27 abril 2019

Meu Pai trabalha até agora...

Não é incomum ver pessoas que sequer começaram a sua vida profissional e já pensam na aposentadoria. Apesar de nada terem produzido por meio do seu trabalho, já sonham com os dias em que só haverá viagens, belas praias, pores do sol esplendorosos, sombra e água fresca.

Além de esta ser uma realidade distante da maioria daqueles que se aposentam, há o fato de que, em se tratando de trabalho, são muitas as distorções. O trabalho é visto como maldição por causa do pecado de Adão, como um mal necessário, como o meio de subsistência, como o sentido da vida, como algo que traz dignidade, afinal, “o trabalho dignifica o homem”, etc.

Biblicamente o trabalho é um mandamento. Deus fez o homem para trabalhar e isto é visto de modo claro no livro de Gênesis, quando o Senhor coloca Adão no Jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2.15). As coisas não poderiam ser diferentes, pois por ser criado à imagem e semelhança de Deus o homem é um reflexo do seu Criador. E o que você vê Deus fazendo no primeiro capítulo da Escritura? O Senhor está trabalhando, realizando a obra da criação.

No sexto dia ele cria o homem, ação descrita por Davi da seguinte maneira: “Fizeste-o por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão (Sl 8.5-6a). Ao cabo de sua obra, Moisés relata que “havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito (Gn 2.2).

Com a queda todas as relações do homem foram afetadas. Sua relação com Deus, com o próximo e também com o trabalho. A maldição dada por Deus após o pecado não foi o trabalho, mas a dificuldade e a penosidade de se ganhar o pão: “No suor do rosto comerá o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.19). O trabalho, bênção do Senhor, se tornara penoso e assim seria até que o homem experimentasse a pior das consequências do seu pecado, a morte.

Entretanto, antes de amaldiçoar o homem o Senhor havia amaldiçoado a serpente, afirmando que da mulher nasceria aquele que iria esmagar a sua cabeça (Gn 3.15). A obra (trabalho) de Cristo estava anunciada. Haveria um dia em que o homem voltaria a encontrar vida e o verdadeiro descanso, prenunciado pela lei.

Quando o Senhor deu a Moisés o quarto mandamento, ordenou-o lembrar do padrão “seis para um” estabelecido na criação:

Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho [...] porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra [...] e, ao sétimo dia, descansou (Ex 20.8-9).

O descanso do Pai após a sua obra era o padrão para o descanso dos seus servos e apontava para o descanso do Filho, após terminar a sua obra de redenção. Esta é, inclusive, a razão de a igreja descansar no primeiro dia, dia da ressurreição do nosso Senhor.

Infelizmente, a lei dada para demonstrar ao homem que o Senhor era o seu cuidador e sustentador, prefigurando o descanso em Cristo, foi transformada pelos judeus em um dia cheio de ritos e proibições vazias que eles entendiam ser necessários à salvação.

Isto pode ser notado no episódio de João 5. Após ter sido curado por Jesus, o paralítico foi questionado pelos judeus, pois estava carregando o seu leito em dia de sábado. Ele respondeu que aquele que o havia curado (um claro sinal de que Jesus era o Messias) o havia mandado carregar o leito. Ao ser perseguido pelos judeus Jesus respondeu que, semelhante ao seu Pai que trabalhava até aquele momento, ele também trabalhava, razão de os judeus quererem matá-lo, pois além de “violar” o sábado se fazia igual a Deus.

Com isso Jesus demonstra que o sábado, dia do descanso das atividades cotidianas para “ganhar” pão de cada dia, era também dia de trabalho, porém, um trabalho para Deus e para o próximo. O Breve Catecismo descreve esse trabalho como “exercícios públicos e particulares de adoração” e “obras de necessidade e misericórdia” (P. 60).

Diante disso, podemos pensar em algumas lições:

1. Não é o trabalho que dignifica o homem – Sua dignidade está em ser imagem e semelhança de Deus. Seu valor não está em quem ele é, mas a quem ele representa. O trabalho é expressão dessa imagem e precisa ser feito para a glória de Deus. Para isso...

2. A penosidade do trabalho é redimida em Cristo – A obra de Cristo, para salvação do seu povo dos seus pecados, liberta o homem para viver para a glória de Deus e encontrar satisfação no que outrora era penoso. Essa é a experiência do homem temente ao Senhor do Salmo 128, que come do trabalho de suas mãos e é feliz.

