13 novembro 2019

Qual é o dia de descanso?

Um assunto controverso no meio cristão é o que diz respeito ao dia de descanso. Para muitos irmãos, o quarto mandamento não tem validade nos dias atuais. Certa vez eu ensinava a respeito desse tema numa congregação que pastoreei e um dos membros chegou a dizer que a defesa do quarto mandamento é coisa de adventista, pois Jesus aboliu a lei.

É claro que Jesus não aboliu Lei. Já vimos que temos a obrigação de guardar a Lei moral, resumida nos dez mandamentos, e o quarto mandamento não é uma exceção. É preciso olhar para ele dentro de uma perspectiva pactual a fim de perceber quais aspectos continuam e quais descontinuam neste mandamento.

“O quarto mandamento é: ‘Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus, não fará nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e , ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Resposta à Pergunta 57 do BCW: Qual é o quarto mandamento?).

Um dos problemas quando pensamos nesse dia é que a palavra shabbat que aparece no mandamento significa literalmente “descanso”, mas ela é traduzida praticamente transliterada. Assim, em vez de termos “lembra-te do dia de descanso”, temos “lembra-te de dia de sábado”, o que faz com que muitos entendam que se for para guardar um dia, precisa ser necessariamente o sétimo, o nosso sábado.

No Antigo Testamento havia vários dias de descanso. Por esta razão, o Catecismo ensina que “o quarto mandamento exige que consagremos a Deus os tempos determinados em sua Palavra, particularmente um dia inteiro em cada sete, para ser um dia de santo descanso dedicado a ele” (Resposta à Pergunta 58 do BCW: O que o quarto mandamento exige?).

O que vemos no quarto mandamento é que o Senhor, além de prescrever como deve ser o culto, também prescreveu a seu povo o dia em que esse culto se daria. Ainda que em todos os dias devamos fazer todas as coisas para a glória de Deus, há um dia especialmente ordenado para o ajuntamento do povo a fim de adorar o seu Santo Nome. Aqueles que advogam que não é necessário um dia exclusivamente para Deus, por todos os dias serem dele, lançam por terra o ensino e a esperança do descanso final, para o qual aponta o mandamento.

“Desde o princípio do mundo, até à ressurreição de Cristo, Deus designou o sétimo dia da semana para o descanso semanal; e desde então, prevaleceu o primeiro dia da semana para continuar sempre até o fim do mundo, que é o sábado cristão, ou Domingo (o dia do Senhor)” (Resposta à Pergunta 59 do BCW: Qual dos sete dias Deus designou para esse descanso semanal?). No Antigo Testamento o descanso era no mesmo dia em que o Senhor descansou de sua obra de criação, no Novo Testamento, o descanso passa a ser no dia em que o Senhor Jesus Cristo descansou de sua obra redentiva, ressuscitando dentre os mortos.

Com a ressurreição do Senhor no primeiro dia da semana, vemos em Atos dos Apóstolos que a Igreja passa a guardar o domingo (sábado cristão), dia em que o Senhor Jesus descansou de sua obra (At 20.7; 1Co 16.1,2) e que é chamado na Escritura de dia do Senhor (Ap 1.10). A seita Adventista do Sétimo dia acusa os cristãos de ter mudado o dia de adoração do sábado para o domingo por causa do imperador Constantino, contudo, podemos ver que o Antigo Testamento já apontava para este dia.

Em Levítico 23.9-14 há o estabelecimento da festa das primícias. O povo deveria oferecer a Deus um molho das primícias da colheita ao Senhor e o sacerdote moveria a oferta no dia imediato ao sábado (23.12), ou seja, no primeiro dia da semana. Paulo associa a ressurreição de Cristo no primeiro dia da semana à festa das primícias, quando fala do Senhor como sendo “as primícias dos que dormem” (1Co 15.20). Do mesmo modo que a festa das primícias anunciava a boa colheita que viria, a ressurreição de Cristo aponta para a ressurreição daqueles que foram redimidos por ele.

Além disso, quando o Senhor cumpriu a promessa de enviar o “outro Consolador”, a saber, o seu Espírito Santo, o fez no dia de Pentecostes, que era realizado cinquenta dias após a Páscoa. Em um Domingo, então, a Igreja foi revestida de poder para ser testemunha do Senhor em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra (At 1.8; 2.1-4). Portanto, o Antigo Testamento já apontava para o sábado cristão, dia em que a Igreja do Senhor se reúne a fim de prestar culto e honrar aquele que a redimiu. Deve ser o dia mais esperado da semana, dia de serviço a Deus e júbilo diante dele.

Joseph Pipa, em seu excelente livro O dia do Senhor demonstra claramente no capítulo sete que o dia foi mudado, mas a obrigação de sua guarda não. É em razão disso que os crentes precisam estimar este dia, em que o Senhor promete bênçãos a seu povo, quando diz: “Se desviares os pés de profanar o sábado [descanso] e de cuidar dos seus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então te deleitarás no Senhor. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do Senhor o disse (Is 58.13-14).

O dia de descanso, principalmente após a queda, apontava para a vinda do Messias. Agora que Cristo já veio, ele continua sendo um dia em que recordamos e celebramos a sua obra em favor do seu povo, enquanto aguardamos sua segunda vinda. É um dia, então, em que vislumbramos aquele descanso final que teremos por ocasião do retorno do Salvador.

Deleite-se nesse dia!

06 novembro 2019

Deus zela pelo seu nome

O nome de Deus é grafado em hebraico com quatro consoantes: YHWH. Ele é pronunciado por muitos como Yahwéh e traduzido como Javé ou Jeová. A verdade é que ninguém sabe ao certo qual seria a pronúncia do nome em hebraico, pois ela se perdeu com o tempo. Isso ocorreu pelo fato de os judeus não proferirem o nome de Deus, com medo de quebrar o terceiro mandamento. “O terceiro mandamento é: ‘Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão’” (Resposta à Pergunta 53 do BCW: Qual é o terceiro mandamento?).

É claro que o mandamento não proíbe o simples pronunciar do nome de Deus, como entenderam de forma legalista os judeus. Fosse isso proibido não teríamos tantas vezes o nome de Deus grafado em vários livros do Antigo Testamento e presente em vários salmos que eram cantados pelo povo de Deus. Por outro lado, o que vemos em nossos dias é uma atitude diametralmente oposta. Não é difícil ouvir piadas com o nome de Deus e imagens supostamente humorísticas que usam o seu nome de forma leviana.

“O terceiro mandamento exige o uso santo e reverente dos nomes, títulos, atributos, ordenanças, palavras e obras de Deus” (Resposta à Pergunta 54 do BCW: O que o terceiro mandamento exige?). Apesar de o mandamento estar na forma negativa, ou seja, dizendo o que não se deve fazer, a sua exigência está implícita, pois não basta não usar o nome de Deus em vão, é preciso honrá-lo com nossos atos e palavras.

Quando o Senhor Jesus ensinou seus discípulos a orar, a primeira petição que ensinou foi: “santificado seja o teu nome” (Mt 6.9). Precisamos desejar e rogar ao Senhor que nos ajude nesta tarefa. Você honra o nome do Senhor ao viver de modo digno do evangelho. Se aqueles que o rodeiam e sabem que você é cristão não percebem coerência entre o que você fala e a forma como você vive, o nome de Deus será desonrado. Paulo acusou os judeus de fazerem exatamente isso. Depois de demonstrar a incoerência de seu viver, afirmou: “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão de lei? Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa” (Rm 2.23-24).

Somos cristãos, levamos o nome do nosso Senhor conosco e precisamos honrá-lo. No Salmo 15 Davi afirma que uma das características daquele que irá morar com o Senhor no seu santo monte é jurar com dano próprio e não se retratar, isto é, é manter a palavra que foi empenhada ainda que levando prejuízo, pois todo aquele que empenha a palavra o faz em nome do Senhor. Por esta razão Jesus ensinou que os juramentos precisam ser sempre cumpridos ao dizer, “seja, o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno” (Mt 5.37 – NVI). Qualquer quebra de juramente é uma mentira, cujo pai é o diabo (Jo 8.44).

Além de exigir honra ao nome do Senhor “o terceiro mandamento proíbe toda profanação ou abuso de quaisquer coisas por meio das quais Deus se faz conhecer” (Resposta à Pergunta 55 do BCW: O que o terceiro mandamento proíbe?). Esse ponto é claro no mandamento. A palavra que é traduzida em nossa Bíblia por “vão” pode ser entendida como “falsidade” ou ainda “vaidade”. O que está sendo proibido, portanto, é que o nome do Senhor não seja tomado de forma abusada.

Uma das formas de usar o nome santo de Deus de forma abusada já foi dita, a saber, jurando-se falsamente. Mas há outras formas de profanar o nome de Deus. Quando ele é usado de forma mística ou debochada, como em muitos chavões evangélicos ou quando é usado em piadas, muitas vezes na boca dos próprios cristãos.

A resposta do Catecismo Maior, que amplia a do Breve Catecismo, aponta como quebra do mandamento “qualquer perversão da Palavra ou de qualquer parte dela” e “a defesa de doutrinas falsas” (Pergunta 113 do CMW). Aqui temos, pelo menos, dois problemas sérios. Um está relacionado com os falsos mestres, que torcem a Palavra de Deus. Muitas vezes, cristãos sérios têm deixado de condenar os falsos ensinos, sob a desculpa de tolerância. Quando Paulo tomou conhecimento daqueles que pervertiam a fé dos cristãos em Creta escreveu a Tito dizendo que era preciso fazer calar esses falsos mestres.

Vemos esse problema de forma clara naqueles que fazem promessas em nome de Deus, afirmando que os crentes não terão mais problemas financeiros ou de saúde, mediante o cumprimento de campanhas e afins.

O outro problema diz respeito à interpretação errada das Escrituras. Nesse sentido, aqueles que fazem parte de uma igreja confessional, como é o caso da Igreja Presbiteriana do Brasil, estão mais resguardados, pois a Confissão de Fé e os Catecismos que subscrevemos como correta interpretação da Bíblia servem de baliza para o entendimento doutrinário. Entretanto, é triste constatar que não são poucos os que cometem perjúrio, que já vimos também ser quebra do terceiro mandamento, e ensinam de forma contrária ao que cremos, pervertendo a fé da igreja.

