31 dezembro 2019

Deixando a mentira

Conta-se uma história atribuída a Tomás de Aquino de que ele estava debruçado sobre os seus livros e seus amigos, querendo lhe pregar uma pela, se aproximaram dizendo: - Veja Tomás, uma vaca voando! Mais do que depressa Aquino se levantou e passou a olhar para o céu de um lado para o outro enquanto seus amigos gargalhavam. Eles perguntaram, então, se Aquino acreditava em vacas voadoras, ao que ele respondeu: - Prefiro acreditar que uma vaca voe do que um irmão minta!

Nossa sociedade lida com a mentira de forma bastante hipócrita. Os mesmos pais que ensinam seus filhos que eles não devem mentir se veem no direito de mentir “para o bem” dos filhos. Empresários que exigem um relacionamento honesto por parte dos funcionários por vezes mentem a respeito dos lucros, para fugir dos impostos.

Foi o próprio Senhor Jesus que afirmou que a mentira tem por pai o diabo! Ao confrontar os fariseus que não criam na sua Palavra, o Senhor foi enfático: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira(Jo 8.44).

Os cristãos, por sua vez, são chamados para seguir aquele que é “o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6). Quando o Senhor orou por seus discípulos, rogou ao pai que os santificasse na verdade, que é a própria Palavra (Jo 17.7), e o apóstolo João escreveu que não tinha maior alegria do que a de ouvir que seus filhos andavam na verdade (3Jo 4). Há muitas outras orientações bíblicas para que os crentes vivam e falem a verdade, mas quero citar apenas mais uma: “O nono mandamento é: ‘Não dirás falso testemunho’ (Ex 20.16)” (Resposta à Pergunta 76 do BCW: Qual é o nono mandamento?).

A despeito disso tenho a impressão de que até mesmo para muitos cristãos existem “mentiras bastardas”, isto é, não procedem de Deus, pois ele é a expressão da verdade, mas também não procedem do diabo, pois as intenções por trás delas são boas. Desta forma, para estes, algumas mentiras são justificáveis, por conta de suas intenções “nobres”, como pais que mentem aos filhos pequenos dizendo para não irem a determinados locais por causa do bicho papão, para os “protegerem” de perigos, ou a resposta positiva do visitante ao anfitrião que pergunta se ele gostou da comida do jantar, ainda que não tenha gostado, pois dizer que não gostou soaria como falta de educação. Assim, a mentira ganha outros nomes como proteção, cuidado ou educação, sendo até algo esperado em certas ocasiões, pois é para o “bem do próximo”.

“O nono mandamento exige a conservação e promoção da verdade entre os homens e a manutenção da nossa boa reputação e a do nosso próximo, especialmente quando somos chamados a dar testemunho” (Resposta à Pergunta 77 do BCW: O que o nono mandamento exige?). Logo, precisamos primeiramente entender que o Senhor condena categoricamente a mentira, a despeito de alguns usarem a história das parteiras que mentiram a Faraó para dizer que Deus as abençoou por terem mentido em relação às crianças que elas não mataram, desobedecendo a sua ordem (Ex 1.15-22). Uma leitura mais atenta demonstra que o Senhor as abençoou por salvarem as crianças e não por terem mentido.

Não existem mentiras em favor de outros ou por amor a outros. Na Escritura aprendemos que não se peca em favor de outros, mas por amor a si mesmo. Tiago não deixa dúvidas: “cada um é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido” (Tg 1.14 - NVI). Perceba! Pecamos para conseguir o que desejamos e essa é uma atitude de amor próprio. Amamos tanto a nós mesmos que, impulsionados e iludidos por nossos desejos, estamos dispostos a fazer o contrário do que o Senhor ordena, tentando obter alguma satisfação ou benefício.

Deixe-me ilustrar: Certa vez aconselhei a uma senhora e em determinado momento falamos sobre a mentira. Ele afirmou para mim que odiava mentira e que nunca mentia. Diante disso pedi que ele imaginasse a seguinte situação, que eu a tivesse levado em minha casa e minha esposa a recebesse com um bolo fresco e um café quentinho. Ao comer o bolo ela percebe que estava muito salgado (pois minha esposa na pressa confundiu o pote de açúcar com o de sal) e resolve tomar café para ajudar o bolo a “descer”. É quando ela descobre que o café também está salgado, e, de repente, minha esposa diz: “A senhora gostou?”. Perguntei o que ela responderia e, claro, ela disse que diria que havia gostado para não magoar a minha esposa que a tratou com carinho. Continuei: “Vamos esquecer, por enquanto, minha esposa... Se a senhora fosse à casa de sua irmã e acontecesse o mesmo, o que responderia quando ela perguntasse se a senhora havia gostado?”, e rapidamente ela disse: “Mas que bolo ruim!”.

Diante disso, perguntei se ela não tinha medo de magoar a irmã e ela disse que a irmã já a conhecia bem. Foi quando demonstrei que na primeira resposta ela não estava pensando em minha esposa, mas em como minha esposa a veria.

O que levou esta senhora a falar uma mentira foi o mesmo que levou as parteiras de Faraó a mentirem: amor próprio. Ela por não querer ser mau vista, as parteiras por não quererem morrer. De igual forma, a mãe que mente ao filho inventando um bicho papão no quarto não o faz pela segurança do filho, mas pelo seu conforto, pois não precisará mais ficar correndo atrás da criança. O filho que mente ao pai sobre seu estado de saúde não o faz por cuidado, mas, talvez, por não querer sofrer ao ver o pai sofrendo. A amiga que mente para a outra não o faz por educação, mas para não ser tida como grosseira.

“O nono mandamento proíbe tudo o que é prejudicial à verdade, ou injurioso, tanto à nossa reputação como à do nosso próximo” (Resposta à Pergunta 78 do BCW: O que o nono mandamento proíbe?). Como cristão você é chamado para deixar a mentira e falar a verdade (Ef 4.25), não dar lugar ao diabo (Ef 4.25), o pai da mentira, antes resistir a ele (Tg 4.7).

Quem o capacita a viver desta forma é o Senhor Jesus Cristo, aquele que é A Verdade e que foi morto porque os homens quebraram o nono mandamento a fim de o acusarem falsamente e levá-lo à morte. Jesus foi condenado, ainda que nunca tenha dito uma mentira sequer, para que você tenha a verdadeira vida e possa viver pautado pela verdade, a Palavra de Deus. Fale sempre a verdade, em amor!

23 dezembro 2019

Do suor do teu rosto comerás

Vivemos um tempo de contradições. Ao mesmo tempo em que a sociedade cobra honestidade de seus políticos, contribui com o aumento da pirataria. Quando minha filha mais velha ainda estava amamentando estivemos no Hospital da Polícia, veja bem, e na recepção alguns policiais estavam em torno de um vendedor de CD´s e DVD´s piratas.

Conheci um irmão que na sua “boa intenção” em evangelizar fazia várias cópias piratas para uma pequena locadora evangélica. Em sua forma de pensar, quanto mais cópias, mais pessoas teriam acesso à mensagem. Desta forma este irmão fazia da evangelização um salvo conduto para o roubo em nome de um bem maior, como uma espécie de Hobin Hood gospel.

“O oitavo mandamento é: ‘Não furtarás’ (Ex 20.15)” (Resposta à Pergunta 73 do BCW: Qual é o oitavo mandamento?”). O Deus que libertou o povo da escravidão do Egito queria ele bem ciente de que não poderia se apropriar daquilo que era de outrem. Tendo em mente que a segunda tábua da lei trata do amor ao próximo é preciso entender que aquele que rouba não está considerando o labor alheio. “O oitavo mandamento proíbe tudo o que impede ou pode impedir, injustamente, o adiantamento da riqueza ou do bem-estar, tanto nosso, quanto do nosso próximo” (Resposta à Pergunta 75 do BCW: O que o oitavo mandamento proíbe?).

Roubar é apropriar-se de algo que foi conseguido de forma digna pelo semelhante. Talvez seja por conta disso que o ditado popular diga que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, o que nem de longe é verdade. É certo que existem pessoas que enriquecem de forma ilícita e que são roubadas, mas neste caso, ambos os ladrões estão em pecado diante de Deus.

A ideia de contentamento está presente no mandamento. Aquele que não se contenta com o que tem será tentado a conseguir o que o seu coração deseja de qualquer forma, até mesmo ilicitamente. Perceba que esta é a preocupação de Agur ao clamar, no livro de Provérbios, “dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o Senhor? Ou, que empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus” (Pv 30.8-9).

A confiança de que se vai receber de Deus o que é necessário livra o homem da tentação de apropriar-se do que é do seu próximo. Isso aponta para a importância da petição ensinada pelo Senhor Jesus na oração do Pai Nosso: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Mt 6.11).

Bem sabemos que o pão não cai do céu, daí entendermos que “o oitavo mandamento exige que procuremos o lícito adiantamento das riquezas e do estado exterior, tanto o nosso como o de nosso próximo” (Resposta à Pergunta 74 do BCW: O que o oitavo mandamento exige?). Isso significa que é preciso trabalhar. Alguns pensam que o trabalho é fruto do pecado, entretanto, o Senhor criou o homem para trabalhar, espelhando assim a imagem de Deus que, segundo Jesus, “trabalha até agora” (Jo 5.17). Quando Deus, após a queda, disse para Adão que ele comeria do suor do seu pão, estava apontando para o fato de que com o pecado, o trabalho seria penoso.

Se você lembrou do maná, quando eu afirmei que sabemos que pão não cai do céu, é preciso entender que mesmo o maná, dado milagrosamente por Deus, exigia trabalho. O maná caia pela manhã e o povo precisava ter fé de que Deus faria chover o maná e sair para colher. Se fossem muito tarde nada achariam, pois com o calor ele derretia. Não podiam deixar para o dia seguinte, pois ele se estragaria. O povo deveria receber de Deus o pão de cada dia, exceto no sexto dia, que antecipava o dia de descanso, em que o povo poderia colher o dobro e o maná não estragava. A lição aqui é que a fé no Deus que concede o pão não exclui o trabalho, mandamento de Deus, por meio do qual o Senhor concede o sustento.

Em Cristo, o trabalho após a queda ganha novo sentido. Adão ouviu que o seu trabalho seria penoso, mas o salmista diz do homem que teme ao Senhor: “do trabalho de tuas mãos comerás, feliz será, e tudo te irá bem” (Sl 128.1). Aquele que teme o Senhor encontra satisfação, pois trabalha como ordena Paulo, não “como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus” (Ef 6.6). Para estes o trabalho não tem por fim ganhar o pão de cada dia, sendo este uma consequência daquilo que está sendo feito, primariamente, para a glória de Deus.

