17 novembro 2017

Quem sou eu?

identidade

Essa inquietante pergunta, juntamente com outra (qual é o propósito para a minha existência?) é bastante antiga e costuma, não poucas vezes, causar tristeza, ansiedade, insegurança e tantos outros sentimentos. Um homem na meia idade pode estar triste por olhar para trás e verificar que não realizou nada “relevante” em sua jornada, ao mesmo tempo em que um jovem pode estar ansioso e inseguro quanto ao que ele “quer ser” na vida.

A despeito de muitas respostas a essas perguntas já terem sido formuladas, como cristãos precisamos ter uma perspectiva bíblica a respeito de nossa identidade.

Criados à imagem de Deus

Esta é a primeira consideração a se fazer ao pensar biblicamente. O livro de Gênesis nos mostra que o homem foi criado no sexto dia da criação à imagem e semelhança de Deus. A pergunta 17 do Catecismo de Westminster, “Como criou Deus o homem?” traz como resposta que “Deus criou o homem, macho e fêmea; formou-o do pó, e a mulher da costela do homem; dotou-os de almas viventes, racionais e imortais; fê-los conforme a sua própria imagem, em conhecimento, retidão e santidade, tendo a lei de Deus escrita em seus corações e poder para a cumprir, com domínio sobre as criaturas, contudo sujeitos a cair” (vide os 3 primeiros capítulos de Gênesis).

Pautados nessa resposta, podemos dizer que a identidade do homem não é própria, mas derivada. Seu valor não é próprio, mas atribuído. Ele possui dignidade por causa do que ele representa, a saber, o próprio Deus. Desta forma, quem ele é está intimamente ligado ao que ele foi criado para fazer. Recorro, mais uma vez, ao Catecismo Maior de Westminster que afirma acertadamente que “o fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.

O homem foi criado para honrar a Deus cumprindo o que o Senhor o designou para fazer. Relacionar-se com Deus, com o próximo e com o meio em que ele vivia, governando sobre todas as coisas. Ao viver pautado na glória de Deus o homem viveria de forma plena, realizando-se em seu Criador e usufruindo das bênçãos da criação.

Caídos em Adão

Se o homem foi criado de forma tão sublime, porque há tanta dúvida a respeito de sua própria identidade. Porque tantas pessoas estão confusas, sem saber para onde caminham? O livro de Gênesis não mostra somente como o homem foi criado e qual o seu propósito neste mundo, mas também o que ocorreu para chegarmos na situação em que estamos.

Ao colocar o homem no Jardim do Éden e lhe dar ordens, o Senhor advertiu que a desobediência o levaria à morte. A morte seria física, mas também seria espiritual, ou seja, o homem estaria separado de Deus. Sobre essa realidade, Isaías afirmou ao povo que “as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus” (Is 59.2). E foi isso que aconteceu! Ao ceder à tentação da Serpente e comer do fruto que Deus havia ordenado que não comessem, homem e mulher foram expulsos da presença do Senhor.

Com Adão caiu toda a raça humana, pois ele era o nosso representante. Todos agora nascem com o que chamamos de “pecado original”, separados de Deus e voltados para si mesmos. Aliás, essa foi a natureza da tentação, fazer com que o homem olhasse para si, em primeiro lugar. A Serpente prometeu que se comessem do fruto eles seriam como o próprio Deus.

Aconteceu que eles não se tornaram como Deus. Em vez disso, o pecado trouxe vergonha e medo da justa ira do Senhor. O pecado trouxe o afastamento daquele em quem o homem tem a sua identidade, mas por que sua identidade é derivada ele busca um substituto para Deus na criação (Rm 1.21-23,25) e acaba se tornando ou querendo se tornar como esse seu novo deus, que se torna a sua razão de viver. A maldição para os idólatras no Salmo 115 consiste exatamente em o idólatra se tornar como o falso deus que ele mesmo forjou.

Você percebe claramente que o homem busca a sua identidade nas obras da criação quando ouve “Eu preciso ter diheiro”, “Eu preciso ter uma família”, “Eu preciso de uma profissão relevante”, pois isso me fará SER rico, SER pai, SER reconhecido, etc. Não se apresse ao imaginar que estou reprovando todas essas coisas. Elas não são ruins em si mesmas, afinal, Deus fez o homem para gozar do fruto do seu trabalho, para constituir família e para servir ao próximo com suas habilidades. Meu ponto é que estas coisas não podem ser a razão da vida, nem aquilo que define a identidade, pois quando isso acontece elas se tornam ídolos e o final da idolatria é sempre o desespero, a morte, a ansiedade, o medo de perder aquilo que lhe confere dignidade.

É importante lembrar aqui que o homem, mesmo pecador, continua sendo imagem e semelhança de Deus, ainda que esta imagem esteja agora desfigurada. Ele não mais reflete perfeitamente o seu Criador, mas continua possuindo dignidade por ter sido criado à imagem e semelhança dele.

Restaurados em Cristo

Jesus Cristo, o Filho de Deus (1Co 1.9), a expressão exata do ser de Deus (Hb 1.3), veio ao mundo a fim de redimir pecadores. A obra de Cristo no Calvário leva aqueles que creem nele a ter paz com Deus (Rm 5.1). Se antes havia inimizade, em Cristo e por causa de Cristo pode haver um retorno ao Pai.