É preciso levar tudo isso muito a sério. Como ensina o Breve Catecismo, “a razão anexa ao terceiro mandamento é que, embora os transgressores desse mandamento escapem do castigo dos homens, o Senhor nosso Deus não os deixará escapar do seu justo juízo” (Resposta à Pergunta 56 do BCW: Qual é a razão anexa ao terceiro mandamento?). Ele zela pelo seu nome. Ao povo de Israel ele disse: “Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não dou a outrem” (Is 48.11).

Como parte do povo que se chama pelo nome de Deus (2Cr 7.14; Dn 9.19), você deve viver honrando o Senhor Jesus Cristo, a quem Deus “o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11).

30 outubro 2019

Você precisa ver para crer?

“O segundo mandamento é: ‘Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo da terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Resposta à Pergunta 49 do BCW: Qual é o segundo mandamento?”).

Se o primeiro mandamento estabelece o objeto de culto, isto é, quem deve ser adorado, o segundo trata da maneira como Deus deve ser adorado. Não sei mencionar quantas vezes ouvi a mesma ladainha: “Deus não se importa com a maneira, mas com a sinceridade do coração”. Não era assim que entendiam os nossos pais puritanos. Nas respostas às perguntas 50 e 51 do Breve Catecismo temos: “O segundo mandamento exige que recebamos, observemos e guardemos puros e intactos o culto e as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra” (Resposta à Pergunta 50 do BCW: O que o segundo mandamento exige?) e “o segundo mandamento proíbe adorar a Deus por meio de imagens, ou de qualquer outra maneiras não prescrita em sua Palavra” (Resposta à Pergunta 51 do BCW: O que o segundo mandamento proíbe?).

A ideia aqui é rejeitar qualquer coisa que não esteja prescrita nas Escrituras para a adoração a Deus. É ele e somente ele que estabelece o culto. Temos exemplos claros na Escritura de que as coisas são assim. Quando o Senhor veio em socorro de nossos primeiros pais no Éden, após o pecado, rejeitou a “roupa” de folhas que eles fizeram e providenciou novas vestimentas. Para isso, o sangue de uma animal foi derramado e a mensagem aqui está explícita: o pecado leva à morte.

Quando Caim e Abel se apresentaram diante do Senhor, um trouxe do fruto da terra, enquanto outro trouxe das primícias do seu rebanho. Deus rejeitou o culto de Caim e aceitou o de Abel. A razão: “Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gn 3.4,5). Deus julgou tanto a intenção quanto a forma. Nesse ponto, talvez alguém questione (esse já foi também meu questionamento) que eles não sabiam como deveriam adorar, entretanto, creio que o princípio estabelecido na Confissão de Fé de Westminster pode nos ajudar a pensar: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.VI).

Jeremiah Burroughs demonstra este princípio de forma magistral ao apontar que apesar de não haver nenhuma proibição de se oferecer fogo estranho ao Senhor, Nadabe e Abiú foram mortos porque fizeram isso. Ele diz que “Deus queria que eles percebessem a sua intenção. No final do capítulo 9 [de Levítico], Deus mandou fogo do céu e lhes ordenou que conservassem constantemente esse fogo no altar para que nunca se apagasse. Parece que Deus queria que eles percebessem a sua intenção, [...] embora Deus jamais tenha lhes dito diretamente nestas palavras: ‘Deveis usar unicamente este fogo e nenhum outro’, ele queria que eles tivessem entendido a sua vontade. Por essa razão, o pecado deles consistiu em oferecer fogo estranho”[1]. Temos ainda os exemplos de Saul (1Sm 15) e Uzias (2Cr 16) reprovados por Deus ao fazer o que não lhes era ordenado.

Terry Johnson afirma que o princípio de fazer somente o que Deus ordenou ficou conhecido como “princípio regulador”. O princípio católico romano, luterano e anglicano é que existem normas, mas se alguma coisa não é expressamente proibida, pode ser feita. “A prática reformada é mais rigorosa. Ela afirma que tudo aquilo que não for ordenado pela Escritura (ou por mandamento, exemplo, ou ainda dedução de princípios abrangentes) é proibido”[2].

O segundo mandamento, então, se ocupa do culto ao Senhor. “As razões anexas ao segundo mandamento são a soberania de Deus sobre nós, o seu direito de propriedade sobre nós e o zelo que ele tem pelo seu culto” (Resposta à Pergunta 52 do BCW: Quais são as razões anexas ao segundo mandamento?). Mas não é só isso, vimos que é exigido que guardemos puros o culto e as ordenanças religiosas.

Não são poucos os que não veem problemas em fazer representações de Jesus ou das pessoas da Trindade. A proibição é de se fazer para adorar, dizem eles. A despeito disso, temos no Catecismo Maior a resposta ampliada que trata do segundo mandamento e podemos ler que é pecado “fazer qualquer imagem de Deus, de todas ou de qualquer das três Pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente, em qualquer forma de imagem e semelhança de alguma criatura” (Pergunta 109).

Em Deuteronômio Moisés lembrou ao povo que por ocasião de terem recebido os mandamentos o Senhor vos falou [com o povo] do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma [...] Guardai, pois, cuidadosamente a vossa alma, pois aparência nenhuma vistes no dia em que o Senhor, vosso Deus, vos falou em Horebe, no meio do fogo; para que não vos corrompais e vos façais alguma imagem esculpida na forma de ídolo...” (Dt 4.12-16). O texto é claro. Deus não se mostrou de forma aparente para que o povo não inventasse de tentar reproduzir em imagens que porventura tivessem visto.

E quanto a Jesus?, pode alguém perguntar, ele não tinha aparência? Os homens não o viram? Sim Jesus tinha um corpo e foi visto. João afirma que eles viram “a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Paulo afirma que ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). Ainda assim, ninguém nunca retratou o Senhor. Isso, por si só, deveria chamar a atenção. A segunda Confissão Helvética estabelece que “embora Cristo tenha assumido a natureza humana, não a assumiu para fornecer modelo a escultores e pintores. Afirmou que não veio ‘revogar a lei ou os profetas’ (Mt 5.17). E as imagens são proibidas pela lei e pelos profetas (Dt 4.15; Is 44.9)”.

Aqueles que fazem ilustrações de Jesus cairão em um de dois erros: Ou farão uma imagem de Deus, o que é proibido, ou dirão que ali está representado somente o homem Jesus, incorrendo em heresia ao separar a natureza divina da natureza humana de nosso Salvador.

Quando Filipe pediu a Jesus para que lhes mostrasse o Pai, ouviu do Mestre: “Há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Um dia, todos os crentes terão o mesmo privilégio. Verão o Pai por meio do Filho, na glória eterna. Até lá, cabe a nós a mesma palavra que Jesus disse a Tomé: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29).


[1] Jeremiah Burroughs. Adoração evangélica. P. 13,14

[2] Terry L. Johnson. Adoração reformada. P.31,32

22 outubro 2019

Cuidado com a idolatria

Você já deve ter ouvido uma ou várias vezes alguém afirmar: “o importante é ter fé, não importa em que”, ou “o importante é ter uma religião, seja qual for”. Este pensamento é muito frequente, principalmente em nossos dias, onde a máxima pós-moderna de que não há verdade ou absolutos é a tônica de muitas conversas.

Lembro-me que em minha adolescência, quando deixei de frequentar a igreja romana, sempre ouvia a minha mãe repetir: “Junior, você precisa de uma igreja, você precisa de um caminho”, ainda que ela mesma não frequentasse nenhuma. Mas isso era só um detalhe, é importante ter uma fé. Será mesmo que o importante é ter fé, ou uma religião, independente de qual seja ou daquilo que se creia?

“O primeiro mandamento é: ‘Não terás outros deuses diante de mim’” (Resposta à Pergunta 45 do BCW: Qual é o primeiro mandamento?”. É importante lembrar o contexto. O povo recém libertado do Egito, onde a adoração à vários deuses era a regra, está sendo conduzido pelo Senhor para a terra da promessa. No deserto Deus está tratando o seu povo e mudando a sua visão de mundo ao revelar-se como o Criador, ao proclamar as suas obras e declarar o seu caráter, por meio de Moisés.

O mandamento é claro! Só há um Deus verdadeiro. Você percebe isso na expressão “Não terás outros deuses”. O ensino aqui não tem por objetivo que o povo escolha um entre várias opções de deuses, mas enfatizar a existência de que há somente um Deus verdadeiro. “O primeiro mandamento exige de nós conhecer e reconhecer a Deus como único Deus verdadeiro e nosso Deus, e como tal adorá-lo” (Resposta à Pergunta 46 do BCW: O que o primeiro mandamento exige?).

A verdade de que só existe um Deus vivo e verdadeiro deixa clara a loucura da idolatria e a inutilidade daqueles que os homens estabelecem como deuses em seu coração. O povo de Israel, que agora recebia a Lei do Senhor, tinha bem vivo em sua mente o confronto entre YAHWEH e os falsos deuses do Egito, por ocasião das dez pragas. “As pragas caem sobre áreas da vida social supostamente protegidas por deuses do Egito, demonstrando assim o poder do Senhor em relação aos deuses do país mais poderoso do mundo” (Nota da Bíblia de Estudo NAA). Entretanto, mesmo diante de toda esta verdade, não foram poucas as vezes que o povo de Deus incorreu em idolatria, durante a sua história, quebrando o mandamento.

É preciso muito cuidado a fim de não incorrermos neste pecado, mas muitos cristãos acham que estão livres da idolatria por considerarem como idolatria somente as imagens de escultura. Entretanto, como todo o pecado, a idolatria começa no coração. A representação iconográfica de algum falso deus é apenas a expressão daquilo que já ocorreu anteriormente no coração. Calvino, acertadamente, afirma que “é lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos”[1]. Por conta disso Deus condena no livro do profeta Ezequiel aqueles que levantam ídolos em seus corações.

Sempre que você buscar em coisas, pessoas ou até mesmo em si mesmo, aquilo que só pode ser encontrado plenamente no Senhor estará incorrendo em idolatria. A idolatria é tão enganosa que muitas vezes nos enganamos. Quando conhecemos alguém que não contribui financeiramente com a igreja, por exemplo, pensamos rapidamente que se trata de um sovina, alguém que ama demais o dinheiro. Por outro lado, quando conhecemos um dizimista fiel e pontual em sua oferta tendemos a achar que ali está um irmão fiel, que ama a Cristo. Entretanto, ambos podem estar amando o dinheiro de forma distinta. O primeiro ama tanto que não se importa com a ordenança bíblica para as contribuições, já o segundo, ama tanto o dinheiro que tem medo que Deus o amaldiçoe tirando os outros noventa por cento que ele acha que são dele, sendo esta a única razão de ser dizimista.

