02 dezembro 2016

A morte, a vida e a hipocrisia de muitos

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A terça-feira começou com uma triste notícia. O avião que levava a delegação da Chapecoense, time do sul do país, que seguia para Medelín a fim de tentar um feito memorável, a conquista da Copa Sul-Americana, caiu a poucos quilômetros da capital da Colômbia pondo fim ao sonho do título e dando início a um terrível pesadelo para os familiares dos jogadores, comissão técnica e jornalistas que seguiam junto.

A comoção foi grande. Homenagens e mensagens de apoio podiam ser vistas durantes todo o dia na rede mundial de computadores e mais evidentemente nas redes sociais.

Nunca nos acostumaremos com a morte. Por mais que saibamos que este é o fim de todos os homens, pois “aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9.27), a dor da separação é grande e sempre sentida. Prova é que o Brasil e o mundo juntaram-se aos familiares das vítimas na tristeza por tão grande tragédia, a morte de 71 pessoas em um dos momentos mais alegres na vida da maioria delas. Para piorar, houve rumores de que o problema da aeronave foi falta de combustível, o que aumentou a revolta de muitos, pois pensando apenas em si mesmo e no lucro com a economia, o dono da aeronave teria causado a morte de tantos outros.

Inacreditavelmente, enquanto o país guardava luto por conta da tragédia que ceifou vidas, na noite da mesma terça-feira o STF decidiu de que a prática do aborto nos três primeiros meses de gestação não é crime. Por mais que seja uma decisão a respeito de um caso específico, o entendimento do STF pode se tornar norma para outras instâncias.

Aborto é assassinato, é a quebra do sexto mandamento. A tragédia com a delegação da Chapecoense foi terrível, mas o que aqueles que deveriam ser os guardiões da justiça do país fez é ainda mais. Suas mãos estão cheias de sangue.

Triste é saber que muitos dos que disseram estar tristes por conta da morte dos jogadores acabam apoiando o assassinato de uma vida indefesa. Sim, uma VIDA indefesa. Por mais que este mundo sem Deus discuta a respeito de quanto começa a vida, Davi, ao registrar a Palavra inerrante do Senhor, afirma: “Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; [...] Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.13,14a,16).

Os argumentos pró-aborto são ainda mais tristes, exatamente por serem tão tolos. A começar, por exemplo, pelo voto do ministro Barroso ao afirmar que criminalizar o aborto até o terceiro mês de gestação viola direitos fundamentais da mulher, como o da igualdade de gênero, pois “é a mulher que engravida, somente haverá igualdade plena se a ela for reconhecido o direito de decidir acerca da sua manutenção ou não”.

Pense em quão ridículo é esse argumento. É óbvio que homens e mulheres são diferentes. Se não querem levar em conta as funções dadas a cada um deles pelo Criador (vide Gn 1 e 2), alegando que o estado é laico, basta somente considerar a anatomia. Um tem útero e o outro não. Partindo do “entendimento” do ministro, daqui a pouco teremos homens entrando com processo contra sei lá quem, alegando a discriminação que é o fato de eles não poderem gerar um bebê. Os direitos têm de ser iguais, ora bolas!

Maternidade é um privilégio do Deus bendito, privilégio que leva o salmista a louvar àquele que milagrosamente “faz com que a mulher estéril via em família e seja alegre mãe de filhos” (Sl 113.9) e que fez de Maria uma bem-aventurada ao ter em seu ventre o Salvador, Jesus Cristo!

Mais ainda, se a mulher tem o direito de “interromper a gravidez”, será dado o mesmo direito aos pais (homens, para ficar bem claro), a saber, pedir que uma mulher assassine o filho, ainda que queira tê-lo, afinal, ela não o fez sozinho e ele não está disposto a ser pai? Será preservado aqui o princípio de “igualdade plena”? Faça-me o favor.

O que dizer ainda do argumento de que a mulher tem direito de fazer o que bem entender com seu corpo? Creio que quase podemos concordar com isso. Entretanto, em se tratando do fruto que está em seu ventre, o argumento se esvai, a não ser que se prove, cientificamente, que um ser humano tenha dois corações, quatro pulmões, etc. Continua, então, valendo a lei do Soberano Legislador: “Não matarás” (Ex 20.13)!