3. Não trabalhar é pecado – Paulo foi categórico ao exortar os tessalonicenses: “quando ainda convosco, vos ordenamos isto se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2Ts 3.10). Aqui alguém pode questionar: Mas eu já trabalhei, juntei dinheiro e estou aposentado, o que fazer? Concordo com Jay Adams:

Se [...] a pessoa interpreta a aposentadoria como a mudança de um tipo de trabalho para outro, e a entrada numa nova fase de atividade produtiva (possivelmente a realização de muitas atividades não-remuneradas para a igreja de Cristo, coisas que ela nunca tivera tempo para fazer), isto é bom. Quando Deus manda o homem fazer ‘toda a sua obra’ em seis dias, ele se refere a mais do que uma única espécie de trabalho (não meramente trabalho remunerado)[1].

4. Não descansar é pecado – O dia do Senhor continua sendo ordenado aos cristãos. É preciso, neste dia de descanso, servir a Deus e ao próximo, adorar aquele que enviou o seu único Filho para que, por meio do seu trabalho de Redenção, salvasse e purificasse “para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras [trabalho]” Tt 2.14). Todos os domingos você lembra e declara que não é sustentado por causa do seu trabalho, mas por causa do Senhor (Sl 127.1-2) e, por isso, dedica este dia inteiramente ao seu mantenedor!

O Pai de Jesus trabalha até agora e ele também trabalha. Trabalhe você também, para a glória de Deus, vislumbrando no dia de descanso o glorioso e eterno descanso que teremos por estarmos unidos a Cristo, aquele que concedeu a vida!


[1] Jay Adams. Teologia do Aconselhamento Cristão, p. 192. Ed. Peregrino

23 abril 2019

Qual é a razão da nossa existência?

Esta é uma questão presente na história da humanidade, cuja resposta varia, dependendo da visão de mundo de quem a elabora. Para aqueles que negam a existência de Deus, a vida, fruto do acaso, encerra-se assim que a pessoa morre. Esta ideia naturalista implica na falta de um referencial para a moralidade. Se não existe um Deus, não existe uma moral absoluta e cada um pode construir a sua própria “moralidade”.

Longe de ser uma novidade, esta visão de mundo e sua consequência foi apontada por Davi em dois de seus salmos, o 14 e o 51, em que afirma:

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus”.

O resultado lógico da crença na não existência de um Deus que soberanamente estabelece o que é certo e o que é errado, está na sequência:

“Corrompem-se e praticam iniquidade; já não há quem faça o bem” (Sl 53.1).

Alguém que não crê em Deus não tem esperança e, inevitavelmente buscará uma razão para motivá-lo a viver, visto que, por ter sido o homem criado para adorar a Deus, ao tentar eliminá-lo de sua vida, fatalmente colocará outro deus em seu lugar. Este falso deus que o motivará a viver pode ser a família, o trabalho, o status, ou qualquer outra coisa que ele entenda ser importante e que valha a pena viver por ela. Porém, sem um referencial absoluto de moralidade, pecará para conquistar aquilo que tanto almeja.

Entretanto, Davi descreve como o Senhor enxerga estas pessoas:

“Do céu, olha Deus para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem sequer um” (Sl 53.2-3).

A vida daqueles que não creem em Deus é uma vida sem sentido. Mas não somente a deles, a dos que creem em um deus que é fruto de sua própria imaginação também é uma vida vazia. Uma vez que esta pretensa deidade é falsa, persiste a falta de razão para a existência.

Todavia, uma boa resposta à esta questão foi dada pelos teólogos de Westminster, já na primeira pergunta do Breve Catecismo: “Qual é o fim principal do homem? Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.

A questão da razão da existência está magistralmente colocada aqui. O homem foi feito para dar glória a Deus. É isto que confere razão à sua existência e, ao viver assim, ele encontra verdadeira alegria em tudo o que faz. A alegria no que se faz é fruto de se fazer pela razão correta.

Adão foi criado desta maneira, conforme o relato do livro de Gênesis. O problema é que, com a queda, o homem passou a ser inimigo de Deus. É por isso que ele rejeita a Deus e, ao mesmo tempo, busca falsos deuses. Como afirma Calvino, “sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natural, certo senso da Divindade. [...] Até a idolatria nos serve de grande argumento em favor desta ideia” (Institutas, livro I).

