26 agosto 2021

Sobre desejo e tentação - Existe a possibilidade de haver cristãos gays?

ratoeira

Recentemente as redes sociais reacenderam uma discussão acerca da homossexualidade, no mínimo, complicada. Alguns têm defendido que não há problema com o desejo sexual pelo mesmo sexo, desde que não haja a consumação do ato. Ou seja, alguém pode continuar tendo desejos homossexuais sem crise na consciência, desde que se mantenha celibatário.

Para compreender esta questão corretamente é preciso olhar para o ensino bíblico acerca dos desejos e da tentação.

Deus fez o homem com a capacidade de desejar. Existem inúmeras coisas lícitas de se desejar, algumas, inclusive, estimuladas pela Escritura. O desejo pelo episcopado, por exemplo, é chamado de excelente por Paulo (1Tm 3.1). Pedro exorta os cristãos a desejarem ardentemente o genuíno leite espiritual (1Pe 2.2).

Entretanto, até mesmo bons desejos podem se tornar maus. Você aprende isso com Paulo, quando ele afirma que “todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12). Algo semelhante foi dito pelo Senhor a Caim: “o seu desejo será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo” (Gn 4.7b). A razão para esta ordem para dominar o desejo em vez de ser dominado por ele havia sido apresentada anteriormente pelo Senhor: “Eis que o pecado jaz à porta” (Gn 4.7a) . O verbo traduzido por jazer neste texto traz a ideia de “estar em uma posição deitada, descansando, mas pronto para a ação”[1].

Isto lembra a dinâmica do pecado, conforme ensinada por Tiago. O homem é tentado pelo seu desejo, quando atraído e seduzido, ou seja, quando fisgado pelo desejo (Tg 1.14).

Diante disso, podemos afirmar que não há problema com o desejo legítimo (lícito), a não ser que você, dominado por eles, peque para conseguir o que tanto deseja. A tentação se dá quando você está diante da possibilidade de pecar em nome do seu desejo.

Mateus narra o episódio em que Jesus foi tentado pelo diabo. Após jejuar 40 dias ele teve fome. O desejo por comida é natural e não é pecaminoso em si. O diabo aparece e instiga Jesus a mandar as pedras se transformarem em pão. Bem, se o desejo por comida não é pecado e se Jesus era poderoso para fazer com que pedras se transformassem em pães, qual o problema de ele mandar isso acontecer? É tentação querer comer pão para matar a fome?

É preciso olhar o texto com atenção. O diabo está questionando: Se és Filho de Deus, manda estas pedras se transformarem em pães”. Percebeu o que está acontecendo aqui? Se você notar os versículos anteriores, verá que ao ser batizado Jesus ouviu a voz do Pai, vinda do céu, que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). O que o diabo está colocando em dúvida aqui é a Palavra de Deus. Se Jesus aceitasse a sugestão de mandar que pedras se transformassem em pães, estaria claro que ele não confiava no que o Pai já havia dito acerca dele. Para ter o seu desejo lícito satisfeito ele teria de duvidar que era mesmo o Filho de Deus, pecando para conseguir o pão. Isto explica a resposta de Jesus, citando um texto do AT: “Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4).

Jesus não se deixou dominar pelo desejo, colocando Deus à prova a fim de conseguir o pão, mas afirmou que estava bem certo de sua filiação. O fato de ter ou não o pão, não mudaria a verdade revelada por seu Pai. Quando o diabo deixou a Jesus, os anjos de Deus o serviram (Mt 4.11).

Até aqui vimos que há coisas lícitas que podem ser desejadas e satisfeitas, mas que quando você peca para obtê-las (ou peca porque não as conseguiu), significa que elas estão dominando o seu coração e elas se tornaram um mau desejo.

Além disso, está claro nas Escrituras que há desejos que são maus em si mesmos. Biblicamente, não existe a possibilidade de se desejar algo que seja contrário à Lei de Deus, sem que isso já seja considerado pecado pelo Senhor. O sermão do monte traz vários exemplos disso. Em seu ensino, Jesus deixou claro que matar é pecado, mas que o simples desejo de matar, no coração, expresso em ira pecaminosa, já constitui homicídio diante de Deus (Mt 5.21-26).

Quando ele trata do adultério, a questão fica ainda mais clara. Para os fariseus, o adultério estava somente no ato consumado, mas Jesus vai além e diz: “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.27). É preciso pensar um pouco a respeito do que está sendo ensinado aqui. O desejo sexual não é pecaminoso em si. Sendo o homem constituído para crescer, multiplicar e encher a terra, tal desejo é natural nele.

Entretanto, há um limite bem estabelecido pelo Senhor para a satisfação do desejo sexual. Este desejo só pode ser satisfeito de forma correta e piedosa dentro do casamento, tal qual estabelecido pelo Senhor: (1) um homem e (1) uma mulher. Qualquer tipo de satisfação sexual que não esteja dentro da relação pactual do casamento é pecado. Assim, apesar de um homem poder desejar um casamento, ele não pode desejar a mulher do próximo ou outra mulher que não seja a sua (Lv 20.10-12), não pode desejar se deitar com outro homem como se fosse mulher (Lv 20.13), tampouco pode se ajuntar com um animal (Lv 20.15).

Sei que aqui alguém pode questionar apontando para o fato de que o que está relatado em Levítico não é apenas o desejo, mas a consumação do ato. Eu digo que sim, isto é verdade! Mas pense no que está descrito aqui à luz do ensino do Senhor Jesus Cristo em Mateus 5. Se o desejo entre um homem e uma mulher (que é biblicamente lícito) é pecado quando ocorre fora do limite do casamento, ainda que seja desejado apenas no coração (o olhar com intenção impura), por que não seria também pecado o desejo por alguém do mesmo sexo, que é biblicamente ilícito, ainda que somente no pensamento?

Desta forma:

O desejo por coisas lícitas não é pecado – Não há problema em um homem desejar ter relações sexuais com uma mulher e buscar satisfação deste desejo no casamento.

O desejo por coisas lícitas se torna pecado quando domina o homem e ele peca para conseguir o que quer, ou por não ter conseguido o que quer – Tanto é pecado um homem desejar relações sexuais com uma mulher fora do casamento, quanto consumar tal ato (Mt 5.27; 1Co 6.12).

O desejo por coisas ilícitas é pecaminoso em si, ainda que não levado à cabo – Tanto o desejo de ter relações com pessoas do mesmo sexo, quanto a consumação deste ato é errado.

Os que advogam a existência de uma identidade homossexual não estão levando em conta:

1. Que a queda tornou o homem inclinado a todo o mal;

2. Que “todo pecado, tanto o original [imputado a todos] como o atual [cometido por todos], sendo transgressão da justa lei de Deus e a ela contrária, torna, pela sua própria natureza, culpado o pecador e por esta culpa está sujeito à ira de Deus e à maldição da lei, e, portanto, sujeito à morte com todas as misérias espirituais, temporais e eternas” (CFW VI-6);

3. Que a salvação em Cristo faz com que o homem se torne uma nova criatura e, vivificado por Cristo, ele pode agora, no poder do Espírito Santo mortificar os desejos e feitos da carne.

Assumir que existam “cristãos gays” ou “cristãos lgbt+” é negar a obra de santificação progressiva operada pelo Senhor na vida dos seus filhos, obra que os torna dia após dia menos parecidos com Adão e mais parecidos com Cristo. Apesar das lutas contra o pecado, o Senhor está formando em seus filhos do caráter do seu Filho Eterno.