A vida humana, por se tratar da imagem de Deus, é preciosa. É o ser imagem de Deus que confere dignidade aos humanos e os diferencia de animais, esses, ironicamente, com leis que os protegem da morte, sendo colocados, na prática, numa categoria acima do homem. Vi numa rede social uma mesma pessoa que lamentava a lei sobre a vaquejada ao mesmo tempo em que se alegrava com a descriminalização do aborto. Como diz uma música secular, “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”.

Alguns tentam ainda apelar para a Bíblia, tentando provar que a vida da mãe é mais importante que a do feto, logo, entre o bem-estar psicológico de uma mãe que não teria condições de assumir um filho e o “feto”, a dignidade da mãe é mais importante.

O texto usado é, geralmente, Êxodo 21.22-26, que diz que se dois homens brigando ferirem uma grávida sendo causa de que ela aborte, sem maior dano, quem a feriu deveria indenizar o que fosse exigido pelo marido. Mas se houvesse maior dano, então aquele que matou deveria ser morto. A questão reside em interpretar o que seria o “maior dano”. Na cabeça de muitos a ideia do texto é que se só o “feto” morresse deveria haver indenização, mas se a mulher também morresse, ou seja, se houvesse maior dano, deveria haver pena de morte.

Entretanto, não é essa a ideia do texto. Tudo ali gira em torno do bebê no ventre. O texto hebraico literalmente diz “e a criança sair” o que a NVI traduziu acertadamente como “ela der à luz prematuramente” (Ex 21.22). Então, a ideia é de que se dois homens brigarem e ferirem uma mulher grávida sendo essa a causa de a criança sair (prematuramente) sem maior dano, ou seja, viver, será paga uma indenização, mas se houve maior dano, a saber, a morte da criança que nasceu prematuramente, será aplicada a pena capital sobre aquele que causou a morte.

O que causa o problema de interpretação é que a palavra aborto, para muitos, remete somente à morte de um bebê na barriga, mas ela é usada em relação a um parto fora do tempo normal, ou seja, uma gravidez que foi abortada. A tradução Revista e Corrigida de Almeida usa o termo em relação a Paulo, quando ele diz que era um apóstolo “abortivo”, que a nossa versão traduz como “nascido fora do tempo”.

O texto, então, em vez de apontar para a maior dignidade da mulher em relação ao feto, os iguala, pois a pena capital era aplicada em casos de assassinato daqueles que são a imagem de Deus (Gn 9.6). É exatamente isso que o aborto é, repito, um assassinato.

Aqueles que se iraram com o rumor de que o egoísmo de uma pessoa que queria lucrar mais foi a causa da morte de tantas pessoas naquele voo, mas que defendem mulheres que pensam somente em si, não ligando se vão tirar outra vida ao abortar são incoerentes e hipócritas, pois a razão é a mesma: egoísmo. É preciso parar para pensar!

A igreja precisa estar bem firmada na Escritura a fim de não se deixar levar por discursos que tentam desumanizar aqueles que estão no ventre e deve lutar para protege-los, ao mesmo tempo em que prega fielmente a fim de que o Salvador, Cristo Jesus, salve e convença aqueles que são propensos ao assassinato de inocentes de seu erro.

26 novembro 2016

O pior genocida da história

CARTAZ_ERMIDA_3A manhã deste sábado começou com a notícia da morte de Fidel Castro. Castro foi um ditador terrível, responsável por milhares de mortes e extermínios em seu país, além de perseguir arduamente aqueles que se opunham ao seu governo.

Enquanto grande parte (ou maioria) da mídia, vendida à ideologia de esquerda, tenta exaltar “um dos mais importantes políticos contemporâneos” noticiando que “grande parte da população de Havana está triste”, as redes sociais e mídia independente comemoram e enfatizam que “cubanos que vivem em Miami comemoram a morte de Castro”.

