a ferir o Egito ele “passaria” as casas com sangue. Páscoa significa exatamente isso, passagem, e os israelitas deveriam celebrá-la todos os anos para lembrar que o Senhor os havia libertado do Egito e os livrado também da sua ira. O cordeiro foi morto em lugar dos filhos de Israel (Ex 12.1-28).

“Os sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e a Ceia do Senhor” (Resposta à Pergunta 93 do BCW: Quais são os sacramentos do Novo Testamento?). Eles representam a realidade daquilo que era apenas sombra no Antigo. Como ensina a Confissão de Fé, “sob o Evangelho, quando foi manifestado Cristo, a substância, as ordenanças, pelas quais este pacto é dispensado, são a pregação da Palavra e a administração dos Sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor; por essas ordenanças, posto que poucas em número e administradas com mais simplicidade e menos glória externa, o pacto é manifestado com mais plenitude, evidência e eficácia espiritual, a todas as nações; aos judeus bem como aos gentios” (CFW VII.VI).

Por serem os sacramentos uma ordenança de Deus para o nosso benefício espiritual, eles não devem ser negligenciados. “Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação não por alguma virtude que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas somente pela bênção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que os recebem pela fé” (Resposta à Pergunta 91 do BCW: Como os sacramentos se tornam meios eficazes para a salvação?).

Isso é importante ser entendido, pois há muitos que tem negligenciado o batismo. Pessoas que até mesmo dizem crer em Jesus, mas que preferem se abster do sacramento por causa de tradição religiosa da família, por exemplo. De igual modo, muitos cristãos tem negligenciado a Ceia do Senhor, faltando aos cultos dominicais sem qualquer justificativa plausível.

Como escreveu James Bannerman,

na comunhão com a igreja, e no uso das suas ordenanças, há uma experiência com uma influência espiritual, que o cristão não pode gozar quando está isolado; e por meio do ministério do sacramento e da ordenança, o poder da igreja se torna útil de forma muito perceptível e evidente para a confirmação da fé, o crescimento da graça, o auxílio da santidade, e o estabelecimento da obediência dos crentes. Por seu ministério dessa provisão espiritual, feita por ordenança e sacramento, para ajuda e progresso dos seus membros, a igreja torna-se um poder vivo para a alma dos crentes, extremamente poderoso e eficaz; e dia após dia, à medida que administra os sacramentos e, através deles, como canais, comunica uma graça e uma influência que não provém dela mesma, opera como o mais poderoso instrumento para a edificação do corpo de Cristo[4].

As santas ordenanças foram dadas pelo Senhor para o benefício de sua Igreja. Valorize-as e participe delas para a glória do seu Redentor.


[1] Além dos dois sacramentos ordenados por Cristo a ICAR acrescentou: confirmação, penitência, ordenação, matrimônio e extrema unção;

[2] João Calvino. A verdade para todos os tempos. Ed. PES, p. 78

[3] Thomas Watson. A Ceia do Senhor. P. 11

[4] James Bannerman. A igreja de Cristo. Ed. Kindle, posição 5408

20 fevereiro 2020

A Palavra de Deus e a salvação

Quando escreveu sua segunda epístola a Timóteo, Paulo, após elogiá-lo, fez uma recomendação: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Tm 3.14,15).

O texto é claríssimo e ensina que a Palavra de Deus é suficiente, ou melhor, é a única fonte para que alguém se torne sábio para a salvação pela fé em Cristo. Para isso, “O Espírito de Deus torna a leitura e, especialmente, a pregação da Palavra, meios eficazes para convencer e converter os pecadores, para os edificar em santidade e conforto, por meio da fé para a salvação” (Resposta à Pergunta 89 da CFW: Como a Palavra se torna eficaz para a salvação?).

Você se lembra da história de Lídia? Lucas registra que por ocasião da estada de Paulo em Filipos o apóstolo foi até um rio em que havia um lugar de oração. Lá havia algumas mulheres e Paulo pregou para elas. O texto diz que “certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia (At 16.14). Apesar de o texto não mencionar especificamente o Espírito Santo podemos ter certeza de que esta foi uma ação dele, pois Jesus afirmou: “quando ele vier convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8).