Infelizmente, até entre cristãos há murmuração quanto ao trabalho. Nas redes sociais são frequentes as piadas anunciando com alegria o fim de semana e com tristeza a segunda-feira. Cristão precisam ter prazer no trabalho a fim de cumprir o oitavo mandamento.

Cristãos também glorificam a Deus ajudando o próximo. Isto está implicado no mandamento de não furtar como pode ser notado na carta de Paulo aos efésios. Ao exortar os irmãos para que andassem em santidade o apóstolo ordena que “aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28). Ou seja, não basta apenas não roubar, é preciso trabalhar a fim de acudir a outros. O mandamento estimula doar em vez de se apropriar do que é de outrem.

Em Levítico temos uma lei que demonstra o cuidado para com o outro de forma interessante. Deus ordena àqueles que colhiam em sua terra que não voltasse atrás para colher o que porventura ficasse para trás, além de ordenar que não se colhesse totalmente. Essa ordem que para alguns pode parecer um incentivo ao desperdício tinha por objetivo que o pobre e o estrangeiro pudessem se alimentar, assim, eles também não precisariam roubar, recebendo, por meio dos donos dos campos, o cuidado do Senhor.

Observando o oitavo mandamento você glorifica o Deus que enviou seu único Filho, que por meio de sua obra (trabalho) de redenção o reconciliou com o Pai ao cumprir toda a obra que Adão não conseguiu levar a cabo. É por causa do trabalho de Cristo e do seu resultado, a salvação, doada a você pela graça, que você pode parar de roubar a glória de Deus vivendo para si mesmo e dar a ele o louvor que só a ele é devido.

12 dezembro 2019

A santidade do sexo

Nossa sociedade está cada vez mais erotizada. Seja nas novelas, comerciais, filmes, banca de jornal ou internet, o que não falta é estímulo à sexualidade e sempre de uma forma distorcida. Tudo isso tem contribuído para o afrouxamento dos padrões morais até mesmo entre aqueles que dizem professar o nome de Cristo. Em vez de lutar contra a imoralidade, muitos estão sucumbindo e acabando por viver desta forma.

Não foi assim desde o princípio! Quando o Senhor formou o primeiro casal eles viviam de forma santa e experimentavam a sexualidade dentro do padrão estabelecido por Deus. O Senhor formou o homem e deu a ele uma mulher. Moisés afirma que “por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2. 24-25).

O relacionamento sexual foi dado ao homem dentro de uma relação pactual, logo, ele é devidamente experimentado quando glorifica a Deus e serve ao próximo, neste caso, o cônjuge. Entretanto, com a queda, este padrão foi pervertido, pois o homem criado para amar a Deus e ao próximo passou a viver de forma egoísta, amando a si mesmo e vivendo para os seus próprios interesses, movidos pelos desejos pecaminosos de seu coração ensimesmado. Apesar de o sexo em si não ser pecado, quando os desejos por sexo brotam de um coração cobiçoso e centrado em si mesmo dão origem a toda sorte de perversidades sexuais.

Tudo isso demonstra a importância de se entender o sétimo mandamento. “O sétimo mandamento é: ‘Não adulterarás’” (Ex 20.14 – Resposta à Pergunta 70 do BCW: Qual é o sétimo mandamento?). A exigência mais clara neste mandamento diz respeito à fidelidade no relacionamento conjugal. Foi o Senhor que instituiu o matrimônio e ele trata com seriedade este relacionamento pactual.

Tenho me referido ao casamento como um relacionamento pactual porque biblicamente ele é um reflexo do Pacto de Deus com o seu povo. Esta figura é vista tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Deus é retratado como o marido de Israel e Cristo como o noivo da Igreja. É por conta disso que a fidelidade é um aspecto fundamental no relacionamento pactual, seja de Deus com seu povo, seja do marido com sua esposa. O primeiro mandamento demonstra claramente esta verdade, quando Deus proíbe que Israel tenha outro deus além dele.

É também por conta desta realidade que em ambos os testamentos Deus repreende duramente o seu povo por conta da infidelidade, tratando-o como adúltero (Os 2.2-5; Tg 4.4). O Deus Fiel a seu povo exige que os cônjuges sejam fiéis um ao outro. A infidelidade é algo tão sério que é uma das duas únicas razões em que o Senhor permite o divórcio (1Co 7.10-15). É claro que a infidelidade não torna o divórcio uma obrigação, pois o ideal é sempre o perdão, desde que haja arrependimento.

O sexo é, então, corretamente experimentado dentro de uma relação pactual, a saber, no casamento, sendo exigido por Deus completa fidelidade. Portanto, “o sétimo mandamento exige a conservação da nossa própria castidade, e da do nosso próximo, no coração, nas palavras e nos costumes” (Resposta à Pergunta 71 do BCW: O que o sétimo mandamento exige?). Desta forma, quando alguém se separa do cônjuge por alguma razão que não o adultério ou a deserção e se casa novamente comete adultério e expõe o outro também ao adultério (Mt 19.3-12). É preciso dizer, entretanto, que isso não é um pecado imperdoável. O único pecado que não tem perdão é a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12.31-32). Se há arrependimento, há garantia de perdão da parte de Deus (1Jo 1.9).

É preciso estar atento, pois como afirma Jeffey Black, “qualquer prática sexual que não expresse essa união [pactual], mesmo dentro do casamento, falha em cumprir o propósito designado por Deus. [...] Considerando o que acabamos de dizer, há um grande número de maridos e esposas dentro das nossas igrejas que são ateus funcionais”[1].

Mas o mandamento exige também pureza de pensamento. Isso pode ser notado claramente quando o Senhor Jesus o interpreta. Em vez de tratar somente do adultério em si, ele trata das intenções do coração, por isso afirma que “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28). Com isso o Senhor está ordenando que se mantenham puros os pensamentos. “O sétimo mandamento proíbe todos os pensamentos, palavras e ações impuros” (Resposta à Pergunta 72 do BCW: O que o sétimo mandamento proíbe?).

Cristãos precisam levar “cativo todo o pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.5) lembrando que “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4.8). Em tempos em que a pornografia está ao alcance das mãos, por conta dos smartphones, é preciso fazer aliança com os olhos (Jó 31.1). Há cristãos acreditando que se as coisas acontecem apenas na imaginação não há problema e lançam-se em fantasias virtuais.

Nos relacionamentos interpessoais, é preciso tratar as moças como irmãs (1Tm 5.2), e vice versa, e estar convictos de que a vontade de Deus para o seu povo é que seja santo, se abstendo da prostituição e que “cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com lascívia como os gentios que não conhecem a Deus” (1Ts 4.3-5). John Bunyan ensina que

quando Paulo pede a Timóteo que suplique às moças para que andem conforme a dignidade do Evangelho, também pede que ela faça isso com toda a pureza. É como se estivesse dizendo: ‘Tome cuidado para que, enquanto instrui à santidade, você mesmo não seja corrompido pela concupiscência dos seus olhos’[2].

É claro que você não pode fazer isso por suas forças. Jesus foi categórico: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Mas se você está em Cristo, aquele que deu a vida pela noiva que constantemente adultera contra ele, a fim de santificá-la e apresentá-la perfeita para si mesmo no dia final, você tem condições de experimentar pureza em sua sexualidade, aguardando o dia em que poderá se alegrar com a bênção do relacionamento sexual ou, se já é casado, servir a seu cônjuge nesta área, para a glória de Deus.


[1] Jeffey S. Black – Uma perversão da Intimidade – p. 99 (Coletâneas de aconselhamento bíblico)

[2] John Bunyan. Piedade cristã – os frutos do cristianismo verdadeiro, posição 1185 de 1627

05 dezembro 2019

Não seja um assassino

A violência está cada dia mais comum em nossos dias, tão comum que muitos nem se assustam mais com as atrocidades que são noticiadas dia após dia nos jornais. Entretanto, a violência não é uma novidade de nossos dias. Já no capítulo quatro de Gênesis temos o relato do assassinato de Abel, por seu irmão. A razão? Ele estava irado por Deus ter aceitado a oferta de Abel e rejeitado a sua. Ainda no capítulo quatro um descendente de Caim, Lameque, conta como vantagem às suas esposas o assassinato de um homem e de um rapaz. O motivo? Um homem o havia ferido e um rapaz o havia pisado.

No capítulo seis do livro de Gênesis somos informados que uma das razões do dilúvio foi que a maldade do homem se havia multiplicado. Se avançarmos um pouco mais na leitura perceberemos também que no cativeiro o povo de Deus experimentou a violência, desde a matança dos primogênitos, a mando de Faraó, até a opressão e maus-tratos sobre o povo que havia sido escravizado.

Desde a queda os relacionamentos humanos, que foram estabelecidos para ser de serviço mútuo, foram afetados pelo egoísmo que passou a reinar no coração humano. A violência é fruto deste egoísmo. Deus dá ao seu povo, recém libertado do cativeiro e acostumado com a violência, um mandamento para demonstrar a santidade que há na vida humana.

“O sexto mandamento é: ‘Não matarás’” (Resposta à Pergunta 67 do BCW: Qual é o sexto mandamento?). Literalmente o que está sendo proibido aqui é o assassinato. Há diferença entre matar e assassinar. Quem assassina está matando, mas nem sempre que está matando comete assassinato. O assassinato pressupõe dolo. É em razão disso que o Catecismo ensina que “o sexto mandamento proíbe tirar a nossa própria vida, ou a do nosso próximo, injustamente, e tudo aquilo que para isso concorra” (Resposta à Pergunta 69 do BCW: O que o sexto mandamento proíbe?).

Você percebe esta questão de forma clara nas Escrituras. A pena capital foi estabelecida pelo Senhor assim que Noé saiu da Arca, por ocasião da reafirmação do Pacto. O Senhor determinou que quem assassinasse alguém também seria morto. A razão para isso foi “porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (Gn 9.6). Portanto, a morte de alguém não é injusta “no caso de justiça pública, guerra legítima ou defesa necessária”[1].

A imagem de Deus no homem concede a ele dignidade. É por isso que a vida precisa ser preservada. “O sexto mandamento exige todos os esforços lícitos para conservar a nossa vida e a dos outros” (Resposta à Pergunta 68 do BCW: O que o sexto mandamento exige?).