Outra questão importante. Quando se fala em um “cristão gay”, parte-se do princípio de que a homossexualidade é parte integrante da identidade da pessoa. Entretanto, quando a Escritura chama o pecador pelo nome do seu pecado, significa que ali está alguém que “vive na prática do pecado” (1Jo 3.9), logo, alguém que não é nascido de Deus. É por conta disso que Paulo afirma que os “injustos não herdarão o reino de Deus”, e continua dizendo, “não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus” (1Co 6.9-10).

Após descrever que estes que vivem na prática do pecado não herdarão o reino, o apóstolo aponta para obra de Cristo que os livra da escravidão do pecado: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6.11).

Portanto, é uma falácia falar em cristão lgbt. Tão falacioso quanto falar em cristão adúltero, cristão ladrão, cristão mentiroso, etc. A obra de Cristo torna o pecador santo. Ele luta contra o pecado, mas não pode mais ser identificado por ele, pois, “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17).


[1] Wanson, J. (1997). Dicionário de línguas bíblicas com domínios semânticos: hebraico (Antigo Testamento) (ed. Eletrônico). Oak Harbor: Logos Research Systems, Inc.

09 julho 2021

As palavras de Jesus são mais importantes que as de Paulo?

vermelhas

[1] Aqueles que não repararam que a pergunta é uma pegadinha já devem ter pensado: “Que pergunta mais óbvia é esta? Não há como comparar Paulo com Jesus...”.

Pensando somente na resposta, eu concordaria de imediato, afinal de contas o Senhor Jesus é o próprio Deus, perfeito e sem pecado, enquanto Paulo era um pecador como nós e, para usar suas próprias palavras, o principal dos pecadores (1Tm 1.15). Porém, a pergunta não se refere a Jesus e Paulo, mas àquilo que falou Jesus em comparação ao que falou Paulo.

Explico: não é de hoje que vejo cristãos afirmando ser aquilo que saiu dos lábios de Jesus mais importante que os ensinos do apóstolo. Com a publicação de uma versão da Bíblia em que as palavras de Jesus vinham destacadas em vermelho, o problema só aumentou. Em discussões doutrinárias o argumento de muitos passou a ser: “Esses versículos são mais importantes, pois aqui foi o próprio Senhor quem falou e não Paulo, Pedro ou algum outro.”

Certa vez uma irmã questionou um texto escrito por um amigo e que tratava da submissão da esposa ao marido argumentando que o único a falar dessa submissão era Paulo, que Jesus nunca havia mencionado uma palavra sequer sobre esse assunto e que, como cristã, seguiria a Jesus e não ao apóstolo.

Aqueles que entendem dessa forma estão diante de um grande problema e caíram numa armadilha da qual nem se deram conta. O problema é o fato de não termos na Bíblia uma linha sequer escrita pelo próprio Senhor Jesus. O que temos são discursos atribuídos a ele, mas escritos pelos evangelistas, portanto não seria o caso de crer no que Jesus falou “em oposição” ao que falou Paulo, mas no que os evangelistas escreveram “em oposição” ao que escreveu Paulo, e aqui está a armadilha.

Uma alegação daqueles que estão na armadilha seria a de que os evangelistas andaram com Jesus e aprenderam com ele, enquanto Paulo foi um apóstolo que não teve contato com o Senhor. Eu perguntaria então como sabemos que os evangelistas andaram com Jesus e a resposta óbvia seria que eles mencionam isso em seus escritos. Se é assim, temos a mesma alegação nos escritos de Paulo que afirma: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.11-12).

Quem entende que Jesus disse coisas opostas ao que disse Paulo tem então um grande problema a resolver, a saber, provar que Jesus, de fato, disse o que os evangelistas afirmam que ele disse.

O que está por detrás desse pensamento falacioso é um conceito errado sobre a Bíblia, é não entender que o Senhor é o autor primário das Escrituras sendo ela, então, “inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra” (1Tm 3.16-17).

Outro conceito errado decorre desse primeiro. Quando se aceita a inspiração, a autoridade da Palavra é do próprio Deus, mas negando-se isso a autoridade passa a ser de quem lê. Assim, o leitor aceita o que está em acordo com o seu pensamento e rejeita o que acha errado. É impossível não citar aqui as palavras de Agostinho que certa vez afirmou que “se, no Evangelho, você crê no que quer e rejeita o que não quer, não crê no Evangelho, mas em si mesmo”.

Quando se crê que Deus é autor primário das Escrituras, sendo os escritores apenas instrumentos para registrar a sua vontade de forma infalível (2Pe 1.20-21), como é o meu caso, não se tem o problema relatado acima. Posso crer que as palavras atribuídas a Jesus pelos evangelistas foram mesmo ditas por ele, bem como crer que as palavras proferidas por Paulo foram também aprendidas de Cristo.

Como afirmou Mark Jones,

“as Escrituras dependiam de Cristo para obter seu conteúdo. Se insistirmos em usar letras vermelhas nas Bíblias para as palavras de Cristo, podemos levar isso às últimas consequências e insistir em uma versão bíblica com todas as letras vermelhas, pois toda a verdade de Deus procedeu de Cristo, pois ele é a Palavra do Pai”[2].

Com esta convicção, leiamos toda a Bíblia na certeza de que o nosso Senhor fala em cada uma de suas páginas e, como servos, submetamo-nos de coração às suas ordenanças, acatando todo o desígnio de Deus.


[1] Texto publicado pela primeira vez em 2011, republicado com acréscimos

[2] Mark Jones. O conhecimento de Cristo, Ed. Monergismo – p. 304

22 junho 2021

Quando o aconselhamento bíblico não é possível

Coração de pedra

Se você acompanha este blog há algum tempo pode estar se perguntando a que o título se refere. Afinal de contas, temos publicado aqui vários textos que afirmam e reafirmam a suficiência das Escrituras para tratar quaisquer problemas do homem que não tenham origem orgânica, os chamados males da alma. Temos defendido a superioridade do aconselhamento bíblico sobre qualquer outro sistema de aconselhamento pautado na sabedoria deste mundo. Concordando com Jay Adams, creio que “sendo o aconselhamento – o processo de auxiliar outros a amarem a Deus e ao próximo – uma parte do ministério da Palavra (assim como a pregação) é inconcebível usar qualquer outro texto (do mesmo modo que seria impensável usar outros textos na pregação) que não seja a Palavra de Deus. O ministro da Palavra deixa de o ser, quando se fundamenta em outro texto que não seja a Palavra”[1].

Portanto, o presente artigo não quer contradizer isso. Sim, cremos que em Cristo, conforme revelado nas Escrituras, temos “todas as coisas que conduzem à vida e à piedade” (2Pe 1.3). Todavia, é preciso reconhecer que há uma circunstância em que o aconselhamento bíblico é impossível. Não pense que estou endossando aqui a posição de que há problemas muito grandes para pastores ou conselheiros bíblicos e que necessitam de um profissional terapeuta “qualificado”. A impossibilidade se torna evidente não por causa dos tipos de problemas, mas por causa da incapacidade daqueles que estão enfrentando os problemas de ouvir instruções bíblicas.

Sendo mais claro, Paulo afirma que “certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem” (1Co 1.18) e que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entende-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14). Ou seja, alguém que ainda não foi regenerado não pode, de forma alguma, atender à Palavra de Deus!

Só para usar figuras bíblicas, a Palavra de Deus é descrita como uma espada de dois gumes que penetra a ponto de discernir os propósitos do coração (Hb 4.12). Entretanto, o coração do pecador é de pedra, e para que possa ser penetrado pela Palavra, deve ser, antes, transformado em um coração de carne (Ez 11.19). Essa promessa, feita por Deus no Antigo Testamento, é essencial para que os homens “andem nos meus [de Deus] estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (Ez 11.20).

