03 fevereiro 2017

Autoridade, autoritários e anarquistas

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As autoridades procedem de Deus. Sim, é verdade, está nas Escrituras Sagradas. Paulo afirmou categoricamente aos Romanos que “não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm 13.1). A ordem da criação aponta para esta sublime realidade.

Digo que é uma realidade sublime “porque o Senhor é o Deus supremo e o grande Rei acima de todos os deuses” (Sl 95.3) além de ser o Soberano Senhor que criou todas as coisas (At 4.24; Ne 9.6). Ele é a Suprema autoridade e, na criação, estabeleceu todas as coisas sob a estrutura de autoridade. Deus, o Soberano, criou Adão e de Adão criou Eva, para ser sua auxiliadora idônea (Gn 2.18). O homem se submeteria a Deus e a mulher ao homem e a Deus.

É claro que essa submissão não implica inferioridade. Paulo explica bem esse ponto quando diz aos coríntios: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1Co 11.3). Dizer que a mulher é inferior por ser submissa ao homem seria o mesmo que dizer que Cristo é inferior ao Pai, o que constitui uma heresia.

O mesmo princípio de autoridade é visto nos pais, em relação aos filhos, nos presbíteros em relação às ovelhas e nos governos em relação ao povo, por exemplo. Por essa razão os Puritanos entendiam que a quebra do 5º mandamento não se limitava à desobediência aos pais. Na resposta à pergunta 124 do Catecismo Maior de Westminster lemos que “as palavras ‘pai’ e ‘mãe’, no quinto mandamento, abrangem não somente os próprios pais, mas também todos os superiores em idade e dons, e especialmente todos aqueles que, por ordenação de Deus, estão colocados sobre nós em autoridade, quer na família, quer na Igreja, quer no Estado”.

Algo deve ser destacado aqui. A posição bíblica de autoridade implica no cuidado para com aqueles que estão sob autoridade. Deus, o Soberano Senhor, proveu para o homem tudo o que lhe era necessário por ocasião da criação e o homem deveria refletir esse cuidado para com a mulher (e futuramente filhos) instruindo-a a respeito da vontade do Senhor e sendo o mantenedor de sua casa.

Com a entrada do pecado veio a corrupção da estrutura de autoridade. É interessante notar algo na tentação. Satanás se dirige primeiramente à mulher, que deveria ser submissa ao homem e à Deus, e propõe a anarquia. Pense um pouco sobre a afirmação da serpente: Deus proibiu comer o fruto, pois sabia que eles seriam como ele, conhecedores do bem e do mal (Cf. Gn 3.1-5). Segundo as palavras de Satanás, não haveria mais submissão, todos estariam em pé de igualdade, inclusive em relação a Deus. Daí o Senhor, ao punir o pecado, lembrar que ela continuaria submissa ao marido que continuaria a governa-la (Gn 3.16). O grande problema é que, em pecado e rebelião contra Deus, a submissão seria bastante difícil e traria muitos conflitos.

Cristãos devem lutar contra o ímpeto anarquista. Esposas devem submeter-se ao marido, como a igreja é submissa a Cristo. O movimento feminista e sua ânsia de “empoderar” as mulheres não difere em nada de Satanás que propôs o “empoderamento” de Eva a fim de ser como Deus. Irmãs, cuidem para não sucumbir à voz do tentador que continua a ecoar desde o Éden. Filhos devem obedecer a seus pais, sabendo que não são seus iguais. Ovelhas devem dar ouvidos a seus pastores, como instrui o escritor aos Hebreus: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isso com alegria e não gemendo; porque isso não aproveita a vós outros” (Hb 13.17). Cidadãos devem respeitar seus governantes e orar por eles (Rm 13.1; Tt 3.1; 1Pe 2.13; 1Tm 2.1-2) a fim de honrarem a Deus.

É claro que há limites para a submissão às autoridades. Se formos ordenados a pecar contra Deus, importa obedecer a Deus que aos homens (At 5.29) e isso nos leva ao outro lado da moeda, ou melhor, da distorção da estrutura de autoridade, como você notará.

