05 dezembro 2019

Não seja um assassino

A violência está cada dia mais comum em nossos dias, tão comum que muitos nem se assustam mais com as atrocidades que são noticiadas dia após dia nos jornais. Entretanto, a violência não é uma novidade de nossos dias. Já no capítulo quatro de Gênesis temos o relato do assassinato de Abel, por seu irmão. A razão? Ele estava irado por Deus ter aceitado a oferta de Abel e rejeitado a sua. Ainda no capítulo quatro um descendente de Caim, Lameque, conta como vantagem às suas esposas o assassinato de um homem e de um rapaz. O motivo? Um homem o havia ferido e um rapaz o havia pisado.

No capítulo seis do livro de Gênesis somos informados que uma das razões do dilúvio foi que a maldade do homem se havia multiplicado. Se avançarmos um pouco mais na leitura perceberemos também que no cativeiro o povo de Deus experimentou a violência, desde a matança dos primogênitos, a mando de Faraó, até a opressão e maus-tratos sobre o povo que havia sido escravizado.

Desde a queda os relacionamentos humanos, que foram estabelecidos para ser de serviço mútuo, foram afetados pelo egoísmo que passou a reinar no coração humano. A violência é fruto deste egoísmo. Deus dá ao seu povo, recém libertado do cativeiro e acostumado com a violência, um mandamento para demonstrar a santidade que há na vida humana.

“O sexto mandamento é: ‘Não matarás’” (Resposta à Pergunta 67 do BCW: Qual é o sexto mandamento?). Literalmente o que está sendo proibido aqui é o assassinato. Há diferença entre matar e assassinar. Quem assassina está matando, mas nem sempre que está matando comete assassinato. O assassinato pressupõe dolo. É em razão disso que o Catecismo ensina que “o sexto mandamento proíbe tirar a nossa própria vida, ou a do nosso próximo, injustamente, e tudo aquilo que para isso concorra” (Resposta à Pergunta 69 do BCW: O que o sexto mandamento proíbe?).

Você percebe esta questão de forma clara nas Escrituras. A pena capital foi estabelecida pelo Senhor assim que Noé saiu da Arca, por ocasião da reafirmação do Pacto. O Senhor determinou que quem assassinasse alguém também seria morto. A razão para isso foi “porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (Gn 9.6). Portanto, a morte de alguém não é injusta “no caso de justiça pública, guerra legítima ou defesa necessária”[1].

A imagem de Deus no homem concede a ele dignidade. É por isso que a vida precisa ser preservada. “O sexto mandamento exige todos os esforços lícitos para conservar a nossa vida e a dos outros” (Resposta à Pergunta 68 do BCW: O que o sexto mandamento exige?).

Isso significa que o descaso para com a vida, tanto a própria quanto à do próximo, constitui-se em quebra do mandamento. Aqui estão incluídos, então, a eutanásia, o aborto, e a forma como os cristãos cuidam de seus corpos. A Escritura oferece vários exemplos de que é preciso o devido cuidado com a vida. Em Efésios temos a ordenança é para que os maridos amem suas esposas, alimentando e cuidando (Ef 5.28,29), no evangelho de Mateus Jesus ordena aos discípulos pregarem o evangelho sob perigo de virem a morrer e, adverte-os a não se exporem a riscos desnecessários fugindo de onde acontecesse a perseguição (Mt 10.23). No primeiro livro dos reis temos também um exemplo claro da preservação da vida do próximo. Jezabel estava matando os profetas do Senhor e Obadias, para salvá-los, os escondeu e alimentou (1Rs 18.4).

João explica isso de maneira bela. Ao ensinar sobre o amor ao próximo ele exemplifica o amor afirmando que quem tem recursos deve amparar o irmão que passa por necessidade. Caso isso não ocorra, “como pode permanecer nele o amor de Deus? (1Jo 3.17), pergunta o apóstolo.

