15 outubro 2019

O dever de guardar os mandamentos

Há duas atitudes opostas, mas igualmente terríveis, que muitos tomam em relação à Lei de Deus. A primeira é chamada de legalismo. Legalismo é a tentativa de justificar-se mediante o cumprimento da lei. Como após a queda o homem se tornou incapaz de cumprir a lei de forma perfeita, ele acaba, muitas vezes, por rebaixar o padrão da lei a fim de conseguir cumpri-la.

Temos um exemplo disso no sermão do monte. Alguns pensam, erroneamente, que Jesus estava ali aumentando as exigências da Lei, por causa das expressões “ouvistes que foi dito aos antigos...” e “eu, porém, vos digo...” repetidas algumas vezes pelo Senhor. Jesus não estava aumentando as exigências da Lei, antes estava corrigindo o ensino errado dos fariseus que a rebaixaram.

Um exemplo claro é o sexto mandamento. Para os fariseus, somente aquele que tirasse a vida de alguém é que quebrava o mandamento. É por isso que na ocasião em que Pilatos quis entregar Jesus aos judeus, para que ele fosse julgado segundo as suas leis, ouviu: “A nós não nos é lícito matar ninguém” (Jo 18.31). Perceba a hipocrisia aqui! Para eles, entregar alguém para ser morto não era o mesmo que matar. Diferente disso, Jesus afirmou no sermão do monte que aquele que se irasse sem motivo contra alguém já teria cometido assassinato. Jesus considera também a intenção do coração e não somente a atitude.

Mas não pense que há novidade aqui. Basta lembrar que Davi, quando foi repreendido pelo Senhor por meio do profeta Natã, ouviu a seguinte acusação: A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom (2Sm 12.8). De acordo com a intepretação dos fariseus do Novo Testamento, Davi não teria culpa, visto que quem matou Urias foram os amonitas. Entretanto, diante do Senhor, a entrega com intenção de que outro o matasse já foi considerada a quebra do sexto mandamento. O rebaixamento das exigências da Lei pelos fariseus, a fim de conseguir guarda-la e serem salvos, foi um pecado contra Deus.

A outra atitude é o antinomismo. Literalmente antinomismo quer dizer “contra a lei”. A atitude antinomista pode ser percebida, por exemplo, naqueles que afirmam que antigamente estávamos debaixo da Lei, mas agora estamos debaixo da graça. Estes entendem que a Lei não tem nenhuma validade para a igreja, pois Jesus a aboliu. Curiosamente, os antinomistas vão afirmar que a Lei que vale hoje é a lei do amor. Isso é uma tremenda ironia, pois já vimos que o Senhor Jesus, ao responder qual seria o maior dos mandamentos, afirmou que era amar a Deus e ao próximo, dizendo ainda que “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.38). A ironia se dá, então, quando em nome do que denominam de lei do amor, os antinomistas rejeitam a Lei moral, resumida por Jesus como sendo uma lei do amor a Deus e ao próximo.

Estas duas atitudes estão erradas! A fim de viver de modo agradável diante do Senhor, o homem não pode fazer o que ele entende que seja o amor. Lembro-me que certa vez, numa escola dominical em que o professor falava sobre a disciplina, ouvi uma senhora que visitava a nossa igreja afirmar que em sua igreja não existia disciplina, pois em uma igreja que existe disciplina, falta amor. É esse tipo de conclusão que haverá toda vez que os cristãos deixarem a objetividade da Lei para seguir os seus próprios conceitos.

Somos chamados a obedecer ao Senhor e aos seus mandamentos, não para ser salvos, como já vimos, mas para horar aquele que nos salvou. Se você observar o texto do capítulo 20 de Êxodo perceberá que “o prefácio dos dez mandamentos é: ‘Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão’” (Resposta à Pergunta 43 do BCW: Qual é o prefácio dos dez mandamentos?).

Após libertar o povo da escravidão do Egito, o Senhor entrega a ele a sua lei moral, resumida em dez mandamentos, por intermédio de Moisés. Ele relembra ao povo quem ele era, o Senhor. A palavra Senhor, grafada em maiúsculas em nossas Bíblias, é a tradução do tetragrama hebraico YHWH, outras vezes traduzido por Javé ou Jeová. Este foi o nome com que Deus se apresentou a Moisés, afirmando que era aquele que existe desde o início. Este Deus soberano e criador é que se dirigia ao povo. Suas palavras, que são uma espécie de prefácio à lei, apontam para o fato de que para haver obediência, deve haver antes libertação. É como se Deus estivesse dizendo: Eu tirei vocês da escravidão do Egito, agora vivam em obediência”.

