27 janeiro 2021

Salomão foi salvo?


 Aqueles que me acompanham sabe que não sou favorável a ficar debatendo sobre a salvação alheia. É claro que isso não se aplica aos casos em que a Bíblia declara de forma inequívoca. Quem questionaria, por exemplo, a salvação do ladrão que ouviu do Senhor Jesus: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43)? Será que alguém ousaria duvidar da salvação de Jacó que o próprio Senhor diz ter amado e da condenação de Esaú a quem o Senhor rejeitou antes mesmo de os irmãos terem praticado o bem ou o mal (Rm 9.11-13). Algum leitor sério das Escrituras colocaria em dúvida a condenação de Judas, chamado por Jesus de “filho da perdição” (Jo 17.12) ou a salvação dos irmãos citados na chamada galeria da fé de Hebreus 11?

 Entretanto, há alguns anos, ouvi uma palestra em que a salvação de Salomão foi colocada em dúvida. De lá para cá, vez por outra vejo alguém tocando neste ponto. Eu já tinha ouvido outro preletor afirmando que Salomão não poderia ser o autor do livro de Cantares, pois no quesito da vida conjugal ele não era exemplo para ninguém, mas em nenhum momento este preletor questionou a salvação do rei que pecou sim, e muito, contra o Senhor.

 Voltando ao primeiro preletor, o argumento utilizado para colocar em dúvida a salvação de Salomão é o fato de a Escritura não trazer um versículo sequer demonstrando o seu arrependimento. Creio eu que o que ele esperava era um texto bem direto, do tipo: “arrependeu-se Salomão de todos os seus pecados e de tomar todas aquelas mulheres” ou algo parecido.

 Será que mesmo sem um versículo tão direto assim podemos afirmar a salvação deste rei? Aqui eu creio que o princípio que temos declarado no primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster pode nos ajudar: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.VI).

Como podemos deduzir lógica e claramente a salvação de Salomão?

     1.  Salomão está na linhagem de Cristo – O Senhor prometeu a Davi que não faltaria descendente para se assentar em seu trono. O seu descendente estabeleceria uma casa ao Senhor. Se pecasse, seria castigado, mas a misericórdia de Deus não se apartaria dele (2Sm 7.12-16).

Após terminar de edificar a Casa do Senhor, Salomão ouviu as mesmas palavras que seu pai: “Se andares perante mim como andou Davi, teu pai, com integridade de coração e com sinceridade, para fazeres segundo tudo o que te mandei e guardares os meus estatutos e os meus juízos, então confirmarei o trono de teu reino sobre Israel para sempre, como falei acerca de Davi, teu pai, dizendo: Não te faltará sucessor sobre o trono de Israel” (1Re 9.4-5). 

     2. Salomão é um tipo de Cristo – Além de vermos isso no texto citado acima, pois o verdadeiro Templo de Deus foi edificado pelo Senhor Jesus Cristo, a sabedoria de Salomão apontava para alguém muito mais sábio que ele.

O próprio Senhor Jesus Cristo, o Rei que se assentou no trono para sempre, em seu ministério, censurou os escribas e fariseus lembrando-lhes: “A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra   para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão” (Mt 12.42). 

   3. Salomão é um autor bíblico – A despeito de muitos duvidarem de que Eclesiastes foi escrito por Salomão, concordo com Douglas Wilson: “O autor [...] identifica-se aqui como filho de Davi e rei de Jerusalém. Mesmo sem nos envolvermos na descrição detalhada do debate entre os estudiosos, inexiste razão definitiva para não atribuir o livro a Salomão”[1].

Se Wilson está certo (e eu penso que está) quando afirma que “o livro de Eclesiastes foi escrito na sua velhice; um repúdio arrependido de sua apostasia anterior”[2], temos no livro, então, uma prova de seu arrependimento.