Se a anarquia é pecaminosa, pois anseia a ausência de autoridade, estabelecida por Deus na criação, a tirania, que é o extrapolar da autoridade, colocando a vontade do governante acima das leis, não é menos pecaminosa. Isso pode ser visto já em Gênesis quando Lameque chama suas esposas e as amedronta ao se gabar de sua violência contra um homem que o havia ferido e um rapaz que tinha esbarrado nele (Gn 4.23).

Governar infligindo medo é tirania e muitos governantes, pastores e pais acabam pecando desta forma. Mas outra forma mais sútil de tirania, pois para muitos é expressão da autoridade bíblica, é quando se exige obediência cega. Esse tipo de obediência é visto na história quando governantes, por mais corruptos e injustos que sejam, são venerados por seus súditos. Isso pode acontecer na igreja, daí a exortação de Pedro para que os presbíteros pastoreiem não como dominadores do rebanho, mas como modelos (1Pe 5.3). Isso acontece em famílias, quando os pais dão determinadas ordens aos filhos sem explicar as razões para tal. Isso é tirania.

Cristãos podem e devem evitar agir assim pois estão unidos a Cristo e são habilitados a cumprir o que ele ordena. Mais ainda, porque têm nele o grande exemplo de liderança.

Jesus, o único que poderia exigir obediência sem explicar as razões, disse a seus discípulos: “Já não vos chamo servos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer”. Com isso Jesus não estava propondo igualdade. Ele afirmou isso após condicionar a amizade à obediência dizendo “vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando” (Jo 15.14,15). Ele também havia dito: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou” (Jo 13.13).

Jesus se disse amigo, pois para haver amizade é preciso se dar a conhecer, é preciso revelação. E ele revelava a seus discípulos a vontade de seu Pai. Por saber as razões para a obediência é que João pôde escrever que “os mandamentos não são penosos” (1Jo 5.3). Jesus não é um tirano que exige obediência cega, pais, governantes e pastores também não podem ser. Jesus também serve e cuida dos que estão sob sua autoridade e demonstrou isso na prática ao lavar os pés aos discípulos, mesmo assentindo que ele era o Mestre e o Senhor (Jo 13.14).

Se você está em posição de autoridade, mire-se em seu Senhor. Se você está em posição de submissão, mire-se nele também, pois em submissão ao Pai “a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8). Com ele aprendemos e nele somos capacitados a lidar com a autoridade, não sendo anarquistas nem tampouco tiranos.

17 dezembro 2016

10 anos, muita gratidão!

Cerimônia de posse em 2007Hoje, 17 de dezembro, é um dia importante para mim. Não, não estou me referindo à comemoração do Dia do Pastor Presbiteriano, data em que foi ordenado o primeiro pastor presbiteriano brasileiro, Rev. José Manoel da Conceição, em 1865.

Minha alegria e gratidão se dão porque completaram-se 10 anos desde o meu primeiro sermão como pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil em Praia do Canto.

O tempo passou acelerado! Olhando para trás é fácil constatar a veracidade das palavras de Salomão, “tudo passa rapidamente, e nós voamos” (Sl 90.10).

Quando cheguei éramos apenas eu e Poliana e agora já temos dois filhos amados, herança do Senhor, e podemos perceber o carinho dos irmãos com nossa família, pelo que sou extremamente grato.

Nestes anos vi irmãos saindo da igreja, mudando de cidade, tive de me despedir de irmãos que partiram para estar com o Senhor. Houve um momento em que pensei até que não nos manteríamos como igreja, pois as dificuldades eram grandes. Entretanto, com isso, vi irmãos chegarem para a igreja, outros se convertendo, pude ver irmãos se casando e formando suas famílias. Quando cheguei tínhamos uma ou duas crianças de até 4 anos na igreja, e hoje temos várias delas aprendendo a cultuar ao Redentor conosco.

Posso afirmar com toda a convicção do meu coração: “Até aqui nos ajudou o Senhor” (1Sm 7.12) e estar certo de que o Senhor continuará a sustentar nossa igreja enquanto permanecermos fiéis à sua Palavra, que é a lâmpada para os nossos pés e a luz para o nosso caminho (Cf. Sl 119.105).