A despeito disso, muitas denominações evangélicas têm se deixado influenciar pelo pragmatismo e têm recorrido a vários métodos que supostamente têm dado certo para trazer pecadores ao “arrependimento”. O problema aqui é que, na ânsia de trazer pessoas para as igrejas, os métodos não têm sido questionados e analisados pelo crivo da Santa Palavra de Deus.

Como exemplo disso temos as várias igrejas ligadas a um movimento denominado “Sensível aos Interessados”. Esta ideia está presente em um livro que há alguns anos foi moda no Brasil, Uma igreja com propósitos. Neste livro o autor, Rick Warren, divulga ideias do tipo: pregar o evangelho nos termos do incrédulo a fim de que seja agradável e fácil eles se tornarem crentes, e mudar os métodos sempre que necessário. Para isso, ele ensina: “Estabeleça um culto voltado intencionalmente ao objetivo de que os membros da igreja tragam seus amigos. E torne esse culto tão atraente, agradável e relevante aos sem-igreja, que os membros de sua igreja ficarão ansiosos por compartilhar esse culto com os perdidos pelos quais eles se interessam”[1].

John MacArthur afirma que alguns dos gurus desse movimento aconselham inclusive a retirar do sermão todas as referências explícitas à Bíblia e ensinam a nunca pedir à congregação para abrir a Bíblia em um texto específico, pois os “interessados” ficam desconfortáveis com essa atitude[2]. Para esse tipo de movimento, a quantidade de pessoas atraídas ao culto valida o método, afinal, os fins justificam os meios.

É preciso voltar os olhos para o que Paulo afirmou a Timóteo: as Escrituras é que tornam o homem sábio para a salvação. O próprio Senhor Jesus afirmou certa vez: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38). Paulo, agora escrevendo aos romanos, assevera que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17).

É por meio da Palavra de Deus, e não de técnicas humanas, que o Espírito Santo convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Por esta razão é que Paulo, depois de afirmar a Timóteo que a Palavra de Deus é que torna o homem sábio para a salvação, continua sua argumentação dizendo que toda a Escritura é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2 Tm 3.16). Essa utilidade da Escritura, conforme Paulo, tem um fim: é para “que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.17).

Ao crer na suficiência das Escrituras para a salvação, a igreja não precisará recorrer a métodos humanos para que os homens creiam e, assim, glorificará o Senhor.

“Para que a Palavra se torne eficaz para a salvação devemos ouvi-la com diligência, preparação e oração; recebê-la com fé e amor, guardá-la em nosso coração e praticá-la em nossa vida” (Resposta à Pergunta 90 do BCW: Como se deve ler e ouvir a Palavra a fim de que ela se torne eficaz para a salvação?). Isso quer dizer que a fé cristã é racional. Há muitos que acham que em matéria de fé é preciso deixar a razão de lado. Isso explica a quantidade de pessoas que “tomaram uma decisão por Cristo” pautados na emoção que sentiram.

Uma história que sempre me chama a atenção é a do encontro de Filipe com o Eunuco. Deus enviou o diácono para um caminho deserto que descia de Jerusalém a Gaza e lá ele viu o eunuco que vinha lendo o profeta Isaías. Ao se aproximar do eunuco a pergunta de Filipe não foi: “sentiu algum arrepio, alguma sensação gostosa?”, mas sim: “compreendes o que vens lendo?”. Diante da negação ele explicou e o eunuco, após compreender, creu. A emoção está somente no final da história. Depois que entendeu, creu e foi batizado, o eunuco seguiu cheio de júbilo. A fé cristã não é baseada em emoções, mas no entendimento da Palavra. A emoção é consequência do entendimento correto acerca da obra do Redentor em nosso favor.

Entendida e crida, pela ação do Espírito, a Palavra precisa ser vivida. É Tiago, irmão do Senhor, quem alerta os crentes a se tornarem “praticantes da palavra e não somente ouvintes” a fim de não enganarem a si mesmos (Tg 1.22). Seu ensino ecoa as palavras de Jesus, que após proferir o sermão do monte alertou de que todo aquele que o ouvia e praticava, seria como um homem que edificou sua casa sobre a rocha, preparado para enfrentar todas as intempéries da vida, ao passo que os que ouvem e não praticam, seriam como um homem que edificou a casa sobre a areia que, diante das tribulações, veio a ser grande a sua ruína (Mt 7.24-27).

Ouça com atenção, medite na Palavra de Deus. Busque o auxílio do Espírito Santo que iluminará a sua mente e o capacitará a viver para a glória de Deus.