Diante disso, para que o homem encontre novamente a verdadeira razão para viver, Deus enviou seu Filho a fim de resgatá-lo. Após a queda de Adão, o único homem que teve condições de glorificar a Deus e gozá-lo para sempre foi o Senhor Jesus Cristo, por ser o próprio Deus encarnado. Ao viver de forma perfeita e morrer em favor dos seus eleitos para que estes possam ser salvos pela fé, o Senhor Jesus Cristo garante aos que estão unidos a ele condições de também glorificar a Deus e ter alegria nele, para sempre.

Você pode notar isto na oração sacerdotal registrada no Evangelho de João. Jesus diz ao Pai:

“Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste a fazer” (Jo 17.4).

O Filho bendito de Deus, glorificou a seu Pai, realizando uma obra penosa. Lembre-se que em sua obra ele teve de suportar o cálice da ira divina, em lugar dos seus. Após isso ele roga ao Pai:

agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (17.5).

Quando pregou aos judeus, Pedro citou a alegria de Cristo em sua obra, ao aplicar a ele as palavras de Davi:

“Diante de mim via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado. Por isso, se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; além disto, também a minha própria carne repousará em esperança, porque não deixará a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria na tua presença (At 2.25-28).

Jesus glorificou ao Pai e teve alegria nele!

Voltando à oração sacerdotal, Jesus afirma que em seus discípulos ele é glorificado (17.10) e diz:

“agora, vou para junto de ti [do pai] e isto falo no mundo para que eles tenham o meu gozo completo em si mesmos” (17.13).

Comentando esta passagem Carson afirma que “minha alegria [meu gozo] aponta, sem dúvida, para [Jo] 15.11, em que a alegria de Jesus, como a dos discípulos pelos quais Jesus ora, depende do fato de permanecer no amor do Pai, obediente a ele e em fidelidade de coração à Palavra que Jesus ensinou” (Comentário de João).

A obra de Cristo liberta o pecador e o leva à obediência que glorifica a Deus e redunda em alegria nele, para sempre. Se você não entender que a razão da vida está em realizar aquilo para o qual foi você foi criado, continuará a buscar fontes de alegria fora de Deus e razões para continuar que só funcionam enquanto o seu interesse estiver nelas ou você não se decepcionar com elas.

Em Cristo, tudo ganha sentido. Sem ele, a vida se restringe ao que Salomão registra no livro de Eclesiastes:

“Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Ec 1.14).

Crendo em Cristo você tem um referencial absoluto para a sua moralidade e viverá de forma a glorificar a Deus em tudo o que faz, tanto nas coisas menores, “quer comais, quer bebais” – quanto em tudo o mais – “ou façais outra coisa qualquer” (1Co 10.31). Assim, desfrutará de alegria, a despeito das circunstâncias, pois terá aprendido como Paulo “a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.11), sendo Cristo aquele que te fortalece.

Agostinho afirmou em suas Confissões: “porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso”. Este descanso é o Senhor Jesus Cristo, que glorificou ao Pai e tem alegria nele eternamente para que você possa viver da mesma forma. Só em Jesus Cristo há verdadeira razão para viver.

06 abril 2019

Autoestima - uma doutrina anátema

Sei que o título talvez espante aqueles cristãos que já assimilaram que o dogma da autoestima é algo ensinado pelas Escrituras, mas é preciso apontar e nominar o falso ensino, afinal de contas, conforme Paulo, qualquer evangelho que seja diferente daquele pregado pelos apóstolos deve ser classificado como maldito (Gl 1.6-9).

Se você pesquisar na internet verá várias definições sobre o que seria o ensino da autoestima. Creio que uma que resume bem é o de Dorothy Briggs: “a autoestima é a maneira pela qual uma pessoa se sente em relação a si mesma. É o juízo de si mesmo, o quanto gosta de sua própria pessoa”.

A ideia é que se alguém não se sente bem em relação a si mesmo e não gosta de sua própria pessoa possui uma baixa autoestima, ou seja, esta pessoa carece de amor próprio. Como consequência pode vir a depressão, timidez em excesso, problema em dizer não, sensação de culpa, necessidade constante de elogios, etc.