Para os que não creem na autoria “Salomônica” do Eclesiastes, Cantares ou Provérbios, há ainda o Salmo 127, cujo título é inequívoco: “Cântico de romagem. De Salomão” e que, em minha opinião, é um resumo perfeito do Eclesiastes: Fora da presença do Senhor, tudo é vaidade!

Ouvi certa vez que o fato de Salomão ter escrito um livro da Bíblia não prova nada, pois Deus usou até uma jumenta para falar com Balaão. Este argumento é de uma infantilidade assustadora, pois não há livro sequer atribuído à jumenta. Além disso, se alguém pensa assim, esquece-se do que afirmou Pedro acerca da inspiração das Escritura: “homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21).

Sendo assim, aqueles que creem na inspiração das Escrituras e duvidam da salvação de Salomão, para serem coerentes, devem negar a sua autoria em quaisquer escritos da Bíblia. 

Muito mais poderia ser “lógica e claramente deduzido”, mas creio que as razões apresentadas são suficientes para entendermos que o Senhor cumpriu seus propósitos por meio de Salomão e de que ele está na glória do Pai, juntamente com todos aqueles que foram redimidos por Jesus.

A salvação não depende de Salomão e de seus atos de justiça. Ela é exclusivamente por causa de Cristo. Curiosamente, quando Mateus descreve a linhagem de Jesus ele ressalta o pecado, não de Salomão, mas de do seu pai, ao mencionar que Davi   gerou “a Salomão da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6).

A genealogia do Senhor é repleta de pecadores, muitos cujas histórias são terríveis. Entretanto, apesar dos pecados, todos foram lavados e remidos pelo sangue daquele que salvou a todos os que depositaram a sua fé no Messias que viria, aquele em quem todo cristão, imperfeito e pecador, creu para a salvação: Cristo Jesus, o Rei perfeito, nosso Redentor.


[1] Wilson, Douglas. Alegria no limite das forças: A inescrutável sabedoria de Eclesiastes (p. 11). Monergismo. Edição do Kindle.

[2] Wilson, Douglas. Alegria no limite das forças: A inescrutável sabedoria de Eclesiastes (p. 11). Monergismo. Edição do Kindle.

03 outubro 2020

Seu maior deleite é o Senhor ou o seu time de futebol?

O Dia de Descanso é um dia de deleite no Senhor. Por ocasião da criação o Senhor estabeleceu um dia especial em que o homem se dedicaria integralmente ao serviço dele e do próximo. Era um dia de comunhão ainda mais íntima com o Senhor que era honrado a cada um dos dias da semana, quando o homem executava todas as suas ações para a glória de Deus, mas que no dia de Descanso se abstinha de todas as outras coisas para dedicar-se integralmente ao Senhor.

Desde a queda, os homens, em rebeldia contra o Senhor, procuram substitutos para Deus em busca de alegria, satisfação, prazer, descanso, etc., incorrendo em idolatria ao buscar descanso longe do Senhor. As músicas populares sobre o futebol fornecem um bom exemplo disso.

Neguinho da Beija-Flor compôs:

“Domingo eu vou ao Maracanã, vou torcer pro time (na primeira versão da música aparecia Vasco) que sou fã [...] vou sentar na arquibancada pra sentir mais emoção”.

Morais Moreira, por ocasião da mudança de Zico para o time da Udinese escreveu:

“Agora como é que eu fico nas tardes de domingo, sem Zico no Maracanã? Agora como é que eu me vingo de toda derrota da vida se a cada gol do Flamengo eu me sentia um vencedor?”

Na música da banda Biquíni Cavadão temos um pouco mais:

“Hoje é dia de comemorar, hora de esquecer de tudo o mais, é dia do meu time ganhar! Posso não ter dinheiro pra gastar, mas tenho mil motivos pra sorrir, é dia do meu time ganhar”.

Calma, não pense que eu quero sugerir que o futebol é intrinsicamente idólatra. Eu mesmo aprecio e torço para um time, mas meu ponto é verificar a linguagem basicamente “religiosa” das músicas citadas, que refletem exatamente o anseio de encontrar em algum lugar aquilo que só pode ser encontrado verdadeira e plenamente em Jesus Cristo.