[1] Rick Warren. Uma igreja com propósitos. São Paulo: Vida, 1997, p. 253

[2] John MacArhur. Pregação Superficial. In “Fé para Hoje”, nº 30 – ano 2007: São José dos Campos: Fiel, p. 7

07 fevereiro 2020

Salvação graciosa em Cristo

A Bíblia afirma que o homem natural está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1). É esta a razão de ele não conseguir cumprir os mandamentos. A consequência natural é, então, a condenação eterna, pois o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). Se você já crê em Cristo, esta era a sua condição. Se você não reconhece a Jesus, um dia receberá o seu salário.

“Para escaparmos da ira e maldição de Deus, em que incorremos pelo pecado, Deus exige de nós fé em Jesus Cristo e arrependimento para a vida, com o uso diligente de todos os meios exteriores pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção” (Resposta à Pergunta 85 do BCW: O que Deus exige de nós para que possamos escapar de sua ira e maldição em que incorremos pelo pecado?).

A pergunta que se segue é: como o homem que está morto em seus pecados pode crer em Jesus e arrepender-se dos seus pecados? Quando eu estava para ir ao seminário, durante o exame que já citei anteriormente, foi-me perguntado o que vem primeiro, a fé ou o arrependimento. Sem pensar muito respondi que era a fé. O pastor que me questionava, diante da minha resposta perguntou: “Então porque é que a Bíblia diz arrependei-vos e crede?”. Eu nunca tinha estudado formalmente este assunto, afinal, ainda estava indo ao seminário, mas pensando de acordo com o que eu tinha lido na Escritura perguntei de volta: “Como vou me arrepender sem ter fé que Jesus pode me perdoar?”. Diante do impasse o que ouvi foi: “estude mais isso meu jovem”.

Hoje afirmo não só que a fé vem antes do arrependimento, mas que ambos provém de uma ação sobrenatural de Deus anteriormente, que chamamos de novo nascimento. Lembre-se, o homem está morto em seus delitos e pecados e, a não ser que seja vivificado, nunca poderá crer e se arrepender. Tratando deste assunto a Confissão de fé de Westminster ensina que “todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só estes, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente, pela sua Palavra e pelo seu Espírito, tirando-os daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transportando-os para a graça e salvação, em Jesus Cristo. Isso ele faz iluminando espiritualmente o entendimento deles, a fim de que compreendam as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes coração de carne, renovando as suas vontades e determinando-as, pela sua onipotência, para aquilo que é bom, e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vão mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça” (CFW X.I).

O ensino confessional está em acordo com as Escrituras. Foi por meio do profeta Ezequiel que o Senhor prometeu a seu povo que tiraria o coração de pedra e colocaria um coração de carne, com um objetivo bem definido, “para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (Ez 11.19-20). Foi por esta razão que Jesus afirmou a Nicodemos que “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, e para ficar claro que isso acontecia de acordo com a soberania de Deus, o Senhor disse: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3.1-15).

Geralmente quando eu estou ensinando a respeito disso costumo perguntar a alguém que esteja entre os ouvintes qual foi dia em que ele nasceu. Após a resposta da data, pergunto quando foi que ele decidiu isso e, lógico, a resposta é invariavelmente: “Eu não decidi, apenas nasci”. Isso ilustra o que ocorre com aqueles que Deus elegeu antes da fundação do mundo, no tempo designado pelo Senhor, eles serão renovados em seu coração, vivificados, para irem à Cristo por meio da fé.

Daí entendermos que “fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora, pela qual o recebemos e confiamos só nele para a salvação, como ele nos é oferecido no evangelho” (Resposta à Pergunta 86 do BCW: O que é fé em Jesus Cristo?). Quando o Senhor, soberanamente traz aquele que estava morto espiritualmente à vida, ele o capacita a crer. Crer não é obra do homem, para que ninguém se glorie (Ef 2.8). Crer em Jesus é mais do que simplesmente acreditar que ele existe, mas compreender a sua obra em favor de pecadores, tendo fé de que ele é poderoso para perdoar os pecados.

“Arrependimento para a vida é uma graça salvadora, pela qual o pecador, tendo um verdadeiro sentimento de seu pecado e percepção da misericórdia de Deus em Cristo, se enche de tristeza e de horror pelos seus pecados, abandona-os e volta-se para Deus, inteiramente resolvido a prestar-lhe nova obediência” (Resposta à Pergunta 87 do BCW: O que é arrependimento para a vida?).