Isso significa que o descaso para com a vida, tanto a própria quanto à do próximo, constitui-se em quebra do mandamento. Aqui estão incluídos, então, a eutanásia, o aborto, e a forma como os cristãos cuidam de seus corpos. A Escritura oferece vários exemplos de que é preciso o devido cuidado com a vida. Em Efésios temos a ordenança é para que os maridos amem suas esposas, alimentando e cuidando (Ef 5.28,29), no evangelho de Mateus Jesus ordena aos discípulos pregarem o evangelho sob perigo de virem a morrer e, adverte-os a não se exporem a riscos desnecessários fugindo de onde acontecesse a perseguição (Mt 10.23). No primeiro livro dos reis temos também um exemplo claro da preservação da vida do próximo. Jezabel estava matando os profetas do Senhor e Obadias, para salvá-los, os escondeu e alimentou (1Rs 18.4).

João explica isso de maneira bela. Ao ensinar sobre o amor ao próximo ele exemplifica o amor afirmando que quem tem recursos deve amparar o irmão que passa por necessidade. Caso isso não ocorra, “como pode permanecer nele o amor de Deus? (1Jo 3.17), pergunta o apóstolo.

A abrangência do mandamento é, então, maior que simplesmente o assassinato. Você percebe isso na forma como o Senhor Jesus lidou com o sexto mandamento. No sermão do Monte ele afirmou que os seus ouvintes ouviram o que havia sido dito pelos fariseus, que quem matasse estava sujeito a julgamento. Entretanto, os fariseus entendiam que era quebra do mandamento apenas se houvesse morte física. Jesus demonstrou que as exigências da lei eram mais profundas, afirmando que “todo aquele que sem motivo se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.21-22).

Creio que não estarei exagerando ao dizer que a interpretação de Jesus coloca todos os homens como quebradores do sexto mandamento, pois em algum momento da vida, nos iramos de forma pecaminosa. Pense, por exemplo, nos filhos que são disciplinados pelos pais, não é incomum eles se irarem por causa do castigo.

Geralmente as pessoas interpretam o mandamento da mesma forma que os fariseus. Lembro-me que eu ainda era novo convertido e ao evangelizar uma pessoa falei que estamos condenados por não guardar os mandamentos. O rapaz rapidamente respondeu: eu nunca matei ninguém, e ficou assustado quando eu respondi que tinha matado muitas pessoas. Foi aí que expliquei a exigência de Cristo e a nossa incapacidade diante da Lei. Só em Cristo temos esperança de salvação, visto que ele cumpriu a Lei por nós.

Em vez de se irar, visto que

“a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20), você é ordenado a amar, inclusive os inimigos. Quanto aos que fizerem mal a você, lembre-se das palavras de Paulo: “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quando depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.17-21).

Em Cristo, e somente nele, você pode agir assim!


[1] Resposta à Pergunta 136 do CMW: Quais são os pecados proibidos no sexto mandamento?

28 novembro 2019

O respeito aos pais e às autoridades

Vivemos numa sociedade que louva a juventude e deixa seus idosos de lado. Ainda que tenhamos leis que tentam preservar aquela que tem sido chamada de “melhor idade”, grande parte da população não vê a velhice com bons olhos e teme por quando chegar nessa idade. Não é difícil presenciar crianças caçoando e fazendo chacota dos mais velhos.

Essa mesma sociedade, que não respeita os idosos, não respeita também as autoridades. Vivemos uma crise de autoridade que parece ser sem precedentes na história. Em meio a tudo isso estamos nós, povo de Deus e devemos saber como nos posicionar e agir. Sobre isso, temos muito a aprender com o quinto mandamento. “O quinto mandamento é: ‘Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá’” (Resposta à Pergunta 63 do BCW: Qual é o quinto mandamento?).

A lição clara e cristalina do quinto mandamento diz respeito à honra devida aos pais. O Senhor estava orientando a nação de Israel a cuidar bem de seus pais, respeitando-os e honrando-os. Deus leva a observância deste mandamento tão à sério que Moisés, ao orientar o povo sobre o que aconteceria após a travessia do Jordão, mandou que se pronunciasse várias maldições sobre os transgressores do Pacto. Dentre elas, seria “maldito aquele que desprezar seu pai ou a sua mãe” (Dt 27.16), e todo o povo deveria responder amém!

A despeito disso, os fariseus, criando suas regras e interpretações torcidas da lei acabavam por permitir que muitos filhos desonrassem seus pais, deixando de cuidar deles com a desculpa de que estavam servindo a Deus (Mc 7.7-13), pelo que foram duramente repreendidos pelo Senhor Jesus Cristo.

Jesus é aquele em quem vemos o cumprimento perfeito deste mandamento. Entretanto, muitos cristãos, no afã de tentar contradizer a doutrina romana de mediação, que apresenta o episódio da transformação da água em vinho como evidência de tal mediação, dizem que Jesus respondeu à Maria com rispidez ao dizer: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora” (Jo 2.4). Se os que defendem esta ideia estão certos, não há redenção para ninguém, pois Jesus quebrou o mandamento. Em seu comentário do evangelho de João, Carson afirma que, de fato, Jesus repreendeu sua mãe, mas com cortesia[1]. Jesus honrou à Maria, mas, sobretudo, ele honrou o seu Pai do Céu ao ser obediente até à morte de cruz (Fp 2.8).

Implícita no mandamento está a ordem para que os pais eduquem os seus filhos. São eles os responsáveis em ensinar aos filhos a lei do Senhor. Pecadores que são, os filhos nascem inclinados à rebeldia, daí a necessidade de instrução no temor do Senhor. Geralmente, quando pais educam seus filhos, o resultado é que eles respondem à essa educação. O texto de Deuteronômio 21.18-21 aponta para isso. A lei ordenava que os pais entregassem os filhos rebeldes ao apedrejamento, mas note bem o texto. Este filho rebelde é chamado de contumaz, ou seja, teimoso, que persiste em algo. Os filhos entregues ao juízo seriam aqueles que, mesmo educados e disciplinados, insistiam no pecado. A punição era uma consequência do desprezo ao ensino.

Grande parte dos cristãos, ao olhar para o quinto mandamento, pensam apenas na relação dos filhos para com os pais. Entretanto, os teólogos de Westminster vão além. Eles entendiam que “o quinto mandamento exige a conservação da honra e o desempenho dos deveres pertencentes a cada um em suas diferentes condições e relações, como superiores, inferiores, ou iguais” (Resposta à Pergunta 64 do BCW: O que o quinto mandamento exige?).

Por superiores eles entendiam tanto os superiores em idade quanto àqueles que, em decorrência de seus cargos ou ofícios, são investidos de autoridade por parte de Deus. Como ensina o Catecismo Maior, “o alcance geral do quinto mandamento e o cumprimento dos deveres que mutuamente temos uns para com os outros em nossas diversas relações de inferiores, superiores ou iguais. Um bom exemplo dessas relações é ensinado por Paulo na epístola aos efésios. Ele coloca junto o dever de a esposa ser submissa ao marido e do marido amar a esposa, dos filhos honrarem aos pais e dos pais não provocarem os filhos à ira e o dever dos servos de obedecerem aos seus senhores junto com o dos senhores de procederem bem com os servos. Ele se dirige primariamente aos inferiores, a saber, o que estão sob autoridade, sem deixar de falar aos superiores, ou seja, aos que estão numa posição de autoridade.

Isso deve determinar a forma como nos portamos diante das autoridades. Desde que elas não queiram nos obrigar a pecar, devem ser respeitadas e honradas independente de gostarmos ou não delas ou, no caso de autoridades políticas, do partido a que pertencem. Deve determinar também a forma como lidamos com as autoridades eclesiásticas. O Senhor deu oficiais para o cuidado de sua Igreja e estes precisam ser respeitados. Por vezes, são os próprios pais que ensinam os filhos a desrespeitarem as autoridades ao falar mal dos líderes da igreja perto deles. É preciso lembrar que “o quinto mandamento proíbe que negligenciemos ou façamos alguma coisa contra a hora e o dever que pertencem a cada um em suas diferentes funções” (Resposta à Pergunta 65 do BCW: O que o quinto mandamento exige?).

O quinto mandamento promete bênçãos aos obedientes. “A razão anexa ao quinto mandamento é: ‘uma promessa de longa vida e prosperidade (quanto sirva para a glória de Deus e para o bem do homem) a todos aqueles que guardam este mandamento” (Resposta à Pergunta 66 do BCW: Qual é a razão anexa ao quinto mandamento?). Nesse ponto, muitos cristãos questionam a razão de muitos bons filhos morrerem cedo, já que há uma promessa clara.

É preciso lembrar que Deus deu este mandamento ao povo que, libertado da escravidão, estava indo para uma nova terra. É preciso lembrar também que homem algum conseguirá cumprir plenamente este mandamento e, daí, é preciso olhar com louvor e gratidão para Cristo, aquele de quem já foi dito que cumpriu perfeitamente este mandamento.

É por causa de sua obediência que todo aquele que nele crê tem os seus dias prolongados, eternamente prolongados, na nova, prefigurada por Canaã no Antigo Testamento e que está sendo preparada para aqueles que, por meio Jesus Cristo, amam e obedecem ao Pai Eterno e, em virtude disso, podem esforçar-se para honrar os superiores que o Senhor colocar em suas vidas, enquanto estiverem ainda neste mundo.


[1] D. A. Carson. O comentário de João. Ed. Shedd. P. 27

20 novembro 2019

O que está proibido no dia do Senhor?

Esta é uma das questões que tenho ouvido recorrentemente quando se trata do dia do Senhor. O problema, a meu ver, é que geralmente aqueles que a fazem acham que se guardarem o dia do Senhor, como requerido nas Escrituras, perderão oportunidades, principalmente de lazer.

Antes de ir ao seminário precisei passar pelo exame do presbitério que avaliaria a minha vocação. Um dos pastores, que já havia sido pastor de minha igreja e conhecia muito bem a prática comum em minha cidade, me perguntou: “Jovem, você vai à praia antes ou após a Escola Dominical?”. Depois de me ouvir responder que eu ia sempre após, ele emendou outra pergunta: “E você acha que isto está correto?”. Confesso que eu nunca tinha pensado a respeito disso, até porque eu nunca tinha ouvido acerca do que a Confissão de Fé de Westminster estabelece sobre o Dia do Senhor. Respondi que não via problema algum, visto que eu trabalhava de segunda a sábado até o horário do almoço, restando-me pouco tempo para o lazer. Como não havia programação na igreja na parte da tarde, eu aproveitava, então, para meu deleite.