Essas polarizações, evidentemente, são reflexo de posições políticas, mas independente da verdade de que Castro foi um cruel assassino (deixando clara a minha posição), o que me espanta é a forma como cristãos estão lidando com a notícia, comemorando e afirmando que ele “foi para o inferno”, “está agora sentado no colo do capeta”, dentre outras coisas mais.

Para complicar ainda mais, na mesma manhã foi também divulgada abundantemente a morte de um servo fiel do Senhor, que muito contribuiu com o Evangelho em nossa pátria, o Pr. Russel Shedd, que deixa um importante legado.

É óbvio que também não faltaram as comparações a respeito do destino eterno de ambos e é aí, que para mim, as coisas começam a ficar mais complicadas, pois em vez de se assemelhar ao Senhor que disse por meio de Ezequiel: “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? – diz o Senhor Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?” (18.23), parecem-se mais com o profeta Jonas que, diante da graça de Deus na salvação da ímpia nação Nínive, desgostou-se extremamente e ficou irado. E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso me adiantei fugindo para Tarsis, pois sabias que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal (Jn 1-2).

Calma, não se apresse em entender que estou insinuando a salvação de Fidel, óbvio que não. A comparação foi apenas para demonstrar que Deus é clemente, misericordioso, tardio em irar-se e benigno, enquanto Jonas não, talvez como eu e você.

Não tenho dúvidas de que não devo e não posso afirmar que um ímpio, com um histórico tão terrível como Castro, foi para o céu, mas o oposto também é verdadeiro, pois não temos todos os fatos diante de nós. A história do ladrão na cruz demonstra que a salvação pode se dar instantes antes da morte, bastando o Soberano assim querer.

Deixe-me, então, falar um pouco sobre o maior genocida da história. Se você achou que no título eu me referia a Fidel, que em termos de maldade ainda perde para Hitler, Stalin e alguns outros, errou. Estou me referindo a nosso pai Adão, aquele que (ainda que avisado por Deus) por causa de sua desobediência morreu e lançou toda a sua posteridade na morte, colocando-os sob a justa ira do Senhor (Rm 5.12).

Entretanto, apesar de tamanho pecado, o Senhor se compadeceu dele. Em Gênesis você pode conferir que o Senhor providenciou redenção por meio daquele que viria da mulher (Gn 3.15). O que Fidel Castro fez não tem comparação perto daquilo que fez Adão. Inclusive, Fidel o fez porque já nasceu morto em seus delitos e pecados, condição que nossa teologia chama de “depravação total”, e que foi consequência sobre ele, sobre mim e sobre você da escolha de Adão, que ainda estava vivo quando se opôs a Deus.

É aí que a história fica boa! Paulo, depois de afirmar aos Romanos que todos estão mortos por causa de Adão, explicou um pouco mais:

“Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos (Rm 5.18-19).

Aqueles que são cristãos conhecem o texto e, mais ainda, já experimentaram a graça e sabem que Deus é poderoso para salvar pecadores. Talvez o que tenham esquecido é que a condição de Castro diante de Deus era a mesma que a nossa: condenação. Nossas obras não são melhores que as dele e não é por causa delas que seremos salvos, mas pela obra de Cristo! “Assim, pois,” – como também afirmou Paulo – [a salvação] “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16)

Talvez um outro fator para a comemoração dos cristãos seja a ilusão de que o mundo estará melhor sem Fidel. O mundo não estará melhor porque mais um ditador morreu, ainda que possa haver certo alívio para aqueles que sofreram sob suas mãos. A redenção e melhora do mundo não se dão por causa daqueles que morrem, mas por causa daquele que vive eternamente, Jesus Cristo, o supremo Soberano.

Para os que foram redimidos e estão em Cristo, a vida sempre terá sentido e alegria verdadeira, ainda que sob circunstâncias adversas, pois as palavras do profeta ainda ecoam e continuam sendo verdadeiras:

"Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente" (Hc 3.17–19).

A graça de Deus alcançou o maior genocida da história, Adão. Ela alcançou o mentiroso Jacó, o adúltero e assassino Davi, o perseguidor e assassino de cristãos Paulo e até mesmo a mim. Algo maravilhoso sobre a graça é que ela é realmente graça! Ela alcança os piores pecadores, pois onde abundou o pecado, superabundou a graça de Cristo.