Quando cheguei, para um mandato de dois anos, não tinha a menor ideia de quanto tempo eu estaria por aqui. Depois fui eleito para um mandato de mais três anos. Ao fim desse tempo, eu considerei seriamente a minha saída visto que, após várias lutas, a igreja estava em paz e, na minha cabeça, um novo pastor poderia trazer novo ânimo.

Conversando com um amigo, após ele ouvir as razões alegadas por mim para ir embora, fui confrontado a respeito das minhas motivações e ouvi: “A igreja não anda no seu tempo. Faça o seu trabalho fielmente e confie em Deus”. A partir de então, meu coração não sossegava. Junto com isso, o paciente Conselho, na época, disse que não procuraria novo pastor até que eu estivesse com novo campo definido.

Em conversa com minha esposa e em oração diante de Deus decidi, então, permanecer e fui designado como pastor efetivo pelo presbitério no ano de 2012, sendo eleito nesse ano para mais um mandato de dois anos. Em 2014 a Assembleia da igreja me conduziu novamente ao pastorado para um mandato de mais 3 anos, que se encerrará no fim do próximo ano. Posso dizer, com certeza, que a decisão de ficar foi a melhor que eu podia ter tomado e não me arrependo um momento sequer de ter permanecido.

2015 - dia do pastorAgradeço ao Senhor tudo o que ocorreu nestes últimos cinco anos, cada pessoa que por aqui passou e aqueles que permanecem até hoje. Apesar de todas as minhas limitações e falhas, tenho procurado ser zeloso no pastoreio da igreja e o meu amor pelos irmãos da IPBPC aumenta a cada dia. Sou grato por me escolherem para pastoreá-los, apesar de mim.

 

Este mês completei também 14 anos de ordenação ao ministério da Palavra e dos Sacramentos, mas estes 10 últimos, certamente, foram os anos em que mais cresci e aprendi diante de Deus sobre a forma como devo me portar diante da Igreja que é dele, da qual sou um mero pastor auxiliar do Supremo Pastor de nossas almas.

Agradeço a Deus os presbíteros que comigo têm pastoreado a igreja nestes anos. É bom contar com a amizade de cada um de vocês.

Agradeço a Deus, principalmente, minha esposa Poliana, instrumento de Deus na minha vida para auxílio, tanto no lar, quanto no meu trabalho. É bom ter você ao meu lado, apesar de muitas vezes eu ser cabeça dura e não considerar, de imediato, suas ponderações. Certamente estes anos seriam mais difíceis sem o seu apoio. Amo você!

Aos amados irmãos, a quem tenho o privilégio de servir como pastor, só tenho a repetir: amo vocês. Deus seja louvado.

 

*Foto 1: Cerimônia de posse em janeiro de 2007.

*Foto 2: Comemoração dos aniversariantes do trimestre e do dia do pastor, 2015.

10 dezembro 2016

O seu melhor não é o suficiente!

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Ao ler o título acima talvez você tenha pensado que ele não é muito motivador. Talvez tenha passado por sua cabeça que ele até diminui a auto estima de quem está lendo, principalmente nos dias politicamente corretos em que vivemos, onde até mesmo aqueles que não desempenham bem suas funções ou tarefas acabam sendo premiados. Nossa sociedade está criando uma geração de melindrosos que não admite reconhecer suas limitações.

Lembro que na minha infância, para se ganhar uma medalha nos esportes era preciso treinar bastante e ser o melhor. Nos dias de hoje, basta a participação. Todos ganham medalhas, do primeiro ao último colocados. Até mesmo a forma de se expressar a respeito da derrota tem mudado. Recentemente tive de explicar para minha filha que numa disputa de duas pessoas não se “ganha em segundo lugar”.

Se hoje se premia os que não são melhores, imagine então dizer que o seu melhor não é o suficiente. Entendo sua possível estranheza com o título, então, deixe-me explicar melhor a minha afirmação.

Dia desses, conversando com um amigo, ele me disse em relação à sua vida profissional: “Não entendo o que está acontecendo. Não sei o que Deus está querendo. Estou fazendo o meu melhor, mas as coisas não andam”.