A falta de um novo coração, isto é, da regeneração, torna impossível o aconselhamento bíblico, pois o pecador, sem Cristo, não tem condições de colocar em prática, com a motivação correta, as ordens e orientações da Palavra de Deus. Não adianta dar princípios bíblicos a alguém que não é nascido de novo.

Certa vez, conversando sobre isso, fui questionado por meu interlocutor se não seria bom ter não crentes recebendo orientações da Palavra de Deus, mesmo que não chegassem a crer em Cristo, afinal de contas, sendo a lei de Deus perfeita, sua prática acabaria por melhorar um pouco a vida dos ímpios. Talvez esse possa ser também o seu questionamento diante do que leu até aqui, e é preciso uma resposta.

Não tenho dúvidas de que a lei é boa e, mais que isso, Paulo diz, ainda, que o mandamento é também santo e justo (Rm 7.12). No salmo 19 Davi qualifica a lei como perfeita, fiel, reta, pura, límpida, verdadeira e o que ela produz é restauração da alma, concessão de sabedoria aos símplices, alegria ao coração, iluminação dos olhos. Entretanto, isso se dá somente após a conversão. Em Cristo, e somente por estar em Cristo, o homem tem condições de guardar a lei. A resposta à pergunta 97 do Breve Catecismo de Westminster explica que a utilidade especial da lei moral aos regenerados é lhes “mostrar quanto devem a Cristo por tê-la cumprido e sofrido a maldição dela, em lugar e para o bem deles; e assim leva-los a uma gratidão maior, e a manifestar essa gratidão por maior cuidado da sua parte em conformarem-se a esta lei, como regra de sua obediência” (BCW – p. 97).

A lei leva o crente à gratidão por Jesus Cristo ter cumprido algo que homem algum poderia cumprir de forma plena. Isso porque a obediência à lei não se dá apenas externamente, mas leva em conta a razão da obediência. Uma coisa é alguém não roubar por amor e satisfação em Deus e amor ao próximo, outra coisa é alguém não roubar com medo de ser preso. No primeiro caso, a razão é a glória de Deus, no segundo, a preocupação egoísta consigo mesmo. Mas o resultado final é o mesmo: alguém que não rouba. Isso não é suficiente diante de Deus, por isso não deve ser o alvo do aconselhamento bíblico.

Tentar dar preceitos bíblicos a não crentes é uma simples tentativa de resolver os sintomas de um problema maior, a inimizade do homem com Deus. Imagine um casal não crente recebendo instruções bíblicas, sem levar em conta a redenção: O conselheiro ensina ao homem que ele deve estar disposto a morrer por sua esposa para o seu casamento ir bem. Ensina também à esposa que ela deve submeter-se ao marido, com o mesmo objetivo, a manutenção do casamento. Talvez isso funcione por um tempo, pois, ao tratar bem a esposa, ela pode também querer agradá-lo, submetendo-se a ele. Mas sem a capacidade de fazer o que é certo para a glória de Deus (eles não têm um novo coração), isso durará pouco tempo, e ainda que dure muito tempo, só servirá para mandar um casal “unido” para o inferno.

Pense na função da lei de Deus para o não crente. Novamente recorro ao Breve Catecismo, que afirma que a utilidade especial da lei moral para os não regenerados é “despertar a consciência deles para que fujam da ira vindoura e para força-los a recorrer a Cristo; ou para deixá-los inescusáveis e sob a maldição do pecado, se continuarem nesse estado e caminho” (BCW – p. 96).

O conselheiro não pode se ocupar simplesmente em resolver problemas, pois cairá na tentação de dar a não crentes simples instruções de como viver bem e, caso funcione, estará afastando-os ainda mais de Jesus Cristo. Talvez aqui seja necessário lembrar que Jesus proferiu um de seus “ais” aos fariseus porque eles se esforçavam para fazer um novo converso, e uma vez feito isso, o tornavam filho do inferno duas vezes mais que eles (Mt 23.15). Lembre-se de que o ensino deles era a de salvação pela guarda da lei (distorcida, eu sei), sem um Redentor.

O princípio é o mesmo. Da mesma forma que o prosélito (novo convertido), convencido de que poderia ser justificado diante de Deus pela lei, desprezava a Cristo, o não crente que aprende apenas princípios para melhorar seu problema sem se dar conta de sua falta de capacidade, entenderá que não precisa de um Redentor.

Conselheiro, você não pode se contentar com uma meta tão baixa como essa. Isso qualquer terapeuta tem como alvo, segundo a sabedoria deste século. Você precisa querer mais!

Como proceder, então?

Agora talvez você esteja exatamente com essa pergunta em mente. É preciso, então, caminhar um pouco mais. Como bem afirmou Welch, “todos os aspectos da vida são vividos diante da face de Deus” – e levando em conta isso – “o aconselhamento bíblico procura lidar com esta característica central da nossa vida, sendo completo somente quando considera nosso relacionamento com Deus e nos dirige a ele”[2].

O aconselhamento bíblico, mais do que resolver problemas, tem por fim levar o aconselhado à maturidade e à conformação com Cristo Jesus, a fim de que ele aprenda a responder às suas circunstâncias, de forma piedosa, com a ajuda do Redentor.

Quando aconselhamos um cristão comprometido com Cristo, partimos do princípio de que ele sabe que deve viver para a glória de Deus e, ainda que ele tenha que ser relembrado desta verdade, ele tem todas as condições de “desenvolver a sua salvação”, pois Deus opera nele o querer e o realizar, conforme sua boa vontade (Fl 2.12,13).

Entretanto, diante de um não crente, o conselheiro tem de estar certo de que este aconselhado não tem condições de viver para glória de Deus, nem de responder piedosamente às suas circunstâncias. Deve manter em mente que o privilégio concedido pelo Senhor neste instante é mais do que tentar “curar superficialmente as feridas”, mas de talvez ser instrumento de Deus para uma mudança verdadeira que começa com a rendição a Jesus Cristo.

Alguns entendem que neste momento o conselheiro deveria parar o aconselhamento e apresentar o “plano de salvação”, para depois concentrar-se nos problemas. Creio, entretanto, que as duas coisas podem ser feitas concomitantemente.

Não crentes que procuram aconselhamento bíblico estão vivendo dilemas reais, dores reais e muitos estão esgotados com suas lutas. Não é sábio desconsiderar todas essas coisas e não é misericordioso não demonstrar compaixão.

Certa vez Jesus aproximou-se de uma mulher, perto de uma fonte, e começou uma conversa com a samaritana pedindo a ela “água”, culminando na afirmação da necessidade que aquela mulher tinha da “água viva” e que pediria essa água se entendesse quem era aquele que estava conversando com ela (Jo 4.1-10). Isso despertou a curiosidade da mulher que perguntou se ele era maior que Jacó, que havia dado a eles poço. Jesus afirmou, então, que quem bebia do poço de Jacó voltava a ter sede ao passo que bebendo de sua água, a sede cessaria para sempre. Isso fez com que a mulher pedisse, então, dessa água.

A história mostra que Jesus estava tratando da maior das necessidades da mulher, mas ele não ignorou seus dilemas pessoais, o que é visto quando ele pede para ele chamar o homem que ele sabia não ser o marido dela, que já havia tido cinco. A conversa segue com a mulher perguntando sobre adoração e ouvindo que o Pai procura adoradores que o adorem em Espírito e em verdade. É nesse ponto da história que ele se revela como o Messias que ela disse saber que estava para vir. Mais uma vez quero enfatizar. Jesus tratou o problema mais profundo daquela mulher, a falta de redenção, mas sem desconsiderar seu problema “superficial”.