Quanto ao destino eterno de Fidel, é impossível saber e temerário especular. Entretanto, cuidemos para não negar a maravilhosa doutrina da salvação pela graça por conta de julgamentos que não somos autorizados a fazer. Como diz um hino antigo, a maravilhosa graça “é maior que a minha vida inútil, é maior que o meu pecado vil”. Certamente é também maior que os piores e mais terríveis pecadores.

Levando isso em conta, oremos para que aqueles que sofreram sob seu governo e que estão aliviados com sua morte arrependam-se também de seus pecados e se rendam ao único que pode conceder alívio e alegria verdadeira e duradouramente.

20 outubro 2016

Nem grilo falante, nem muro das lamentações

Israel Adventures. Jerusalem. Matan

Uma piada antiga conta que um médico do interior enviou seu filho a fim de cursar medicina na capital. Após um logo tempo de estudo o jovem retornou para assumir a clínica do pai, que havia se aposentado. O primeiro paciente entrou e ele soube que o cliente já se consultava com o seu pai há 10 anos. O jovem doutor o examinou, prescreveu o remédio e com poucas semanas o paciente já estava bom, muito grato e não poupando elogios ao novo doutor. O jovem médico, então, foi visitar o pai e disse: Meu pai, já estava em tempo mesmo de o senhor se aposentar. A medicina avançou muito e aquele paciente que o sr. já tratava há dez anos ficou curado em três semanas com o tratamento que prescrevi. O velho médico olhou bem para o filho e exclamou: Pois é, meu filho, mas foi o dinheiro desses dez anos de consultas que ajudou a pagar o seu curso de medicina...

Pensando já na vida real, não são poucos os casos de pessoas que, ao enfrentar problemas existenciais, recebem junto com o “diagnóstico” a notícia, pelo especialista, de que o tratamento terá de ser bem longo (muitas vezes, “coincidentemente”, durando o mesmo tempo das prestações a serem pagas pelos profissionais). É claro que aqui, não posso ser leviano. Mesmo discordando das abordagens seculares, tenho plena consciência de que há muitos terapeutas que estão mais preocupados com os pacientes que com as parcelas a vencer e levam seu trabalho a sério. Sei também que a questão de “manter o cliente” não é uma prerrogativa de conselheiros seculares. Por várias razões, incluindo finanças, no caso daqueles que cobram para aconselhar (tenho aqui minhas críticas a essa prática, mas isso é assunto para outro post), desejo de ser reconhecido, ouvido, considerado, etc., conselheiros bíblicos podem cair na tentação de se tornar uma espécie de “Grilo Falante gospel”.

Você deve conhecer o Grilo Falante, ele é o amigo do Pinóquio, um boneco de pau que se tornou um menino, e age como sua consciência, tentando livrar o garoto de problemas. Curiosamente, enquanto eu escrevia fui buscar saber um pouco mais sobre a personagem que eu já conhecia e descobri que vários sites trazem a informação de que o nome do grilo, em inglês Jiminy Cricket, inicialmente era apenas um eufemismo para Jesus Christ. Essa nova informação torna minha ilustração ainda mais precisa, pois é isso que muitos conselheiros acabam tentando fazer, servir eles mesmos de redentores dos aconselhados.

Em meu ministério encontrei alguns aconselhados que foram uma tentação para que eu começasse a agir assim. Um, especificamente, me ligava a cada decisão que tinha de tomar. Em princípio até me senti importante, já que alguém estava considerando minhas “opiniões” a fim de tomar decisões em sua vida. De repente começaram as ligações tarde da noite ou durante os períodos em que eu estava me exercitando fisicamente, também na hora em que eu estava almoçando e em vários outros momentos do dia, para perguntar sobre as coisas mais simples.

É claro que tive de conversar e explicar que o objetivo do aconselhamento era que, diante do Senhor, ele pudesse tomar, por si mesmo, decisões que honrassem ao Redentor. Conselheiros devem estar bem cientes de que seus dons, assim como os demais dons concedidos pelo Senhor, têm por finalidade o “aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para o outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.12-14).