A abrangência do mandamento é, então, maior que simplesmente o assassinato. Você percebe isso na forma como o Senhor Jesus lidou com o sexto mandamento. No sermão do Monte ele afirmou que os seus ouvintes ouviram o que havia sido dito pelos fariseus, que quem matasse estava sujeito a julgamento. Entretanto, os fariseus entendiam que era quebra do mandamento apenas se houvesse morte física. Jesus demonstrou que as exigências da lei eram mais profundas, afirmando que “todo aquele que sem motivo se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.21-22).

Creio que não estarei exagerando ao dizer que a interpretação de Jesus coloca todos os homens como quebradores do sexto mandamento, pois em algum momento da vida, nos iramos de forma pecaminosa. Pense, por exemplo, nos filhos que são disciplinados pelos pais, não é incomum eles se irarem por causa do castigo.

Geralmente as pessoas interpretam o mandamento da mesma forma que os fariseus. Lembro-me que eu ainda era novo convertido e ao evangelizar uma pessoa falei que estamos condenados por não guardar os mandamentos. O rapaz rapidamente respondeu: eu nunca matei ninguém, e ficou assustado quando eu respondi que tinha matado muitas pessoas. Foi aí que expliquei a exigência de Cristo e a nossa incapacidade diante da Lei. Só em Cristo temos esperança de salvação, visto que ele cumpriu a Lei por nós.

Em vez de se irar, visto que

“a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20), você é ordenado a amar, inclusive os inimigos. Quanto aos que fizerem mal a você, lembre-se das palavras de Paulo: “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quando depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.17-21).

Em Cristo, e somente nele, você pode agir assim!


[1] Resposta à Pergunta 136 do CMW: Quais são os pecados proibidos no sexto mandamento?

28 novembro 2019

O respeito aos pais e às autoridades

Vivemos numa sociedade que louva a juventude e deixa seus idosos de lado. Ainda que tenhamos leis que tentam preservar aquela que tem sido chamada de “melhor idade”, grande parte da população não vê a velhice com bons olhos e teme por quando chegar nessa idade. Não é difícil presenciar crianças caçoando e fazendo chacota dos mais velhos.

Essa mesma sociedade, que não respeita os idosos, não respeita também as autoridades. Vivemos uma crise de autoridade que parece ser sem precedentes na história. Em meio a tudo isso estamos nós, povo de Deus e devemos saber como nos posicionar e agir. Sobre isso, temos muito a aprender com o quinto mandamento. “O quinto mandamento é: ‘Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá’” (Resposta à Pergunta 63 do BCW: Qual é o quinto mandamento?).

A lição clara e cristalina do quinto mandamento diz respeito à honra devida aos pais. O Senhor estava orientando a nação de Israel a cuidar bem de seus pais, respeitando-os e honrando-os. Deus leva a observância deste mandamento tão à sério que Moisés, ao orientar o povo sobre o que aconteceria após a travessia do Jordão, mandou que se pronunciasse várias maldições sobre os transgressores do Pacto. Dentre elas, seria “maldito aquele que desprezar seu pai ou a sua mãe” (Dt 27.16), e todo o povo deveria responder amém!

A despeito disso, os fariseus, criando suas regras e interpretações torcidas da lei acabavam por permitir que muitos filhos desonrassem seus pais, deixando de cuidar deles com a desculpa de que estavam servindo a Deus (Mc 7.7-13), pelo que foram duramente repreendidos pelo Senhor Jesus Cristo.

Jesus é aquele em quem vemos o cumprimento perfeito deste mandamento. Entretanto, muitos cristãos, no afã de tentar contradizer a doutrina romana de mediação, que apresenta o episódio da transformação da água em vinho como evidência de tal mediação, dizem que Jesus respondeu à Maria com rispidez ao dizer: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora” (Jo 2.4). Se os que defendem esta ideia estão certos, não há redenção para ninguém, pois Jesus quebrou o mandamento. Em seu comentário do evangelho de João, Carson afirma que, de fato, Jesus repreendeu sua mãe, mas com cortesia[1]. Jesus honrou à Maria, mas, sobretudo, ele honrou o seu Pai do Céu ao ser obediente até à morte de cruz (Fp 2.8).