Ao falarmos sobre novo nascimento, fé e arrependimento, estamos tratando de algo que acontece no interior do homem, mais precisamente no seu coração que é renovado por Cristo. O chamado interno do Espírito Santo é irresistível e todos aqueles que forem transformados por Deus irão a Cristo. Como afirmou Jesus “todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”, e disse mais, “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.37,44).

Estes que são renovados por Cristo, no devido tempo, são chamados exteriormente. “Os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção são as suas ordenanças, especialmente a Palavra, os sacramentos e a oração, os quais todos ser tornam eficazes nos eleitos” (Resposta à Pergunta 88 do BCW: Quais são os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção?).

Você está consciente de tudo aquilo que o Senhor fez em seu favor? Consegue entender que se não fosse o amor de Cristo por você ainda estaria perdido em seus delitos e pecados? A salvação é graciosa, é uma maravilhosa obra em que o Deus Trino está envolvido. O Pai o escolheu antes da fundação do mundo, o Filho deu a sua própria vida pagando o preço do seu pecado e o Espírito Santo o convenceu do pecado, da justiça e do juízo.

Estas verdades devem levar o cristão à humildade. Não somos melhores do que aqueles que caminham sem Cristo. Não fosse o Senhor, teríamos o mesmo destino daqueles que o rejeitam. Estas verdades devem fazer com que você se empenhe a fim de proclamar aos homens, a tempo e fora de tempo, que existe um Salvador bendito que os conclama ao arrependimento, enquanto ora para que o chamado externo, a sua pregação, venha acompanhado do chamado gracioso e irresistível do Espírito de Deus.

31 janeiro 2020

Incapacidade e condenação

Há uma confusão em certos círculos evangélicos no que diz respeito à doutrina da salvação. É o entendimento equivocado de que no Antigo Testamento o homem era salvo pelo cumprimento da Lei. Paulo explica isso ao dizer que “é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (Gl 3.11). O mesmo apóstolo declara que “sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras de lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado (Rm 3.19-20).

Isto é assim porque “nenhum homem, desde a queda de Adão, é capaz, nesta vida, de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus; mas diariamente os quebra por pensamentos, palavras e obras” (Resposta à Pergunta 82 do BCW: Alguém será capaz de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus?). É bem verdade que existe também no meio evangélico aqueles que entendem que o cristão pode viver sem pecar, razão de precisarmos ter sempre em mente o que afirmou João, de que “se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1.10).

Já foi dito anteriormente que após a queda o homem passou a amar a si mesmo em vez de amar a Deus e ao próximo. Esta nova condição implica na incapacidade de guardar os mandamentos. Até mesmo quando o homem natural age em conformidade com a Lei, só o consegue fazer de forma externa. Um ímpio, ainda que seja honesto (conformação externa), está pecando contra Deus, pois a razão para a sua honestidade não é a glória de Deus, mas motivações diversas como o medo da punição, a vergonha de ser visto como alguém desonesto ou mesmo o entendimento de que ele não pode fazer a outros o que não gostaria que fosse feito com ele. Cada uma dessas razões tem como motivação a preocupação consigo mesmo.

O homem natural não faz outra coisa senão pecar. Como aponta Sproul,

“Agostinho explicou que na queda, a raça humana perdeu o posse non peccare [posso não pecar], e nossa posição se tornou non posse non peccare [não posso não pecar], e isso significa que não temos mais a capacidade de não pecar. Em outras palavras, o poder de pecar está tão profundamente arraigado no coração e na alma de pessoas mortais que é impossível não pecarmos. Somos tão pecaminosos por natureza que nunca encontraremos alguém que não peque”[1].

Quando falamos em quebra da Lei é importante pontuar que “alguns pecados, em si mesmos, e em razão de circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros” (Resposta à Pergunta 83 do BCW: Todas as transgressões da lei são igualmente odiosas?).