Conselheiros devem rogar ao Senhor sabedoria a fim de abordar os problemas dos não crentes usando-os para mostrar a eles a necessidade de alguém que lute suas lutas e caminhe com eles, capacitando-os a responder de forma piedosa às circunstâncias que podem ou não melhorar. Esse caminho envolve arrependimento e fé no Salvador, Jesus Cristo.

Não se esqueça. Quando lidamos com não crentes, juntamente com a instrução do que fazer é necessário mostrar a eles a impossibilidade de fazerem sozinhos, anunciando-lhes que existe um Redentor que resolve o maior de todos os seus problemas, a fim de eles possam lidar com suas circunstâncias de uma forma que honre o Deus que liberta o pecador da miséria do pecado.

Não se contente em ser um simples “resolvedor de problemas”, mesmo porque você não tem condições para tal. Anuncie aos não crentes que porventura busquem o aconselhamento bíblico o Deus que “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” – para que – “a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Ef 3.20-21).


[1] Jay Adams. Teologia do aconselhamento cristão, p. 14

[2] Edward T. Welch. Mas afinal, o que é o aconselhamento bíblico? – Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, v. 2, p. 172

03 junho 2021

Depressão nos personagens bíblicos?

[1]A Bíblia é (ou deveria ser) a regra de fé e prática dos cristãos. Teoricamente isso significa que as Escrituras, corretamente interpretadas, devem ser o crivo para o cristão interagir com todas as cosmovisões ao seu redor, avaliando-as e julgando-as a fim de reter o que é bom (1Ts 5.21). Teria de ser desta forma, pois o salmista afirma ser a Palavra a lâmpada para nossos pés e a luz para o nosso caminho (Sl 119) e o Senhor Jesus afirma ser ela “A verdade” (Jo 17.17).

Porém, para muitos crentes, na prática a teoria é outra. Inundados pelo modo de pensar deste século, crentes sinceros têm se descuidado e feito justamente o contrário, interpretado a Bíblia com pressupostos seculares.

Dia desses deparei-me com um texto assim. Nele, o autor se propõe a tratar de depressão e espiritualidade. Ele começa falando da depressão, principalmente da mulher, sob uma perspectiva médica, afirmando ser um conjunto de sintomas que merecem atenção profissional, médica e psicológica. Segundo o texto:

A depressão feminina está ligada a causas biológicas (puberdade, ciclo menstrual, gravidez ou infertilidade, pós-parto e menopausa), causas culturais (papel da mulher, status social, abuso sexual) e causas psicológicas (estresse, reação às perdas e aos conflitos, discriminação).[2]

O autor explica ainda que a depressão é classificada tradicionalmente em endógena e exógena, sendo a primeira originada por causas internas (biológicas ou predisposições hereditárias) e a segunda causada por fatores externos, como se fosse uma reação a fatores ambientais e circunstanciais (desemprego, divórcio, etc.).

O tratamento, segundo ele, deve seguir dois procedimentos, a avaliação e diagnóstico por um profissional médico e a escolha do tratamento adequado, sendo tratamentos eficazes o medicamentoso e a psicoterapia.

Assumidos os pressupostos, parte-se então em uma busca para provar a depressão biblicamente e, de acordo com os sintomas da depressão descritos no texto, chega-se à conclusão de que Jó, Moisés, Jonas, Davi e, surpreendentemente, o próprio Senhor Jesus passaram por depressão. A evidência seria eles terem pedido para morrer ou, no caso de Davi, ter os ossos e o humor afetados pela depressão. Para o articulista esses exemplos provam o realismo bíblico da depressão demonstrando que a fé não livra o homem de problemas mentais, mas também trazem esperança. Citando Hebreus 2.18 e 4.15 ele afirma que Jesus pode compadecer-se de quem enfrenta depressão por ter ele mesmo sofrido com isso.

Por fim o autor afirma que muitos substituem o tratamento médico pelo religioso por causa de preconceito, por falta de informação ou em nome de uma grande fé e lembra ser a medicina uma bênção do Senhor e os remédios, meios divinos para nossa cura, pois Deus cura extraordinariamente por meio de um milagre, mas ordinariamente cura pessoas por meio de um tratamento médico.

Verificando as implicações

Se assumirmos como corretas as interpretações dos textos bíblicos e as afirmações feitas pelo autor, temos sérias implicações:

1. Certos tipos de emoções e comportamentos (desânimo, tristeza “desproporcional às circunstâncias, aumento ou diminuição do apetite, pensamentos, planos ou tentativa de suicídio, etc.”), devem ser encarados como patológicos;

2. Tivessem os personagens bíblicos citados, incluindo o nosso Senhor, a bênção de viver num tempo em que já existe o Rivotril, a sua “doença” poderia ter sido curada por Deus de modo “ordinário”. Falar da profunda tristeza de Jesus como se fosse desejo de morrer é dizer o que o texto não diz, como ficará claro mais à frente;

3. Conselheiros bíblicos não estão aptos a aconselhar pessoas com depressão, devendo esse trabalho ser feito sempre por profissionais psicoterapeutas;

4. A “conversa psicoterapêutica” é mais eficaz que a “conversa bíblica”;

5. O aconselhamento bíblico, para o caso da depressão, está descartado pelo autor, já que os tratamentos efetivos são o medicamentoso e a psicoterapia;

6. Discordar da perspectiva do articulista sobre a depressão é ser mal informado, preconceituoso e, praticamente, um adepto da confissão positiva.

Para provar ser a depressão uma doença que deve ser tratada de forma medicamentosa, o autor recorre a exemplos bíblicos que “demonstram” a sua realidade. A ironia está no fato de que nenhum dos “depressivos bíblicos” foi tratado com remédio, por razões óbvias.

Testando biblicamente – textos nos seus contextos

Como afirmado no início deste artigo, a Bíblia corretamente interpretada é o parâmetro para julgar todas as outras coisas, e não o contrário. Não há dúvidas de que estes nossos irmãos do passado enfrentaram tristezas profundas, mas terá o autor acertado em seu “diagnóstico” a respeito destes personagens, usando as lentes que ele usou? É preciso, então, verificar os textos em seus devidos contextos a fim de afirmar o que estava acontecendo com cada personagem diagnosticado com depressão.

Antes, porém, de nos atermos aos textos, é preciso estabelecer novos pressupostos:

1. A Bíblia ensina que somos governados por nosso coração e o que governa o nosso coração governará a nossa vida (Mt 6.21; Mt 15.19; Sl 141.4);

2. A forma como respondemos às pessoas e circunstâncias dependerá, portanto, daquilo que está governando o nosso coração. Como exemplo, lembremos a negação de Pedro. A despeito de saber o que era o certo a se fazer, acabou por negar o Senhor com medo de morrer;

3. Nossas ações e emoções são fruto da nossa interpretação da realidade. Ainda pensando em Pedro, ele interpretou que os homens eram maiores que o Senhor e que não estaria seguro falando a verdade, ainda que já tivesse ouvido do próprio Jesus que até os cabelos de sua cabeça estavam contados e que, por isso, não precisaria temer os que matam o corpo (Mt 10.16-33).

Assumidos os novos pressupostos, vejamos os textos:

A “depressão” de Jó

Jó é descrito no começo do seu livro como um homem íntegro, reto e que se desviava do mal. O Senhor chega a afirmar a Satanás que não havia na terra homem semelhante a ele (Jó 1.8). Depois que Satanás acusa Jó de servir a Deus somente por ser alvo de suas bênçãos, é permitido que o tentador tire tudo dele. A partir daí a história se desenvolve de forma maravilhosa.