A ideia é que o aconselhado dependa de Cristo, não do conselheiro, e para que isso aconteça as tarefas são de essencial importância no processo de aconselhamento bíblico. Conselheiros devem ouvir as histórias, os dilemas, buscar e apontar nas Escrituras a forma como os aconselhados podem e devem responder biblicamente às diversas circunstâncias de suas vidas e providenciar tarefas criativas para que eles coloquem em prática o que estão aprendendo e comecem a crescer em graça, sempre na dependência de Deus, aquele que efetua nos crentes o querer e o realizar conforme sua boa vontade (Fp 2.13), por meio de seu Filho Jesus Cristo, que afirmou: “Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (Jo 15.5).

Quando isso não ocorre há outro perigo para os conselheiros que é o de se tornarem nada mais que um “muro de lamentações dos pecados alheios”. Funciona mais ou menos assim, os aconselhados vêm para o aconselhamento, contam suas crises, seus pecados, choram, ouvem alguma exortação e/ou esperança que flui do evangelho, recebem suas tarefas, não as fazem, não buscam crescer em graça e pensar biblicamente, mas sempre retornam ao conselheiro a fim de tentar aliviar a culpa do pecado ou o peso sentido em meio aos dilemas da vida, por meio de um mero desabafar ou de um “pôr tudo para fora”.

Com Maísa (nome fictício) aconteceu exatamente assim. Apesar do prévio combinado, de que se ela não realizasse as tarefas não haveria como seguir como aconselhamento, por algumas vezes acabei transigindo com sua falta de compromisso, achando que conseguiria ajuda-la, mesmo ela tendo deixado de fazer uma tarefa simples como voltar a frequentar regularmente a sua igreja. Quando entendi que ela não queria levar a sério o compromisso com o corpo de Cristo, mas somente ter alguém para desabafar, não tive outra opção a não ser encerrar os encontros para aconselhamento. O princípio exposto em Provérbios 21.25 cabe muito bem aqui, “o preguiçoso morre desejando, porque as suas mãos recusam a trabalhar”. Nunca haverá resultado na passividade (ou preguiça) dos aconselhados, pois a piedade é algo que deve ser exercitado e que exige esforço (1Tm 4.7; At 24.16). É bom lembrar que no Salmo 1 a promessa de ser bem-sucedido é em tudo o que o justo “faz” (1.3).

Você pode ser uma bênção aconselhando seus irmãos sendo usado, pela graça de Deus, para exortar, confortar, animar, apontar caminhos, dar esperança, mas sem nunca querer tomar o lugar do Redentor, quer seja nas decisões que os aconselhados devem tomar, quer seja no alívio paliativo, ao simplesmente servir como uma boa pessoa com quem desabafar.

Lembre-se sempre disso: conselheiros não são chamados para ser um Grilo falante, tampouco um muro das lamentações, mas, nas palavras de Paul Tripp, simples “instrumentos nas mãos do Redentor: pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação”. Que o Senhor Jesus Cristo, o Maravilhoso Conselheiro, use nossa vida para a sua própria glória.

29 setembro 2016

Cães de família?

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Cachorros não são da família! Sei que começar o texto com uma afirmação tão categórica assim pode fazer com que alguns não queiram nem perder tempo com “este insensível que não gosta de animais”. Quase consigo ouvir alguns recitarem bem alto: “O justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos perversos é cruel” (Pv 12.10), entretanto, peço que não seja tão apressado em seu julgamento, mas que “caminhe” comigo um pouco mais.

Antes de continuar preciso insistir, cachorros não são da família. Nem gatos, papagaios, iguanas, ou qualquer outro animal que seja. Dito isso, pense um pouco comigo a respeito desse assunto e, claro, como cristãos, por uma perspectiva bíblica.