Cito a história apenas para demonstrar que eu também já estive entre aqueles que questionam o ensino, mas, pela graça de Deus, tive meu entendimento mudado. Se atentarmos para o mandamento, veremos que o Senhor foi claro ao estabelecer que em seis dias faríamos toda a nossa obra, mas que o sétimo dia era dele. Um dia em sete, estabelecido exclusivamente para o Senhor. É por isso que creio que ao invés de perguntar o que podemos fazer no dia do Senhor, deveríamos perguntar como podemos honrar o Senhor em seu dia.

Deus ordena que lembremos do dia de descanso para o santificar. Santificar, na Escritura, quer dizer separar, consagrar. “Deve-se santificar o Domingo com um santo repouso por todo esse dia, mesmo das ocupações e recreações temporais que são permitidas nos outros dias, empregando todo o tempo em exercícios públicos e particulares de adoração a Deus, exceto o tempo suficiente para as obras de pura necessidade e misericórdia” (Reposta à Pergunta 60 do BCW: De que modo se deve santificar o Domingo?).

Repare bem, santificamos o Domingo amando a Deus e ao próximo, ou seja, cumprindo o que a Lei ordena. O amor bíblico é sempre dirigido para fora de nós. É por isso que nunca somos incentivados a amar a nós mesmos, sendo o amor próprio uma característica ruim dos homens nos últimos dias, como afirmou Paulo (2Tm 3.2). Jesus mesmo afirmou que aqueles que queriam segui-lo deveriam negar a si mesmos. Nesse sentido, temos no Catecismo o ensino de que, sobretudo no dia do Senhor, adoramos a Deus e servimos ao próximo, em obras de necessidade e misericórdia.

É preciso entender bem isso para não incorrermos em legalismo. Você lembra que Jesus foi acusado de ser um transgressor do sábado? Em Lucas 13 Jesus está ensinando na sinagoga em dia de sábado. Uma mulher que andava encurvada, possessa de um espírito de enfermidade há 18 anos foi àquele lugar e Jesus a curou. Isso fez com que o chefe da sinagoga ficasse indignado e dissesse ao povo: “seis dias há em que se deve trabalhar; vinde, pois, nesses dias para serdes curados e não no sábado” (Lc 13.14). Jesus acusou aqueles homens de hipócritas, demonstrando que, em dia de sábado, eles não deixavam de dar água a seus bois e jumentos. Sendo assim, não haveria razão de não fazer o bem àquela filha de Abraão.

Jesus não quebrou o sábado, mas guardou-o de forma correta. Há cristãos que, na ânsia de combater o ensino adventista, afirmam que Jesus não guardou o sábado. Esse é um erro terrível, pois se Jesus não guardou o sábado, quebrou a Lei de Deus e não poderia se dar em favor de seu povo.

É fácil constatar se você considera importante ou não o Dia do Senhor. Se por quaisquer motivos você deixa de se reunir com o povo de Deus nesse dia, mas esses mesmos motivos não são razão para que você falte o seu trabalho, está claro que você está mais comprometido com o seu reino particular que com o reino de Deus. Se você entende que pode faltar à Escola Dominical por estar muito cansado, mas não tem coragem de ligar para o seu chefe na segundo dizendo que faltará o trabalho porque está precisando dormir um pouco mais, está evidente o lugar que o Senhor ocupa em seu coração.

“O quarto mandamento proíbe a omissão ou a negligência no cumprimento dos deveres exigidos, e a profanação desse dia por meio de ociosidade, ou por fazer aquilo que é em si mesmo pecaminoso, ou por desnecessários pensamentos, palavras ou obras acerca de nossas ocupações e recreações temporais” (Resposta à Pergunta 61 do BCW: O que o quarto mandamento proíbe?). O dia de descanso não é uma licença para a ociosidade, mas para a glória de Deus.

“As razões anexas ao quarto mandamento são: a permissão que Deus nos concede de fazermos uso dos seis dias da semana para os nossos interesses temporais; o reclamar ele para si a propriedade especial do dia sétimo, o seu próprio exemplo, e a bênção que ele conferiu ao dia de descanso” (Resposta à Pergunta 62 do BCW: Quais são as razões anexas ao quarto mandamento?).

Se você entender biblicamente o Dia do Senhor, louvará a Deus que dá a você saúde, capacidade, emprego e sustento, será grato por tudo o que ele tem feito em sua vida, sobretudo, pela salvação concedida por causa da obediência perfeita de Cristo em seu lugar, e ansiará pelo dia em ele promete falar especialmente à sua Igreja, por meio da pregação da Palavra, no culto do Dia do Senhor!

13 novembro 2019

Qual é o dia de descanso?

Um assunto controverso no meio cristão é o que diz respeito ao dia de descanso. Para muitos irmãos, o quarto mandamento não tem validade nos dias atuais. Certa vez eu ensinava a respeito desse tema numa congregação que pastoreei e um dos membros chegou a dizer que a defesa do quarto mandamento é coisa de adventista, pois Jesus aboliu a lei.

É claro que Jesus não aboliu Lei. Já vimos que temos a obrigação de guardar a Lei moral, resumida nos dez mandamentos, e o quarto mandamento não é uma exceção. É preciso olhar para ele dentro de uma perspectiva pactual a fim de perceber quais aspectos continuam e quais descontinuam neste mandamento.

“O quarto mandamento é: ‘Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus, não fará nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e , ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Resposta à Pergunta 57 do BCW: Qual é o quarto mandamento?).

Um dos problemas quando pensamos nesse dia é que a palavra shabbat que aparece no mandamento significa literalmente “descanso”, mas ela é traduzida praticamente transliterada. Assim, em vez de termos “lembra-te do dia de descanso”, temos “lembra-te de dia de sábado”, o que faz com que muitos entendam que se for para guardar um dia, precisa ser necessariamente o sétimo, o nosso sábado.

No Antigo Testamento havia vários dias de descanso. Por esta razão, o Catecismo ensina que “o quarto mandamento exige que consagremos a Deus os tempos determinados em sua Palavra, particularmente um dia inteiro em cada sete, para ser um dia de santo descanso dedicado a ele” (Resposta à Pergunta 58 do BCW: O que o quarto mandamento exige?).

O que vemos no quarto mandamento é que o Senhor, além de prescrever como deve ser o culto, também prescreveu a seu povo o dia em que esse culto se daria. Ainda que em todos os dias devamos fazer todas as coisas para a glória de Deus, há um dia especialmente ordenado para o ajuntamento do povo a fim de adorar o seu Santo Nome. Aqueles que advogam que não é necessário um dia exclusivamente para Deus, por todos os dias serem dele, lançam por terra o ensino e a esperança do descanso final, para o qual aponta o mandamento.

“Desde o princípio do mundo, até à ressurreição de Cristo, Deus designou o sétimo dia da semana para o descanso semanal; e desde então, prevaleceu o primeiro dia da semana para continuar sempre até o fim do mundo, que é o sábado cristão, ou Domingo (o dia do Senhor)” (Resposta à Pergunta 59 do BCW: Qual dos sete dias Deus designou para esse descanso semanal?). No Antigo Testamento o descanso era no mesmo dia em que o Senhor descansou de sua obra de criação, no Novo Testamento, o descanso passa a ser no dia em que o Senhor Jesus Cristo descansou de sua obra redentiva, ressuscitando dentre os mortos.

Com a ressurreição do Senhor no primeiro dia da semana, vemos em Atos dos Apóstolos que a Igreja passa a guardar o domingo (sábado cristão), dia em que o Senhor Jesus descansou de sua obra (At 20.7; 1Co 16.1,2) e que é chamado na Escritura de dia do Senhor (Ap 1.10). A seita Adventista do Sétimo dia acusa os cristãos de ter mudado o dia de adoração do sábado para o domingo por causa do imperador Constantino, contudo, podemos ver que o Antigo Testamento já apontava para este dia.

Em Levítico 23.9-14 há o estabelecimento da festa das primícias. O povo deveria oferecer a Deus um molho das primícias da colheita ao Senhor e o sacerdote moveria a oferta no dia imediato ao sábado (23.12), ou seja, no primeiro dia da semana. Paulo associa a ressurreição de Cristo no primeiro dia da semana à festa das primícias, quando fala do Senhor como sendo “as primícias dos que dormem” (1Co 15.20). Do mesmo modo que a festa das primícias anunciava a boa colheita que viria, a ressurreição de Cristo aponta para a ressurreição daqueles que foram redimidos por ele.

Além disso, quando o Senhor cumpriu a promessa de enviar o “outro Consolador”, a saber, o seu Espírito Santo, o fez no dia de Pentecostes, que era realizado cinquenta dias após a Páscoa. Em um Domingo, então, a Igreja foi revestida de poder para ser testemunha do Senhor em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra (At 1.8; 2.1-4). Portanto, o Antigo Testamento já apontava para o sábado cristão, dia em que a Igreja do Senhor se reúne a fim de prestar culto e honrar aquele que a redimiu. Deve ser o dia mais esperado da semana, dia de serviço a Deus e júbilo diante dele.

Joseph Pipa, em seu excelente livro O dia do Senhor demonstra claramente no capítulo sete que o dia foi mudado, mas a obrigação de sua guarda não. É em razão disso que os crentes precisam estimar este dia, em que o Senhor promete bênçãos a seu povo, quando diz: “Se desviares os pés de profanar o sábado [descanso] e de cuidar dos seus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então te deleitarás no Senhor. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do Senhor o disse (Is 58.13-14).

O dia de descanso, principalmente após a queda, apontava para a vinda do Messias. Agora que Cristo já veio, ele continua sendo um dia em que recordamos e celebramos a sua obra em favor do seu povo, enquanto aguardamos sua segunda vinda. É um dia, então, em que vislumbramos aquele descanso final que teremos por ocasião do retorno do Salvador.

Deleite-se nesse dia!