No princípio, Jó faz uma afirmação de fé formidável. Após sua esposa mandá-lo amaldiçoar a Deus e morrer ele diz: “Temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (2.10).

Porém, a partir do capítulo 3 Jó parece interpretar os fatos de outra forma. Sendo ele justo, não poderia estar sofrendo daquela forma, antes tivesse morrido na madre. Isso pode ser confirmado em todo o capítulo 31, no qual Jó fala de suas qualidades ao responder aos seus amigos chegando, por fim, a dizer: “Tomara eu tivesse quem me ouvisse! Eis aqui minha defesa assinada! Que o Todo-Poderoso me responda.” No primeiro versículo do capítulo 32 temos: “Cessaram aqueles três homens de responder a Jó no tocante ao se ter ele por justo aos seus próprios olhos.”

A partir do capítulo 38 Deus, em vez de responder a Jó, lhe faz uma série de perguntas que revelavam seu poder e sua soberania. Ao final, diz o Senhor: “Acaso, quem usa de censuras contenderá com o Todo-Poderoso? Quem assim argui a Deus que responda” (40.2).

O resultado é maravilhoso. Jó afirma: “Sou indigno; que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca. Uma vez falei e não replicarei, aliás, duas vezes, porém não prosseguirei.” Jó reconhece que a realidade era diferente daquela que ele interpretava, mas Deus continua com mais uma série de perguntas que apontavam para a sua sabedoria. Ao final Jó confessa que nenhum dos planos de Deus pode ser frustrado e afirma que o conhecia apenas de ouvir, mas que agora que o via se abominava e se arrependia (42.1-6).

A “depressão” de Jó foi causada por uma falsa interpretação da realidade e o tratamento de Deus foi fazê-lo ver com clareza que as coisas não eram como ele entendia. O Senhor confrontou Jó, com sua Palavra, e restaurou-o.

A “depressão” de Moisés

O caso de Moisés é interessante. Desde o começo de seu chamado ele se mostra bastante relutante e, vez por outra, esquecia a promessa feita por Deus ao comissioná-lo: “Eu serei contigo” (Êx 3.12). No episódio em que pediu ao Senhor que o matasse, estava mais uma vez murmurando, pois o povo continuamente reclamava por não ter carne (Nm 11.4). Ele estava achando ser muito pesado o seu encargo e que faria as coisas por sua própria força (Nm 11.14).

A primeira coisa que o Senhor faz é distribuir o trabalho com 70 anciãos e, com menos trabalho, a murmuração de Moisés terminaria, certo? Errado! Deus afirmou que alimentaria o povo e daria tanta carne em um mês inteiro a ponto de sair pelo nariz e o povo se enfastiar dela. Moisés entendeu que novamente seria muito trabalho para ele e reclamou, insinuando ser impossível para ele prover carne para o povo o mês inteiro (Nm 11.22).

Deus trata Moisés confrontando-o: “Ter-se-ia encurtado a mão do Senhor?” (Nm 11.23). Em outras palavras, Deus estava dizendo a Moisés que não precisaria reclamar e se preocupar, pois ele era o provedor.

Mais uma vez o desejo de morrer foi por não confiar no Senhor e o tratamento foi o confronto com as promessas de Deus e a interpretação da realidade pela perspectiva correta.

A “depressão” de Jonas

Jonas é visto no texto como um doente que sofria de grave melancolia ou distimia crônica. Uma leitura rápida do livro já revela a razão de ele pedir a morte. Jonas é chamado por Deus para pregar aos ninivitas, povo poderoso, inimigo de Israel. A primeira coisa que o profeta faz é fugir, ele não queria ver os ninivitas convertidos. Depois do episódio em que é lançado no mar e engolido por um peixe, Jonas acaba parando em Nínive onde prega o sermão mais duro que se poderia pregar e, para sua surpresa, o povo crê em Deus.

O capítulo 4 começa afirmando que, por causa disso, Jonas desgostou-se e irou-se. O texto é claro, o profeta diz que fugiu porque sabia que Deus era misericordioso e, agora, com os ninivitas convertidos, era melhor morrer que viver. Jonas revela um coração egoísta, que não confia nos propósitos de Deus. Ele queria fazer melhor que o Senhor, mas já que isso não foi possível melhor seria a morte.

Deus trata o profeta confrontando o seu egoísmo e demonstrando que da mesma forma que tinha compaixão de uma árvore o Senhor também tinha dos ninivitas. O Senhor estava mostrando a Jonas que a maneira de ele interpretar as circunstâncias estava equivocada.

A “depressão” de Davi

A depressão de Davi é “constatada” não pelo fato de ele ter pedido a morte, mas dos seus ossos e humor terem sofrido seus efeitos. A questão é que esse sofrimento, visto como consequência da doença, era o tratamento de Deus ao rei, que não estava arrependido. Considerando estar Davi doente, a contextualização do Salmo deveria ser: “Enquanto não tomei rivotril, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos noite e dia.”

Porém, como pode ser visto em Hebreus, a disciplina de Deus sobre os seus filhos no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza, mas ao final produz fruto de justiça (Hb 12.11). A tristeza causada pelo peso da mão de Deus constitui-se uma bênção e é parte do processo de reconhecimento do pecado por parte do crente.

Cada um dos casos citados acima, devidamente observados dentro de seus contextos, revela crentes sofrendo profundamente por não interpretar as circunstâncias pela perspectiva das promessas da Palavra de Deus, por não descansar no governo de Deus ou por ocultar o pecado.

Se fossem medicados poderiam até, por um tempo, ter o seu sofrimento aliviado, mas não teriam o pecado do seu coração tratado, o que só pode ser feito pela Palavra de Deus que “é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração (Hb 4.12).

A “depressão” de Jesus

O caso de Jesus foi deixado para ser tratado à parte, pois sua tristeza não foi ocasionada pelas mesmas razões dos outros personagens.

O autor do texto faz duas afirmações e a implicação óbvia é a de que Jesus precisava mesmo era de um tarja preta. São elas: a) Jesus passou por uma depressão profunda e b) ele desejou morrer.

Essas afirmações resistem a um exame do texto? Creio que não, como veremos.

Depois de três anos ensinando os discípulos, curando e anunciando o reino, se aproximava a hora em que o Senhor derramaria o seu sangue para redimir o pecador. Ele chama seus discípulos e sobe o Getsêmani a fim de orar e chamando à parte Pedro, Tiago e João afirma estar profundamente triste, até a morte. Essa frase expressa a profunda tristeza de Jesus, mas será que revela que ele desejou morrer? Olhando para o versículo seguinte fica bem claro que não. Nele Jesus ora rogando ao Pai que, se possível, passasse dele o cálice, ou seja, ele pede exatamente o contrário, pede para não ir para cruz.

O que angustiava Jesus era justamente a morte, pois ela significaria receber a ira de Deus pelos pecados do seu povo, que ele estaria assumindo no Calvário. Por causa dos nossos pecados o Senhor morreria e sentiria o desamparo do Pai, a ponto de clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

A afirmação de que Jesus estava triste e pedindo a morte por estar com depressão é, então, uma falácia. Nem todo o Prozac do mundo aliviaria sua tristeza por ter a comunhão perfeita com o Pai quebrada por causa dos nossos pecados.