Gênesis é o livro que narra a criação. Você pode perceber nos dias criativos como o Senhor vai estabelecendo a sua obra. Ele cria céus e terra, ordena que haja luz, que haja firmamento no meio das águas, ordena que as águas debaixo do céu se ajuntem num só lugar e apareça a porção seca, ordena que a terra produza relva, ervas, árvores frutíferas, etc. e que haja luzeiros para governar o dia e a noite. Após criar todas essas coisas e um ambiente que pudesse ser habitado, o Senhor começa a criar os animais. Ele ordena que se povoem as águas de seres viventes, que voem as aves sobre a terra, cria os animais marinhos, além de todos os seres viventes cada qual segundo a sua espécie. Tudo isso segundo o poder de sua Palavra, ele ordenou e assim se fez (Cf. Gn 1.1-25).

Somente após isso o Senhor criou o homem e foi uma criação diferenciada. Não foi como a dos animais, pois o homem não é daquela espécie. O Senhor não criou animais irracionais e um animal racional, Deus criou animais e o homem, segundo sua própria imagem e conforme sua própria semelhança. Em Gênesis 1.26-28, temos a deliberação, criação e bênção sobre o homem a fim de fazer aquilo para o qual foi criado: multiplicar-se, encher a terra, sujeitar a terra, dominar sobre os peixes do mar, as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. Tudo isso para que a terra fosse povoada com aqueles que são a imagem do Senhor e para que, cuidando da criação, o homem pudesse espelhar aspectos do caráter do Criador.

Se eu parasse aqui já daria para perceber a diferença gritante entre um homem e um animal. Diferença qualitativa que é enfatizada por Jesus quando, ao ensinar a seus discípulos, ordenou que eles olhassem as aves do céu que, a despeito de não semear e colher, eram alvo do providencial cuidado do Pai que as sustentava e perguntou: “Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?” (Mt 6.26).

Sim, os homens são diferentes e qualitativamente superiores aos animais o que pode ser notado ainda em Gênesis. Caminhemos mais um pouco. No segundo capítulo percebemos que o homem foi formado primeiro. Deus o fez do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida. Colocou-o no jardim para cultivá-lo e guardá-lo, dando uma ordem expressa para que não tomasse do fruto do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.4-17).

É interessante notar que o Senhor afirma que não era bom para o homem estar só. Perceba bem, a despeito de Adão estar cercado de todas as espécies de animais, aos quais ele mesmo deu nome, “para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea” (Gn 2.18-20). Ele tinha consigo muitos animais, mas não tinha uma família. Deus não lhe deu animais por família, mas esta se formaria a partir do momento em que o Senhor, da costela (mesma espécie) de Adão, lhe trouxesse uma mulher que, segundo as próprias palavras de nosso primeiro pai era, afinal, “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.23).

Foi somente após a queda que essa relação começou a se confundir. Se, antes da queda, ao contemplar a criação o homem tributava louvor a Deus, após, os homens, “dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.22,23) e “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1.25).

O reflexo da queda pode ser visto, por exemplo, na idolatria pagã que exalta Gaia, a “mãe-terra” ou que atribui a felicidade e o equilíbrio do homem à “mãe-natureza”. Como consequência, temos a humanização dos animais que, quando não são colocados acima do homem em grau de importância, no mínimo, são vistos como iguais e o resultado não poderia ser outro, festas de aniversário em cerimoniais, SPA, hotéis, creches, carrinhos de bebê, etc., tudo para que os bichinhos “se sintam da família”. Muitos são mais bem cuidados que os próprios filhos, quando não são uma opção em detrimento desses a ponto de, já na década de 80, Eduardo Dusek ironizar cantando “troque o seu cachorro por uma criança pobre”.

Por causa desse tipo de mentalidade não é difícil ver pessoas que preferem animais a gente, todavia, a verdade é que, biblicamente, o mais cruel dos assassinos possui infinitamente mais dignidade que o mais “fofinho” dos pets, por ser imagem, ainda que desfigurada, do Criador. Imagem esta que pode ser redimida por Cristo Jesus, que para salvar pecadores se fez um homem.