A conversão coloca o pecador em uma nova posição. Ele é agora considerado santo, separado para Deus (2Co 1.1; Ef 1.1). Por causa de Cristo, temos uma nova identidade. Já somos filhos de Deus, ainda que aguardemos a plena redenção (1Jo 3.2); Somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17); co-participantes da natureza divina (2Pe 1.4), dentre várias outras bênçãos.

Você já pensou a respeito de tamanhos benefícios, por estar em Cristo? Muitos cristãos olham para os personagens da Bíblia e se espantam com o que foi dito por Deus acerca deles achando que nunca estariam naquela posição. Quando fazem isso, acabam deixando de lado os méritos de Cristo e atribuindo méritos aos pecadores. Por exemplo, Davi foi chamado um homem segundo o coração de Deus. Se você conhece a história do grande rei, sabe que ele cometeu pecados gravíssimos. Como pôde Deus fazer uma afirmação dessas a respeito dele?

Em Atos temos a resposta. Lucas cita a forma como Davi foi chamado por Deus ao relatar a história de Israel (At 13.22). Mais à frente ele diz que Deus cumpriu, em Cristo, as promessas feitas à Davi, ressuscitando-o para a justificação dos crentes. Davi foi um homem segundo o coração de Deus por que cria no Messias. Se você também estiver em Cristo Jesus, é também alguém segundo o coração de Deus. Da mesma forma, pode ter certeza de que por causa da sua união com Cristo Deus pode dizer de você: “Este é meu filho em quem eu tenho prazer”.

Estas bênçãos e essa nova identidade podem, então, levar os crentes a viver para a glória de Deus, quer seja comendo, ou bebendo, ou fazendo outra coisa qualquer (1Co 10.31). Isso quer dizer que tudo aquilo que você faz, não deve ser feito em busca de sua identidade, mas para que aquele que atribui a você identidade seja glorificado, Cristo Jesus, o Salvador.

Desta forma volto à questão inicial: Quem é você?

Se você não está em Cristo, é um pecador que continuará perdido, buscando sua identidade em falsos deuses, até o dia em que, arrependido dos seus pecados, confiar em Jesus Cristo para a sua salvação. A partir de então, poderá encontrar paz, alegria, gozo, prazer e identidade, vivendo para a glória de Deus. Doutro modo, além de uma vida sem sentido, encontrará no final a justa condenação do Senhor.

Se você está em Cristo você já é filho de Deus, aguardando a plenitude da redenção quando, então, será exatamente como Cristo é (1Jo 3.2). Viva, então, para a glória dele!

23 outubro 2017

A solução verdadeira não está nos boicotes, mas no Evangelho

boicote x evangelho

A nova onda agora é a dos boicotes. Eles vêm sendo anunciados e estimulados com mais veemência desde o comercial do dia dos namorados do Boticário em 2015, protagonizado por gays.

Pensando bem, antes mesmo do boicote ao Boticário (e bem antes da popularização da Internet) eu vi cristãos se mobilizando para boicotarem outra empresa, bem nos primeiros anos de minha conversão. Na ocasião se tratava da Procter & Gamble, dona de marcas como o sabão em pó Ariel, fraldas Pampers, pilhas Duracell, entre muitas outras. Lembro de ter visto no quadro da igreja que eu frequentava uma grande lista de produtos que não deveriam ser comprados, pois o “dono” da empresa tinha ido a um programa de TV e afirmado que grande parte dos lucros da empresa ia para a manutenção de uma igreja satânica. Lembro ainda que meus irmãos na fé estavam mesmo dispostos a não comprar tais produtos, a fim de não sustentarem a igreja de satanás.

O que não fazia o menor sentido em minha cabeça, ainda que novo na fé, era esses mesmos irmãos continuarem a fazer compras na maior e praticamente única rede de Supermercados da minha cidade nesta época, que levava o nome de um santo e que ostentava em suas unidades uma imagem do tal santo. Essa história da Procter e Gamble rodou o mundo e foi provado não passar de uma farsa. Você pode ler aqui neste link: https://goo.gl/MgyCdH

Pois bem, ainda que uma coisa não tenha necessariamente a ver com outra, pois no caso da Procter e Gamble foi um boato, enquanto a propaganda da Boticário foi verídica, há um ponto em comum nas duas histórias, principalmente com o envolvimento de cristãos nesses boicotes sem se darem conta no que está implícito, que é o pensamento de que a sociedade pode ser mudada por meio de boicotes.

Isso se torna uma questão séria a ser pensada, pelo menos por aqueles que são cristãos, mas deixe-me ponderar um pouco mais, antes de me deter neste ponto.

Recentemente quem esteve no centro da questão dos boicotes foi o Santander, por ter apoiado uma exposição, pretensamente sobre a diversidade, em Porto Alegre, com um conteúdo terrível que mostrava zoofilia, debochava da fé alheia, etc, tudo isso tendo entre o público alvo crianças e adolescentes.