Na mesma hora pensei no que está registrado no Salmo 127.1: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela”. Creio que Salomão aponta aqui para dois aspectos. O primeiro é a tônica do livro de Eclesiastes. Penso que o Salmo resume muito bem o livro de Eclesiastes, também escrito por Salomão, que é o fato de que à parte do Senhor tudo é vão. Daí ele afirmar no segundo versículo do Salmo: “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes”. Note que o pão foi ganhado, mas na visão de Salomão, sem uma vida na presença do Senhor tudo é inútil, entretanto, “aos seus amados ele o dá [o pão] enquanto dormem”.

É o Senhor que dá sentido e significado à vida do homem que foi criado para exaltar sua majestade e glória. Daí Paulo ordenar aos Coríntios, “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Nessa perspectiva, Salomão também diz no livro de Eclesiastes: “Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?” (Ec 2.24-25).

Mas o segundo aspecto que penso estar sendo descrito por Salomão no Salmo 127 é o que está destacado no título desta pastoral, o fato de que ainda que você faça o seu melhor, se Deus não estiver no processo, de nada adiantará. Isso aponta para a dependência de Deus.

Pense novamente nos primeiros versículos do Salmo. Salomão não está dispensando os trabalhadores que edificam a casa ou a sentinela que vigia a cidade. O ensino aqui é sobre não confiar em si mesmo ou presumir que basta somente fazer o seu trabalho bem feito que as coisas acontecerão. Se o Senhor não edificar a casa e não guardar a cidade, não adianta o trabalho bem feito dos edificadores ou da sentinela. É o Senhor quem edifica a casa e guarda a cidade e ele faz isso por meio do trabalho dos edificadores e da sentinela.

De novo, isso aponta para a dependência que se deve ter de Deus e implica fazer muito bem o seu trabalho, sem nunca se enganar, sabendo que “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em que não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17).

Aqueles que se esquecem desta verdade e atribuem seus feitos e conquistas à sua própria capacidade, roubam a glória de Deus e se entenderão com ele. Um bom exemplo disso está em Isaías 10, onde temos a profecia do Senhor contra a Assíria. Deus iria enviar a Assíria contra Israel. Ela seria o cetro da ira de Deus e a vara em sua mão o instrumento do furor do Senhor a fim de castigar os pecados do seu povo. Entretanto, na cabeça do rei da Assíria ele estaria fazendo isso por conta de seu grande poder e força.

Deus, então, decreta: “por isso, acontecerá que, havendo o Senhor acabado sua obra no monte Sião e em Jerusalém, então, castigará a arrogância do coração do rei da Assíria e a desmedida altivez dos seus olhos; porquanto o rei disse: Com o poder da minha mão, fiz isto, e com a minha sabedoria, porque sou inteligente; [...] Porventura, gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele? Ou presumirá a serra contra o que a maneja? Seria isso como se a vara brandisse os que a levantam ou o bastão levantasse a quem não é pau” (Is 10.12,13,15).

Diante de tudo isso, tenha em mente que você deve sempre fazer o seu melhor, com os dons e talentos que tem, para a glória do Deus que concedeu tal capacidade. Depois disso, não coloque a confiança do seu coração no que fez, mas no Senhor que leva a cabo tudo o que ele quer fazer, na hora que ele quer fazer. Isso te fará descansar em seu sábio e soberano governo. Por fim, não esqueça de tributar ao Senhor a glória devida, quando ele abençoar o trabalho de suas mãos.

O seu melhor não é o suficiente! Ele deve vir acompanhado de um profundo senso de dependência, submissão, gratidão e louvor ao Deus que faz todas as coisas por meio de Jesus Cristo (o melhor de Deus para nós), segundo sua própria vontade, usando instrumentos frágeis como eu e você, para a glória e louvor dele mesmo.

02 dezembro 2016

A morte, a vida e a hipocrisia de muitos

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A terça-feira começou com uma triste notícia. O avião que levava a delegação da Chapecoense, time do sul do país, que seguia para Medelín a fim de tentar um feito memorável, a conquista da Copa Sul-Americana, caiu a poucos quilômetros da capital da Colômbia pondo fim ao sonho do título e dando início a um terrível pesadelo para os familiares dos jogadores, comissão técnica e jornalistas que seguiam junto.