Não é difícil você encontrar cristãos afirmando que não existe esse negócio de “pecadinho e pecadão”, pois todos os pecados são iguais. Esta afirmação contém uma verdade e um erro. A verdade é que “cada pecado merece a ira e a maldição de Deus, tanto nesta vida como na vindoura” (Resposta à Pergunta 84 do BCW: O que merece cada pecado?), seja ele grande ou pequeno. Como afirma a Confissão de Fé de Westminster, “não há pecado tão pequeno que não mereça a condenação” (CFW XV.IV), ou seja, se fosse possível uma pessoa cometer somente um pecado em toda a sua vida ela seria lançada no inferno, fosse por roubar um docinho da festa ou por ter cometido um genocídio. Isso aponta para a gravidade do pecado, pois é cometido contra um Deus Santíssimo.

O erro está no fato de que se até mesmo os homens pecadores sabem diferenciar delitos, entendendo ser uns mais outros menos graves, quanto mais não saberia o Justo Deus? O texto em que Jesus repreende as cidades em que ele havia feito muitos milagres demonstra isso: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (Mt 11.19).

O texto não poderia ser mais claro. Aqueles que estavam diante do Messias que realizava milagres sofreriam juízo mais severo que aqueles que contemplavam de longe a sua vinda. Alexander Hodge afirma que os sofrimentos dos que forem condenados no juízo “serão de diversos graus, proporcional ao demérito de cada pessoa (em função da menor ou maior gravidade dos pecados de cada pessoa)”[2]. Packer diz que os descrentes “terão um destino proporcional ao modo de vida ímpio que escolheram, e esse destino lhes virá de acordo com seu próprio demérito (Rm 2.6-11). O quanto eles conheceram da vontade de Deus será o gabarito pelo qual seu demérito será medido (Mt 11.20-24; Lc 11.42-48; Rm 2.12)”[3].

Na parábola do servo vigilante Jesus ensina isso afirmando que o servo que conheceu a vontade do seu Senhor, mas foi negligente, será punido. Entretanto, o servo que não soube a vontade do seu Senhor e procedeu mau, levaria poucos açoites pois “a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12.35-48). Tiago também adverte aos seus leitores de que aqueles que querem ser mestres receberão um maior juízo (Tg 3.1).

Tudo isso aponta para a sua responsabilidade em viver de forma coerente com aquilo que tem aprendido de Cristo. Por causa de Cristo, aqueles que estão unidos a ele, podem viver uma vida agradável diante de Deus, na força e no poder do Espírito Santo. Isso significa que é também sua responsabilidade, como testemunha de Cristo, notificar aos homens as suas faltas, anunciar o santo Evangelho, pois, voltando ao ensino da Confissão de Fé, “como não há pecado tão pequeno que não mereça a condenação, assim também não há pecado tão grande que possa trazer a condenação sobre os que se arrependem verdadeiramente” (CFW XV.IV).

Louve a Deus pela salvação em Cristo e proclame-o a fim de os eleitos de Deus sejam chamados à fé no Salvador.


[1] R.C. Sproul. Somos todos teólogos, p. 165

[2] A.A. Hodge. Esboços de teologia, p. 811

[3] J.L. Packer. Teologia concisa, p. 236

20 janeiro 2020

Os membros da IPB e os símbolos de fé

Recentemente tive notícia de uma série de posts no Twitter de presbiterianos que se dizem contra o pedobatismo. Apesar de fazer tanto sentido quanto alguém se dizer pentecostal, mas não crer em dom de línguas e revelação, isso não é necessariamente uma novidade. Desde que eu me tornei membro da IPB que sei de membros da igreja que não apresentam seus filhos ao batismo, sob a crença de que somente quando eles crescerem é que poderão tomar uma decisão por Cristo e, consequentemente, serem batizados. A pergunta aqui deveria ser por qual razão tais irmãos escolheram fazer parte de uma igreja pedobatista em vez de filiar-se a uma igreja credobatista[1].

Neste post não pretendo provar que a prática do batismo infantil é bíblica. Essa é minha convicção e já escrevi sobre isso em outro post (clique e leia), mas hoje vou me deter em outra questão, da qual também já fui defensor, a saber, a tese de a IPB não exigir dos membros a subscrição dos símbolos de fé, sendo esta exigência a ser feita apenas aos oficiais.

Estudando sobre este assunto em nossos padrões de fé e na Constituição da Igreja (CI/IPB), cheguei à conclusão de que os membros devem sim acatar todas as doutrinas expostas na Confissão a fim de serem recebidos como membros da IPB. Para ilustrar, aproveitando o momento em que muitos falam contra o pedobatismo, vou usar esta doutrina para exemplificar o que penso agora.