A religião cristã é de caráter exclusivista! Só há um Deus verdadeiro e, como afirma João, “sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” – daí o apóstolo concluir exortando – “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5.20). Valho-me do que escreveu Calvino, comentando o livro de Efésios, “do que ficou dito até aqui, a conclusão será facilmente formulada, ou seja: que fora de Cristo nada existe senão ídolos”[2].

“O primeiro mandamento proíbe negar, deixar de adorar ou glorificar ao verdadeiro Deus, como Deus, e nosso Deus, e dar a qualquer outro a adoração e a glória que só a ele são devidas” (Resposta à Pergunta 47 do BCW: O que o primeiro mandamento proíbe?”. Deus requer do homem exclusividade em seu coração. Por causa da libertação efetuada por Deus ao povo o Senhor não dividiria o seu louvor com quem quer que fosse. “As palavras ‘diante de mim’, no primeiro mandamento, nos ensinam que Deus, que vê todas as coisas, toma conhecimento e muito se ofende do pecado de ter-se em seu lugar outro deus” (Resposta à Pergunta 48 do BCW:O que nos é ensinado, especialmente, pelas palavras ‘diante de mim’, no primeiro mandamento?).

O mandamento chama a atenção para o fato de que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36). Da mesma forma que o Senhor libertou a Israel do cativeiro e ordenou que o povo só tivesse olhos para ele, você é chamado a olhar exclusivamente para Jesus Cristo, autor e consumador da sua fé, que o libertou do império das trevas a fim de que você viva exclusivamente para ele.


[1] João Calvino. Institutas, Livro I (Ed. Clássica), p. 107

[2] João Calvino. Efésios, p. 68

15 outubro 2019

O dever de guardar os mandamentos

Há duas atitudes opostas, mas igualmente terríveis, que muitos tomam em relação à Lei de Deus. A primeira é chamada de legalismo. Legalismo é a tentativa de justificar-se mediante o cumprimento da lei. Como após a queda o homem se tornou incapaz de cumprir a lei de forma perfeita, ele acaba, muitas vezes, por rebaixar o padrão da lei a fim de conseguir cumpri-la.

Temos um exemplo disso no sermão do monte. Alguns pensam, erroneamente, que Jesus estava ali aumentando as exigências da Lei, por causa das expressões “ouvistes que foi dito aos antigos...” e “eu, porém, vos digo...” repetidas algumas vezes pelo Senhor. Jesus não estava aumentando as exigências da Lei, antes estava corrigindo o ensino errado dos fariseus que a rebaixaram.

Um exemplo claro é o sexto mandamento. Para os fariseus, somente aquele que tirasse a vida de alguém é que quebrava o mandamento. É por isso que na ocasião em que Pilatos quis entregar Jesus aos judeus, para que ele fosse julgado segundo as suas leis, ouviu: “A nós não nos é lícito matar ninguém” (Jo 18.31). Perceba a hipocrisia aqui! Para eles, entregar alguém para ser morto não era o mesmo que matar. Diferente disso, Jesus afirmou no sermão do monte que aquele que se irasse sem motivo contra alguém já teria cometido assassinato. Jesus considera também a intenção do coração e não somente a atitude.

Mas não pense que há novidade aqui. Basta lembrar que Davi, quando foi repreendido pelo Senhor por meio do profeta Natã, ouviu a seguinte acusação: A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom (2Sm 12.8). De acordo com a intepretação dos fariseus do Novo Testamento, Davi não teria culpa, visto que quem matou Urias foram os amonitas. Entretanto, diante do Senhor, a entrega com intenção de que outro o matasse já foi considerada a quebra do sexto mandamento. O rebaixamento das exigências da Lei pelos fariseus, a fim de conseguir guarda-la e serem salvos, foi um pecado contra Deus.

A outra atitude é o antinomismo. Literalmente antinomismo quer dizer “contra a lei”. A atitude antinomista pode ser percebida, por exemplo, naqueles que afirmam que antigamente estávamos debaixo da Lei, mas agora estamos debaixo da graça. Estes entendem que a Lei não tem nenhuma validade para a igreja, pois Jesus a aboliu. Curiosamente, os antinomistas vão afirmar que a Lei que vale hoje é a lei do amor. Isso é uma tremenda ironia, pois já vimos que o Senhor Jesus, ao responder qual seria o maior dos mandamentos, afirmou que era amar a Deus e ao próximo, dizendo ainda que “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.38). A ironia se dá, então, quando em nome do que denominam de lei do amor, os antinomistas rejeitam a Lei moral, resumida por Jesus como sendo uma lei do amor a Deus e ao próximo.

Estas duas atitudes estão erradas! A fim de viver de modo agradável diante do Senhor, o homem não pode fazer o que ele entende que seja o amor. Lembro-me que certa vez, numa escola dominical em que o professor falava sobre a disciplina, ouvi uma senhora que visitava a nossa igreja afirmar que em sua igreja não existia disciplina, pois em uma igreja que existe disciplina, falta amor. É esse tipo de conclusão que haverá toda vez que os cristãos deixarem a objetividade da Lei para seguir os seus próprios conceitos.

Somos chamados a obedecer ao Senhor e aos seus mandamentos, não para ser salvos, como já vimos, mas para horar aquele que nos salvou. Se você observar o texto do capítulo 20 de Êxodo perceberá que “o prefácio dos dez mandamentos é: ‘Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão’” (Resposta à Pergunta 43 do BCW: Qual é o prefácio dos dez mandamentos?).

Após libertar o povo da escravidão do Egito, o Senhor entrega a ele a sua lei moral, resumida em dez mandamentos, por intermédio de Moisés. Ele relembra ao povo quem ele era, o Senhor. A palavra Senhor, grafada em maiúsculas em nossas Bíblias, é a tradução do tetragrama hebraico YHWH, outras vezes traduzido por Javé ou Jeová. Este foi o nome com que Deus se apresentou a Moisés, afirmando que era aquele que existe desde o início. Este Deus soberano e criador é que se dirigia ao povo. Suas palavras, que são uma espécie de prefácio à lei, apontam para o fato de que para haver obediência, deve haver antes libertação. É como se Deus estivesse dizendo: Eu tirei vocês da escravidão do Egito, agora vivam em obediência”.

Portanto, “o prefácio dos dez mandamentos ensina-nos que nós temos a obrigação de guardar todos os mandamentos de Deus, por ser ele o Senhor nosso Deus e nosso Redentor” (Resposta à Pergunta 44 do BCW: O que nos ensina o prefácio dos dez mandamentos?). É claro que sempre haverá aqueles que dirão que isso é Antigo Testamento e que vivemos no período do Novo Testamento, por isso é importante atentar ao que temos nos escritos de Paulo.

Paulo escreve aos gálatas combatendo a ideia legalista da salvação pela lei. Ele afirma “que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, [...] pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (Gl 2.16). Quando Paulo diz no capítulo 5 que “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” e que em razão disso os gálatas não deveriam mais sujeitar-se à “escravidão” da lei, é no sentido de que a salvação não era por meio dela. Entretanto, ele faz questão de dizer que a liberdade conquistada por Cristo era limitada pelo amor a Deus e ao próximo, ou seja, a lei era o parâmetro para viver a liberdade. Daí ele ter dito que “toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14).

Mas porquê Paulo fala que a lei se cumpre em amar ao próximo? Amar ao próximo está acima do amor à Deus? O apóstolo João nos ajuda a entender isso ao escrever que se alguém diz amar a Deus, mas odeia o irmão é mentiroso, “pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20).

Como cristão, é seu dever guardar os mandamentos. O seu Senhor, Jesus Cristo, que o libertou da escravidão do pecado, ordena que você ame a Deus e ao próximo. O amor ao próximo é a evidência de que você ama a Deus, pois este amor fraternal só é possível por meio de Jesus Cristo, o libertador. Viva em obediência, para a glória dele!

08 outubro 2019

A regra de obediência

Tenho um filho de 5 anos de idade. Em uma de minhas conversas com ele após uma desobediência, a fim de ensinar que ele não pode fazer o que bem entende, expliquei que todos nós estamos debaixo de algum tipo de autoridade e que precisamos obedecer. Em um dos exemplos que dei disse que quando ele trabalhar terá um chefe e que não poderá fazer as coisas do jeito dele, sob o risco de ser mandado embora. Passam uns dois dias e ele pergunta para a mãe: “Quando eu trabalhar eu tenho de ter um chefe?”, sim, respondeu ela, e perguntou a razão do questionamento dele. A resposta foi ligeira: “Eu quero ser o chefe!”.

A questão do meu garotinho serve para mostrar o que é o anseio natural do homem após a queda, não querer obedecer a ninguém. Entretanto, a despeito de sua tentativa de autonomia, o homem foi criado para ser um servo e, como tal, deve satisfação ao seu Senhor.

“O dever que Deus exige do homem é obediência à sua vontade revelada” (Resposta à Pergunta 39 do BCW: O que Deus exige do homem?), ensina a pergunta 39 do Breve Catecismo. Perceba duas lições importantes aqui. A primeira é que Deus revelou a sua vontade ao homem. Isso é visto já no primeiro livro da Bíblia. Adão é formado e Deus revela qual a sua vontade para ele. Ele deveria encher a terra e dominar sobre ela. Além disso, ele não poderia tomar da árvore do conhecimento do bem e do mal, a única que foi vedada por Deus. Para isso, Deus deu a ele uma auxiliadora idônea. A segunda é que a obediência foi requerida. Caso desobedecesse, o homem experimentaria a morte.

Uma das questões que me chamam mais atenção na narrativa da queda é o fato de a serpente ter se dirigido primeiramente à mulher. Perceba algo aqui. Adão devia obediência a Deus, mas a mulher, além de obedecer a Deus, deveria obedecer àquele de quem era ela uma auxiliadora, seu marido Adão. É para ela que Satanás sugere que não era preciso obedecer a ninguém, nem a Adão, tampouco ao Senhor, pois se tomasse do fruto proibido, todos seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal. Logo, não haveria necessidade de alguém para apontar o que é bem ou o que é mal. O desejo por autonomia leva homem e mulher à ruína.