Por outro lado, se alguém tem a sua autoestima elevada, ou seja, se é uma pessoa com um bom conceito a respeito de si mesma e que se ama, esses problemas seriam curados e não mais existiriam.

Estas ideias não saíram da Escritura. Na verdade, ao falar sobre o amor próprio, as Escrituras o apontam como um mal. Paulo advertiu a Timóteo afirmando que “nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos; porque haverá homens amantes de si mesmos” (2Tm 3.1-2a – ARC). Entretanto, elas podem ser vistas em várias linhas das psicologias existentes, que tentam explicar quem é o homem, o que está errado com ele e como ele pode ser “consertado”. A despeito disso, elas foram inseridas na pregação de muitos pastores que a tomam como base de seus sermões. Um exemplo desse tipo de pregação é um vídeo que viralizou recentemente em que Deive Leonardo, pregador itinerante, afirma aos seus ouvintes frases como:

“Do evangelho Jesus é o centro, mas de Jesus... você é o centro”, “você é importante. Tudo o que Jesus fez apontou para você”, “Você é importante. Se qualquer história, qualquer legado, qualquer palavra, contra você, menosprezou, colocou para baixo, eu digo em nome de Jesus, pra você: você é a pessoa mais importante da terra, porque tudo o que Jesus fez, foi por tua culpa. Você é importante”.

Ao assistir este vídeo, lembrei de imediato das palavras de um pastor Luterano, Don Motzat, que li há alguns anos:

Tenho ouvido mais de um pastor declarar em sermão que a morte de Cristo prova nosso valor pessoal. [...]

Um recente programa de televisão reportou a acareação de um assassino que admitiu a responsabilidade por pelo menos quinze assassinatos. O juiz firmou sua fiança em cinco milhões de reais! Será que usaríamos o mesmo tipo de raciocínio para concluir que esse homem deveria se sentir bem acerca de si mesmo considerando-se como um ser humano de especial valor, uma vez que o juiz firmou sua fiança em valor tão alto? Afinal, ele vale cinco milhões de reais para a sociedade!

A fiança de cinco milhões obviamente não reflete o valor do assassino, mas a severidade do seu crime. Igualmente, a morte do nosso Senhor Jesus Cristo na cruz não é uma declaração de nosso valor, mas indica a profundidade do nosso pecado e culpa diante de Deus.

[...]

Geralmente ouvimos dizer: ‘Se eu fosse a única pessoa na terra, ainda assim Jesus teria morrido por mim’. Embora nosso Senhor pudesse ter dado sua vida por apenas uma pessoa, isso não seria por que essa pessoa era valiosa, mas porque Deus seria gracioso. Tal ocorrência dificilmente poderia ser vista como fonte de orgulho ou auto-estima. Argumentar que Jesus teria morrido por mim ainda que eu fosse a única pessoa na terra, simplesmente indica que meus pecados, sem a contribuição de outras pessoas, eram suficientes para exigir a severa punição que Jesus Cristo vicariamente assumiu em meu lugar. Quando confrontado com essa realidade, devemos lamentar pelo sacrifício altruísta de nosso Senhor em vez de achar nisso mais uma oportunidade de sentir-nos bem sobre nós mesmos (Religião de Poder – Ed. Cultura Cristã).

Notou a discrepância da abordagem? O que faz toda a diferença é que uma está centrada em Cristo enquanto a outra tem como centro o homem. Este é um grande mal que a tentativa de integrar a psicologia com a Bíblia tem feito ao evangelho. Por esta razão afirmei de início que a mensagem da autoestima deve ser classificada como anátema. Quando Paulo afirmou aos gálatas que um evangelho diferente do que ele pregou seria anátema, o problema era também tirar Cristo do centro. Em vez de entender a salvação pela graça, os gálatas estavam acreditando que a salvação se dava por causa daquilo que eles faziam, da guarda da lei.

A pregação sobre a autoestima, sobre o valor do homem faz o mesmo, mudando o que deve ser mudado, pois nesse caso, não há nem o esforço para o homem fazer algo a fim de ser salvo. Ele é salvo por causa daquilo que é da importância que tem, o que teria movido Deus a salvá-lo. No fim das contas, em ambas as distorções, o homem é o centro.

Tenho dito que o pior livro para aqueles que querem ter uma autoestima elevada e querem se ver como muito importantes é a Escritura. Na Escritura, o valor do homem não é definido por causa de quem ele é, em si mesmo, mas por causa de quem ele representa. Ele foi formado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26-28). Seu valor não é próprio, mas atribuído e é isso que lhe confere dignidade.