Quando o autor afirma, portanto, que Jesus pode compadecer-se de nós por ter sido tentado da mesma forma, ele faz uma afirmação correta, mas parte de uma premissa equivocada. Jesus não pode compadecer-se de doentes por ter experimentado a doença da depressão, mas compadecer-se de homens que são tentados a não confiar no plano de Deus, por ter ele mesmo sido tentado a abandonar o Calvário, mas, em vez disso, ter se submetido à vontade do Pai ao declarar: “Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). É por isso que o escritor de Hebreus afirma que “foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (4.15).

Para terminar...

É um grande equívoco assumir como pressupostos teorias científicas e interpretar os episódios de profunda tristeza de personagens bíblicos com lentes seculares. Essa será uma tarefa sempre impossível, pois para a medicina a depressão é caracterizada por um conjunto de sintomas e não pela presença de um ou dois apenas.

Ed Welch, conselheiro bíblico, questiona se o cérebro não tem recebido muito crédito e exemplifica dizendo que

Temos um crescente senso de que o cérebro é a causa real do comportamento. Aquilo que começou como uma sugestão, ou seja, que a química cerebral é a causa final do abuso de álcool, se expandiu até o ponto onde a química cerebral é considerada a causa final de literalmente cada problema humano. [...] – E faz o alerta –

Como cristãos, no entanto, não somos tão ingênuos. Sabemos que não podemos aceitar cegamente tudo que ouvimos como sendo verdade de Deus. A informação que recebemos sobre funcionamento cerebral é vista do mesmo modo que vemos qualquer informação, seja ela sobre finanças, paternidade, ou as causas de nosso comportamento: vemos tais informações através das lentes da Escritura. E esta requer de nós que estejamos atentos, cuidadosos e em oração ao ouvirmos e avaliarmos as últimas descobertas científicas”[3].

Não é objetivo deste texto minimizar o sofrimento humano, de forma alguma. Ele é real e deve ser sempre tratado. A questão aqui gira em torno do “como” tratar. No artigo “Uma crítica do DSM-IV à luz da Bíblia”[4], John Babler afirma acertadamente:

As Escrituras são o caminho apropriado para o entendimento dos assim chamados transtornos mentais: eles consistem em comportamentos derivados do pecado. Uma mudança verdadeira pode acontecer a partir do momento em que o pecado é admitido e há arrependimento. Quando o problema consiste em um coração perdido, a Palavra de Deus é o remédio mais seguro porque o Espírito Santo nos conduz a Cristo.[5]

Alguns podem afirmar que o que foi tratado aqui serve para a chamada depressão exógena, mas não se aplicaria à endógena por esta ter causas biológicas e hereditárias. É importante, então, fornecer algumas informações.

A revista Superinteressante de dezembro de 2010 noticiou uma pesquisa que aponta para o fato de que os antidepressivos causam depressão. Isso porque, contrário ao que se pensava, a depressão não é causada pela falta de serotonina no cérebro, mas pelo excesso desse neurotransmissor. Como o antidepressivo aumenta os níveis de serotonina, acaba tendo o efeito contrário ao desejado.[6]

Em palestra ministrada em 2019 aqui no Brasil, o médico americano Charles Hodges, citando um artigo de 2005, de autoria de Lacasse JR, intitulado “Serotonina e depressão, a desconexão entre a propaganda e a literatura científica”, afirmou que

“os autores declaram que a pesquisa da neurociência contemporânea falhou em confirmar qualquer lesão cerotonérgica em qualquer distúrbio mental e na verdade proporcionou evidências contrárias à explicação da simples deficiência dos neurotransmissores. Em nosso conhecimento, não há nenhum artigo revisado que possa ser citado para sustentar a ideia da deficiência de serotonina em nenhum distúrbio mental”[7].

Essa perspectiva não é nova. Thomaz Szasz, psiquiatra e acadêmico, foi um ferrenho opositor da ideia da depressão como doença. Quando questionado em uma entrevista sobre a eficácia dos medicamentos ele respondeu:

Não vejo dificuldade em explicar isso. O comportamento humano, seja normal ou anormal, não acontece no vácuo, obviamente ele é mediado pelo modo como o corpo e cérebro da pessoa funciona, e o fato de substâncias químicas afetarem o cérebro em instituições mentais não é mais misterioso do que cerveja, álcool ou outros tipos de bebida afetarem pessoas normais. Elas vão pra casa após um dia de trabalho, se sentem cansadas e deprimidas e tomam alguma bebida e se sentem melhor. Isto não quer dizer que elas estavam doentes antes. Podemos tomar vários tipos de substâncias químicas que afetam nosso comportamento. Isso de maneira alguma prova que o estado anterior era um estado de doença médica.[8]

Outro psiquiatra afirma que, desde que os antidepressivos foram lançados no Reino Unido, pelo menos uma pessoa por semana cometeu suicídio enquanto os tomava, e não teriam cometido se não os tivessem tomado.[9]

Theodore Dalrymple, psiquiatra ateu, assim diz em seu livro:

O conceito de desequilíbrio na química do cérebro como a origem dos pensamentos, desejos, humor e comportamento, principalmente quando é mau comportamento, foi aceito pelos estudiosos do fim do século XX com a credulidade só excedida pelos camponeses medievais diante das relíquias religiosas, mas com resultados estéticos – e possivelmente psicológicos – menos benéficos. [...]

A popularidade da química do cérebro como explicação para todo o comportamento humano – pelo menos o comportamento que, em virtude das dificuldades que causa, aparentemente precisa de explicação – começou na década de 1980 com o marketing muitíssimo bem-sucedido das novas drogas, supostamente antidepressivas, conhecidas como inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs ou SSRIs na sigla em inglês) – tão bem-sucedido que a qualquer momento eles podem estar sendo tomados por um décimo da população adulta. [...]

Foram necessários dois avanços para que a teoria do ‘desequilíbrio químico’ das dificuldades da existência se tornasse tão difundida a ponto de parecer evidente para metade da população (a metade mais instruída): primeiro, o afrouxamento do diagnóstico de depressão para abranger todas as formas de infelicidade humana; segundo, o desenvolvimento de novos antidepressivos, os famosos – ou infames – ISRSs (inibidores seletivos de recaptação de serotonina).

A primeira dessas condições foi tão minunciosamente cumprida que a palavra infeliz foi eliminada da linguagem comum. Para cada pessoa que você ouve falando em público de infelicidade, você ouve no mínimo dez falando de depressão. Poucos são os que agora admitem ser infelizes e não deprimidos, outra ‘evasão admirável’, pois já que a depressão é doença – causada, evidentemente, por desequilíbrio químico –, é natural que quem sofre dela procure tratamento médico quando experimenta qualquer desvio de felicidade, que é o estado natural da humanidade, bem como um direito inalienável (a descoberta substituiu a busca como um direito inalienável). Se alguém admite ser infeliz, pode ter disso sua má conduta, tola ou imoral, que contribuiu para isso; mas se é deprimido ele é vítima de uma doença que, metafisicamente falando, caiu do céu. [...]

Os psiquiatras têm uma lista de sintomas; e se os pacientes alegam sofrer de um número suficiente (não é preciso ser muitos), recebem os comprimidos. Alguns dos sintomas têm conteúdo irredutivelmente moral, como a autoestima, cuja perda é invariavelmente patológica aos olhos dos psiquiatras; ou um sentimento de culpa, cujo aumento é invariavelmente patológico aos olhos dos psiquiatras e independente de qualquer justificativa. [...]

Ouvindo o Prozac, caso você não se lembre, foi um best-seller publicado em 1993 pelo psiquiatra Peter D. Kramer. O Prozac foi o primeiro dos ISRSs a ser vendido, e suas alegadas vantagens eram muitas. [...]