Há quem pense que a Lei foi dada ao homem somente no Sinai. Entretanto, temos no Breve Catecismo a pergunta: “O que revelou Deus primeiramente ao homem para regra de sua obediência?”, seguida da resposta que diz: “A regra que Deus revelou primeiramente ao homem para sua obediência foi a lei moral” (Pergunta 40 do BCW). Este ensino refere-se ao que temos na epístola aos Romanos. Em Romanos Paulo demonstra que tanto judeus quanto gentios estão sob a condenação de Deus. Os gentios porque Deus se revelou na criação, o que os torna indesculpáveis. Os judeus porque tinham a revelação especial da Palavra de Deus. Entretanto, ainda que os gentios não tivessem acesso à revelação especial, Paulo afirma que por vezes eles agem, “por natureza”, de acordo com a lei e afirma que “estes mostram a norma da lei gravada no seu coração” (Rm 2.15).

Mas o que é essa lei moral, gravada no coração? “A lei moral está resumidamente compreendida nos Dez mandamentos” (Resposta à Pergunta 41 do BCW: Onde a lei moral está resumidamente compreendida?”). Neste ponto, alguém poderia dizer: “Está vendo? Isso mostra que a lei foi dada somente no Sinai. Foi lá que Deus deu os Dez mandamentos à Moisés!”, mas pense um pouco mais comigo. Quando Paulo escreveu aos efésios ensinou que eles deveriam andar em santidade. Esta santidade consistia em abandonar padrões antigos e assumir novos padrões, daí ele dizer que os que roubavam, quebrando o oitavo mandamento, deveriam agora trabalhar fazendo com as próprias mãos para acudir ao necessitado (Ef 4.28).

Isso demonstra que o padrão de santidade de Deus exige trabalho e doação em vez de roubo. Ora, não foi isto que Deus revelou a Adão no Éden? Adão deveria trabalhar. A lei moral foi dada no Éden de forma positiva. O padrão normativo estabelecido por Deus está na criação. Como exemplo, o homem deveria deixar pai e mãe e casar-se com a sua esposa (sétimo mandamento), deveria trabalhar (oitavo mandamento) e deveria dar ouvidos à verdade da Palavra (nono mandamento), sendo pecado a desobediência a este padrão. Por isso, após a queda, Deus dá a lei em forma de tábuas no Sinai, para que o homem viva de acordo com o padrão original, por isso não pode adulterar, nem roubar, tampouco dar falso testemunho, visto de forma positiva nos exemplos citados. A forma como Deus dá o quarto mandamento também aponta para a lei na criação. Repare que ele inicia com “lembra-te do dia de descanso” (Ex 20.8), demonstrando o padrão estabelecido na criação (Gn 2.3). O Pacto de obras consistia na obediência à esta lei, para justificação ou condenação[1].

Mas pense um pouco mais. “Os dez mandamentos se resumem em amar ao Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças e de todo o nosso entendimento; e ao nosso próximo como a nós mesmos” (Resposta à Pergunta 42 do BCW: Em que se resumem os Dez mandamentos?). Esta resposta à pergunta 42 do BCW, é exatamente a resposta de Jesus aos fariseus que o interrogaram acerca do mandamento mais importante. Jesus resume desta forma, pois os quatro primeiros mandamentos versam sobre o amor a Deus e os seis últimos tratam do amor ao próximo.

Se você acha que aqueles que advogam que a Lei foi dada somente no Sinai estão certos, talvez se surpreenda com o fato de José, que resistiu à tentação da esposa de Potifar, ter dado como razão para a sua atitude exatamente o resumo da Lei, ao dizer: “Ele [Potifar] não é maior do que eu nesta casa e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como, pois, cometeria eu tamanha maldade [quebrando o sétimo mandamento e não amando o próximo] e pecaria contra Deus [não amando o Senhor] (Gn 39.9). José resistiu à tentação por amar a Deus e a Potifar.

A regra de obediência, dada por Deus a Adão e à sua posteridade como um pacto de obras foi a sua Lei Moral, reflexo de seu caráter santo. É por isso que Paulo pode afirmar que “a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom” (Rm 7.12). É claro que após o pecado o homem não consegue cumprir perfeitamente esta lei, contudo, o Catecismo Maior ensina que a lei moral continua útil a todos os homens após a queda, a fim de instruí-los acerca de Deus, seu caráter e sua vontade. Além disso, ela é útil aos não regenerados para que tenham consciência de sua imperfeição e busquem a Cristo. Por fim, ela é útil aos regenerados a fim de lhes mostrar o quanto devem a Cristo e buscarem viver em acordo com ela, não para serem salvos, mas para glorificar aquele que os salvou, Jesus Cristo, que cumpriu cabalmente toda a Lei (Mt 5.17).

Diante de tudo isso, como Davi, você precisa estimar a Lei do Senhor e considera-la mais desejável que o ouro e mais doce que o mel e o destilar dos favos.


[1] Ver Confissão de Fé de Westminster, XIX.I,V,VI

01 outubro 2019

Na vida, na morte e eternamente

No meu primeiro ano de convertido ao Senhor eu escutava sempre uns amigos que repetiam constantemente o comecinho de uma música: “É bênção, sobre bênção, vivendo cada dia no Senhor”. É isto que temos, literalmente, nas perguntas 36 a 38 do Breve Catecismo. A pergunta 32 já havia estabelecido que os que são chamados eficazmente gozam nesta vida de três bênçãos, a justificação, a adoção e a santificação.

Agora temos três perguntas que tratam das bênçãos que acompanham estas bênçãos já citadas. A primeira delas ensina que “as bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, a adoção e a santificação, ou delas procedem, são: certeza do amor de Deus, paz de consciência, gozo no Espírito Santo, aumento de graça e perseverança nela até o fim” (Resposta à “Pergunta 36 – Quais são as bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, a adoção e a santificação, ou delas procedem?).

Isto é maravilhoso! Tem já nesta vida a certeza do amor de Deus. Ao crer naquilo que o Senhor Jesus fez na cruz do Calvário, temos uma demonstração maravilhosa deste amor. Paulo afirma que “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). O amor de Deus não é mera declaração. Declarar o amor é fácil, se você percorrer as delegacias notará a quantidade de denúncias de mulheres que foram espancadas pelos companheiros que diziam amá-las. Deus não somente declara o amor, mas prova que ama. O apóstolo João, num dos textos mais conhecidos pelos cristãos, declara esse amor dizendo que “Deus amou o mundo” – e demonstra como ele fez isso, ao continuar – “de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

É esse entendimento que levará você a experimentar paz de consciência. Saber que a sua dívida para com Deus já está paga, de uma vez por todas, pelo seu Redentor, levando você a se alegrar a despeito das circunstâncias adversas que possa enfrentar em sua vida. Levará você também a crescer em graça diante do Senhor, com a firme certeza que tinha Paulo “de que aquele que começou boa obra em vós há de completa-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Mas as bênçãos não são somente para viver. “A alma dos fiéis, na hora da morte, é aperfeiçoada em santidade, e imediatamente entra na glória; e o corpo, que continua unido a Cristo, descansa na sepultura até a ressurreição”. Ao ser justificado, adotado e santificado, o cristão aprende e cresce a cada dia mais no conhecimento da Palavra e como disse o puritano John Flavel, “As Escrituras ensinam-nos a melhor maneira de viver, a mais nobre forma de sofrer e o modo mais confortável de morrer”[1].

Você consegue perceber esta verdade bíblica claramente quando Paulo escreve aos filipenses e afirma que para ele “o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21) e que “partir e estar com Cristo [...] é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). O apóstolo estava bastante convicto que, para o crente, a morte não é o final. Como afirmou de forma maravilhosa outro puritano, Thomas Brooks, “a morte é outro Moisés: livra os crentes da escravidão e de fazer tijolos no Egito. É um dia ou um ano de jubileu para um espírito gracioso – o ano em que ele sai livre de todos os feitores cruéis que tinham há muito o feito gemer”[2].

Entretanto, a mesma convicção de Paulo e dos puritanos citados não está presente na vida de muitos cristãos. Estes, ao pensar na morte, a veem como um problema, como algo que os tirará a oportunidade de gozar das alegrias desta vida. Cristãos assim precisam estar convictos a respeito da verdade da ressurreição. Quando escreveu aos coríntios corrigindo os ensinos errados daqueles que afirmavam que não haveria ressurreição Paulo afirmou que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). Os crentes precisam estar bem convictos de que o melhor que puderem experimentar nesta vida não se compara ao que teremos no porvir.

Na morte, o corpo dos crentes “descansa na sepultura até a ressurreição” e “na ressurreição, os fiéis, sendo ressuscitados em glória, serão publicamente reconhecidos e absolvidos no dia do juízo, e tornados perfeitamente felizes no pleno gozo de Deus por toda a eternidade” (Resposta à “Pergunta 38: Quais são as bênçãos que os crentes recebem de Cristo na ressurreição?”).

O que temos aqui é algo que, se bem entendido e assimilado, levará você a clamar como João, “vem Senhor Jesus!” (Ap 22.20). Ele é a razão de termos todas estas bênçãos e, diante disso, precisamos exaltá-lo a cada dia e ansiar pela consumação plena de sua obra. Tendo Cristo como o seu maior tesouro, você estará sempre seguro. Se Cristo é o seu maior anseio, como Paulo você pode estar certo de que Cristo será engrandecido em seu corpo, “quer pela vida, quer pela morte” (Fp 1.20).

Há bênçãos de Cristo na vida, na morte e eternamente. Que a sua convicção seja como a resposta à primeira pergunta do Catecismo de Heidelberg, “Qual o seu único conforto na vida e na morte?”, que inicia dizendo que “o meu único consolo é que – corpo e alma, na vida e na morte – não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que, ao preço do seu próprio sangue pagou totalmente por todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do pecado”.

Que você, abençoado pelo Senhor, na vida, na morte e eternamente, engrandeça sempre o seu Redentor!


[1] Citado por John Blanchard em Pérolas para a vida

[2] Thomas Brooks no livro Sermões sobre a morte. Ed. Soli Deo Gloria. Ed. do Kindle, posição 313

19 setembro 2019

Bênçãos da salvação

Deus salva pecadores! Esta é uma maravilhosa verdade que percebemos na Escritura, fruto da obra de redenção realizada pelo Senhor Jesus Cristo. Deus, por meio do Espírito e da Palavra, chama eficazmente aqueles que ele elegeu para a salvação. Mas não é só isso! A resposta à pergunta 32 do Breve Catecismo, “que bênçãos desfrutam nesta vida aqueles que são chamados eficazmente?”, ensina que “aqueles que são chamados eficazmente desfrutam, nesta vida, da justificação, adoção e santificação, e das diversas bênçãos que acompanham essas graças ou delas procedem”.