O problema é que a Escritura anuncia a queda de Adão (Gn 3) e, como consequência, a queda de toda a humanidade. A partir de então, como afirma Paulo, “tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda a boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.19-20).

Como o dogma da autoestima quer livrar o homem da culpa, ele está em franca oposição com o objetivo da Lei. Logo, da mesma maneira em que a Lei, ao evidenciar a culpa do homem, aponta para Cristo, única solução para a sua vida, o dogma da autoestima afasta o homem de Cristo ou, pelo menos, do verdadeiro Cristo revelado nas Escrituras, ao “aproximá-lo” de um Jesus que tem o homem como centro.

Os discípulos que tinham uma elevada ideia a respeito de si mesmos e que, por isso, se acharam no direito de pedir ao Senhor que no seu reino um se assentasse à sua direita e outro à sua esquerda, ouviram que no Reino de Deus “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mt 20.20-28 cf Mc 10.35-45).

O homem já se ama por demais. O que ele precisa, convencido pela Lei, é confessar o pecado de viver para si mesmo, se render a Cristo e, por meio dele, aprender a amar a Deus e ao próximo, pois “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.40).

O cristão é chamado a negar a si mesmo e seguir a Cristo (Mc 8.34-38). É chamado a considerar os outros superiores a si mesmos (Fp 2.3), a preferir os outros em honra (Rm 12.10), a não pensar de si mesmo mais do que convém (Rm 12.3), pois o verdadeiro amor (a Cristo e ao próximo) não procura seus próprios interesses (1Co 13.5).

Ensinar os homens a amarem a si mesmos é afasta-los da dura realidade de seus pecados e, consequentemente, da Redenção que há somente em Cristo Jesus.

Se o amor próprio ou a estima por si mesmo pudesse ajudar o homem, o Senhor Jesus Cristo não precisaria dar a própria vida a fim de que pecadores pudessem ter vida em abundância ao negarem a si mesmos e viverem para Deus. A suficiência do cristão não está em si mesmo, mas na pessoa bendita do Redentor Jesus Cristo. Ao invés de autoajuda ou autoestima, o cristão deve ter uma alta estima por Jesus. Como afirma Powlison, em um de seus livros, “a alta estima por Jesus dá resultado!”.

Rejeite as ideias seculares que se opõem às Escrituras!


Mais textos sobre este assunto aqui no blog:

Amar a quem?

Na verdade não, você não pode!

02 abril 2019

Tudo é para o seu bem, é o que basta a você saber

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No texto anterior tratei do questionamento errôneo por parte de muitos que, ao sofrer, perguntam o que fizeram para merecer tal aflição. Demonstrei que, biblicamente, o homem já nasce inimigo de Deus, portanto, merecedor apenas de sua ira. Aqueles que não compreendem esta verdade, fatalmente viverão lamentando, independente do tamanho da aflição por que passam, seja grande ou pequena.

Por outro lado, mostrei que a pergunta “o que eu fiz para merecer isso?” vista pela perspectiva da graça de Deus, leva o homem a ser grato a Deus que, por causa de Cristo, não nos dá toda a punição que merecemos, ao mesmo tempo em que, sem nenhum mérito nosso, a não ser os de Cristo aplicados a todo o que nele crê, concede pela graça a vida eterna. Esta é a razão de os sofrimentos aqui, não se compararem à glória a ser revelada em nós.

Entretanto, mesmo aqueles que creem em Deus, seja no Antigo Testamento por meio da fé no Messias que viria, seja no Novo Testamento, por meio da fé no Messias que cumpriu as promessas de sua vinda, por vezes fizeram a mesma pergunta: O que eu fiz para merecer isso?, ainda que não com as mesmas palavras.

Lembre-se, por exemplo, de Jó. Homem descrito pelo próprio Senhor como sendo íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal. No início do livro, após sofrer vários infortúnios, ele continuou louvando a Deus, chegando a afirmar à sua esposa: “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2.10). Entretanto, após esse primeiro momento, ele amaldiçoou o dia do seu nascimento (Jó 3) e chegou a dizer:

“Ah! Se eu soubesse onde o poderia achar! Então, me achegaria ao seu tribunal. Exporia ante ele a minha causa, encheria a minha boca de argumentos. Saberia as palavras que ele me respondesse e entenderia o que me dissesse. Acaso, segundo a grandeza de seu poder, contenderia comigo? Não; antes, me atenderia. Ali, o homem reto pleitearia com ele, e eu me livraria do meu juiz” (Jó 23.3-7).