06 novembro 2019

Deus zela pelo seu nome

O nome de Deus é grafado em hebraico com quatro consoantes: YHWH. Ele é pronunciado por muitos como Yahwéh e traduzido como Javé ou Jeová. A verdade é que ninguém sabe ao certo qual seria a pronúncia do nome em hebraico, pois ela se perdeu com o tempo. Isso ocorreu pelo fato de os judeus não proferirem o nome de Deus, com medo de quebrar o terceiro mandamento. “O terceiro mandamento é: ‘Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão’” (Resposta à Pergunta 53 do BCW: Qual é o terceiro mandamento?).

É claro que o mandamento não proíbe o simples pronunciar do nome de Deus, como entenderam de forma legalista os judeus. Fosse isso proibido não teríamos tantas vezes o nome de Deus grafado em vários livros do Antigo Testamento e presente em vários salmos que eram cantados pelo povo de Deus. Por outro lado, o que vemos em nossos dias é uma atitude diametralmente oposta. Não é difícil ouvir piadas com o nome de Deus e imagens supostamente humorísticas que usam o seu nome de forma leviana.

“O terceiro mandamento exige o uso santo e reverente dos nomes, títulos, atributos, ordenanças, palavras e obras de Deus” (Resposta à Pergunta 54 do BCW: O que o terceiro mandamento exige?). Apesar de o mandamento estar na forma negativa, ou seja, dizendo o que não se deve fazer, a sua exigência está implícita, pois não basta não usar o nome de Deus em vão, é preciso honrá-lo com nossos atos e palavras.

Quando o Senhor Jesus ensinou seus discípulos a orar, a primeira petição que ensinou foi: “santificado seja o teu nome” (Mt 6.9). Precisamos desejar e rogar ao Senhor que nos ajude nesta tarefa. Você honra o nome do Senhor ao viver de modo digno do evangelho. Se aqueles que o rodeiam e sabem que você é cristão não percebem coerência entre o que você fala e a forma como você vive, o nome de Deus será desonrado. Paulo acusou os judeus de fazerem exatamente isso. Depois de demonstrar a incoerência de seu viver, afirmou: “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão de lei? Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa” (Rm 2.23-24).

Somos cristãos, levamos o nome do nosso Senhor conosco e precisamos honrá-lo. No Salmo 15 Davi afirma que uma das características daquele que irá morar com o Senhor no seu santo monte é jurar com dano próprio e não se retratar, isto é, é manter a palavra que foi empenhada ainda que levando prejuízo, pois todo aquele que empenha a palavra o faz em nome do Senhor. Por esta razão Jesus ensinou que os juramentos precisam ser sempre cumpridos ao dizer, “seja, o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno” (Mt 5.37 – NVI). Qualquer quebra de juramente é uma mentira, cujo pai é o diabo (Jo 8.44).

Além de exigir honra ao nome do Senhor “o terceiro mandamento proíbe toda profanação ou abuso de quaisquer coisas por meio das quais Deus se faz conhecer” (Resposta à Pergunta 55 do BCW: O que o terceiro mandamento proíbe?). Esse ponto é claro no mandamento. A palavra que é traduzida em nossa Bíblia por “vão” pode ser entendida como “falsidade” ou ainda “vaidade”. O que está sendo proibido, portanto, é que o nome do Senhor não seja tomado de forma abusada.

Uma das formas de usar o nome santo de Deus de forma abusada já foi dita, a saber, jurando-se falsamente. Mas há outras formas de profanar o nome de Deus. Quando ele é usado de forma mística ou debochada, como em muitos chavões evangélicos ou quando é usado em piadas, muitas vezes na boca dos próprios cristãos.

A resposta do Catecismo Maior, que amplia a do Breve Catecismo, aponta como quebra do mandamento “qualquer perversão da Palavra ou de qualquer parte dela” e “a defesa de doutrinas falsas” (Pergunta 113 do CMW). Aqui temos, pelo menos, dois problemas sérios. Um está relacionado com os falsos mestres, que torcem a Palavra de Deus. Muitas vezes, cristãos sérios têm deixado de condenar os falsos ensinos, sob a desculpa de tolerância. Quando Paulo tomou conhecimento daqueles que pervertiam a fé dos cristãos em Creta escreveu a Tito dizendo que era preciso fazer calar esses falsos mestres.

Vemos esse problema de forma clara naqueles que fazem promessas em nome de Deus, afirmando que os crentes não terão mais problemas financeiros ou de saúde, mediante o cumprimento de campanhas e afins.

O outro problema diz respeito à interpretação errada das Escrituras. Nesse sentido, aqueles que fazem parte de uma igreja confessional, como é o caso da Igreja Presbiteriana do Brasil, estão mais resguardados, pois a Confissão de Fé e os Catecismos que subscrevemos como correta interpretação da Bíblia servem de baliza para o entendimento doutrinário. Entretanto, é triste constatar que não são poucos os que cometem perjúrio, que já vimos também ser quebra do terceiro mandamento, e ensinam de forma contrária ao que cremos, pervertendo a fé da igreja.

É preciso levar tudo isso muito a sério. Como ensina o Breve Catecismo, “a razão anexa ao terceiro mandamento é que, embora os transgressores desse mandamento escapem do castigo dos homens, o Senhor nosso Deus não os deixará escapar do seu justo juízo” (Resposta à Pergunta 56 do BCW: Qual é a razão anexa ao terceiro mandamento?). Ele zela pelo seu nome. Ao povo de Israel ele disse: “Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não dou a outrem” (Is 48.11).

Como parte do povo que se chama pelo nome de Deus (2Cr 7.14; Dn 9.19), você deve viver honrando o Senhor Jesus Cristo, a quem Deus “o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11).

30 outubro 2019

Você precisa ver para crer?

“O segundo mandamento é: ‘Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo da terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Resposta à Pergunta 49 do BCW: Qual é o segundo mandamento?”).

Se o primeiro mandamento estabelece o objeto de culto, isto é, quem deve ser adorado, o segundo trata da maneira como Deus deve ser adorado. Não sei mencionar quantas vezes ouvi a mesma ladainha: “Deus não se importa com a maneira, mas com a sinceridade do coração”. Não era assim que entendiam os nossos pais puritanos. Nas respostas às perguntas 50 e 51 do Breve Catecismo temos: “O segundo mandamento exige que recebamos, observemos e guardemos puros e intactos o culto e as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra” (Resposta à Pergunta 50 do BCW: O que o segundo mandamento exige?) e “o segundo mandamento proíbe adorar a Deus por meio de imagens, ou de qualquer outra maneiras não prescrita em sua Palavra” (Resposta à Pergunta 51 do BCW: O que o segundo mandamento proíbe?).

A ideia aqui é rejeitar qualquer coisa que não esteja prescrita nas Escrituras para a adoração a Deus. É ele e somente ele que estabelece o culto. Temos exemplos claros na Escritura de que as coisas são assim. Quando o Senhor veio em socorro de nossos primeiros pais no Éden, após o pecado, rejeitou a “roupa” de folhas que eles fizeram e providenciou novas vestimentas. Para isso, o sangue de uma animal foi derramado e a mensagem aqui está explícita: o pecado leva à morte.

Quando Caim e Abel se apresentaram diante do Senhor, um trouxe do fruto da terra, enquanto outro trouxe das primícias do seu rebanho. Deus rejeitou o culto de Caim e aceitou o de Abel. A razão: “Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gn 3.4,5). Deus julgou tanto a intenção quanto a forma. Nesse ponto, talvez alguém questione (esse já foi também meu questionamento) que eles não sabiam como deveriam adorar, entretanto, creio que o princípio estabelecido na Confissão de Fé de Westminster pode nos ajudar a pensar: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.VI).

Jeremiah Burroughs demonstra este princípio de forma magistral ao apontar que apesar de não haver nenhuma proibição de se oferecer fogo estranho ao Senhor, Nadabe e Abiú foram mortos porque fizeram isso. Ele diz que “Deus queria que eles percebessem a sua intenção. No final do capítulo 9 [de Levítico], Deus mandou fogo do céu e lhes ordenou que conservassem constantemente esse fogo no altar para que nunca se apagasse. Parece que Deus queria que eles percebessem a sua intenção, [...] embora Deus jamais tenha lhes dito diretamente nestas palavras: ‘Deveis usar unicamente este fogo e nenhum outro’, ele queria que eles tivessem entendido a sua vontade. Por essa razão, o pecado deles consistiu em oferecer fogo estranho”[1]. Temos ainda os exemplos de Saul (1Sm 15) e Uzias (2Cr 16) reprovados por Deus ao fazer o que não lhes era ordenado.

Terry Johnson afirma que o princípio de fazer somente o que Deus ordenou ficou conhecido como “princípio regulador”. O princípio católico romano, luterano e anglicano é que existem normas, mas se alguma coisa não é expressamente proibida, pode ser feita. “A prática reformada é mais rigorosa. Ela afirma que tudo aquilo que não for ordenado pela Escritura (ou por mandamento, exemplo, ou ainda dedução de princípios abrangentes) é proibido”[2].

O segundo mandamento, então, se ocupa do culto ao Senhor. “As razões anexas ao segundo mandamento são a soberania de Deus sobre nós, o seu direito de propriedade sobre nós e o zelo que ele tem pelo seu culto” (Resposta à Pergunta 52 do BCW: Quais são as razões anexas ao segundo mandamento?). Mas não é só isso, vimos que é exigido que guardemos puros o culto e as ordenanças religiosas.

Não são poucos os que não veem problemas em fazer representações de Jesus ou das pessoas da Trindade. A proibição é de se fazer para adorar, dizem eles. A despeito disso, temos no Catecismo Maior a resposta ampliada que trata do segundo mandamento e podemos ler que é pecado “fazer qualquer imagem de Deus, de todas ou de qualquer das três Pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente, em qualquer forma de imagem e semelhança de alguma criatura” (Pergunta 109).

Em Deuteronômio Moisés lembrou ao povo que por ocasião de terem recebido os mandamentos o Senhor vos falou [com o povo] do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma [...] Guardai, pois, cuidadosamente a vossa alma, pois aparência nenhuma vistes no dia em que o Senhor, vosso Deus, vos falou em Horebe, no meio do fogo; para que não vos corrompais e vos façais alguma imagem esculpida na forma de ídolo...” (Dt 4.12-16). O texto é claro. Deus não se mostrou de forma aparente para que o povo não inventasse de tentar reproduzir em imagens que porventura tivessem visto.