Você já parou para pensar no quão maravilhoso é tudo isso? Considere bem!

Por causa do pecado de Adão, nosso representante, todos os homens nascem debaixo da ira de Deus. Entretanto, o Reino de Deus é um reino de justiça. Para que haja salvação é preciso que o homem se adeque perfeitamente ao padrão de justiça de Deus, resumido em sua lei moral. Isso torna impossível a salvação do pecador. O que faz Deus, então, para poder nos salvar e não ser injusto recebendo transgressores em seu Reino? Ele nos justifica!

“Justificação é um ato da livre graça de Deus, no qual ele perdoa os nossos pecados e nos acerta como justos diante dele, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada, e recebida só pela fé” (Resposta à “Pergunta 33 do BCW: O que é justificação?). O ensino do catecismo é biblicamente preciso. O homem, sem condições de se apresentar como justo diante de Deus está perdido. Por mais que tente e seja sincero neste tentar, estará na mesma condição dos judeus que, segundo Paulo, tentaram estabelecer a sua própria justiça e não se sujeitaram à justiça de Deus. O resultado disso é a condenação (Rm 10.1-4).

Aqueles que são convencidos pelo Espírito creem no evangelho. Conforme Paulo, o evangelho revela a justiça de Deus, pois demonstra que Deus não deixa impune o pecado. o Seu Filho assume os pecados do seu povo e morre em lugar dele. O que acontece no Calvário é uma troca. Os pecados do povo são assumidos por Cristo para que a sua justiça seja creditada ao seu povo. Agora, aqueles que são justificados por Deus são vistos como pessoas que não cometeram pecado algum e podem ter paz com Deus (Rm 5.1). Como profetizou o salmista, na cruz “a justiça e a paz se beijaram” (Sl 85.10).

Pelos méritos de Cristo Deus vê a você como alguém justo e pode aceitá-lo diante dele. Isso nos leva a pensar em mais uma das bênçãos da salvação, a adoção. “Adoção é um ato da livre graça de Deus, pelo qual somos recebidos no número dos filhos de Deus, e temos direito a todos os seus privilégios” (Resposta à “Pergunta 34 do BCW: O que é adoção?).

A despeito do dito popular que diz que todo mundo é filho de Deus, nada poderia estar mais distante da realidade. Jesus é o Filho Unigênito de Deus, ou seja, o único gerado por Deus. Os demais filhos o são por adoção, um dos resultados da obra de Cristo. Por causa disso, João afirma que a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). Esta realidade é tão maravilhosa que o mesmo João escreve com certo espanto: “vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus” (1Jo 3.1).

Uma das bênçãos de ser parte da família de Deus, de ser contado entre os seus filhos, é o fato de sermos disciplinados pelo Senhor. Quando nos desviamos dos termos do Pacto, ou seja, quando não damos ouvidos à sua Lei, ele nos corrige. Conforme Hebreus este é um sinal do seu amor, “pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos” (Hb 12.7-8).

Em sua carta João ainda descreve outra realidade acerca da nossa filiação. Ele diz que “agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo 3.2). O que João quer dizer é que a obra de salvação ainda não está plenamente realizada na vida dos que creem. Eles já são filhos de Deus, já são identificados com seu novo representante, Jesus Cristo, o irmão mais velho, mas neste mundo ainda terão de lidar com os resquícios de sua velha natureza, herdada de Adão.

Podemos ter a certeza de que um dia seremos como Cristo porque ele, “a si mesmo se entregou por ela [pela igreja], para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.25-27). Isto significa que até que o Senhor venha, dia a dia, seremos menos parecidos com Adão e mais parecidos com Cristo. A isto chamamos de santificação.

Santificação é obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão” (Resposta à Pergunta 35 do BCW: O que é santificação?”). Quando tratamos de santificação é preciso entender que ela é tanto uma posição quanto um processo. Por estar em Cristo somos posicionalmente santos, ou seja, separados para Deus. Por esta razão a Igreja de Corinto, com todos os seus pecados, é chamada de santa (1Co 1.2; 6.1,2; 14.33).

Mas a santificação é também um processo. No Catecismo Maior aprendemos que “na santificação, o seu Espírito [de Deus] infunde a graça e dá forças para a exercer. Na justificação, o pecado é perdoado; na santificação, ele é subjugado” (Pergunta 77 do CMW). Este processo, que é iniciado quando somos justificados e só terá fim por ocasião da nossa morte ou da vinda de Cristo, é chamado de santificação progressiva.

Na força e no poder do Espírito somos chamados a mortificar os feitos do corpo (Rm 8.13), negar a nós mesmos (Mt 16.24), tornar-nos santos (1Pe 1.15), buscar as coisas do alto (Cl 3.1-4), não nos conformarmos com este século (Rm 12.2) ou, em suma, a sermos santos (1Pe 1.16), pois sem a santificação ninguém verá o Senhor (Hb 12.14).

Diferente da justificação e do novo nascimento, em que somos passivos, na santificação progressiva temos parte ativa. Isso fica evidente quando Paulo ordena aos Filipenses a desenvolverem a salvação com temor e tremor (Fp 2.12). Mas não se engane, o mérito sempre será do Senhor, pois, como completa o apóstolo, “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). Conforme Sproul, “esta é uma arena em que há um genuíno sinergismo, uma cooperação. A santificação é um processo cooperativo em que Deus opera e nós operamos”[1].

Paulo está afirmando que podemos e devemos desenvolver a nossa salvação, ou seja, buscar a santificação, porque Deus nos dá condições para isso. Portanto, em vez de se gloriar e/ou esperar reconhecimento de Deus, aqueles que se esforçam para ser santos devem dizer o que ordenou Jesus a seus discípulos depois de os ter ensinado sobre a obrigação do perdão: “Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que deveríamos fazer” (Lc 17.10).

Louve a Deus por tantas bênçãos e usufrua delas para o louvor de sua glória!


[1] R.C. Sproul. Somos todos teólogos. Ed. Kindle, posição 359

11 setembro 2019

Como podemos ser salvos?

Certa vez, um homem rico se aproximou de Jesus questionando o que ele deveria fazer para herdar a vida eterna. O Senhor, sabendo que aquele homem entendia ser um cumpridor da lei, apontou para os mandamentos como meio para a salvação. A resposta que Jesus ouviu era que desde a infância aquele homem já fazia isso. Foi, então, que Jesus o colocou em um teste prático. Ele havia citado ao homem quase todos os mandamentos da segunda tábua, exceto um. Agora ele o põe à prova com o décimo mandamento, não cobiçarás, afirmando que só lhe faltava uma coisa: “vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me” (Lc 18.18-22).

Se você lembra da história sabe que este homem, ao ouvir estas palavras, “ficou muito triste, porque era riquíssimo” (Lc 18.23). Jesus o havia feito enxergar que ele não conseguia cumprir os mandamentos. Como bom judeu, ele sabia que “qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Aquele homem, ao cobiçar riquezas, as colocava como mais importantes que o próprio Deus. Jesus demonstrou que seu entendimento a respeito de quem pode ser salvo era errado.

Entretanto, não era somente o entendimento deste homem que estava errado, mas também o dos discípulos. Lucas continua a narrativa relatando que Jesus afirmou o quão difícil seria para um rico entrar no céu e que, mais fácil que isso, seria um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Diante disso, os discípulos ficaram espantados e perguntaram: “Sendo assim, quem pode ser salvo?” (Lc 18.26). A pergunta tinha como pressuposição o entendimento de que os ricos eram abençoados por Deus. Se eles, que eram abençoados por Deus, não podiam ser salvos, quem poderia? Jesus respondeu enfaticamente: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19.26).

A resposta de Jesus não deixa dúvida. Se depender do homem, morto em seus delitos e pecados, a salvação é impossível. O homem natural não quer a Cristo, logo, não pode alcançar a salvação. Entretanto, em sua obra, Jesus conquistou para o seu povo a redenção. A pergunta a ser feita é: “Como nos tornamos participantes da redenção adquirida por Cristo?” (Pergunta 29 do BCW). A resposta que temos no catecismo é que “tornamo-nos participantes da redenção adquirida por Cristo, pela eficaz aplicação dela a nós pelo seu Santo Espírito”.

A redenção nos é aplicada pelo Espírito de Cristo, o único que pode convencer “o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8). Mas “como o Espírito aplica-nos a redenção adquirida por Cristo?” O Espírito aplica-nos a redenção adquirida por Cristo, operando em nós a fé, e unindo-nos a Cristo por meio dela em nossa vocação eficaz”, responde o Breve Catecismo na pergunta 30.

Vocação eficaz é como chamamos a obra de convencimento do Espírito Santo no coração do pecador. A Confissão de Fé de Westminster ensina que o Senhor chama “eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito” (CFW X.I) aqueles que Deus predestinou para a salvação. Quando o evangelho é pregado, cai em ouvidos surdos. O homem, morto em seus delitos e pecados, não tem condições de responder com fé ao que ele ouve. A Palavra precisa ser proclamada, mas sem a operação sobrenatural de Deus, ela nunca será crida.

Um exemplo claro disto é o momento em que Paulo discursa diante do rei Agripa, em Atos dos apóstolos. O apóstolo começa dizendo estar feliz em apresentar defesa perante Agripa, visto ser ele versado nos costumes dos judeus (At 26.2). Após isso ele faz um arrazoado e termina perguntando: “Acreditas, ó rei Agripa, nos profetas? Bem sei que acreditas” (26.27).

Aqui a tradução da Bíblia Revista e Atualizada nos confunde um pouco. Ela traz a resposta de Agripa da seguinte maneira: “Por pouco me persuades a me fazer cristão” (26.28), dando a impressão ao leitor desatento de que Paulo quase convenceu Agripa, faltando mesmo bem pouquinho. John Wesley, certa vez, pregou um sermão intitulado “Os quase cristãos” e começando com este texto declarou que “muitos há que chegam até este ponto: pelo menos, desde que apareceu no mundo a religião cristã, sempre houve muitos, em todas as épocas e nações, que quase chegaram a ser persuadidos a se fazerem cristãos[1].