Primeiramente é preciso lembrar o que preceitua o primeiro artigo da CI/IPB:

Art.1 - A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de Igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve; rege-se pela presente Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo por meio de Concílios e indivíduos, regularmente instalados.

Ou seja, está bem claro que a IPB tem uma doutrina bem estabelecida, expressa em nossos símbolos de fé. Ao olhar para a Confissão de Fé nota-se que está estabelecido que a igreja visível “consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos” (CFW XXV.II). Ao tratar do sacramento do batismo, a Confissão de Fé afirma que “não só os que professam a sua fé em Cristo e obediência a ele, mas os filhos de pais crentes (embora só um deles o seja) devem ser batizados” (CFW XXVIII.IV).

Esta é a razão de você ler no artigo 2 da CI/IPB que “A Igreja Presbiteriana do Brasil tem por fim prestar culto a Deus, em espírito e verdade, pregar o evangelho, batizar os conversos, seus filhos e menores sob sua guarda”.

Quando a Constituição trata dos deveres dos membros da igreja, temos dois desses deveres que precisam ser observados para a nossa discussão: “a) viver de acordo com a doutrina e prática da Escritura Sagrada; d) obedecer às autoridades da Igreja, enquanto essas permanecerem fiéis às Sagradas Escrituras” (CI/IPB Art. 14).

É claro que o crivo para aferir a fidelidade dos oficiais da Igreja à Escritura são os símbolos de fé, adotados pela IPB como sistema expositivo de doutrina. É fácil perceber isso ao verificar o nosso código de disciplina que, ao definir o que é uma falta passível de disciplina, afirma que “falta é tudo que, na doutrina e prática dos membros e concílios da Igreja, não esteja de conformidade com os ensinos da Sagrada Escritura, ou transgrida e prejudique a paz, a unidade, a pureza, a ordem e a boa administração da comunidade cristã” e em seu parágrafo único sustenta que “Nenhum tribunal eclesiástico poderá considerar como falta, ou admitir como matéria de acusação aquilo que não possa ser provado como tal pela Escritura, segundo a interpretação dos Símbolos da Igreja (CI/IPB, Art. 1º)” (CD/IPB Art. 4).

Não é sem razão, então, que uma das funções privativas do Conselho da igreja local seja “velar por que os pais não se descuidem de apresentar seus filhos ao batismo” (CI/IPB, Art. 83, letra u).

Diante disso, penso que aqueles que são recebidos como membros, ao se comprometerem a obedecer às autoridades da igreja estão também reconhecendo que o ensino dessas autoridades, que precisa ser segundo o que está exposto nos símbolos de fé, é um ensino correto.

Seria um contrassenso receber membros que não acatam a doutrina da Igreja, sendo que eles estarão sujeitos à disciplina, como é o caso daqueles que não apresentam os seus filhos ao batismo.

Respondendo à objeções

A despeito de tudo isso há por parte de muitos o entendimento de que a aceitação das doutrinas expostas nos símbolos de fé é uma exigência apenas para os oficiais, por isso, é preciso responder às objeções.

Objeção 1: O Manual de Culto da IPB não traz uma pergunta a respeito da aceitação das doutrinas dos símbolos de fé.

Resposta: Como já afirmei, esta foi minha posição por bastante tempo, mas mediante tudo o que expus a respeito do que está na Confissão, na Constituição da Igreja e em seu código de disciplina, cheguei à conclusão de que esta exigência está sim nas perguntas do código de disciplina, não explicitamente, mas de forma implícita, considerando tudo o que dizem os símbolos de fé e o Manual Presbiteriano.

A última das perguntas que constam no Manual de Culto é a seguinte: “E prometeis mais que, como membros desta Igreja, vos sujeitareis sempre à sua disciplina, e às autoridades nela constituídas para seu ensino e governo, enquanto forem fiéis às Sagradas Escrituras?”.

Diante de tudo o que foi exposto, não é difícil entender que ao prometer que se sujeitará às autoridades para o ensino e governo, o membro está acatando, no fim das contas, a doutrina expressa nos símbolos de fé, visto que os oficiais não podem ensinar nada que esteja em oposição a eles.