E quanto a Jesus?, pode alguém perguntar, ele não tinha aparência? Os homens não o viram? Sim Jesus tinha um corpo e foi visto. João afirma que eles viram “a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Paulo afirma que ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). Ainda assim, ninguém nunca retratou o Senhor. Isso, por si só, deveria chamar a atenção. A segunda Confissão Helvética estabelece que “embora Cristo tenha assumido a natureza humana, não a assumiu para fornecer modelo a escultores e pintores. Afirmou que não veio ‘revogar a lei ou os profetas’ (Mt 5.17). E as imagens são proibidas pela lei e pelos profetas (Dt 4.15; Is 44.9)”.

Aqueles que fazem ilustrações de Jesus cairão em um de dois erros: Ou farão uma imagem de Deus, o que é proibido, ou dirão que ali está representado somente o homem Jesus, incorrendo em heresia ao separar a natureza divina da natureza humana de nosso Salvador.

Quando Filipe pediu a Jesus para que lhes mostrasse o Pai, ouviu do Mestre: “Há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Um dia, todos os crentes terão o mesmo privilégio. Verão o Pai por meio do Filho, na glória eterna. Até lá, cabe a nós a mesma palavra que Jesus disse a Tomé: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29).


[1] Jeremiah Burroughs. Adoração evangélica. P. 13,14

[2] Terry L. Johnson. Adoração reformada. P.31,32

22 outubro 2019

Cuidado com a idolatria

Você já deve ter ouvido uma ou várias vezes alguém afirmar: “o importante é ter fé, não importa em que”, ou “o importante é ter uma religião, seja qual for”. Este pensamento é muito frequente, principalmente em nossos dias, onde a máxima pós-moderna de que não há verdade ou absolutos é a tônica de muitas conversas.

Lembro-me que em minha adolescência, quando deixei de frequentar a igreja romana, sempre ouvia a minha mãe repetir: “Junior, você precisa de uma igreja, você precisa de um caminho”, ainda que ela mesma não frequentasse nenhuma. Mas isso era só um detalhe, é importante ter uma fé. Será mesmo que o importante é ter fé, ou uma religião, independente de qual seja ou daquilo que se creia?

“O primeiro mandamento é: ‘Não terás outros deuses diante de mim’” (Resposta à Pergunta 45 do BCW: Qual é o primeiro mandamento?”. É importante lembrar o contexto. O povo recém libertado do Egito, onde a adoração à vários deuses era a regra, está sendo conduzido pelo Senhor para a terra da promessa. No deserto Deus está tratando o seu povo e mudando a sua visão de mundo ao revelar-se como o Criador, ao proclamar as suas obras e declarar o seu caráter, por meio de Moisés.

O mandamento é claro! Só há um Deus verdadeiro. Você percebe isso na expressão “Não terás outros deuses”. O ensino aqui não tem por objetivo que o povo escolha um entre várias opções de deuses, mas enfatizar a existência de que há somente um Deus verdadeiro. “O primeiro mandamento exige de nós conhecer e reconhecer a Deus como único Deus verdadeiro e nosso Deus, e como tal adorá-lo” (Resposta à Pergunta 46 do BCW: O que o primeiro mandamento exige?).

A verdade de que só existe um Deus vivo e verdadeiro deixa clara a loucura da idolatria e a inutilidade daqueles que os homens estabelecem como deuses em seu coração. O povo de Israel, que agora recebia a Lei do Senhor, tinha bem vivo em sua mente o confronto entre YAHWEH e os falsos deuses do Egito, por ocasião das dez pragas. “As pragas caem sobre áreas da vida social supostamente protegidas por deuses do Egito, demonstrando assim o poder do Senhor em relação aos deuses do país mais poderoso do mundo” (Nota da Bíblia de Estudo NAA). Entretanto, mesmo diante de toda esta verdade, não foram poucas as vezes que o povo de Deus incorreu em idolatria, durante a sua história, quebrando o mandamento.

É preciso muito cuidado a fim de não incorrermos neste pecado, mas muitos cristãos acham que estão livres da idolatria por considerarem como idolatria somente as imagens de escultura. Entretanto, como todo o pecado, a idolatria começa no coração. A representação iconográfica de algum falso deus é apenas a expressão daquilo que já ocorreu anteriormente no coração. Calvino, acertadamente, afirma que “é lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos”[1]. Por conta disso Deus condena no livro do profeta Ezequiel aqueles que levantam ídolos em seus corações.

Sempre que você buscar em coisas, pessoas ou até mesmo em si mesmo, aquilo que só pode ser encontrado plenamente no Senhor estará incorrendo em idolatria. A idolatria é tão enganosa que muitas vezes nos enganamos. Quando conhecemos alguém que não contribui financeiramente com a igreja, por exemplo, pensamos rapidamente que se trata de um sovina, alguém que ama demais o dinheiro. Por outro lado, quando conhecemos um dizimista fiel e pontual em sua oferta tendemos a achar que ali está um irmão fiel, que ama a Cristo. Entretanto, ambos podem estar amando o dinheiro de forma distinta. O primeiro ama tanto que não se importa com a ordenança bíblica para as contribuições, já o segundo, ama tanto o dinheiro que tem medo que Deus o amaldiçoe tirando os outros noventa por cento que ele acha que são dele, sendo esta a única razão de ser dizimista.

A religião cristã é de caráter exclusivista! Só há um Deus verdadeiro e, como afirma João, “sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” – daí o apóstolo concluir exortando – “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5.20). Valho-me do que escreveu Calvino, comentando o livro de Efésios, “do que ficou dito até aqui, a conclusão será facilmente formulada, ou seja: que fora de Cristo nada existe senão ídolos”[2].

“O primeiro mandamento proíbe negar, deixar de adorar ou glorificar ao verdadeiro Deus, como Deus, e nosso Deus, e dar a qualquer outro a adoração e a glória que só a ele são devidas” (Resposta à Pergunta 47 do BCW: O que o primeiro mandamento proíbe?”. Deus requer do homem exclusividade em seu coração. Por causa da libertação efetuada por Deus ao povo o Senhor não dividiria o seu louvor com quem quer que fosse. “As palavras ‘diante de mim’, no primeiro mandamento, nos ensinam que Deus, que vê todas as coisas, toma conhecimento e muito se ofende do pecado de ter-se em seu lugar outro deus” (Resposta à Pergunta 48 do BCW:O que nos é ensinado, especialmente, pelas palavras ‘diante de mim’, no primeiro mandamento?).

O mandamento chama a atenção para o fato de que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36). Da mesma forma que o Senhor libertou a Israel do cativeiro e ordenou que o povo só tivesse olhos para ele, você é chamado a olhar exclusivamente para Jesus Cristo, autor e consumador da sua fé, que o libertou do império das trevas a fim de que você viva exclusivamente para ele.


[1] João Calvino. Institutas, Livro I (Ed. Clássica), p. 107

[2] João Calvino. Efésios, p. 68

15 outubro 2019

O dever de guardar os mandamentos

Há duas atitudes opostas, mas igualmente terríveis, que muitos tomam em relação à Lei de Deus. A primeira é chamada de legalismo. Legalismo é a tentativa de justificar-se mediante o cumprimento da lei. Como após a queda o homem se tornou incapaz de cumprir a lei de forma perfeita, ele acaba, muitas vezes, por rebaixar o padrão da lei a fim de conseguir cumpri-la.

Temos um exemplo disso no sermão do monte. Alguns pensam, erroneamente, que Jesus estava ali aumentando as exigências da Lei, por causa das expressões “ouvistes que foi dito aos antigos...” e “eu, porém, vos digo...” repetidas algumas vezes pelo Senhor. Jesus não estava aumentando as exigências da Lei, antes estava corrigindo o ensino errado dos fariseus que a rebaixaram.

Um exemplo claro é o sexto mandamento. Para os fariseus, somente aquele que tirasse a vida de alguém é que quebrava o mandamento. É por isso que na ocasião em que Pilatos quis entregar Jesus aos judeus, para que ele fosse julgado segundo as suas leis, ouviu: “A nós não nos é lícito matar ninguém” (Jo 18.31). Perceba a hipocrisia aqui! Para eles, entregar alguém para ser morto não era o mesmo que matar. Diferente disso, Jesus afirmou no sermão do monte que aquele que se irasse sem motivo contra alguém já teria cometido assassinato. Jesus considera também a intenção do coração e não somente a atitude.

Mas não pense que há novidade aqui. Basta lembrar que Davi, quando foi repreendido pelo Senhor por meio do profeta Natã, ouviu a seguinte acusação: A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom (2Sm 12.8). De acordo com a intepretação dos fariseus do Novo Testamento, Davi não teria culpa, visto que quem matou Urias foram os amonitas. Entretanto, diante do Senhor, a entrega com intenção de que outro o matasse já foi considerada a quebra do sexto mandamento. O rebaixamento das exigências da Lei pelos fariseus, a fim de conseguir guarda-la e serem salvos, foi um pecado contra Deus.

A outra atitude é o antinomismo. Literalmente antinomismo quer dizer “contra a lei”. A atitude antinomista pode ser percebida, por exemplo, naqueles que afirmam que antigamente estávamos debaixo da Lei, mas agora estamos debaixo da graça. Estes entendem que a Lei não tem nenhuma validade para a igreja, pois Jesus a aboliu. Curiosamente, os antinomistas vão afirmar que a Lei que vale hoje é a lei do amor. Isso é uma tremenda ironia, pois já vimos que o Senhor Jesus, ao responder qual seria o maior dos mandamentos, afirmou que era amar a Deus e ao próximo, dizendo ainda que “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.38). A ironia se dá, então, quando em nome do que denominam de lei do amor, os antinomistas rejeitam a Lei moral, resumida por Jesus como sendo uma lei do amor a Deus e ao próximo.

Estas duas atitudes estão erradas! A fim de viver de modo agradável diante do Senhor, o homem não pode fazer o que ele entende que seja o amor. Lembro-me que certa vez, numa escola dominical em que o professor falava sobre a disciplina, ouvi uma senhora que visitava a nossa igreja afirmar que em sua igreja não existia disciplina, pois em uma igreja que existe disciplina, falta amor. É esse tipo de conclusão que haverá toda vez que os cristãos deixarem a objetividade da Lei para seguir os seus próprios conceitos.

Somos chamados a obedecer ao Senhor e aos seus mandamentos, não para ser salvos, como já vimos, mas para horar aquele que nos salvou. Se você observar o texto do capítulo 20 de Êxodo perceberá que “o prefácio dos dez mandamentos é: ‘Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão’” (Resposta à Pergunta 43 do BCW: Qual é o prefácio dos dez mandamentos?).