Jesus morreu para salvar homens e, todos aqueles que o recebem pela fé, são feitos família de Deus (Ef 2.19). Se até aqui você ainda não se convenceu de que elevar animais ao status de membros da família está errado, olhe para a família de Deus, modelo para as nossas famílias. Ela é composta de todos os tipos de pecadores regenerados, judeus, gregos, circuncisos, incircuncisos, bárbaros, citas, escravos, livres (Cl 3.11), mas não de animais. Homens, por quem Jesus deu seu sangue, ressuscitarão para estar com ele para todo o sempre e, por mais que a criação também gema aguardando a redenção dos filhos de Deus (Rm 8.19-22), pois também será restaurada, não haverá uma ressurreição dos animais.

Eu estou ciente de que muitos que dizem considerar os animais como sendo da família querem enfatizar o cuidado que deve ser dispensado a eles e se você caminhou comigo até aqui, espero que tenha compreendido que não ter cuidado ou maltratar os animais não é atitude de um cristão. O privilégio de dominar a terra exige o cuidado com a criação. Por outro lado, elevar os animais ao nível dos homens, feitos à imagem e semelhança de Deus, é igualar-se aos pagãos.

Que o Senhor conceda a você o discernimento necessário a fim de glorificar a Deus entendendo corretamente o que significa o justo atentar para a vida de seus animais.

24 setembro 2016

Orando a um Deus soberano e providente

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“O que Deus é?”. Esta pergunta, de número 4 do Breve Catecismo de Westminster, traz uma resposta maravilhosa: “Deus é espírito, infinito, eterno e – repare bem o que vem a seguir – imutável eu seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”.

A verdade de que Deus é imutável traz segurança àqueles que confiam em sua Palavra. A segurança da salvação, por exemplo, está firmemente enraizada nesse conceito, o que explica a convicção de Paulo quando escreveu aos filipenses afirmando que estava “plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Entretanto, em se tratando de oração, muitos cristãos não têm levado em conta a doutrina da imutabilidade de Deus. Por essa razão entendem que de alguma forma podem mudar a vontade de Deus, por meio de suas orações.

Enquanto escrevo, me vem à mente um episódio ocorrido em meu primeiro ano de seminário. Eu e alguns amigos tínhamos ido a uma igreja dita evangélica a fim de entrevistar líderes sobre o tema: “a oração muda a vontade de Deus?”. Liguei o gravador e o pastor começou a responder convicto com um firme “sim”. Ele tentou, então, provar biblicamente sua posição, dizendo: “Você lembra a história daquele homem (ele não lembrava o nome de Abraão!) que pediu a Deus para não destruir a cidade se houvesse nela trinta justos?”. Acho que enquanto contava a história ele lembrou que a cidade foi destruída, até que por fim afirmou: “Se a oração não muda a vontade de Deus é melhor servir ao diabo”.

Por mais chocante que possa parecer, o que esse homem disse reflete aquilo que não é dito, pelo menos não tão abertamente assim, por muitos outros cristãos que entendem que Deus deve estar pronto a ceder a seus desejos (ou caprichos?), ao ouvir uma oração feita “com muita fé”. Esses acabam se igualando aos pagãos que, nas palavras de Jesus, “presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos”. O interessante é que na sequência desse texto, o Senhor exortou a seus discípulos, dizendo: “Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.7,8).

Daí, então, vêm aqueles que, não menos enganados, dizem que não é preciso orar, pois Deus já sabe o de que necessitamos e não vai mudar de ideia, caso peçamos o contrário. Esquecem-se, esses, que após afirmar que o Pai sabe o de que seus discípulos têm necessidade, Jesus ordenou: “Portanto, vós orareis assim” (Mt 6.9); e que Paulo ordenou aos tessalonicenses que orassem sem cessar (1Ts 5.17).

Como entender corretamente a oração? Aprendamos com o rei Davi. Ao ler o Salmo 139 você pode notar que Davi tinha convicções bem firmadas a respeito da vontade soberana de Deus em sua vida. Ele escreveu: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16). Uma convicção dessas talvez fizesse com que muitos deixassem de orar, o que não foi verdade na vida de Davi, pois, a começar desse Salmo, podem ser encontradas várias outras orações do rei, em diversos momentos de sua vida.