Objeção 2: Não podemos negar a água do batismo a quem já foi batizado pelo Espírito Santo, só por não aceitar um ou outro ponto doutrinário.

Resposta: Se isso é verdade, por coerência, nenhum Conselho pode disciplinar membros que não queiram, por exemplo, apresentar seus filhos ao batismo.

Ainda que em nossos Princípios de Liturgia esteja claro que “os membros da Igreja Presbiteriana do Brasil devem apresentar seus filhos para o batismo, não devendo negligenciar esta ordenança” (PL/IPB, Art. 11), que a Constituição da IPB estabeleça que o Conselho deve velar para que os pais não descuidem de apresentar os filhos ao batismo e o Código de Disciplina da IPB afirmar que falta é tudo que na doutrina e prática dos membros não esteja em acordo com as Escrituras conforme a interpretação dos símbolos, nenhum Conselho teria o direito de negar a comunhão da igreja a um membro somente por uma “simples discordância”.

Logo, não precisaríamos nem ter tudo isso explícito em nossos documentos, visto que na prática, não poderíamos sustentar estas posições.

Pra terminar

Há outras objeções que poderiam ser levantadas, mas creio que estas duas são as mais aparentes e que causam mais incômodo. A Igreja Presbiteriana do Brasil tem doutrina definida e a adesão à membresia da igreja é algo voluntário.

Por um lado, os Conselhos das Igrejas precisam ser mais zelosos na recepção de membros, a fim de não trazerem para a igreja problemas que poderiam ser facilmente evitados. Não faz o menor sentido receber um membro que discorde de uma doutrina como o batismo infantil sabendo que ele deverá ser disciplinado quando não apresentar os seus filhos para receberem o sinal e selo do Pacto.

Por outro lado, aqueles que desejam filiar-se à uma denominação, no nosso caso à IPB, devem fazê-lo de uma forma que sejam abençoados e que também sejam uma bênção para a igreja. Aqueles que não concordam com as doutrinas expressas em nossos símbolos de fé têm diante de si várias denominações que creem de forma distinta da nossa. Que se filiem a elas e trabalhem para a glória de Deus, conforme a sua consciência e entendimento bíblico. Creio que isto é melhor do que ser um problema dentro de uma igreja local.


[1] A posição pedobatista defende o batismo dos filhos dos crentes, por entender que eles estão inseridos no Pacto. A posição credobatista entende que o batismo é somente para aqueles que expressam a sua fé em Cristo, deixando de fora, por razões lógicas, as crianças. Estas somente serão batizadas quando declararem a sua fé.

11 janeiro 2020

Você está satisfeito?

Muitos são os que sonham em ganhar muito dinheiro sem esforço algum. Prova disto são as filas e mais filas que se formam em nosso país diante de casas de aposta. Normalmente elas já são grandes, mas basta anunciar um prêmio acumulado e pronto, a fila multiplica enormemente o seu tamanho. Em decorrência disso muitas pessoas perdem dinheiro, bens, dignidade, respeito e até a família por conta dos jogos de azar. A escravidão ao jogo é uma grande desgraça.

É possível afirmar categoricamente que o que leva uma pessoa a viver desta forma, trazendo problemas para si e para outros, é a cobiça. “O décimo mandamento é: ‘Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo’ (Ex 20.17) (Resposta à Pergunta 79 do BCW: Qual é o décimo mandamento?). Como se percebe, não só o dinheiro, mas nada pode ser cobiçado.

A palavra traduzida aqui por cobiça significa, literalmente, desejo. Contudo, a ideia de cobiça é de um desejo desordenado de adquirir, sobretudo, o que é de outrem. No Novo Testamento Tiago fala da dinâmica do pecado e afirma que “cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz ao pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.14-15).

Biblicamente não há problema com o desejo em si, mas com o mau desejo, que é a forma como a Bíblia Nova Versão Internacional traduz a palavra cobiça no texto de Tiago. Podemos pensar em mau desejo em pelo menos dois sentidos: primeiro, é mau desejo tudo aquilo que é diretamente proibido pela lei de Deus. Entretanto, há outro sentido em que é preciso considerar. Bons desejos podem tornar-se maus quando queremos que eles se concretizem custe o que custar. A partir desse momento eles deixam de ser simples desejos para serem os nossos senhores. Eles dominam e ordenam que ajamos desta ou daquela maneira em seu nome. Bons desejos podem se tornar senhores cruéis, é por isso que precisamos manter em mente a exortação paulina, “todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12).