Após libertar o povo da escravidão do Egito, o Senhor entrega a ele a sua lei moral, resumida em dez mandamentos, por intermédio de Moisés. Ele relembra ao povo quem ele era, o Senhor. A palavra Senhor, grafada em maiúsculas em nossas Bíblias, é a tradução do tetragrama hebraico YHWH, outras vezes traduzido por Javé ou Jeová. Este foi o nome com que Deus se apresentou a Moisés, afirmando que era aquele que existe desde o início. Este Deus soberano e criador é que se dirigia ao povo. Suas palavras, que são uma espécie de prefácio à lei, apontam para o fato de que para haver obediência, deve haver antes libertação. É como se Deus estivesse dizendo: Eu tirei vocês da escravidão do Egito, agora vivam em obediência”.

Portanto, “o prefácio dos dez mandamentos ensina-nos que nós temos a obrigação de guardar todos os mandamentos de Deus, por ser ele o Senhor nosso Deus e nosso Redentor” (Resposta à Pergunta 44 do BCW: O que nos ensina o prefácio dos dez mandamentos?). É claro que sempre haverá aqueles que dirão que isso é Antigo Testamento e que vivemos no período do Novo Testamento, por isso é importante atentar ao que temos nos escritos de Paulo.

Paulo escreve aos gálatas combatendo a ideia legalista da salvação pela lei. Ele afirma “que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, [...] pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (Gl 2.16). Quando Paulo diz no capítulo 5 que “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” e que em razão disso os gálatas não deveriam mais sujeitar-se à “escravidão” da lei, é no sentido de que a salvação não era por meio dela. Entretanto, ele faz questão de dizer que a liberdade conquistada por Cristo era limitada pelo amor a Deus e ao próximo, ou seja, a lei era o parâmetro para viver a liberdade. Daí ele ter dito que “toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14).

Mas porquê Paulo fala que a lei se cumpre em amar ao próximo? Amar ao próximo está acima do amor à Deus? O apóstolo João nos ajuda a entender isso ao escrever que se alguém diz amar a Deus, mas odeia o irmão é mentiroso, “pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20).

Como cristão, é seu dever guardar os mandamentos. O seu Senhor, Jesus Cristo, que o libertou da escravidão do pecado, ordena que você ame a Deus e ao próximo. O amor ao próximo é a evidência de que você ama a Deus, pois este amor fraternal só é possível por meio de Jesus Cristo, o libertador. Viva em obediência, para a glória dele!

08 outubro 2019

A regra de obediência

Tenho um filho de 5 anos de idade. Em uma de minhas conversas com ele após uma desobediência, a fim de ensinar que ele não pode fazer o que bem entende, expliquei que todos nós estamos debaixo de algum tipo de autoridade e que precisamos obedecer. Em um dos exemplos que dei disse que quando ele trabalhar terá um chefe e que não poderá fazer as coisas do jeito dele, sob o risco de ser mandado embora. Passam uns dois dias e ele pergunta para a mãe: “Quando eu trabalhar eu tenho de ter um chefe?”, sim, respondeu ela, e perguntou a razão do questionamento dele. A resposta foi ligeira: “Eu quero ser o chefe!”.

A questão do meu garotinho serve para mostrar o que é o anseio natural do homem após a queda, não querer obedecer a ninguém. Entretanto, a despeito de sua tentativa de autonomia, o homem foi criado para ser um servo e, como tal, deve satisfação ao seu Senhor.

“O dever que Deus exige do homem é obediência à sua vontade revelada” (Resposta à Pergunta 39 do BCW: O que Deus exige do homem?), ensina a pergunta 39 do Breve Catecismo. Perceba duas lições importantes aqui. A primeira é que Deus revelou a sua vontade ao homem. Isso é visto já no primeiro livro da Bíblia. Adão é formado e Deus revela qual a sua vontade para ele. Ele deveria encher a terra e dominar sobre ela. Além disso, ele não poderia tomar da árvore do conhecimento do bem e do mal, a única que foi vedada por Deus. Para isso, Deus deu a ele uma auxiliadora idônea. A segunda é que a obediência foi requerida. Caso desobedecesse, o homem experimentaria a morte.

Uma das questões que me chamam mais atenção na narrativa da queda é o fato de a serpente ter se dirigido primeiramente à mulher. Perceba algo aqui. Adão devia obediência a Deus, mas a mulher, além de obedecer a Deus, deveria obedecer àquele de quem era ela uma auxiliadora, seu marido Adão. É para ela que Satanás sugere que não era preciso obedecer a ninguém, nem a Adão, tampouco ao Senhor, pois se tomasse do fruto proibido, todos seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal. Logo, não haveria necessidade de alguém para apontar o que é bem ou o que é mal. O desejo por autonomia leva homem e mulher à ruína.

Há quem pense que a Lei foi dada ao homem somente no Sinai. Entretanto, temos no Breve Catecismo a pergunta: “O que revelou Deus primeiramente ao homem para regra de sua obediência?”, seguida da resposta que diz: “A regra que Deus revelou primeiramente ao homem para sua obediência foi a lei moral” (Pergunta 40 do BCW). Este ensino refere-se ao que temos na epístola aos Romanos. Em Romanos Paulo demonstra que tanto judeus quanto gentios estão sob a condenação de Deus. Os gentios porque Deus se revelou na criação, o que os torna indesculpáveis. Os judeus porque tinham a revelação especial da Palavra de Deus. Entretanto, ainda que os gentios não tivessem acesso à revelação especial, Paulo afirma que por vezes eles agem, “por natureza”, de acordo com a lei e afirma que “estes mostram a norma da lei gravada no seu coração” (Rm 2.15).

Mas o que é essa lei moral, gravada no coração? “A lei moral está resumidamente compreendida nos Dez mandamentos” (Resposta à Pergunta 41 do BCW: Onde a lei moral está resumidamente compreendida?”). Neste ponto, alguém poderia dizer: “Está vendo? Isso mostra que a lei foi dada somente no Sinai. Foi lá que Deus deu os Dez mandamentos à Moisés!”, mas pense um pouco mais comigo. Quando Paulo escreveu aos efésios ensinou que eles deveriam andar em santidade. Esta santidade consistia em abandonar padrões antigos e assumir novos padrões, daí ele dizer que os que roubavam, quebrando o oitavo mandamento, deveriam agora trabalhar fazendo com as próprias mãos para acudir ao necessitado (Ef 4.28).

Isso demonstra que o padrão de santidade de Deus exige trabalho e doação em vez de roubo. Ora, não foi isto que Deus revelou a Adão no Éden? Adão deveria trabalhar. A lei moral foi dada no Éden de forma positiva. O padrão normativo estabelecido por Deus está na criação. Como exemplo, o homem deveria deixar pai e mãe e casar-se com a sua esposa (sétimo mandamento), deveria trabalhar (oitavo mandamento) e deveria dar ouvidos à verdade da Palavra (nono mandamento), sendo pecado a desobediência a este padrão. Por isso, após a queda, Deus dá a lei em forma de tábuas no Sinai, para que o homem viva de acordo com o padrão original, por isso não pode adulterar, nem roubar, tampouco dar falso testemunho, visto de forma positiva nos exemplos citados. A forma como Deus dá o quarto mandamento também aponta para a lei na criação. Repare que ele inicia com “lembra-te do dia de descanso” (Ex 20.8), demonstrando o padrão estabelecido na criação (Gn 2.3). O Pacto de obras consistia na obediência à esta lei, para justificação ou condenação[1].

Mas pense um pouco mais. “Os dez mandamentos se resumem em amar ao Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças e de todo o nosso entendimento; e ao nosso próximo como a nós mesmos” (Resposta à Pergunta 42 do BCW: Em que se resumem os Dez mandamentos?). Esta resposta à pergunta 42 do BCW, é exatamente a resposta de Jesus aos fariseus que o interrogaram acerca do mandamento mais importante. Jesus resume desta forma, pois os quatro primeiros mandamentos versam sobre o amor a Deus e os seis últimos tratam do amor ao próximo.

Se você acha que aqueles que advogam que a Lei foi dada somente no Sinai estão certos, talvez se surpreenda com o fato de José, que resistiu à tentação da esposa de Potifar, ter dado como razão para a sua atitude exatamente o resumo da Lei, ao dizer: “Ele [Potifar] não é maior do que eu nesta casa e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como, pois, cometeria eu tamanha maldade [quebrando o sétimo mandamento e não amando o próximo] e pecaria contra Deus [não amando o Senhor] (Gn 39.9). José resistiu à tentação por amar a Deus e a Potifar.

A regra de obediência, dada por Deus a Adão e à sua posteridade como um pacto de obras foi a sua Lei Moral, reflexo de seu caráter santo. É por isso que Paulo pode afirmar que “a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom” (Rm 7.12). É claro que após o pecado o homem não consegue cumprir perfeitamente esta lei, contudo, o Catecismo Maior ensina que a lei moral continua útil a todos os homens após a queda, a fim de instruí-los acerca de Deus, seu caráter e sua vontade. Além disso, ela é útil aos não regenerados para que tenham consciência de sua imperfeição e busquem a Cristo. Por fim, ela é útil aos regenerados a fim de lhes mostrar o quanto devem a Cristo e buscarem viver em acordo com ela, não para serem salvos, mas para glorificar aquele que os salvou, Jesus Cristo, que cumpriu cabalmente toda a Lei (Mt 5.17).

Diante de tudo isso, como Davi, você precisa estimar a Lei do Senhor e considera-la mais desejável que o ouro e mais doce que o mel e o destilar dos favos.


[1] Ver Confissão de Fé de Westminster, XIX.I,V,VI

01 outubro 2019

Na vida, na morte e eternamente

No meu primeiro ano de convertido ao Senhor eu escutava sempre uns amigos que repetiam constantemente o comecinho de uma música: “É bênção, sobre bênção, vivendo cada dia no Senhor”. É isto que temos, literalmente, nas perguntas 36 a 38 do Breve Catecismo. A pergunta 32 já havia estabelecido que os que são chamados eficazmente gozam nesta vida de três bênçãos, a justificação, a adoção e a santificação.

Agora temos três perguntas que tratam das bênçãos que acompanham estas bênçãos já citadas. A primeira delas ensina que “as bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, a adoção e a santificação, ou delas procedem, são: certeza do amor de Deus, paz de consciência, gozo no Espírito Santo, aumento de graça e perseverança nela até o fim” (Resposta à “Pergunta 36 – Quais são as bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, a adoção e a santificação, ou delas procedem?).