O livro de Kramer sugeriu muito mais que isso. Ele alegava que na verdade o Prozac poderia consertar uma personalidade com defeito, ou que a pessoa considerasse imperfeita. Segundo o autor, nosso conhecimento e comando dos neurotransmissores seriam tão grandes que estaríamos entrando numa era de neurofarmacologia estética, em que desenharíamos nossa própria personalidade: um pouco mais de autoconfiança aqui, um pouco menos de irascibilidade acolá. Poderíamos ser exatamente quem gostaríamos de ser, não pelos meios tradicionais de disciplina e autocontrole, e sim pela mistura judiciosa de comprimidos. Isso, é claro, é exatamente o que o homem devasso quer ouvir. A única coisa que mudou desde que ele culpou o Sol, a Lua e as estrelas pelos seus desastres é que agora ele culpa a noradrenalina, a serotonina e o ácido gama-aminobutírico.

Essa ideia reducionista de que tudo se resume ao neurotransmissor, de que o excesso ou escassez de um punhado de substâncias biológicas no cérebro supostamente é responsável por todos os nossos desastres, jamais deveria ter sido levada a sério[10] (grifos meus).

Ainda mais um autor escreveu em sua obra que

A história do desequilíbrio químico, que está sendo contada sobre todos os medicamentos psicotrópicos, até mesmo para benzodiazepínicos (comprimidos para os ‘nervos’ ou para dormir), é uma grande mentira. Nunca foi documentado que qualquer uma das grandes doenças psiquiátricas seja causada por um defeito bioquímico e não há qualquer teste biológico que consiga nos dizer se alguém tem determinado transtorno mental. Como um exemplo, a ideia de que os pacientes deprimidos têm carência de serotonina foi convincentemente rejeitada[11].

Todas essas citações tem como objetivo, como se pode perceber, demonstrar que não há toda essa unanimidade em relação às causas biológicas da depressão, tampouco sobre os efeitos dos antidepressivos. A desconfiança não parte apenas de “religiosos em nome de uma grande fé”, mas também de médicos e pesquisadores.

Enquanto a ciência não chega a uma conclusão, temos a infalível Palavra de Deus. Somente a Lei do Senhor é perfeita e restaura alma (Sl 19.7) e, como afirma o apóstolo Pedro, pelo conhecimento de Cristo temos todas as coisas que são suficientes para a vida e piedade. Crer nisso não é preconceito ou falta de informação, mas convicção de que Cristo Jesus é plenamente suficiente na vida dos crentes.

Post scriptum: Uma palavra sobre medicamentos

1. O texto não é um tratado conta os medicamentos. Particularmente não conheço nenhum conselheiro bíblico que entenda que tomar medicação para depressão seja pecado.

Robert Kellemen (que tem um excelente livro lançado pela Editora Cultura Cristã: Aconselhamento segundo o evangelho), por exemplo, afirma que nenhum dos principais grupos de aconselhamento dos EUA são “opositores à medicação”. O que conselheiros devem fazer é encorajar as pessoas estarem bem informadas a respeito dos medicamentos, dos seus prós e contras. Leia o texto aqui: Quando a medicação psicoativa é útil na vida de um aconselhado

O médico Charles Hodges, conselheiro bíblico, defende que o uso de medicação é algo que diz respeito à liberdade cristã. Confira aqui: “I’m thinking about going to the Doctor for depression meds” – What is a compassionate, comprehensive response?

2. Conselheiros bíblicos responsáveis não pedem ou sugerem aos seus aconselhados que parem de tomar medicação, caso estejam fazendo uso. O que muitos fazem é dizer aos aconselhados para conversarem com seus médicos a fim de saberem da possibilidade de receber alta ou ir retirando aos poucos. A decisão a respeito desse assunto é do médico.


[1] Este texto foi publicado pela primeira vez em 2011 e está sendo republicado com mais informações.

[2] https://www.ippinheiros.org.br/blog/a-depressao-entre-as-mulheres/

[3] Edward T. Welch. A culpa é do cérebro? – Ed. Peregrino

[4] DSM é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, livro de referência decisivo para os diagnósticos psiquiátricos, e que está em sua quarta edição

[5] John Babler. Uma crítica ao DSM-IV à luz da Bíblia. in: Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, v. 2, CCEF e SBPV

[6] http://super.abril.com.br/saude/anti-depressivo-pode-causar-depressao-614371.shtml

[7] https://youtu.be/TA3qRmuW8aY

[8] http://scienceblogs.com.br/psicologico/2009/04/thomas_szasz_entrevistado_sobr.php

[9] http://www.youtube.com/watch?v=j63-8Ac3dh0

[10] Theodore Dalrymple. Evasivas admiráveis: Como a psicologia subverte a moralidade. Ed. É realizações

[11] Peter C. Gøtzsche. Medicamentos mortais e o crime organizado.

24 março 2021

Você confia em Deus ou em ídolos?

 

O Salmo 115 regista uma pergunta feita pelas nações a respeito do Deus de Israel: “Onde está o Deus deles?” (115.2). A resposta a esse tipo de pergunta é determinante para a forma como você viverá neste mundo.

Vivemos em um mundo quebrado. Um mundo em que enfrentaremos problemas em todas as esferas e em todas as áreas da vida. A queda, resultado do pecado dos nossos primeiros pais, teve como uma de suas consequências a maldição do Senhor sobre toda a criação. Portanto, todo o sofrimento experimentado pela humanidade tem como causa primeira, o pecado original.

Entretanto, mesmo diante de todo esse quadro, a Escritura é clara ao afirmar o governo soberano de Deus. Ainda que as coisas, aparentemente, estejam muitas vezes fora do controle, o Senhor está cumprindo os seus propósitos eternos. A declaração da Confissão de Fé de Westminster é de que “pela sua mui sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho de sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, todas as ações delas e toda as coisas, desde a maior até a menor” (CFW V.I).

Isto está em acordo com a resposta do salmista, diante da pergunta das nações. Ele não tem a menor dúvida e afirma que “no céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3). Quanto mais cedo o cristão aprende esta verdade, quanto mais firme ela estiver arraigada em seu coração, mais condições ele terá de viver contente, a despeito das circunstâncias que o cercam.

O contentamento decorre do entendimento de que o soberano Deus reina eternamente. Por ter a certeza de que o Senhor reina é que Paulo pôde afirmar que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28) e que o Senhor “faz todas as coisas conforme o conselho de sua vontade” (Ef 1.11).

Diferente da confiança no Senhor é a confiança nos ídolos. Por terem se rebelado contra o Senhor, por meio de seu representante Adão, os homens rejeitam o governo soberano de Deus e, como não podem viver sem adorar, estabelecem ídolos em seus corações. Estes ídolos nascem quando a esperança, o conforto, o consolo, a segurança e a razão para viver são colocadas em qualquer obra da criação.

De acordo com a descrição de Paulo os homens “tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.21-22).

Assim é o homem natural, ele está o tempo todo colocando a sua esperança em algum lugar que não o Senhor. Mas, infelizmente, até mesmo os cristãos, por vezes, acabam se deixando dominar pelos seus desejos e levantam ídolos em seus corações.

Isto explica, por exemplo, a esperança messiânica depositada em governantes. O desejo de ter uma sociedade mais justa, que não é mal em si, acaba por levar as pessoas a apostarem todas as suas fichas no candidato A ou B, neste ou naquele modelo econômico, etc.

Isto explica também a fé cega na ciência e o acatamento, sem o devido senso crítico, de tudo o que os todo-poderosos cientistas afirmam, reafirmam ou “desafirmam” (perdoe o neologismo).