A comoção foi grande. Homenagens e mensagens de apoio podiam ser vistas durantes todo o dia na rede mundial de computadores e mais evidentemente nas redes sociais.

Nunca nos acostumaremos com a morte. Por mais que saibamos que este é o fim de todos os homens, pois “aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9.27), a dor da separação é grande e sempre sentida. Prova é que o Brasil e o mundo juntaram-se aos familiares das vítimas na tristeza por tão grande tragédia, a morte de 71 pessoas em um dos momentos mais alegres na vida da maioria delas. Para piorar, houve rumores de que o problema da aeronave foi falta de combustível, o que aumentou a revolta de muitos, pois pensando apenas em si mesmo e no lucro com a economia, o dono da aeronave teria causado a morte de tantos outros.

Inacreditavelmente, enquanto o país guardava luto por conta da tragédia que ceifou vidas, na noite da mesma terça-feira o STF decidiu de que a prática do aborto nos três primeiros meses de gestação não é crime. Por mais que seja uma decisão a respeito de um caso específico, o entendimento do STF pode se tornar norma para outras instâncias.

Aborto é assassinato, é a quebra do sexto mandamento. A tragédia com a delegação da Chapecoense foi terrível, mas o que aqueles que deveriam ser os guardiões da justiça do país fez é ainda mais. Suas mãos estão cheias de sangue.

Triste é saber que muitos dos que disseram estar tristes por conta da morte dos jogadores acabam apoiando o assassinato de uma vida indefesa. Sim, uma VIDA indefesa. Por mais que este mundo sem Deus discuta a respeito de quanto começa a vida, Davi, ao registrar a Palavra inerrante do Senhor, afirma: “Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; [...] Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.13,14a,16).

Os argumentos pró-aborto são ainda mais tristes, exatamente por serem tão tolos. A começar, por exemplo, pelo voto do ministro Barroso ao afirmar que criminalizar o aborto até o terceiro mês de gestação viola direitos fundamentais da mulher, como o da igualdade de gênero, pois “é a mulher que engravida, somente haverá igualdade plena se a ela for reconhecido o direito de decidir acerca da sua manutenção ou não”.

Pense em quão ridículo é esse argumento. É óbvio que homens e mulheres são diferentes. Se não querem levar em conta as funções dadas a cada um deles pelo Criador (vide Gn 1 e 2), alegando que o estado é laico, basta somente considerar a anatomia. Um tem útero e o outro não. Partindo do “entendimento” do ministro, daqui a pouco teremos homens entrando com processo contra sei lá quem, alegando a discriminação que é o fato de eles não poderem gerar um bebê. Os direitos têm de ser iguais, ora bolas!

Maternidade é um privilégio do Deus bendito, privilégio que leva o salmista a louvar àquele que milagrosamente “faz com que a mulher estéril via em família e seja alegre mãe de filhos” (Sl 113.9) e que fez de Maria uma bem-aventurada ao ter em seu ventre o Salvador, Jesus Cristo!

Mais ainda, se a mulher tem o direito de “interromper a gravidez”, será dado o mesmo direito aos pais (homens, para ficar bem claro), a saber, pedir que uma mulher assassine o filho, ainda que queira tê-lo, afinal, ela não o fez sozinho e ele não está disposto a ser pai? Será preservado aqui o princípio de “igualdade plena”? Faça-me o favor.

O que dizer ainda do argumento de que a mulher tem direito de fazer o que bem entender com seu corpo? Creio que quase podemos concordar com isso. Entretanto, em se tratando do fruto que está em seu ventre, o argumento se esvai, a não ser que se prove, cientificamente, que um ser humano tenha dois corações, quatro pulmões, etc. Continua, então, valendo a lei do Soberano Legislador: “Não matarás” (Ex 20.13)!

A vida humana, por se tratar da imagem de Deus, é preciosa. É o ser imagem de Deus que confere dignidade aos humanos e os diferencia de animais, esses, ironicamente, com leis que os protegem da morte, sendo colocados, na prática, numa categoria acima do homem. Vi numa rede social uma mesma pessoa que lamentava a lei sobre a vaquejada ao mesmo tempo em que se alegrava com a descriminalização do aborto. Como diz uma música secular, “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”.

