19 junho 2019

Fé e prática - Vivendo de modo coerente

Você já deve ter ouvido por diversas vezes, da boca de vários cristãos, que a Bíblia é a nossa regra de fé e prática. Entretanto, o que pode ser visto na vida de muitos é que na prática, a teoria é outra.

É preciso entender corretamente o que se quer dizer com isso a fim de viver de forma coerente com aquilo que se professa como fé. O Breve Catecismo de Westminster em sua terceira pergunta traz esta questão: “Qual é a coisa principal que as Escrituras nos ensinam?” - e responde – “A coisa principal que as Escrituras nos ensinam é o que o homem deve crer acerca de Deus, e o dever que Deus requer do homem”.

Pensemos a respeito desta resposta. A primeira questão a se notar é que para os cristãos (sobretudo aqueles que subscrevem os documentos de Westminster, como nós presbiterianos) o entendimento acerca de quem é Deus e do que ele requer do homem não pode vir de fontes extra bíblicas. Somente na Palavra de Deus o homem poderá conhecer ao Senhor.

O conhecimento de Deus só é possível porque o Senhor decidiu se revelar e fazer registrar a sua Palavra. A Confissão de Fé de Westminster declara que “foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade a seu povo” (I.I).

O ensino confessional ecoa as palavras do Escritor aos Hebreus que escreveu: “Antigamente, Deus falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, mas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho...” (1.1,2). É somente pela Escritura que Deus se faz conhecido! Ao repreender os fariseus, que apesar de ler as Escrituras não queriam ir até ele, Jesus disse que “são elas mesmas que testificam de mim [de Jesus]” (Jo 5.39). Quando encontrou os discípulos desanimados e tristes no caminho de Emaús Jesus “começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27). De forma semelhante, ao ser convidado pelo eunuco para subir em seu carro a fim de lhe explicar o texto de Isaías, “Filipe explicou; e começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus” (At 8.35).

É sabido que em se ministério Paulo costumeiramente ia à Sinagoga anunciar a Cristo e que ele fazia isso abrindo a Escritura do Antigo Testamento. Ao escrever aos romanos ele disse que “a fé vem pela pregação, e pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). Deus já havia se revelado de muitas maneiras, mas no Novo Testamento a pregação parte sempre da Palavra registrada, chamada por Paulo de palavra de Cristo, daí o Escritor aos Hebreus dizer que nestes últimos dias Deus nos falou pelo Filho!

E quanto ao que está registrado no Novo Testamento? São também a Palavra de Cristo? Note o que disse Pedro. Quando ele escreveu denunciando os falsos mestres acusou-os de deturpar o ensino de Paulo “como também deturpam as demais Escrituras” (2Pe 3.16). Para Pedro, então, o que havia sido Escrito por Paulo tinha o mesmo peso de autoridade dos Escritos do Antigo Testamento. É por isso que a Igreja é edificada sobre o “fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20).

Isso torna a Escritura indispensável à nossa fé. Cremos naquilo que ela diz e somente naquilo que ela diz, daí as exortações para não nos sujeitarmos a preceitos de homens (Cl 2.22), não darmos ouvidos a doutrinas de homens (Tt 1.14) e para termos “cuidado que ninguém vos [nos]venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8).

Entretanto, é possível que uma pessoa saiba o que a Escritura revela sobre Deus, sobre o que ele requer do homem e, ainda assim, viva de forma incoerente com aquilo que diz crer. Ou algo ainda mais grave, como afirma Packer: “Interesse em teologia, conhecimento sobre Deus, e capacidade de pensar com clareza e falar bem sobre temas cristãos não são a mesma que conhecer a Deus. Podemos saber tanto quanto Calvino a respeito de Deus – na verdade, se estudarmos suas obras com diligência, cedo ou tarde isso vai acontecer – entretanto durante todo o tempo (ao contrário de Calvino) saberemos bem pouco a respeito de Deus[1].

A fé bíblica vem acompanhada de ação. Esta é uma verdade que precisa ser enfatizada, sobretudo em tempos de discussões sem fim sobre teologia nas redes sociais. E não somente isto. Vivemos dias em que a suficiência das Escrituras é pregada em muitos púlpitos ao mesmo tempo em que é negada no gabinete pastoral, razão de muitos pastores acreditarem na mentira de que para aconselharem precisam de fontes humanistas cujos pressupostos são contrários às afirmações da Escritura.

O ensino confessional afirma que as Escrituras revelam o que Deus requer do homem. Isso diz respeito à forma como os cristãos vão viver piedosamente em meio à um mundo caído, respondendo às suas circunstâncias de forma bíblica. O que está na Escritura é suficiente para a vida e para a piedade (1Pe 1.3), é útil para tornar o homem de Deus “sábio [...] perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.17).

Sua vida é o reflexo daquilo que você verdadeiramente crê. O homem bem-aventurado do salmo 1 medita de dia e de noite na Palavra e “tudo quanto ele faz será bem sucedido” . Josué ouviu do Senhor que ele deveria meditar, fazer e falar sobre o livro da lei e, então, o seu caminho seria próspero e bem sucedido (Js 1.8). Contrastando com isso, Jesus censurou os fariseus por dizerem e não fazerem. Você pode notar que muito do que eles diziam era correto, pois Jesus ordenou aos discípulos que fizessem e guardassem o que eles diziam, mas que não os imitassem. Daí eles serem tratados pelo Senhor como hipócritas.

A Escritura é a Palavra de Cristo, a única verdade. Ele o libertou para que você tenha condição de ouvi-la e guardá-la, por estar unido a ele. Sem ele ninguém pode fazer nada (Jo 15.5), mas aqueles que estão nele, darão muito fruto. A evidência de estar nele é ouvir e guardar a sua Palavra, crer e praticar, como ele mesmo afirmou: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). Que ele o ajude!