Implícita no mandamento está a ordem para que os pais eduquem os seus filhos. São eles os responsáveis em ensinar aos filhos a lei do Senhor. Pecadores que são, os filhos nascem inclinados à rebeldia, daí a necessidade de instrução no temor do Senhor. Geralmente, quando pais educam seus filhos, o resultado é que eles respondem à essa educação. O texto de Deuteronômio 21.18-21 aponta para isso. A lei ordenava que os pais entregassem os filhos rebeldes ao apedrejamento, mas note bem o texto. Este filho rebelde é chamado de contumaz, ou seja, teimoso, que persiste em algo. Os filhos entregues ao juízo seriam aqueles que, mesmo educados e disciplinados, insistiam no pecado. A punição era uma consequência do desprezo ao ensino.

Grande parte dos cristãos, ao olhar para o quinto mandamento, pensam apenas na relação dos filhos para com os pais. Entretanto, os teólogos de Westminster vão além. Eles entendiam que “o quinto mandamento exige a conservação da honra e o desempenho dos deveres pertencentes a cada um em suas diferentes condições e relações, como superiores, inferiores, ou iguais” (Resposta à Pergunta 64 do BCW: O que o quinto mandamento exige?).

Por superiores eles entendiam tanto os superiores em idade quanto àqueles que, em decorrência de seus cargos ou ofícios, são investidos de autoridade por parte de Deus. Como ensina o Catecismo Maior, “o alcance geral do quinto mandamento e o cumprimento dos deveres que mutuamente temos uns para com os outros em nossas diversas relações de inferiores, superiores ou iguais. Um bom exemplo dessas relações é ensinado por Paulo na epístola aos efésios. Ele coloca junto o dever de a esposa ser submissa ao marido e do marido amar a esposa, dos filhos honrarem aos pais e dos pais não provocarem os filhos à ira e o dever dos servos de obedecerem aos seus senhores junto com o dos senhores de procederem bem com os servos. Ele se dirige primariamente aos inferiores, a saber, o que estão sob autoridade, sem deixar de falar aos superiores, ou seja, aos que estão numa posição de autoridade.

Isso deve determinar a forma como nos portamos diante das autoridades. Desde que elas não queiram nos obrigar a pecar, devem ser respeitadas e honradas independente de gostarmos ou não delas ou, no caso de autoridades políticas, do partido a que pertencem. Deve determinar também a forma como lidamos com as autoridades eclesiásticas. O Senhor deu oficiais para o cuidado de sua Igreja e estes precisam ser respeitados. Por vezes, são os próprios pais que ensinam os filhos a desrespeitarem as autoridades ao falar mal dos líderes da igreja perto deles. É preciso lembrar que “o quinto mandamento proíbe que negligenciemos ou façamos alguma coisa contra a hora e o dever que pertencem a cada um em suas diferentes funções” (Resposta à Pergunta 65 do BCW: O que o quinto mandamento exige?).

O quinto mandamento promete bênçãos aos obedientes. “A razão anexa ao quinto mandamento é: ‘uma promessa de longa vida e prosperidade (quanto sirva para a glória de Deus e para o bem do homem) a todos aqueles que guardam este mandamento” (Resposta à Pergunta 66 do BCW: Qual é a razão anexa ao quinto mandamento?). Nesse ponto, muitos cristãos questionam a razão de muitos bons filhos morrerem cedo, já que há uma promessa clara.

É preciso lembrar que Deus deu este mandamento ao povo que, libertado da escravidão, estava indo para uma nova terra. É preciso lembrar também que homem algum conseguirá cumprir plenamente este mandamento e, daí, é preciso olhar com louvor e gratidão para Cristo, aquele de quem já foi dito que cumpriu perfeitamente este mandamento.

É por causa de sua obediência que todo aquele que nele crê tem os seus dias prolongados, eternamente prolongados, na nova, prefigurada por Canaã no Antigo Testamento e que está sendo preparada para aqueles que, por meio Jesus Cristo, amam e obedecem ao Pai Eterno e, em virtude disso, podem esforçar-se para honrar os superiores que o Senhor colocar em suas vidas, enquanto estiverem ainda neste mundo.


[1] D. A. Carson. O comentário de João. Ed. Shedd. P. 27