Alguns tentam ainda apelar para a Bíblia, tentando provar que a vida da mãe é mais importante que a do feto, logo, entre o bem-estar psicológico de uma mãe que não teria condições de assumir um filho e o “feto”, a dignidade da mãe é mais importante.

O texto usado é, geralmente, Êxodo 21.22-26, que diz que se dois homens brigando ferirem uma grávida sendo causa de que ela aborte, sem maior dano, quem a feriu deveria indenizar o que fosse exigido pelo marido. Mas se houvesse maior dano, então aquele que matou deveria ser morto. A questão reside em interpretar o que seria o “maior dano”. Na cabeça de muitos a ideia do texto é que se só o “feto” morresse deveria haver indenização, mas se a mulher também morresse, ou seja, se houvesse maior dano, deveria haver pena de morte.

Entretanto, não é essa a ideia do texto. Tudo ali gira em torno do bebê no ventre. O texto hebraico literalmente diz “e a criança sair” o que a NVI traduziu acertadamente como “ela der à luz prematuramente” (Ex 21.22). Então, a ideia é de que se dois homens brigarem e ferirem uma mulher grávida sendo essa a causa de a criança sair (prematuramente) sem maior dano, ou seja, viver, será paga uma indenização, mas se houve maior dano, a saber, a morte da criança que nasceu prematuramente, será aplicada a pena capital sobre aquele que causou a morte.

O que causa o problema de interpretação é que a palavra aborto, para muitos, remete somente à morte de um bebê na barriga, mas ela é usada em relação a um parto fora do tempo normal, ou seja, uma gravidez que foi abortada. A tradução Revista e Corrigida de Almeida usa o termo em relação a Paulo, quando ele diz que era um apóstolo “abortivo”, que a nossa versão traduz como “nascido fora do tempo”.

O texto, então, em vez de apontar para a maior dignidade da mulher em relação ao feto, os iguala, pois a pena capital era aplicada em casos de assassinato daqueles que são a imagem de Deus (Gn 9.6). É exatamente isso que o aborto é, repito, um assassinato.

Aqueles que se iraram com o rumor de que o egoísmo de uma pessoa que queria lucrar mais foi a causa da morte de tantas pessoas naquele voo, mas que defendem mulheres que pensam somente em si, não ligando se vão tirar outra vida ao abortar são incoerentes e hipócritas, pois a razão é a mesma: egoísmo. É preciso parar para pensar!

A igreja precisa estar bem firmada na Escritura a fim de não se deixar levar por discursos que tentam desumanizar aqueles que estão no ventre e deve lutar para protege-los, ao mesmo tempo em que prega fielmente a fim de que o Salvador, Cristo Jesus, salve e convença aqueles que são propensos ao assassinato de inocentes de seu erro.

26 novembro 2016

O pior genocida da história

CARTAZ_ERMIDA_3A manhã deste sábado começou com a notícia da morte de Fidel Castro. Castro foi um ditador terrível, responsável por milhares de mortes e extermínios em seu país, além de perseguir arduamente aqueles que se opunham ao seu governo.

Enquanto grande parte (ou maioria) da mídia, vendida à ideologia de esquerda, tenta exaltar “um dos mais importantes políticos contemporâneos” noticiando que “grande parte da população de Havana está triste”, as redes sociais e mídia independente comemoram e enfatizam que “cubanos que vivem em Miami comemoram a morte de Castro”.

Essas polarizações, evidentemente, são reflexo de posições políticas, mas independente da verdade de que Castro foi um cruel assassino (deixando clara a minha posição), o que me espanta é a forma como cristãos estão lidando com a notícia, comemorando e afirmando que ele “foi para o inferno”, “está agora sentado no colo do capeta”, dentre outras coisas mais.

Para complicar ainda mais, na mesma manhã foi também divulgada abundantemente a morte de um servo fiel do Senhor, que muito contribuiu com o Evangelho em nossa pátria, o Pr. Russel Shedd, que deixa um importante legado.

