30 novembro 2018

Você não precisa conhecer o futuro, mas o Senhor

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Em meu primeiro ano de ministério, estive numa região em que, infelizmente, algo se repetia constantemente. Era encontrar os pastores em alguma reunião que logo vinha a pergunta: “Você crê em revelação?”, ao que eu já respondia categoricamente com um sonoro “não”. Digo infelizmente porque pastores presbiterianos deveriam, por dever de ofício na IPB, ser confessionais e, para ser ordenados precisam, necessariamente, subscrever a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster que são documentos cessacionistas.

Em um determinado encontro, resolvi responder à pergunta de forma diferente, buscando conversar mais acerca do assunto. Um pastor se aproximou e já soltou: “Você crê em revelação?”. Desta vez eu disse: “sim, é claro!”, deixando-o animado com a resposta. Logo, então, continuei: “Creio em revelação, inclusive já a li hoje pela manhã!”

De repente, a animação inicial transformou-se num olhar de decepção. O irmão explicou que estava falando de outro tipo de revelação e eu pedi que ele me explicasse mais sobre sua crença. Segundo ele, a revelação à qual se referia dizia respeito a eventos futuros na vida de alguém. O exemplo que ele me deu foi de alguém que iria viajar e que recebeu uma “revelação” na igreja. Foi dito a ele que se ele viajasse, um acidente aconteceria na estrada causando-lhe a morte.

Diante disso, perguntei: “Então este irmão tinha duas opções pela frente: se ele viajasse, morreria, se não viajasse, permaneceria vivo, é isso mesmo?”, ao que o pastor me respondeu afirmativamente. Perguntei, então, acerca do Salmo 139, em que Davi afirma: “Os teus olhos me viram, a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16). Como entender esse texto em relação ao futuro incerto do irmão que recebeu a revelação? Daquele momento em diante reinou o silêncio. Parecia que aquele pastor nunca tinha pensado acerca da implicação do seu entendimento sobre revelação “particular”.

Como ele, muitos cristãos não param para pensar em sua crença e em como elas podem colocá-los em confronto com a Palavra de Deus. Nesse caso, em particular, parece que o desejo de saber sobre o futuro, de ter um direcionamento “mais seguro” por uma revelação direta de Deus, pode ser uma explicação para um entendimento tão distante da Palavra de Deus. A ideia de Deus estar direcionando a vida por meio de uma revelação específica sobre as escolhas a serem tomadas e seus desdobramentos parece dar mais “segurança”, além de retirar das pessoas a responsabilidade ou, no mínimo, fornecer um bom álibi diante das consequências.

Por exemplo, se eu deixo de viajar para um compromisso importante porque Deus me revelou que eu morreria na estrada se fosse, quem me recriminaria pela decisão de não ir, ainda que tenha faltado com minha palavra? E, ainda que houvesse repreensão, eu ficaria em paz comigo mesmo, afinal de contas, eu somente “ouvi a voz de Deus”.

Voltei a pensar nisso dia desses, enquanto dirigia para o escritório ouvindo no carro a narração do livro de Atos. Importa lembrar aqui que em Atos a revelação ainda não está completa e os livros do Novo Testamento estão sendo escritos. Os dons revelacionais estão em plena atividade. Hoje, cremos (pelo menos os que subscrevem a Confissão de Westminster) que “foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo” (CFW I.I).

Dito isso, pense na experiência de Paulo, descrita em Atos 21. Ele estava em Cesareia, na casa de Filipe, quando o profeta Ágabo chegou da Judeia. Ágabo pegou o cinto de Paulo “ligando com ele os próprios pés e mãos [e] declarou: Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus, em Jerusalém, farão ao dono deste cinto e o entregarão nas mãos dos gentios” (At 21.8-11).

Diante de tal revelação, Lucas registra que todos eles pediram a Paulo para não ir à Jerusalém. Isso é totalmente compreensível. Diante do anúncio da prisão em Jerusalém os amigos estavam preocupados.

A resposta e a atitude de Paulo nesta situação têm muito a ensinar, sobretudo a irmãos como o da experiência narrada no início deste texto. O apóstolo questionou: “Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus”. Após a Palavra de Paulo, Lucas diz: “Como, porém, não o persuadimos, conformados, dissemos: Faça-se a vontade do Senhor!” (At 21.13-14).

A pergunta a ser feita aqui é: Por que é que Paulo, mesmo sabendo o que aconteceria com ele em Jerusalém, não deixou de cumprir o seu ministério (Cf. At 20.24)? Como se manteve fiel à sua responsabilidade?

A resposta é simples, quando Paulo foi comissionado por Deus, ele ouviu, da parte do Senhor, que ele levaria o nome do Senhor perante gentios e reis e aprenderia o “quanto [...] importa sofrer pelo meu nome” (At 9.15-16). Ele mesmo havia afirmado: “vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações” (At 20.22-23).

Paulo toma sua decisão pautado na Palavra que o Senhor lhe dera. A consciência, por meio de uma revelação, do que o esperava, não fez o apóstolo deixar de cumprir o seu chamado, pensando em “mudar a sua sorte” e livrar-se do que o Senhor disse que ocorreria.

Tendo os antigos meios de Deus revelar a sua vontade cessado (Hb 1.1-2) temos tudo aquilo de que precisamos para direcionar a nossa vida na Santa Palavra de Deus. Como afirmou Moisés, “as coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29).

É triste perceber que muitos que buscam novas revelações para direcionar suas vidas, pouco conhecem daquilo que o Senhor fez registrar nas Escrituras e, exatamente por isso, têm práticas que vão contra a Palavra.