Pois bem, você deve lembrar de um desses momentos. Em determinado ponto de sua vida Davi cometeu adultério com Bate-Seba, que veio a engravidar. Após toda a trama do rei para trazer Urias da guerra a fim de que se deitasse com sua esposa e pensasse que o filho era dele (plano que não foi bem-sucedido) e que terminou com a ordem de Davi para que Urias fosse colocado à frente do exército para morrer o que, de fato, ocorreu, Davi tomou Bate-Seba por esposa e tudo parecia bem. Ele tinha “resolvido” o seu problema (2Sm 11).

Entretanto, Deus enviou Natã a Davi e este foi confrontado pelo profeta acerca de seu pecado. Após arrepender-se, Davi ouviu de Natã que Deus o havia perdoado, mas que por causa do que havia feito seu filho, fruto do relacionamento adúltero com Bate-Seba, morreria (2Sm 12.1-14). O versículo seguinte informa que, após Natã ir para casa, o Senhor fez enfermar a criança (12.15).

O que faria, diante de uma palavra tão enfática do Senhor, um homem que entendia que todos os seus dias estavam escritos e determinados? O texto nos informa: “Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra” (12.16). Davi orou e jejuou por sete dias, ao cabo dos quais a criança morreu. Diante disso, Davi levantou-se da terra, lavou-se, ungiu-se, adorou a Deus, foi para casa e alimentou-se. Seus servos, espantados, perguntaram o que ele estava fazendo, pois pela criança viva ele havia jejuado e orado, e agora que era morta ele havia levantado e comido pão.

A resposta de Davi aponta para a sua submissão: “Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” – o texto continua – “Então, Davi veio a Bate-Seba, consolou-a e se deitou com ela; teve ela um filho a quem Davi deu o nome de Salomão; e o Senhor o amou” (cf. 2Sm 12.17-25).

O que pode ser notado aqui é que Davi, ainda que tivesse ouvido de Deus acerca da morte de seu filho, não se privou de clamar ao Senhor, mas com uma atitude de submissão, notada na expressão “quem sabe”, ou, em outras palavras, “se o Senhor quiser...”. Deus havia dito que a criança morreria, mas não havia dito quando e Davi, então, rogou pela misericórdia. Talvez isso soe para alguns como uma contradição, mas é bom lembrar que o próprio Senhor Jesus orou ao Pai pedindo que, se possível, o livrasse da cruz, mas que frisou, “contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc 14.16).

Aqui o ensino do Breve Catecismo pode nos ajudar mais uma vez: “Oração é um oferecimento dos nossos desejos a Deus, por coisas conformes com a sua vontade, em nome de Cristo, com a confissão dos nossos pecados, e um agradecido reconhecimento de suas misericórdias” (P. 98) – e mais – “Na terceira petição, que é: ‘Faça-se tua vontade, assim na terra como no Céu’, pedimos que Deus, pela sua graça, nos torne capazes e desejosos de conhecer a sua vontade, de obedecer e submeter-nos a ela em tudo, como fazem os anjos no Céu” (P. 103).

A soberania de Deus (ele fará a sua vontade) e a responsabilidade humana (eu preciso orar sem cessar) caminham juntas. Ouvi, certa vez, uma ilustração sobre um puritano que precisava sair de sua casa no meio da floresta para ir à uma vila. Ele vestiu-se, pegou sua espingarda e quando saia sua esposa questionou: “Para que a arma?”, ouvindo como resposta que era para o caso de encontrar algum urso pelo caminho. A esposa, então, disse que a arma não seria necessária, pois se ele estivesse predestinado para morrer naquele dia, morreria, se não, chegaria ao destino. A resposta que ela ouviu do marido foi: “E se no caminho eu encontrar um urso predestinado para morrer hoje, como farei sem minha espingarda?”.

Não divorcie essas duas verdades! Desta forma, ao orar ao Deus soberano e providente, você não tentará mudar a sua vontade. Antes, em submissão, entenderá que ele fará exatamente o que já decretou na eternidade e que, providencialmente, decretou que ouviria orações que estivessem de acordo com essa vontade soberana.