É óbvio que também não faltaram as comparações a respeito do destino eterno de ambos e é aí, que para mim, as coisas começam a ficar mais complicadas, pois em vez de se assemelhar ao Senhor que disse por meio de Ezequiel: “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? – diz o Senhor Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?” (18.23), parecem-se mais com o profeta Jonas que, diante da graça de Deus na salvação da ímpia nação Nínive, desgostou-se extremamente e ficou irado. E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso me adiantei fugindo para Tarsis, pois sabias que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal (Jn 1-2).

Calma, não se apresse em entender que estou insinuando a salvação de Fidel, óbvio que não. A comparação foi apenas para demonstrar que Deus é clemente, misericordioso, tardio em irar-se e benigno, enquanto Jonas não, talvez como eu e você.

Não tenho dúvidas de que não devo e não posso afirmar que um ímpio, com um histórico tão terrível como Castro, foi para o céu, mas o oposto também é verdadeiro, pois não temos todos os fatos diante de nós. A história do ladrão na cruz demonstra que a salvação pode se dar instantes antes da morte, bastando o Soberano assim querer.

Deixe-me, então, falar um pouco sobre o maior genocida da história. Se você achou que no título eu me referia a Fidel, que em termos de maldade ainda perde para Hitler, Stalin e alguns outros, errou. Estou me referindo a nosso pai Adão, aquele que (ainda que avisado por Deus) por causa de sua desobediência morreu e lançou toda a sua posteridade na morte, colocando-os sob a justa ira do Senhor (Rm 5.12).

Entretanto, apesar de tamanho pecado, o Senhor se compadeceu dele. Em Gênesis você pode conferir que o Senhor providenciou redenção por meio daquele que viria da mulher (Gn 3.15). O que Fidel Castro fez não tem comparação perto daquilo que fez Adão. Inclusive, Fidel o fez porque já nasceu morto em seus delitos e pecados, condição que nossa teologia chama de “depravação total”, e que foi consequência sobre ele, sobre mim e sobre você da escolha de Adão, que ainda estava vivo quando se opôs a Deus.

É aí que a história fica boa! Paulo, depois de afirmar aos Romanos que todos estão mortos por causa de Adão, explicou um pouco mais:

“Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos (Rm 5.18-19).

Aqueles que são cristãos conhecem o texto e, mais ainda, já experimentaram a graça e sabem que Deus é poderoso para salvar pecadores. Talvez o que tenham esquecido é que a condição de Castro diante de Deus era a mesma que a nossa: condenação. Nossas obras não são melhores que as dele e não é por causa delas que seremos salvos, mas pela obra de Cristo! “Assim, pois,” – como também afirmou Paulo – [a salvação] “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16)

Talvez um outro fator para a comemoração dos cristãos seja a ilusão de que o mundo estará melhor sem Fidel. O mundo não estará melhor porque mais um ditador morreu, ainda que possa haver certo alívio para aqueles que sofreram sob suas mãos. A redenção e melhora do mundo não se dão por causa daqueles que morrem, mas por causa daquele que vive eternamente, Jesus Cristo, o supremo Soberano.

Para os que foram redimidos e estão em Cristo, a vida sempre terá sentido e alegria verdadeira, ainda que sob circunstâncias adversas, pois as palavras do profeta ainda ecoam e continuam sendo verdadeiras:

"Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente" (Hc 3.17–19).

A graça de Deus alcançou o maior genocida da história, Adão. Ela alcançou o mentiroso Jacó, o adúltero e assassino Davi, o perseguidor e assassino de cristãos Paulo e até mesmo a mim. Algo maravilhoso sobre a graça é que ela é realmente graça! Ela alcança os piores pecadores, pois onde abundou o pecado, superabundou a graça de Cristo.

Quanto ao destino eterno de Fidel, é impossível saber e temerário especular. Entretanto, cuidemos para não negar a maravilhosa doutrina da salvação pela graça por conta de julgamentos que não somos autorizados a fazer. Como diz um hino antigo, a maravilhosa graça “é maior que a minha vida inútil, é maior que o meu pecado vil”. Certamente é também maior que os piores e mais terríveis pecadores.

Levando isso em conta, oremos para que aqueles que sofreram sob seu governo e que estão aliviados com sua morte arrependam-se também de seus pecados e se rendam ao único que pode conceder alívio e alegria verdadeira e duradouramente.