Não precisamos conhecer o futuro. Precisamos conhecer o Senhor Jesus Cristo, como revelado em sua Palavra. Busque, com a iluminação do Espírito de Cristo, encher seu coração da Palavra de Deus a fim de honrá-lo em suas práticas e decisões. Em Cristo, você está seguro!

26 novembro 2018

Justo e justificador

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Por quem Jesus morreu? Esta pergunta tem suscitado discussões acaloradas no decorrer dos tempos. Enquanto calvinistas afirmam uma expiação limitada, isto é a morte de Jesus foi por um número específico de homens, aqueles que foram eleitos antes da fundação do mundo pelo Pai (Jo 17.6,9; Ef 1.4), arminianos sustentam que a expiação foi universal, ou seja, por todos os homens.

Longe de ser uma discussão de somenos importância, ela tem implicações sérias no entendimento acerca do Ser de Deus.

Em uma das várias conversas que já tive a respeito do tema, uma jovem, dessas que vivem gastando tempo em infinitas discussões em redes sociais, afirmou para mim (em uma conversa ao vivo) que o Deus que eu cria era injusto por salvar alguns, deixando outros perecer. Como eu disse, o assunto tem implicações sérias naquilo que se crê acerca do Ser de Deus, no caso, acerca da sua justiça.

Pensemos, então, sobre isso. Em Gênesis podemos ler sobre a criação de Adão. Deus, após criar todas as coisas, colocou-o no Jardim do Éden, dando-lhe ordens bastante específicas. Dentre os mandamentos dados por Deus, um dizia respeito a não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, sob pena de morte, caso desobedecesse. A Confissão de Fé de Westminster ensina que Deus fez com Adão um Pacto de Obras em que “foi a vida prometida a Adão e, nele, à sua posteridade, sob a condição de perfeita obediência pessoal” (VII.II).

Você conhece a história! Adão transgrediu a ordem de Deus lançando não só ele, mas toda a sua posteridade numa condição de pecado e miséria. Como o Senhor é Fiel à sua Palavra, ele não poderia simplesmente “esquecer” o que houve e começar de novo. Não havia jeito de simplesmente fingir que nada aconteceu. O homem havia pecado e merecia a morte, pois, como afirmou Paulo, “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

Entretanto, a Escritura também revela o Senhor como um Deus gracioso, misericordioso e amoroso. Um Deus que enviou seu Filho para “buscar e salvar o perdido” (Lc 19.10). O que fez o Senhor para salvar o pecador que merece a morte e permanecer sendo um Deus justo?

A Bíblia diz que a salvação é pela graça, mediante a fé (Ef 2.8), mas esta é a parte que nos cabe no chamado Pacto da Graça. Enquanto o primeiro pacto foi feito com Adão e sua posteridade, o segundo “feito com Cristo, como o segundo Adão; e, nele, com todos os eleitos, como sua semente” (Catecismo Maior – resposta à pergunta 31). Esse é o entendimento reformado acerca da salvação: se o pacto da graça foi feito com Cristo e, nele, com aqueles que foram eleitos pelo Pai, antes da fundação do mundo, a morte de Cristo foi somente por esses e, necessariamente, precisa ser assim a fim de não tornarmos Deus injusto.

Paulo diz aos Romanos que Deus é, ao mesmo tempo, “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.26). Algo precisa ser bem entendido aqui. O pecador merece a morte e se Deus simplesmente enviasse todos ao inferno, isso seria justo. De igual modo, para continuar sendo justo, Deus não poderia deixar os pecados impunes. Já vimos que o Pacto da Graça foi feito com Cristo. O próprio Deus Filho precisou encarnar-se a fim de que, como homem perfeito, pudesse obedecer perfeitamente ao Pai, sofrer o castigo do pecado em lugar dos eleitos se ser seu Mediador (Gl 4.4-5; Hb 9.15).

A fim de oferecer a salvação pela graça, Jesus consumou toda a obra que o Pai lhe confiou a fazer (Jo 17.4). O que para os crentes é graça, para o nosso Mediador foi trabalho. Isaías, em sua profecia, diz que “ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si” (53.11).

Quando em sofrimento, na cruz do Calvário, Jesus exclamou: “Está consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (Jo 19.30). A expressão “está consumado” quer dizer, literalmente, está pago, está quitado. Jesus pagou toda a dívida diante do Pai, por meio de sua morte substitutiva.

Sendo assim, a implicação é óbvia. Se Jesus tivesse morrido por todos os homens, todos teriam de ser salvos. A alternativa coerente para alguém que crê que Jesus morreu por todos os homens é ser universalista e entender que, no fim das contas, todos os homens serão salvos, pois, se a dívida está paga, Deus não pode cobrá-la novamente. Ou a dívida é paga por Jesus, no Calvário, ou pelo pecador, no inferno. Se algum homem, por quem Cristo morreu, for para o inferno, Deus é, de fato, injusto.

Quando afirmamos que Cristo morreu somente pelos eleitos estamos sendo consistentes com o que Bíblia diz. O Deus justo que pune o pecado é ao mesmo tempo o Deus justificador daqueles que creem em Cristo. Como sabemos pela Escritura que há muitos que irão para a perdição eterna, é óbvio que estes não tiveram a sua dívida paga pelo Senhor Jesus e não foram justificados.

A obra de Cristo, em favor dos que creem, lhes garante a vida eterna, por isso, todos aqueles por quem Cristo morreu, se renderão a ele (Jo 6.37,44). Se você foi salvo por Cristo, louve a Deus que enviou o seu Filho para cumprir tudo o que você não poderia cumprir a fim de ser salvo. Mais ainda, com o auxílio do Espírito Santo, enviado por Cristo, que habita em você, seja uma testemunha fiel, vivendo como sal da terra e luz do mundo, honrando aquele que, pela graça, concedeu a você tão grande salvação.