O décimo mandamento ensina, portanto, que o pecado nasce no coração. Como afirma Calvino, “por meio destas palavras, é como se o Senhor pusesse rédeas curtas em todos os nossos fortes desejos que ultrapassam os limites impostos pelo amor aos outros. Todos os outros mandamentos proíbem a prática de atos contra a regra do amor, mas este proíbe até concebê-los no coração”[1].

Com este mandamento o Senhor quer também ensinar o seu povo a estar satisfeito com aquilo que possui. Este povo havia sido libertado da escravidão do Egito, mas continuamente murmurava diante de Deus cobiçando o que deixaram no Egito em vez de se alegrar com o que tinham recebido do seu Redentor. Nas palavras do Breve Catecismo, “o décimo mandamento exige pleno contentamento com a nossa condição, bem como disposição para com o nosso próximo e tudo o que lhe pertence” (Resposta à Pergunta 80 do BCW: O que o décimo mandamento exige?).

Robert Jones instrui sobre como saber se estamos descontentes:

“Um meio prático para identificar raízes do descontentamento é responder honestamente a essas perguntas diagnósticas: ‘O que eu creio que me faria contente? O que eu necessito que aconteça para que eu fique contente?’. Se as suas respostas envolvem alguma mudança de circunstância, ou melhora de um relacionamento, perceba que isso está agora funcionando como a sua fonte de contentamento. Se você tivesse isso, você seria feliz, e se você não tivesse, estaria triste. Você é como um iô-iô no cordão, essa coisa terá você amarrada a si e o lançará para cima e para baixo. Isso é um ídolo que funciona como o seu deus”[2].

É importante sondar sempre o coração, pois aqueles que vivem descontentes estão incorrendo no mesmo pecado dos israelitas no deserto, que esquecendo-se da bênção de ter sido libertos do Egito, ou, em nosso caso, do pecado, olhavam com cobiça para aquilo que seus corações tanto desejavam naquele momento.

“O décimo mandamento proíbe todo descontentamento com a nossa condição, todo movimento de inveja ou pesar à vista da prosperidade do nosso próximo e todas as tendências e afeições desordenadas a alguma coisa que lhe pertença” (Resposta à Pergunta 81 do BCW: O que o décimo mandamento proíbe?). Isso não significa que não possamos almejar ou desejar algo. A Escritura não estimula a passividade ou à falta de propósito na vida. É desejo sadio aspirar um bom emprego, uma melhor condição de vida, etc., desde que isso não nos domine ou que estejamos de olho naquilo que é de outrem.

Se você confia no cuidado de Deus e em sua Palavra, poderá vencer a tentação da cobiça. Olhe para o exemplo do Senhor. Mateus diz que ele foi “levado ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites teve fome” (Mt 4.1-2). Não seria errado que o nosso Senhor desejasse comida naquele momento. Entretanto, o diabo aparece na história e coloca em dúvida a sua filiação. Se ele era mesmo o Filho de Deus, bastava ordenar que as pedras se transformassem em pães.

Jesus responde que “está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). A resposta de Jesus, não entendida por muitos, revela sua confiança no Pai. Basta olhar para o contexto anterior e você percebe isso. Ao ser batizado, os céus se abriram, o Espírito desce sobre o Senhor e uma voz, vinda do céu, afirma: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16-17). A palavra que havia saído da boca de Deus já havia afirmado a filiação, não era preciso pão, ainda que com fome, para que isso fosse comprovado. O desejo lícito pelo pão, neste momento seria mau, caso levasse Jesus a duvidar da palavra do seu Pai.

Firmado na Palavra de Cristo você pode viver satisfeito e até mesmo cumprir a ordenança de se alegrar com os que se alegram, ainda que a alegria do outro seja por ter conseguido aquilo que você também almejava e não obteve, como uma vaga de emprego, a aprovação no vestibular ou a aquisição de uma casa própria, por exemplo. Não obstante, coloque seus desejos diante do Senhor, em nome de Jesus, lembrando-se sempre que precisamos rogar que seja feita a vontade dele e de que “Deus, o vosso [seu] Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.8).


[1] João Calvino. A verdade para todos os tempos, p. 33

[2] Robert Jones. Aprendendo o contentamento em todas as circunstâncias, p. 28