Esta é uma visão equivocada do texto. A tradução Revista e Corrigida de Almeida traz uma tradução melhor: “E disse Agripa a Paulo: Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!”. A fala de Agripa é jocosa. O rei desdenha da pregação de Paulo afirmando que não se tornaria cristão com tão pouco. A resposta de Paulo colabora para este entendimento: Assim Deus permitisse que, por pouco ou por muito, não apenas tu, ó rei, porém todos os que hoje me ouvem se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias” (At 26.29). Não existem quase cristãos ou quase salvos. Quando a pregação do evangelho encontra ouvidos mortos, sempre haverá rejeição. Entretanto, se juntamente com o chamado externo houver o chamado eficaz do Espírito, homens se renderão a Cristo.

Este é um alento para aqueles que cumprem o seu papel de testemunhas de Cristo e proclamam o evangelho. Podemos pregar e chamar homens ao arrependimento não porque somos eloquentes, mas porque o Senhor agirá na salvação dos eleitos. Apesar de termos de nos esmerar a fim de apresentar o evangelho da forma mais clara que conseguirmos, a salvação do pecador não depende da eloquência do pregador, mas da poderosa operação do Espírito Santo, por meio da sua Palavra.

O Breve Catecismo descreve assim este processo. “Vocação eficaz é a obra do Espírito Santo pela qual, convencendo-nos de nosso pecado e de nossa miséria, iluminando nosso entendimento pelo conhecimento de Cristo, e renovando a nossa vontade, ele nos persuade e habilita a abraçar Jesus Cristo, que nos é oferecido de graça no evangelho” (Resposta à “Pergunta 31 do BCW: O que é vocação eficaz?).

As palavras do Senhor Jesus Cristo aos discípulos são, então, um alento para a nossa alma. A salvação é impossível para os homens, mas para Deus não há impossíveis. Ele concede salvação pela graça, por meio da fé, que é dom concedido por ele (Ef 2.8).

Louve a Deus pelo privilégio de ter sido feito um filho de Deus, por meio da obra de Jesus Cristo aplicada em seu coração pelo Espírito de Deus e viva para a glória dele.


[1] Sermões de John Wesley no site da Igreja Metodista do Brasil: encurtador.com.br/qsyEV

03 setembro 2019

Jesus, o servo que foi exaltado

Se você é como eu, e creio que seja, o simples fato de pensar em passar vergonha o deixa desconfortável. Isso é algo natural, sobretudo por causa do pecado que ainda está presente, mesmo na vida daqueles que já se renderam ao Senhor Jesus Cristo. Como herdeiros de Adão, somos orgulhosos. Como afirma Mahaney, “embora ele [o orgulho] se apresente de formas e em intensidades diferentes, ele contamina todos. A questão aqui não é se o orgulho existe em seu coração; e sim onde ele se encontra e como se expressa em sua vida” [1].

É por conta disso que muitos chegam a ler com pesar a ordem de Tiago: “humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará” (Tg 4.10). Geralmente não vemos problema algum em sermos exaltados, mas a ideia de ter de se humilhar não desce bem.

Graças a Deus temos em Cristo um belo exemplo. Quando Paulo ordenou os filipenses que não fizessem nada por partidarismo ou para a glória de si mesmos, apontou para o exemplo de Jesus dizendo: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;
mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.
E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!”
(Fp 2.6-8 – NVI).

Pense no Senhor Jesus Cristo. Diferente de nós, ele não é um pecador, mas o Deus de toda a glória. A fim de assumir a culpa do seu povo e se dar por ele, teve de abrir mão de sua glória e tornar-se um de nós. Algo que sempre me impressiona é ler o relato do Evangelho de João em que Jesus está ensinando que é o bom pastor e que daria a vida em favor de suas ovelhas. O Rei da Glória está ali humilde, falando de sua obra em favor dos homens, e de repente, muitos dentre os judeus questionam: “Ele tem demônio e enlouqueceu; por que o ouvis?” (Jo 10.20).

Você já se imaginou no lugar de Jesus? Já pensou no que faria se tivesse todo o poder e fosse afrontado de tal maneira? Para piorar, enquanto ele agonizava na cruz, muitos debochavam dizendo, “Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz!” (Mt 27.40). Fosse eu ali, talvez eu só estalasse os dedos a fim de fulminar a todos. Mas em ambas as ocasiões, Jesus guardou silêncio e continuou em sua missão.

O que está por trás de tudo isso é o seu amor a Deus e ao próximo. Lembre-se que o resumo da lei é exatamente esse. Quando, em vez de amar a Deus e ao próximo, amamos a nós mesmos e queremos satisfazer a nossa vontade, buscando a nossa própria honra, pecamos. Para que haja humildade é preciso haver antes amor a Deus e aos homens. Jesus, humilhou-se para honrar o seu Pai e para servir ao seu povo, cravando na cruz os seus pecados.

O Breve Catecismo, respondendo a pergunta “Em que consistiu a humilhação de Cristo?”, ensina que “a humilhação de Cristo consistiu no fato de ele nascer, e isso em condição humilde; em ser sujeito à lei; em sofrer as misérias desta vida, a ira de Deus e a maldita morte na cruz; em ter sido sepultado e permanecer debaixo do poder da morte durante certo tempo” (Pergunta 27 do BCW).

O Deus de toda a glória, o doador da vida, humilhou-se, fez-se servo e morreu em favor do seu povo. Mas este não é o fim da história. Tivesse Jesus permanecido morto, estaria provado que ele não passava de mais um pecador, que merecia o salário da morte. Para ficar evidente que ali estava o Santo de Deus e para que o homem pudesse encontrar redenção, o Pai o exaltou.

“A exaltação de Cristo consiste em sua ressurreição dos mortos no terceiro dia, em sua ascensão ao Céu; em estar sentado à mão direita de Deus Pai; e em vir para julgar o mundo no último dia” (Resposta à “Pergunta 28 : Em que consiste a exaltação de Cristo?”). O apóstolo Paulo, após apontar aos filipenses a humilhação de Cristo como exemplo a ser seguido, continuou dizendo que “Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11).

Sim, Jesus Cristo foi exaltado pelo Pai e um dia retornará com grande poder e glória. Neste dia, todos estarão de joelhos diante dele, mas em situações distintas. Aqueles que o receberam pela fé, para serem exaltados com ele. Aqueles que o rejeitaram, para receberem a punição pelos seus pecados.

Ao compreender isso você conseguirá lutar contra o orgulho e viver em humildade diante do Senhor, afinal de contas, Jesus não é só um bom exemplo. Ele é aquele que o liberta do pecado, concede a você o seu Espírito e o capacita a amar a Deus e ao próximo, não buscando seus próprios interesses. “Ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente”. Você pode imitá-lo, pois como disse Pedro aos seus leitores, “estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo de vossa alma” (1Pe 2.23,25).

Se você ama a Cristo, tenha plena certeza de que mesmo os momentos em que você enfrentar situações vexatórias e humilhantes, contribuirão para o seu bem, formar em você o caráter de Cristo (Rm 8.28). Em Cristo, você pode cumprir, pelo poder do Espírito Santo, o que Pedro ordenou aos crentes: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (1Pe 5.6-7).

Descanse em Jesus, o humilde servo que foi exaltado!


[1] C. J. Mahaney. Humildade, verdadeira grandeza, p. 28 – Ed. Fiel

28 agosto 2019

Jesus, o Rei dos reis

Vez por outra eu escuto a mesma história: “Deus não tinha planos de um rei para Israel. O reinado foi uma ideia do povo desobediente, que rejeitou o governo do Senhor”. Eu sei que o texto bíblico de 1Samuel pode dar margem à este entendimento, mas somente se ele for tomado fora do contexto imediato e também do contexto mais amplo da Escritura.

Repare bem. O povo neste momento era liderado por juízes constituídos pelo Senhor. O profeta Samuel já estava velho. Ele era visto pelo povo também como juiz e na sua velhice, ele próprio constituiu seus filhos por juízes. Entretanto, o caráter dos filhos de Samuel não era bom. Os anciãos de Israel, vendo a morte de Samuel se aproximar e preocupados com o caráter de seus filhos, vêm a ele e pedem um rei. O problema aqui não é com o rei, em si, mas com a motivação. Eles dizem: “constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações(1Sm 8.4).

Ao pedir um rei o povo expressa que queria ser como as outras nações. A questão é que Israel não era como outras nações, mas foi constituído para ser um reino de sacerdotes e uma nação santa (Ex 19.6). Esta nação tinha leis dadas pelo próprio Deus e os líderes do povo o conduziriam segundo estas leis. Daí o Senhor ter dito a Samuel que o povo, na verdade, estava rejeitando o próprio Deus e o mandou falar acerca de como seria custoso o povo ter um rei. A despeito disso, o povo repete o seu desejo egoísta de ser como as demais nações (1Sm 8.20). Repito, o problema não era o rei, mas a motivação do povo em pedi-lo. Entretanto, para perceber isso, é preciso voltar ao início, quando o povo sequer existia.

Em Gênesis você aprende sobre a formação do povo de Deus. Deus chama Abraão de uma terra idólatra prometendo fazer dele uma grande nação. De Abraão nasce Isaque, deste Jacó, cujos filhos constituirão as 12 tribos de Israel. No capítulo 49, você pode notar que a bênção de Jacó não recaiu sobre o primogênito Rúben, tampouco sobre os filhos seguintes, Simeão e Levi. A bênção recaiu sobre Judá, que ouviu de seu pai: O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão (Gn 49.10 – NVI).

O povo ainda não havia sido politicamente constituído e o Senhor já prometeu um rei, apontando a tribo de onde este rei viria. Após o povo passar quatrocentos anos como escravo no Egito, o Senhor os tirou de lá com mão forte a fim de cumprir a promessa de levá-los à terra prometida. Deus deu ao povo as suas leis e, dentre elas, temos a que diz respeito ao rei (Dt 17.14-20). Quando o povo quisesse um rei, deveria ser um dentre o povo, aquele a quem Deus escolhesse (17.15). Este rei deveria confiar no Senhor e não em seu exército, por isso não deveria multiplicar cavalos (17.16). Não deveria levar o povo de volta ao Egito, terra de sua escravidão (17.16), não deveria multiplicar mulheres para não ter o coração pervertido, nem deveria ser ganancioso (17.17). Deveria ser um rei piedoso, conforme os mandamentos do Senhor (17.19) e deveria servir aos seus irmãos (17.20).

O primeiro rei, dado por Deus para punir o egoísmo de Israel, foi Saul. Ele não andava de acordo com o que a Lei dizia a respeito do rei. Ele é rejeitado e Deus escolhe, da tribo de Judá, a Davi. Quando Davi teve a ideia de construir um templo para o Senhor, Deus disse a ele por meio de Natã que não seria ele, mas o seu descendente que faria isso. Entretanto, Deus prometeu firmar o seu trono, afirmando que o estabeleceria para sempre (2Sm 2.13-16).