Você percebe o que está havendo aqui? Jó, arrogantemente, está declarando que se ele se defendesse diante de Deus, este retiraria dele o sofrimento por reconhecer a sua justiça.

Veja um pouco mais. O capítulo 31 é uma amostra da justiça de Jó. Ali ele declara que nunca havia posto os olhos maliciosamente em uma donzela, que não cobiçou, não adulterou, foi justo e caridoso com seus servos, nunca havia negado a Deus nem se alegrado com o mal. Após ele termina dizendo: “Eis aqui a minha defesa assinada! Que o Todo-Poderoso me responda! Que o meu adversário escreva a sua acusação!” (Jó 31.35).

Como afirmei no texto anterior, a pergunta “o que eu fiz para merecer isso?” não é uma boa pergunta a se fazer. Mas é isso, basicamente, o que Jó está fazendo. É preciso enfatizar que a contar pelo testemunho do próprio Deus a respeito dele no início do livro, Jó de fato fazia tudo isso. Ele era justo, íntegro e se desviava do mal.

A questão é que ele achava que estas ações, fruto da graça de Deus sobre ele, eram motivo suficiente para ele não experimentar tamanho sofrimento. O erro, então, era ele confiar em sua própria justiça.

O problema de se perguntar a razão do sofrimento é Deus resolver responder. No capítulo 38 o Senhor aparece a Jó e o responde questionando: “Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento?” (Jó 38.1-2). Deus começa apontando para a soberba (“quem é este?”) daquele que falava sem entendimento e passa, então, a fazer perguntas a Jó a fim de que ele respondesse.

Após uma série de perguntas que apontavam para a criação e para o governo de Deus sobre suas criaturas o Senhor, termina com um ultimato: “Acaso, quem usa de censuras contenderá com o Todo-Poderoso? Quem assim argui a Deus que responda” (Jó 40.2). O que responderia Jó diante de tamanha grandeza? Ele simplesmente não tem o que responder e diz que taparia a boca para não mais falar.

Mas o Senhor ainda não havia terminado de ministrar ao coração de Jó. Ele afirma que Jó o acusava de injustiça e novamente faz mais uma série de perguntas que demonstravam o seu poder e a grandeza, mostrando a Jó que ele sequer conseguiria subjugar suas grandes criaturas, quanto mais contender com o seu Criador.

Jó finalmente entende a questão. Ele declara no capítulo 42 o poder do Senhor: “Bem sei que tudo podes” – e sua total soberania sobre todas as coisas – “e nenhum dos deus planos pode ser frustrado” (v. 2). Ele declara ainda que falou do que não sabia e do que não entendia. Ele conhecia só de ouvir, mas agora via o Senhor. A ideia é que agora, ele mais intimamente entendia que o plano de Deus era perfeito, ainda que Deus não tenha explicado a ele a razão do sofrimento.

Esta última declaração de Jó está em acordo com o propósito das provações, como descrito por Tiago. Elas tem por fim tornar o homem perfeito, íntegro e em nada deficiente (Tg 1.4). O Deus que salva pecadores, sem que eles mereçam, os “predestinou para serem conformes a imagem de seu Filho” (Rm 8.29), daí Paulo estar convicto de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Nossa vantagem em relação a Jó é o ensino do Novo Testamento a respeito das provações que afligiram o nosso irmão. Portanto, consciente do propósito do Senhor de conformar todos os seus filhos adotivos à imagem do Filho Perfeito, o Senhor Jesus Cristo, não ceda à tentação de perguntar “o que eu fiz para merecer isso”, antes, como fez Jó no final do livro, confie naquele que não terá nenhum de seus planos frustrado e que faz coisas maravilhosas, muitas vezes não entendidas por você.

Você não precisa entender os planos que Deus não revelou, mas, pela revelação da Escritura, entender quem é o Deus Bendito que por amor ao seu povo, fez sofrer o seu próprio Filho, verdadeiramente justo, que justificou a Jó e a todo o que nele crê.