Portanto, “o prefácio dos dez mandamentos ensina-nos que nós temos a obrigação de guardar todos os mandamentos de Deus, por ser ele o Senhor nosso Deus e nosso Redentor” (Resposta à Pergunta 44 do BCW: O que nos ensina o prefácio dos dez mandamentos?). É claro que sempre haverá aqueles que dirão que isso é Antigo Testamento e que vivemos no período do Novo Testamento, por isso é importante atentar ao que temos nos escritos de Paulo.

Paulo escreve aos gálatas combatendo a ideia legalista da salvação pela lei. Ele afirma “que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, [...] pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (Gl 2.16). Quando Paulo diz no capítulo 5 que “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” e que em razão disso os gálatas não deveriam mais sujeitar-se à “escravidão” da lei, é no sentido de que a salvação não era por meio dela. Entretanto, ele faz questão de dizer que a liberdade conquistada por Cristo era limitada pelo amor a Deus e ao próximo, ou seja, a lei era o parâmetro para viver a liberdade. Daí ele ter dito que “toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14).

Mas porquê Paulo fala que a lei se cumpre em amar ao próximo? Amar ao próximo está acima do amor à Deus? O apóstolo João nos ajuda a entender isso ao escrever que se alguém diz amar a Deus, mas odeia o irmão é mentiroso, “pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20).

Como cristão, é seu dever guardar os mandamentos. O seu Senhor, Jesus Cristo, que o libertou da escravidão do pecado, ordena que você ame a Deus e ao próximo. O amor ao próximo é a evidência de que você ama a Deus, pois este amor fraternal só é possível por meio de Jesus Cristo, o libertador. Viva em obediência, para a glória dele!

08 outubro 2019

A regra de obediência

Tenho um filho de 5 anos de idade. Em uma de minhas conversas com ele após uma desobediência, a fim de ensinar que ele não pode fazer o que bem entende, expliquei que todos nós estamos debaixo de algum tipo de autoridade e que precisamos obedecer. Em um dos exemplos que dei disse que quando ele trabalhar terá um chefe e que não poderá fazer as coisas do jeito dele, sob o risco de ser mandado embora. Passam uns dois dias e ele pergunta para a mãe: “Quando eu trabalhar eu tenho de ter um chefe?”, sim, respondeu ela, e perguntou a razão do questionamento dele. A resposta foi ligeira: “Eu quero ser o chefe!”.

A questão do meu garotinho serve para mostrar o que é o anseio natural do homem após a queda, não querer obedecer a ninguém. Entretanto, a despeito de sua tentativa de autonomia, o homem foi criado para ser um servo e, como tal, deve satisfação ao seu Senhor.

“O dever que Deus exige do homem é obediência à sua vontade revelada” (Resposta à Pergunta 39 do BCW: O que Deus exige do homem?), ensina a pergunta 39 do Breve Catecismo. Perceba duas lições importantes aqui. A primeira é que Deus revelou a sua vontade ao homem. Isso é visto já no primeiro livro da Bíblia. Adão é formado e Deus revela qual a sua vontade para ele. Ele deveria encher a terra e dominar sobre ela. Além disso, ele não poderia tomar da árvore do conhecimento do bem e do mal, a única que foi vedada por Deus. Para isso, Deus deu a ele uma auxiliadora idônea. A segunda é que a obediência foi requerida. Caso desobedecesse, o homem experimentaria a morte.

Uma das questões que me chamam mais atenção na narrativa da queda é o fato de a serpente ter se dirigido primeiramente à mulher. Perceba algo aqui. Adão devia obediência a Deus, mas a mulher, além de obedecer a Deus, deveria obedecer àquele de quem era ela uma auxiliadora, seu marido Adão. É para ela que Satanás sugere que não era preciso obedecer a ninguém, nem a Adão, tampouco ao Senhor, pois se tomasse do fruto proibido, todos seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal. Logo, não haveria necessidade de alguém para apontar o que é bem ou o que é mal. O desejo por autonomia leva homem e mulher à ruína.

Há quem pense que a Lei foi dada ao homem somente no Sinai. Entretanto, temos no Breve Catecismo a pergunta: “O que revelou Deus primeiramente ao homem para regra de sua obediência?”, seguida da resposta que diz: “A regra que Deus revelou primeiramente ao homem para sua obediência foi a lei moral” (Pergunta 40 do BCW). Este ensino refere-se ao que temos na epístola aos Romanos. Em Romanos Paulo demonstra que tanto judeus quanto gentios estão sob a condenação de Deus. Os gentios porque Deus se revelou na criação, o que os torna indesculpáveis. Os judeus porque tinham a revelação especial da Palavra de Deus. Entretanto, ainda que os gentios não tivessem acesso à revelação especial, Paulo afirma que por vezes eles agem, “por natureza”, de acordo com a lei e afirma que “estes mostram a norma da lei gravada no seu coração” (Rm 2.15).