Esse caso foi amplamente divulgado e o Santander foi alvo de muitas críticas, a ponto de ter cancelado a mostra. Cristãos comemoravam nas redes sociais o sucesso da empreitada e pregavam o boicote ao banco, acusando de coniventes com toda aquela baixaria aqueles que mantivessem suas contas naquela instituição. É aqui que penso que devemos parar para pensar um bocado.

Primeiro é preciso dizer que não vejo problema nos boicotes em si. Dentro de um sistema de livre mercado eles são um instrumento para dizer às empresas o que os seus consumidores querem ou não querem. O problema para mim é ter cristãos achando que isso mudará completamente a sociedade. Li em vários lugares que “as empresas têm de sentir no bolso, e assim elas mudarão”.

Com isso, creio que muitos cristãos estão elegendo o deus errado como esperança para a sociedade. O dinheiro, como um falso deus, pode levar aqueles que acham que suas vidas dependem dele a fazer, de fato, muitas coisas certas ou erradas. Mas o fato de uma empresa parar de fazer propaganda contra a família para não perder dinheiro, não mudará a sociedade.

A única coisa que pode mudar verdadeiramente uma sociedade é o evangelho redentor do nosso Senhor Jesus Cristo e, infelizmente, muitos dos cristãos que pregam os boicotes não pregam com tanto entusiasmo a respeito de Jesus Cristo, o autor de sua salvação, o único que pode restabelecer os valores e a moral correta. Ao boicotar em vez de pregar o evangelho, assume-se que “Mamom” é um deus mais poderoso que Jesus Cristo e que é ele quem pode mesmo mudar a sociedade.

Não quero insinuar aqui que cristãos não podem aderir a boicotes. De forma alguma. Só estou querendo pensar um pouco a respeito do que pode estar por trás da escolha desse caminho. Até porque, cristãos precisam ser coerentes e aí está um grande problema nos boicotes. Deixe-me tentar demonstrar esse problema.

Suponhamos que eu retire minha conta do Santander. Ok! Agora preciso colocar meu dinheiro em outro banco. Por coerência, não posso escolher os bancos ligados ao governo, afinal de contas, o MEC, órgão do governo, está inteiramente envolvido com a questão da ideologia de gênero. Preciso colocar meu dinheiro em um banco que tenha valores cristãos, mas eu não conheço nenhum banco gospel.

Recentemente divulgou-se em redes sociais a imagem de uma latinha de Coca-Cola onde se lê: “Esta Coca-Cola é Fanta. E daí?”. Imediatamente, os cristãos que boicotaram o Santander precisam parar de tomar esse refrigerante, mas também toda a linha de produtos dessa indústria, que inclui vários sabores de refrigerante, além do Sucos del Valle, Mate Leão, Guaraná Jesus, Água Mineral Crystal, etc.

É só apelar, então, para a “pode ser?”. Até seria possível, se a Pepsi também não estivesse envolvida em campanhas pró gay, como pode ser visto aqui: https://youtu.be/tIG0kB9lOxo.

Daí, pela coerência, além de não consumir Pepsi e demais refrigerantes da marca é preciso também não consumir produtos da PespiCo que incluem: Elma Chips, Toddy, Mabel, Quacker, eQuilibri, Gatorade e várias outras.

Além do mais, quando for ao MacDonalds ou Burger King, por exemplo, não será possível pedir mais os combos, pois eles incluem os refrigerantes acima. Aliás, MacDonalds (https://goo.gl/HDvV9s) e Burger Kinkg (https://goo.gl/xkozBY) também apoiam a ideologia de gênero, então é melhor nem passar perto. Veja como será difícil manter a coerência dos boicotes, e eu nem mencionei outras empresas que já fizeram propaganda ou patrocinaram eventos pró gay como a Nestlé, Lacta, Gol linhas aéreas, Motorolla, Apple, Microsoft, Google, Facebook... ufa... a lista não está nem perto do fim.

Um caminho melhor

O Senhor Jesus Cristo, ao orar pelos seus discípulos, incluindo aqueles que ainda iriam crer, ou seja, eu e você, pediu ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, e sim, que os guardes do mal” (Jo 17.15). Vivemos em um mundo caído, quebrado pelo pecado. Um mundo que jaz no maligno (1Jo 5.19).

Graças a Deus, ainda assim, pelo menos em nosso país, muitos que não professam a fé em Jesus Cristo, ainda são conservadores em termos morais. Eles estão envolvidos com boicotes, que é a arma que eles têm para marcar sua posição.

Ainda que não seja necessariamente um pecado que cristãos, por motivo de consciência, deixem de consumir determinadas marcas, com o devido cuidado para não serem incoerentes, é preciso mais que isso. É preciso que a igreja faça diferença fazendo a única coisa que ninguém mais pode fazer: Pregar o evangelho e chamar pecadores ao arrependimento. Essa também é a única coisa efetiva a se fazer a fim de ser sal da terra e luz do mundo.

Cuidado para, na ânsia de mudar a sociedade com boicotes, não acabar negando, na prática, o poder do evangelho. Como cristão, por motivo de consciência, você pode boicotar o que quiser, só não boicote a pregação do Evangelho.