Se você conhece a história dos reis, sabe que começando por Davi e passando por seus descendentes, nenhum deles cumpriu com inteireza tudo o que a Lei prescrevia ao rei. Como exemplo, pense no homem mais sábio que já existiu, Salomão, que teve o coração pervertido e chegou a se dobrar diante de ídolos, por causa de suas muitas mulheres (1Re 11.1-13). Por cona da idolatria, Deus tiraria o reino de Salomão, entretanto, por amor de Davi e do povo, por causa de sua promessa, Deus daria uma tribo ao filho de Salomão. Você se lembra qual tribo foi essa? Com o reino dividido temos de um lado Israel e do outro Judá.

Todos estes reis pecaram, pois apontavam para um rei além deles, aquele que havia sido prometido desde Gênesis. Quando Mateus escreve o seu evangelho, começa afirmando a linhagem real de Jesus, filho de Davi, filho de Abraão. Ele está identificando Jesus como aquele em quem as promessas dadas a Abraão (um nome grandioso, um povo e uma terra) e a Davi (um reinado eterno) se cumpriam. É para este grande Rei que todos os outros apontavam.

Jesus, em seu ofício de Rei, foi humilhado. A despeito de ter sido saudado pelo povo na entrada triunfal, entrou na cidade não com a pompa dos reis, mas montado em um jumentinho e João afirma que isso era para se cumprir a Escritura: “Não temas, filha de Sião, eis que o teu Rei aí vem, montado em um filho de jumenta” (Jo 12.14-15). Além disso, ao ser morto de forma humilhante, foi posta na cruz a irônica acusação: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus” (Mt 27.37).

Mas não se engane, o Rei foi exaltado pelo Pai e está assentado em seu trono, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos, como ensina o Credo dos Apóstolos. Sua descrição no Apocalipse é gloriosa. Em vez de montado em um jumentinho, João diz: “Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; e seguiam-no os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com vestiduras de linho finíssimo, branco e puro. Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: rei dos reis e Senhor dos Senhores” (Ap 19.11-16).

Eis que aqui é visto o cumprimento pleno do que foi dito a Judá, a respeito do Rei a quem as nações obedecerão. O Breve Catecismo ensina que o Senhor Jesus “Cristo exerce as funções de rei, sujeitando-nos a si mesmos, governando-nos e protegendo-nos, contendo e subjugando todos os seus e os nossos inimigos” (Resposta à “Pergunta 26: Como Cristo exerce as funções de rei?”).

É este o grande Rei que governa a sua vida. Olhe para a sua Palavra que, como afirmou Calvino, é o cetro com que ele governa o seu reino. Descanse no seu governo e o honre. Como embaixador de seu reino, proclame as suas virtudes e, confiante, anseie pelo dia glorioso da volta do Rei dos reis.

22 agosto 2019

Jesus, o sumo sacerdote perfeito

Quando Adão desobedeceu a Deus no Jardim do Éden, tomando do fruto proibido oferecido por sua mulher, a Escritura declara que “abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueiras e fizeram cintas para si” (Gn 3.7). O pecado faz com que homem e mulher se envergonhem um do outro. A quebra do relacionamento com Deus afetou também o relacionamento do primeiro casal.

Ao invés de recorrerem ao Senhor, arrependidos, o que eles fizeram foi tentar resolver por si mesmos o seu problema. Se a consequência do pecado foi a vergonha da nudez, bastaria, então, eliminar a consequência a fim de sentirem-se bem. E foi por isso que eles fizeram cintas para si.

Essa autojustiça vista em nossos primeiros pais pode ser percebida também no decorrer da história. Em nossos dias, quando tentam os homens tentam resolver o problema de sua culpa ao seu próprio modo, estão espelhando a Adão, tentando estabelecer seus próprios “atos de justiça”.

Até mesmo os judeus, que receberam a Lei a fim de perceberem a sua incapacidade de viver em conformidade com o padrão de santidade exigido pelo Senhor, tentaram ver nela um instrumento de justificação. Daí Paulo ter de lembrar que

“tudo o que a lei diz, aos que vivem sob a lei o diz para que se cale toda a boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.19,20). Entretanto, eles “desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10.3).

Mas qual é a justiça de Deus? O Breve Catecismo afirma que “Cristo exerce as funções de sacerdote por ter oferecido a si mesmo, de uma vez por todas, em sacrifício, para satisfazer a justiça divina e reconciliar-nos com Deus, e fazendo continua intercessão por nós” (Resposta à pergunta 25 do BCW: “Como Cristo exerce as funções de sacerdote?”).

Voltando à história de Adão percebemos que o Deus que afirmou aos judeus que suas obras de justiça, diante dele, eram como trapos de imundícia (Is 64.6), rejeitou também a autojustiça dos nossos primeiros pais. Suas roupas, apesar de cobrirem as partes que os faziam corar de vergonha, não podiam cobrir a sua nudez diante do Senhor. O próprio Deus tratou, então, de providenciar novas roupas, matando um animal e fazendo “vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu” (Gn 3.21).

Aqui está bem clara a dura realidade do pecado e a verdade da Palavra de Deus. A despeito de terem acreditado na serpente que afirmou que era certo que eles não morreriam ao desobedecerem a ordem do Senhor, a realidade estava diante dos seus olhos: o pecado gera a morte, ou, nas palavras de Paulo no Novo Testamento, “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Para que Adão não morresse, o Senhor matou um animal em seu lugar.

Esse padrão será repetido durante todo o Antigo Testamento. Ao olhar para o culto oferecido pelos filhos de Adão, percebemos que aquele que foi aceito por Deus foi o que levou ao Senhor das primícias do seu rebanho e da gordura deste (Gn 4.4). Quando o Senhor deu à Israel as leis cerimoniais prescreveu com detalhes a forma como os animais seriam oferecidos ao Senhor como oferta pela culpa (Lv 3 a 7).

Estes sacrifícios tinham de ser continuamente oferecidos, pois como afirma o escritor aos Hebreus, “é impossível que os sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb 10.4). Estes sacrifícios apontavam para a providência de Deus em enviar aquele que seria morto de uma vez por todas.

Para o oferecimento dos sacrifícios, o Senhor estabeleceu os sacerdotes. Uma tribo foi especificamente separada para este fim, a tribo de Levi. Eram eles que representavam o povo diante de Deus. O problema é que estes sacerdotes também eram pecadores, por isso, antes de oferecer sacrifícios pelo povo, precisavam oferecer sacrifícios por si mesmos (Hb 5.3). Uma vez por ano, o sumo sacerdote adentrava ao Santo dos Santos levando o sangue do sacrifício e o aspergia sobre o propiciatório, a tampa da Arca da Aliança. Era este o dia da expiação (Lv 16).

Todas essas figuras apontam de forma maravilhosa para o Senhor Jesus Cristo que é tanto o Sumo Sacerdote perfeito (Hb 3.1) quanto a oferta perfeita pelo pecado, oferecida de uma vez por todas (Hb 7.27,28). Em seu ministério, perto de sua morte, percebemos o Senhor Jesus purificando o templo, o que deveria ter sido feito pelos sacerdotes negligentes (Mt 11.15-18). Podemos perceber também como a figura de vários cordeiros do Antigo Testamento se cumprem em Cristo.

João Batista o descreve como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). É clara a sua identificação com a ovelha muda de Isaías 53, quando Pilatos o interroga e João, o evangelista, afirma: “Mas Jesus não lhe deu resposta” (Jo 19.9). Mais clara ainda é a sua identificação com o cordeiro pascal, que não podia ter seus ossos quebrados (Ex 12.46), cujo sangue livraria os primogênitos de Israel da morte. João registra que por ocasião de sua morte, diferente dos marginais crucificados ao seu lado, Jesus não teve os seus ossos quebrados para se cumprir a Escritura (Jo 19.32-36).

Jesus, o Cordeiro perfeito de Deus, como perfeito sacerdote, ofereceu a si mesmo para remissão dos pecados. Ao morrer, o véu do santuário foi rasgado (Lc 6.45) e agora todos aqueles que se arrependem de seus pecados, recebendo-o pela fé, tem pleno acesso à presença do Senhor podendo entrar no Santo dos Santos pelo novo e vivo caminho, o sangue de Jesus. Ele é o grande sacerdote que nos representa diante do Pai (Hb 10.19-22).

Por causa de Cristo, você não precisa tentar justificar a si mesmo. Ao olhar para si mesmo no espelho da Lei e ver-se um pecador, não se desespere, confie no Cordeiro Perfeito que cumpriu toda a Lei e ofereceu a si mesmo em lugar de pecadores. Entretanto, se você não deposita nele a sua confiança, precisa saber que este Cordeiro que um dia foi humilhado em sua morte, virá com grande poder e glória.

Neste dia, em que os poderosos e os reis da terra implorarão aos montes: “Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” (Ap 6.15-17), só haverá duas possibilidades: ou você também estará desesperado, caso rejeite a graciosa salvação do Senhor, ou estará bem seguro, sob a intercessão do perfeito sumo sacerdote.

Portanto, rejeite a sua própria justiça, confesse os seus pecados, e creia no Cordeiro Santo de Deus.

14 agosto 2019

Jesus, O Profeta

Deus fala ao seu povo! Desde o início dos tempos o Senhor tem revelado a sua vontade ao homem. Logo após ter sido criado Adão ouviu as primeiras palavras da boca do Senhor. O texto bíblico registra que Deus disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28).

A Palavra de Deus ordenava ao homem que gerasse filhos a fim de espalhar a imagem do Senhor por toda a terra. Além disso, ordenava ao homem que cuidasse da criação como um vice-regente. Deus falou mais. Suas palavras anunciavam ao homem o cuidado do Senhor para com ele ao dizer: “Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será por mantimento” (Gn 1.29).

O homem é, então, guiado pela Palavra de Deus. É ela quem lhe dá direção e mostra a vontade de Deus para a sua vida. Um dos aspectos do Pacto de Deus com o homem é exatamente o Senhor declarar a sua vontade a fim de que o homem possa viver de modo agradável diante dele. No Pacto das Obras a Palavra de Deus não apontou apenas aquilo que ele deveria fazer, mas também aquilo de que ele estava terminantemente proibido: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16-17).