Nas músicas você percebe o anseio do ajuntamento à uma massa para a sua devoção, a frustração e desesperança diante da despedida de um jogador que trazia alegria e o sentimento de que tudo está bem, afinal de contas, meu time vai jogar.

Se você lembrar da Escritura vai perceber semelhança na forma de se expressar, exceto no fato de que a Bíblia demonstra o anseio pelo Deus verdadeiro. Vejamos:

“Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do Senhor” (Sl 122.1);

“Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando de Sião. [...] Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se a minha língua ao paladar, se me não lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria” (Sl 137,1,5-6);

“... aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. [...] Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11,13).

Quando o Senhor Jesus salvou a sua vida o libertou do pecado, da ira de Deus e pôs fim à tentativa de buscar sentido para a vida à parte dele. Em Cristo você pode viver cada um dos seus dias para a glória de Deus, quer coma, beba e até mesmo assista à uma partida de futebol. Em Cristo você encontra motivos para separar o Dia de Descanso para deleitar-se somente nele.

Como eu já afirmei, não há problema no futebol em si, como não há problema em nenhum outro aspecto da criação, mas é triste perceber que há crentes mais preocupados com a posição de seu time na tabela do campeonato do que com a adoração do Nome Santo do Senhor. Prova disso é a dificuldade de se abrir mão de uma partida de futebol a fim de preparar-se para o culto dominical, a ansiedade em saber o resultado da partida que está ocorrendo no mesmo horário do culto, que leva irmãos a checarem seus smartphones assim que a bênção final é dada (e em alguns casos até antes mesmo de o culto terminar) e a tristeza que assola o coração ao saber de um resultado ruim, mesmo após o Glorioso Senhor ter falado à Igreja por meio de sua Palavra.

Se você está em Cristo, está capacitado pelo Espírito Santo para rejeitar tudo aquilo que o impeça de se deleitar no Dia de Descanso, Dia do Senhor. Há promessa do Senhor para o seu povo, como visto em Isaías:

“Se vigiarem os seus pés, para não profanarem o sábado; se deixarem de cuidar dos seus próprios interesses no meu santo dia; se chamarem ao sábado de ‘meu prazer’ e ‘santo dia do Senhor, digno de honra’; se guardarem o sábado, não seguindo os seus próprios caminhos, não pretendendo fazer a sua própria vontade, nem falando palavras vãs, então vocês terão no Senhor a sua fonte de alegria” (Is 58.13-14).

É preciso guardar o coração e lutar contra tudo aquilo que, apesar de lícito, pode afastar você de se deleitar em seu Redentor. Paulo afirmou que todas as coisas são lícitas, mas que não se deixaria dominar por nenhuma delas (Cf 1Co 6.12).

Aos presbiterianos, como eu, é bom lembrar o nosso ensino confessional:

“Este sábado é santificado ao Senhor quando os homens, tendo devidamente preparado os seus corações e de antemão ordenado os seus negócios ordinários, não só guardam, durante todo o dia, um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos a respeito dos seus empregos seculares e das suas recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto e nos deveres de necessidade e misericórdia” (CFW XXI.VIII).

Futebol é algo bom e lícito, assim como tudo aquilo que não é proibido na Palavra do Senhor. Contudo, se isso tem impedido a você de honrar o seu Senhor, conforme o que ele estabelece na Escritura, busque forças no Senhor a fim de deixar de lado o que tem competido com o seu Salvador. Não se deixe escravizar, pois, como afirmou Paulo, “para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Por isso, permaneçam firmes e não se submetam, de novo, a jugo de escravidão” (Gl 5.1).

Que você esteja plenamente satisfeito em Cristo e se deleite nele, sobretudo no dia em que celebramos a sua ressurreição, o Domingo, Dia do Senhor.