[1] J.L. Packer. O conhecimento de Deus, p. 19

12 junho 2019

O que importa é o coração?

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A primeira pergunta do Catecismo Menor de Westminster trata da finalidade para a qual Deus criou o homem: glorificá-lo e gozá-lo para sempre!

Creio que esta questão não seja problema para nenhum daqueles que se intitulam cristãos. Qualquer pessoa que leia a Bíblia chegará à conclusão de que o homem foi criado para adorar ao seu Criador. Entretanto, o entendimento de como Deus será glorificado, honrado, adorado e agradado pode mudar e têm mudado de acordo com grupos específicos, no decorrer da história.

Se olhamos para a igreja do primeiro século vamos lembrar que falsos mestres começaram a ensinar, influenciados pela ideia de que a matéria é inerentemente má, que Jesus não tinha um corpo, mas apenas aparentava ser homem. Esse tipo de crença acabava por influenciar toda a vida. Como resultado, houve tanto aqueles que entenderam que deveriam se abster totalmente das “coisas da carne”, como queriam fazer os coríntios em relação à vida sexual (1Co 7), quanto aqueles que entenderam que Deus não se importava com o que era feito por meio do corpo, já que o importante era a vida espiritual, razão de Pedro denunciar as práticas libertinas praticadas pelos seguidores dos falsos mestres (2Pe 2.1-3).

O que eu quero demonstrar citando estes exemplos é que todos os pensamentos e ações de uma pessoa decorrem daquilo que ela crê. Então, se é verdade que o homem foi criado para glorificar a Deus e ter alegria nele para sempre, teria Deus deixado ao arbítrio de cada um o entendimento de como viver assim? É claro que não!

A segunda pergunta do Catecismo Menor deixa isso bem claro: “Que regra Deus nos deu para nos orientar na maneira de o glorificar e gozar? – Resposta: A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, é a única regra para nos orientar na maneira de o glorificar e gozar”.

A Palavra de Deus, viva e eficaz, é tudo aquilo de que o homem precisa a fim de viver de uma maneira que agrade ao Senhor. A Palavra nos dá conhecimento a respeito de Cristo e, conforme Pedro, isso é tudo o que precisamos para a vida e piedade (2Pe 1.3-11).

Esta Palavra “é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16). É importante lembrar aqui que o mesmo apóstolo Paulo, em outra epístola afirmou aos irmãos que “somos feitura dele [de Deus], criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Isto confirma que o Senhor nos deu em sua Palavra tudo o que precisamos para viver para a sua glória.

A despeito disso, temos em nossos dias um falso ensino que, à semelhança dos falsos ensinos do primeiro século, tem levado muitos ao erro. Trata-se da ideia de que para Deus o que importa é o coração, ou seja, a única coisa com a qual o Senhor se importa é com a sinceridade do homem. Isso tem levado pessoas a desconsiderar o que a Escritura determina para o culto ao Senhor, chegando ao absurdo de se afirmar que Deus salvará pessoas que nunca ouviram falar sobre Cristo, mas que adoram algum outro deus com sinceridade. Segundo aqueles que defendem esta ideia, eles só não adoram a Cristo por não o conhecer, mas a sinceridade com que “buscam a Deus” será considerada pelo Senhor.

É claro que esse tipo de ensino não passa pelo crivo das Escrituras. Basta lembrar que Paulo, ao lamentar a situação dos judeus que rejeitaram a Cristo, afirmou aos romanos que dava o seu testemunho de que eles tinham zelo por Deus. Paulo não tinha dúvida da sinceridade de coração daqueles homens, afinal de contas, ele mesmo, outrora, perseguia a igreja achando que, com isso, estava agradando a Deus. Por isso, ao escrever a Timóteo ele afirmou: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, a mim, que, noutro tempo era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia pois o fiz na ignorância, na incredulidade” (1Tm 1.1-3).

Paulo esteve na situação daqueles judeus. Sincero, zeloso, mas errado. O que leva Paulo a lamentar, portanto, é que o zelo, sem entendimento, como ele diz em Romanos 10, leva o homem à condenação, pois o faz desconsiderar a Cristo e sua obra, confiando naquilo que ele mesmo faz. O Senhor não tem compromisso com a sinceridade do homem, mas com a sua obediência, de coração, à sua Palavra. Foi isso que ouviu o sincero Saul, ao ser repreendido por Samuel: “Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” (1Sm 15.22).

Enquanto escrevo, lembro-me de uma música antiga que dizia: “Se disser, ‘sou fiel naquilo que eu creio, todo caminho leva a Deus, só basta ser sincero’, mas se pegar a estrada do Rio prá Salvador, Porto Alegre não verá mesmo que sincero for”. Esta estrofe retrata claramente o que é a sinceridade sem o entendimento.

Portanto, graças a Deus por Jesus Cristo, aquele que fez toda a vontade do Pai, cumprindo perfeitamente toda a Lei e morrendo em lugar de pecadores. É ele quem declara: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6).

Se você estiver nele, tem condições de atentar à única regra que o Senhor nos deu a fim de nos orientar na maneira de o glorificar e gozar. Mas se você não atenta à Palavra, pode até achar que adora sinceramente a Deus, mas está completamente equivocado e condenado, pois Jesus afirmou: “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15), o que foi lembrado por João que disse: “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos” (1Jo 2.3).

Aqueles que dizem amar ao Senhor sem dar atenção à sua Palavra demonstram amar a si mesmos e aos seus desejos. Que a sua sinceridade esteja de acordo com a Palavra de Cristo, pois só assim você o glorificará e terá alegria nele para sempre!