Mas o que é essa lei moral, gravada no coração? “A lei moral está resumidamente compreendida nos Dez mandamentos” (Resposta à Pergunta 41 do BCW: Onde a lei moral está resumidamente compreendida?”). Neste ponto, alguém poderia dizer: “Está vendo? Isso mostra que a lei foi dada somente no Sinai. Foi lá que Deus deu os Dez mandamentos à Moisés!”, mas pense um pouco mais comigo. Quando Paulo escreveu aos efésios ensinou que eles deveriam andar em santidade. Esta santidade consistia em abandonar padrões antigos e assumir novos padrões, daí ele dizer que os que roubavam, quebrando o oitavo mandamento, deveriam agora trabalhar fazendo com as próprias mãos para acudir ao necessitado (Ef 4.28).

Isso demonstra que o padrão de santidade de Deus exige trabalho e doação em vez de roubo. Ora, não foi isto que Deus revelou a Adão no Éden? Adão deveria trabalhar. A lei moral foi dada no Éden de forma positiva. O padrão normativo estabelecido por Deus está na criação. Como exemplo, o homem deveria deixar pai e mãe e casar-se com a sua esposa (sétimo mandamento), deveria trabalhar (oitavo mandamento) e deveria dar ouvidos à verdade da Palavra (nono mandamento), sendo pecado a desobediência a este padrão. Por isso, após a queda, Deus dá a lei em forma de tábuas no Sinai, para que o homem viva de acordo com o padrão original, por isso não pode adulterar, nem roubar, tampouco dar falso testemunho, visto de forma positiva nos exemplos citados. A forma como Deus dá o quarto mandamento também aponta para a lei na criação. Repare que ele inicia com “lembra-te do dia de descanso” (Ex 20.8), demonstrando o padrão estabelecido na criação (Gn 2.3). O Pacto de obras consistia na obediência à esta lei, para justificação ou condenação[1].

Mas pense um pouco mais. “Os dez mandamentos se resumem em amar ao Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças e de todo o nosso entendimento; e ao nosso próximo como a nós mesmos” (Resposta à Pergunta 42 do BCW: Em que se resumem os Dez mandamentos?). Esta resposta à pergunta 42 do BCW, é exatamente a resposta de Jesus aos fariseus que o interrogaram acerca do mandamento mais importante. Jesus resume desta forma, pois os quatro primeiros mandamentos versam sobre o amor a Deus e os seis últimos tratam do amor ao próximo.

Se você acha que aqueles que advogam que a Lei foi dada somente no Sinai estão certos, talvez se surpreenda com o fato de José, que resistiu à tentação da esposa de Potifar, ter dado como razão para a sua atitude exatamente o resumo da Lei, ao dizer: “Ele [Potifar] não é maior do que eu nesta casa e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como, pois, cometeria eu tamanha maldade [quebrando o sétimo mandamento e não amando o próximo] e pecaria contra Deus [não amando o Senhor] (Gn 39.9). José resistiu à tentação por amar a Deus e a Potifar.

A regra de obediência, dada por Deus a Adão e à sua posteridade como um pacto de obras foi a sua Lei Moral, reflexo de seu caráter santo. É por isso que Paulo pode afirmar que “a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom” (Rm 7.12). É claro que após o pecado o homem não consegue cumprir perfeitamente esta lei, contudo, o Catecismo Maior ensina que a lei moral continua útil a todos os homens após a queda, a fim de instruí-los acerca de Deus, seu caráter e sua vontade. Além disso, ela é útil aos não regenerados para que tenham consciência de sua imperfeição e busquem a Cristo. Por fim, ela é útil aos regenerados a fim de lhes mostrar o quanto devem a Cristo e buscarem viver em acordo com ela, não para serem salvos, mas para glorificar aquele que os salvou, Jesus Cristo, que cumpriu cabalmente toda a Lei (Mt 5.17).

Diante de tudo isso, como Davi, você precisa estimar a Lei do Senhor e considera-la mais desejável que o ouro e mais doce que o mel e o destilar dos favos.


[1] Ver Confissão de Fé de Westminster, XIX.I,V,VI