No início Adão ouvia a palavra diretamente da boca de Deus. Entretanto, após a sua transgressão, apesar de o Senhor continuar se revelando ao homem, ele o fez de maneiras distintas. Deus se revelou por sonhos, visões, teofanias, fez com que sua Palavra fosse escrita e comunicada ao povo. Além disso, a palavra vinha, comumente por meio de profetas, homens levantados por Deus para declarar a sua vontade ao povo.

Esses profetas funcionavam como mediadores entre Deus e povo. O primeiro e maior dos profetas foi Moisés. Por meio dele Israel tomou conhecimento de como o Senhor criou todas as coisas, formou um povo para si, libertou-o do cativeiro e lhe entregou a sua Lei. Em Deuteronômio Moisés disse ao povo:

O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás, segundo tudo o que pediste ao Senhor, teu Deus, em Horebe, quando reunido o povo: Não ouvirei mais a voz do Senhor, meu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não morra. Então, o Senhor me disse: Falaram bem aquilo que disseram. Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. De todo aquele que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas (Dt 18.15-19).

Desde então o povo está esperando O profeta anunciado por Moisés, pois, a despeito dos grandes profetas levantados por Deus como Isaías, Jeremias ou Elias, “nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face (Dt 34.10).

O povo entendeu que O profeta prometido por Deus seria o Messias. Isso pode ser claramente notado no Novo Testamento. Quando João Batista apareceu batizando, foram perguntar quem era ele. Após ele afirmar que não era o Cristo, continuaram a inquirir: “És tu Elias? [..] És tu o profeta?”. Diante das negativas, perguntaram-lhe ainda: “Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?” (Jo 1.19-25). A pergunta faz todo o sentido, pois Moisés, o profeta, aspergiu água sobre os filhos de Levi a fim de purifica-los (Nm 8.6-7). Malaquias também havia profetizado a respeito do mensageiro que prepararia o caminho para o Anjo da Aliança e identifica-o com Elias. Nesse contexto de anunciação do Messias e daquele que lhe abriria o caminho ele afirma que os filhos de Levi seriam purificados (Ml 3.1-3; 4.5)[1]. Ao ver João batizando, a associação foi inevitável.

Tempos depois, Jesus vai com seus discípulos ao monte e, diante deles, transfigura-se. Ao seu lado aparecem dois profetas: Moisés e Elias. Os discípulos, empolgados, sugerem fazer três tendas, uma para cada um deles, quando uma nuvem os encobre e a voz de Deus é ouvida dos céus: “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi”, não vendo mais ninguém os discípulos, exceto o Senhor Jesus. Este é O profeta semelhante a Moisés, tão aguardado pelo povo.

Uma diferença grandiosa entre os profetas que apontavam para O grande Profeta e Jesus é que aqueles falavam a Palavra de Deus, enquanto este é a Palavra de Deus encarnada, pois “no princípio era aquele que é a Palavra. [...] Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1.1,14). Jesus, O Profeta, é o ápice da revelação de Deus. Por esta razão o escritor aos hebreus afirma que “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho” (Hb 1.1). Deus hoje não fala mais como antigamente, mas por meio da Palavra de Cristo, a Bíblia Sagrada, daí a Confissão de Fé de Westminster declarar: “tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo (CFW I.I).

“Cristo exerce as funções de profeta, revelando-nos, pela sua Palavra e pelo seu Espírito, a vontade de Deus para a nossa salvação” (Resposta à “Pergunta 24. Como Cristo exerce as funções de profeta?”). Por toda a história o Senhor revelou a sua Palavra por meio de homens, até que ele mesmo se fez carne.

O Catecismo Maior afirma que Jesus exerceu suas funções de profeta, sacerdote e rei, tanto no estado de sua humilhação, como no de sua exaltação (Pergunta 42 do CMW). Em sua humilhação, zombaram de seu ofício profético ao baterem nele e dizerem: “profetiza-nos: quem é que te bateu?” (Lc 22.64). Entretanto, este glorioso Profeta foi exaltado e convoca todos os homens a reconciliarem-se com ele por meio da fé que “vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17). A pregação fiel da Palavra é, portanto, a voz do próprio Profeta Jesus chamando os homens ao arrependimento e fé e instruindo o seu povo acerca do caminho que deve andar.

Você tem dado ouvidos à voz de Jesus? Você tem estudado a Escritura a fim de conhecer a sua vontade? É somente por meio da Palavra de Cristo que você encontrará amparo, direção, consolo e conforto. Abra a sua Bíblia e escute o glorioso Profeta, Cristo Jesus.


[1] Sobre este assunto veja “O Batismo de João e a inovação imersionista”, capítulo do livro The Presbyterian Faith, do Rev. Geo. W. Belk, traduzido por A. Almeida

09 agosto 2019

Jesus, o único Mediador

Você já deve ter ouvido ou lido em algum lugar a frase “peça à mãe que o Filho atende”. Este pensamento da teologia católico romana faz de Maria uma participante na salvação dos homens. A ideia é que, sendo mãe de Jesus, o seu filho não lhe negaria um pedido. Entretanto, pensando biblicamente, nada poderia estar mais longe da verdade.

A pergunta 21 do Breve Catecismo trata exatamente dessa questão: “Quem é o Redentor dos eleitos de Deus? Resposta: O único Redentor dos escolhidos de Deus é o Senhor Jesus Cristo, que, sendo o eterno Filho de Deus, se fez homem em duas naturezas distintas, e uma só pessoa, para sempre”. O que temos aqui é a expressão inequívoca do claro ensino bíblico. Um redentor é aquele que resgata, liberta. Você lembra que os teólogos chamam de economia (ou administração) da Trindade o trabalho que cada pessoa divina realiza, o que mostra que o único e verdadeiro Deus faz todas as coisas? Pois bem, quando o Catecismo afirma que o único Redentor é o Senhor Jesus, está apontando para a sua obra dentro do plano de Deus para redimir os seus eleitos.

É fácil perceber isso quando lemos o que Paulo afirmou os colossenses: “Ele [o Pai] nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho [Jesus] do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão de pecados” (Cl 1.13). Para que o homem pudesse ser resgatado do reino das trevas, “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4).

O Filho, a segunda pessoa da Trindade, se fez homem, pois foram homens que pecaram contra Deus. Era preciso que um homem perfeito, que não quebrou a lei, morresse em lugar de pecadores, esta é a única maneira de Deus ser justo, punindo o pecado, e justificador, imputando a justiça do seu Filho àqueles que creem pela fé. Não poderia ser somente um homem, afinal de contas, se eu me oferecesse para morrer em seu lugar, alguém deveria também morrer no meu lugar, visto que o salário do pecado é a morte e ambos, eu e você, somos pecadores. Esta é a razão de Maria também não poder ser uma redentora, visto ser uma pecadora, como podemos perceber em seu cântico: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador” (Lc 1.46). Maria necessitava de um Salvador, logo, ela se reconhece pecadora.

A partir do momento em que Jesus se faz carne ele nunca mais deixa de ser plenamente Deus e plenamente homem. Em razão disso, Paulo enfatiza: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem (1Tm 2.5). Há muitos cristãos que erram ao pensar que Jesus hoje, no céu com o Pai, deixou de ser homem, mas basta lembrar que ao ser assunto ao céu ele foi como homem, podendo ser visto pelos discípulos que ouviram dos anjos “varões galileus, porque estais olhando para as alturas? Este Jesus que dentre vós foi assunto aos céu virá do modo como o viste subir (At 1.11). A Escritura declara que a volta de Jesus será visível, logo, necessariamente corpórea. João afirma que “eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá” (Ap1.7)!

O Breve Catecismo resume tudo isso ao declarar que “Cristo, o Filho de Deus, fez-homem tomando um verdadeiro corpo e uma alma racional, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da virgem Maria, e nascendo dela, mas sem pecado” (Resposta à “Pergunta 22. Como Cristo, sendo o Filho de Deus, se fez homem?” do BCW). Esta encarnação foi plenamente anunciada no Antigo Testamento. Isaías profetizou que “um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, duas naturezas em uma só pessoa, para sempre!

Mas o Antigo Testamento anunciou muito mais. Além de anunciar a encarnação do Verbo de Deus, apontou também para toda a sua obra. Jesus afirmou aos fariseus que liam as Escrituras por julgar que nelas tinha a vida eterna que elas falavam a respeito dele, mas que, contudo, eles não queriam ir a ele para ter vida (Jo 5.39). Isso quer dizer que, no Antigo Testamento, o Redentor prometido por Deus é amplamente anunciado e tipificado.

Por exemplo, o próprio título “Messias”, aponta para a pessoa e para a obra do Salvador. Messias é o termo hebraico para “ungido”. No Antigo Testamento os reis eram ungidos para o seu ofício (1Sm 16.12; 2Sm 3.39; 1Sm 24.6). Semelhantemente, os sacerdotes também o eram (Lv 4.3,5,16; Lv 16.32). Por inferência, percebemos que os profetas também eram ungidos a fim de desempenharem o seu ofício (Sl 105.15; 1Cr 16.22).

Muitos acham que Cristo é o sobrenome de Jesus, o que é um ledo engano. Cristo é a palavra grega equivalente ao termo hebraico para ungido, logo, dizer Jesus Cristo é o mesmo que dizer Jesus, o Ungido, ou Jesus, o Messias. É nele que se cumprem plenamente todos os ofícios do Antigo Testamento. Daí o Breve Catecismo ensinar que “Cristo, como nosso Redentor, exerce os ofícios de profeta, sacerdote e rei, tanto no seu estado de humilhação como no de exaltação” (Resposta à “Pergunta 23. Que ofícios Cristo exerce como nosso Redentor?”).

O Catecismo Maior amplia um pouco mais este entendimento ao perguntar “Por que foi o nosso Mediador chamado de Cristo?” e responder que ele “foi chamado de Cristo porque foi, acima de toda medida, ungido com o Espírito Santo; e assim separado e plenamente revestido com toda autoridade e poder para exercer as funções de profeta, sacerdote e rei da sua Igreja, tanto no estado de sua humilhação, como no de sua exaltação”.

Jesus, o único Mediador entre Deus e os homens é o seu Profeta, Sacerdote e Rei. Você precisa dar ouvidos à sua Palavra revelada nas Escrituras. Nele você tem perdão para os seus pecados e conta com sua incessante intercessão. Acima de tudo, nele você está seguro, pois ele é grande governante de todo o universo. Foi ele que se deu por você a fim de que você possa viver plenamente uma vida abundante.