Não me entenda mal. A ciência e o governo não são intrinsicamente ruins. Não podem ser pois foram estabelecidos pelo Senhor. Eles, como quaisquer aspectos da criação, se tornam ruins quando passam do status de criação (servos) para o status de ídolos (senhores). A criação deve servir ao homem, pois ao se tornar senhor, sempre será um tirano senhor.

Se é verdade que a esperança colocada no Senhor leva ao contentamento, é igualmente verdadeiro que a confiança em ídolos sempre conduzirá ao descontentamento. As coisas nunca estarão boas, nada será suficiente e o coração do idólatra sempre almejará por mais. Tome como exemplo o dinheiro. Como afirmou Salomão, “quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda” (Ec 5.10).

Como os falsos deuses não têm poder para entregarem o que prometem, quanto maiores as esperanças no ídolo, maior a frustração. Quanto maior a frustração, maior o desespero e desesperança.

Ao confiar em ídolos, o resultado será aquele que está expresso no Salmo 115.8, você se tornará como eles. Esta é a maldição para o idólatra. Entretanto ao depositar a sua confiança em Cristo você será, dia a dia, conformado a imagem dele. O texto em que Paulo diz que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus é seguido por uma explicação para tal afirmação: “porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29).

Diferente dos incrédulos os “quais o deus deste século cegou o entendimento” (2Co 4.4), você não deve se conformar com este século, mas deve transformar-se pela renovação de sua mente (Rm 12.2) no poder do Espírito Santo. Desta forma, certamente estará feliz e satisfeito, pois experimentará “qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2), que tudo faz como lhe agrada!

27 janeiro 2021

Salomão foi salvo?


 Aqueles que me acompanham sabe que não sou favorável a ficar debatendo sobre a salvação alheia. É claro que isso não se aplica aos casos em que a Bíblia declara de forma inequívoca. Quem questionaria, por exemplo, a salvação do ladrão que ouviu do Senhor Jesus: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43)? Será que alguém ousaria duvidar da salvação de Jacó que o próprio Senhor diz ter amado e da condenação de Esaú a quem o Senhor rejeitou antes mesmo de os irmãos terem praticado o bem ou o mal (Rm 9.11-13). Algum leitor sério das Escrituras colocaria em dúvida a condenação de Judas, chamado por Jesus de “filho da perdição” (Jo 17.12) ou a salvação dos irmãos citados na chamada galeria da fé de Hebreus 11?

 Entretanto, há alguns anos, ouvi uma palestra em que a salvação de Salomão foi colocada em dúvida. De lá para cá, vez por outra vejo alguém tocando neste ponto. Eu já tinha ouvido outro preletor afirmando que Salomão não poderia ser o autor do livro de Cantares, pois no quesito da vida conjugal ele não era exemplo para ninguém, mas em nenhum momento este preletor questionou a salvação do rei que pecou sim, e muito, contra o Senhor.

 Voltando ao primeiro preletor, o argumento utilizado para colocar em dúvida a salvação de Salomão é o fato de a Escritura não trazer um versículo sequer demonstrando o seu arrependimento. Creio eu que o que ele esperava era um texto bem direto, do tipo: “arrependeu-se Salomão de todos os seus pecados e de tomar todas aquelas mulheres” ou algo parecido.

 Será que mesmo sem um versículo tão direto assim podemos afirmar a salvação deste rei? Aqui eu creio que o princípio que temos declarado no primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster pode nos ajudar: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.VI).

Como podemos deduzir lógica e claramente a salvação de Salomão?

     1.  Salomão está na linhagem de Cristo – O Senhor prometeu a Davi que não faltaria descendente para se assentar em seu trono. O seu descendente estabeleceria uma casa ao Senhor. Se pecasse, seria castigado, mas a misericórdia de Deus não se apartaria dele (2Sm 7.12-16).

Após terminar de edificar a Casa do Senhor, Salomão ouviu as mesmas palavras que seu pai: “Se andares perante mim como andou Davi, teu pai, com integridade de coração e com sinceridade, para fazeres segundo tudo o que te mandei e guardares os meus estatutos e os meus juízos, então confirmarei o trono de teu reino sobre Israel para sempre, como falei acerca de Davi, teu pai, dizendo: Não te faltará sucessor sobre o trono de Israel” (1Re 9.4-5). 

     2. Salomão é um tipo de Cristo – Além de vermos isso no texto citado acima, pois o verdadeiro Templo de Deus foi edificado pelo Senhor Jesus Cristo, a sabedoria de Salomão apontava para alguém muito mais sábio que ele.

O próprio Senhor Jesus Cristo, o Rei que se assentou no trono para sempre, em seu ministério, censurou os escribas e fariseus lembrando-lhes: “A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra   para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão” (Mt 12.42). 

   3. Salomão é um autor bíblico – A despeito de muitos duvidarem de que Eclesiastes foi escrito por Salomão, concordo com Douglas Wilson: “O autor [...] identifica-se aqui como filho de Davi e rei de Jerusalém. Mesmo sem nos envolvermos na descrição detalhada do debate entre os estudiosos, inexiste razão definitiva para não atribuir o livro a Salomão”[1].

Se Wilson está certo (e eu penso que está) quando afirma que “o livro de Eclesiastes foi escrito na sua velhice; um repúdio arrependido de sua apostasia anterior”[2], temos no livro, então, uma prova de seu arrependimento.

Para os que não creem na autoria “Salomônica” do Eclesiastes, Cantares ou Provérbios, há ainda o Salmo 127, cujo título é inequívoco: “Cântico de romagem. De Salomão” e que, em minha opinião, é um resumo perfeito do Eclesiastes: Fora da presença do Senhor, tudo é vaidade!

Ouvi certa vez que o fato de Salomão ter escrito um livro da Bíblia não prova nada, pois Deus usou até uma jumenta para falar com Balaão. Este argumento é de uma infantilidade assustadora, pois não há livro sequer atribuído à jumenta. Além disso, se alguém pensa assim, esquece-se do que afirmou Pedro acerca da inspiração das Escritura: “homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21).

Sendo assim, aqueles que creem na inspiração das Escrituras e duvidam da salvação de Salomão, para serem coerentes, devem negar a sua autoria em quaisquer escritos da Bíblia. 

Muito mais poderia ser “lógica e claramente deduzido”, mas creio que as razões apresentadas são suficientes para entendermos que o Senhor cumpriu seus propósitos por meio de Salomão e de que ele está na glória do Pai, juntamente com todos aqueles que foram redimidos por Jesus.

A salvação não depende de Salomão e de seus atos de justiça. Ela é exclusivamente por causa de Cristo. Curiosamente, quando Mateus descreve a linhagem de Jesus ele ressalta o pecado, não de Salomão, mas de do seu pai, ao mencionar que Davi   gerou “a Salomão da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6).

A genealogia do Senhor é repleta de pecadores, muitos cujas histórias são terríveis. Entretanto, apesar dos pecados, todos foram lavados e remidos pelo sangue daquele que salvou a todos os que depositaram a sua fé no Messias que viria, aquele em quem todo cristão, imperfeito e pecador, creu para a salvação: Cristo Jesus, o Rei perfeito, nosso Redentor.


[1] Wilson, Douglas. Alegria no limite das forças: A inescrutável sabedoria de Eclesiastes (p. 11). Monergismo. Edição do Kindle.

[2] Wilson, Douglas. Alegria no limite das forças: A inescrutável sabedoria de Eclesiastes (p. 11). Monergismo. Edição do Kindle.