Isto é maravilhoso! Tem já nesta vida a certeza do amor de Deus. Ao crer naquilo que o Senhor Jesus fez na cruz do Calvário, temos uma demonstração maravilhosa deste amor. Paulo afirma que “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). O amor de Deus não é mera declaração. Declarar o amor é fácil, se você percorrer as delegacias notará a quantidade de denúncias de mulheres que foram espancadas pelos companheiros que diziam amá-las. Deus não somente declara o amor, mas prova que ama. O apóstolo João, num dos textos mais conhecidos pelos cristãos, declara esse amor dizendo que “Deus amou o mundo” – e demonstra como ele fez isso, ao continuar – “de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

É esse entendimento que levará você a experimentar paz de consciência. Saber que a sua dívida para com Deus já está paga, de uma vez por todas, pelo seu Redentor, levando você a se alegrar a despeito das circunstâncias adversas que possa enfrentar em sua vida. Levará você também a crescer em graça diante do Senhor, com a firme certeza que tinha Paulo “de que aquele que começou boa obra em vós há de completa-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Mas as bênçãos não são somente para viver. “A alma dos fiéis, na hora da morte, é aperfeiçoada em santidade, e imediatamente entra na glória; e o corpo, que continua unido a Cristo, descansa na sepultura até a ressurreição”. Ao ser justificado, adotado e santificado, o cristão aprende e cresce a cada dia mais no conhecimento da Palavra e como disse o puritano John Flavel, “As Escrituras ensinam-nos a melhor maneira de viver, a mais nobre forma de sofrer e o modo mais confortável de morrer”[1].

Você consegue perceber esta verdade bíblica claramente quando Paulo escreve aos filipenses e afirma que para ele “o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21) e que “partir e estar com Cristo [...] é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). O apóstolo estava bastante convicto que, para o crente, a morte não é o final. Como afirmou de forma maravilhosa outro puritano, Thomas Brooks, “a morte é outro Moisés: livra os crentes da escravidão e de fazer tijolos no Egito. É um dia ou um ano de jubileu para um espírito gracioso – o ano em que ele sai livre de todos os feitores cruéis que tinham há muito o feito gemer”[2].

Entretanto, a mesma convicção de Paulo e dos puritanos citados não está presente na vida de muitos cristãos. Estes, ao pensar na morte, a veem como um problema, como algo que os tirará a oportunidade de gozar das alegrias desta vida. Cristãos assim precisam estar convictos a respeito da verdade da ressurreição. Quando escreveu aos coríntios corrigindo os ensinos errados daqueles que afirmavam que não haveria ressurreição Paulo afirmou que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). Os crentes precisam estar bem convictos de que o melhor que puderem experimentar nesta vida não se compara ao que teremos no porvir.

Na morte, o corpo dos crentes “descansa na sepultura até a ressurreição” e “na ressurreição, os fiéis, sendo ressuscitados em glória, serão publicamente reconhecidos e absolvidos no dia do juízo, e tornados perfeitamente felizes no pleno gozo de Deus por toda a eternidade” (Resposta à “Pergunta 38: Quais são as bênçãos que os crentes recebem de Cristo na ressurreição?”).

O que temos aqui é algo que, se bem entendido e assimilado, levará você a clamar como João, “vem Senhor Jesus!” (Ap 22.20). Ele é a razão de termos todas estas bênçãos e, diante disso, precisamos exaltá-lo a cada dia e ansiar pela consumação plena de sua obra. Tendo Cristo como o seu maior tesouro, você estará sempre seguro. Se Cristo é o seu maior anseio, como Paulo você pode estar certo de que Cristo será engrandecido em seu corpo, “quer pela vida, quer pela morte” (Fp 1.20).

Há bênçãos de Cristo na vida, na morte e eternamente. Que a sua convicção seja como a resposta à primeira pergunta do Catecismo de Heidelberg, “Qual o seu único conforto na vida e na morte?”, que inicia dizendo que “o meu único consolo é que – corpo e alma, na vida e na morte – não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que, ao preço do seu próprio sangue pagou totalmente por todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do pecado”.

Que você, abençoado pelo Senhor, na vida, na morte e eternamente, engrandeça sempre o seu Redentor!


[1] Citado por John Blanchard em Pérolas para a vida

[2] Thomas Brooks no livro Sermões sobre a morte. Ed. Soli Deo Gloria. Ed. do Kindle, posição 313

19 setembro 2019

Bênçãos da salvação

Deus salva pecadores! Esta é uma maravilhosa verdade que percebemos na Escritura, fruto da obra de redenção realizada pelo Senhor Jesus Cristo. Deus, por meio do Espírito e da Palavra, chama eficazmente aqueles que ele elegeu para a salvação. Mas não é só isso! A resposta à pergunta 32 do Breve Catecismo, “que bênçãos desfrutam nesta vida aqueles que são chamados eficazmente?”, ensina que “aqueles que são chamados eficazmente desfrutam, nesta vida, da justificação, adoção e santificação, e das diversas bênçãos que acompanham essas graças ou delas procedem”.

Você já parou para pensar no quão maravilhoso é tudo isso? Considere bem!

Por causa do pecado de Adão, nosso representante, todos os homens nascem debaixo da ira de Deus. Entretanto, o Reino de Deus é um reino de justiça. Para que haja salvação é preciso que o homem se adeque perfeitamente ao padrão de justiça de Deus, resumido em sua lei moral. Isso torna impossível a salvação do pecador. O que faz Deus, então, para poder nos salvar e não ser injusto recebendo transgressores em seu Reino? Ele nos justifica!

“Justificação é um ato da livre graça de Deus, no qual ele perdoa os nossos pecados e nos acerta como justos diante dele, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada, e recebida só pela fé” (Resposta à “Pergunta 33 do BCW: O que é justificação?). O ensino do catecismo é biblicamente preciso. O homem, sem condições de se apresentar como justo diante de Deus está perdido. Por mais que tente e seja sincero neste tentar, estará na mesma condição dos judeus que, segundo Paulo, tentaram estabelecer a sua própria justiça e não se sujeitaram à justiça de Deus. O resultado disso é a condenação (Rm 10.1-4).

Aqueles que são convencidos pelo Espírito creem no evangelho. Conforme Paulo, o evangelho revela a justiça de Deus, pois demonstra que Deus não deixa impune o pecado. o Seu Filho assume os pecados do seu povo e morre em lugar dele. O que acontece no Calvário é uma troca. Os pecados do povo são assumidos por Cristo para que a sua justiça seja creditada ao seu povo. Agora, aqueles que são justificados por Deus são vistos como pessoas que não cometeram pecado algum e podem ter paz com Deus (Rm 5.1). Como profetizou o salmista, na cruz “a justiça e a paz se beijaram” (Sl 85.10).

Pelos méritos de Cristo Deus vê a você como alguém justo e pode aceitá-lo diante dele. Isso nos leva a pensar em mais uma das bênçãos da salvação, a adoção. “Adoção é um ato da livre graça de Deus, pelo qual somos recebidos no número dos filhos de Deus, e temos direito a todos os seus privilégios” (Resposta à “Pergunta 34 do BCW: O que é adoção?).

A despeito do dito popular que diz que todo mundo é filho de Deus, nada poderia estar mais distante da realidade. Jesus é o Filho Unigênito de Deus, ou seja, o único gerado por Deus. Os demais filhos o são por adoção, um dos resultados da obra de Cristo. Por causa disso, João afirma que a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). Esta realidade é tão maravilhosa que o mesmo João escreve com certo espanto: “vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus” (1Jo 3.1).

Uma das bênçãos de ser parte da família de Deus, de ser contado entre os seus filhos, é o fato de sermos disciplinados pelo Senhor. Quando nos desviamos dos termos do Pacto, ou seja, quando não damos ouvidos à sua Lei, ele nos corrige. Conforme Hebreus este é um sinal do seu amor, “pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos” (Hb 12.7-8).

Em sua carta João ainda descreve outra realidade acerca da nossa filiação. Ele diz que “agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo 3.2). O que João quer dizer é que a obra de salvação ainda não está plenamente realizada na vida dos que creem. Eles já são filhos de Deus, já são identificados com seu novo representante, Jesus Cristo, o irmão mais velho, mas neste mundo ainda terão de lidar com os resquícios de sua velha natureza, herdada de Adão.

Podemos ter a certeza de que um dia seremos como Cristo porque ele, “a si mesmo se entregou por ela [pela igreja], para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.25-27). Isto significa que até que o Senhor venha, dia a dia, seremos menos parecidos com Adão e mais parecidos com Cristo. A isto chamamos de santificação.

Santificação é obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão” (Resposta à Pergunta 35 do BCW: O que é santificação?”). Quando tratamos de santificação é preciso entender que ela é tanto uma posição quanto um processo. Por estar em Cristo somos posicionalmente santos, ou seja, separados para Deus. Por esta razão a Igreja de Corinto, com todos os seus pecados, é chamada de santa (1Co 1.2; 6.1,2; 14.33).

Mas a santificação é também um processo. No Catecismo Maior aprendemos que “na santificação, o seu Espírito [de Deus] infunde a graça e dá forças para a exercer. Na justificação, o pecado é perdoado; na santificação, ele é subjugado” (Pergunta 77 do CMW). Este processo, que é iniciado quando somos justificados e só terá fim por ocasião da nossa morte ou da vinda de Cristo, é chamado de santificação progressiva.

Na força e no poder do Espírito somos chamados a mortificar os feitos do corpo (Rm 8.13), negar a nós mesmos (Mt 16.24), tornar-nos santos (1Pe 1.15), buscar as coisas do alto (Cl 3.1-4), não nos conformarmos com este século (Rm 12.2) ou, em suma, a sermos santos (1Pe 1.16), pois sem a santificação ninguém verá o Senhor (Hb 12.14).

Diferente da justificação e do novo nascimento, em que somos passivos, na santificação progressiva temos parte ativa. Isso fica evidente quando Paulo ordena aos Filipenses a desenvolverem a salvação com temor e tremor (Fp 2.12). Mas não se engane, o mérito sempre será do Senhor, pois, como completa o apóstolo, “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). Conforme Sproul, “esta é uma arena em que há um genuíno sinergismo, uma cooperação. A santificação é um processo cooperativo em que Deus opera e nós operamos”[1].

Paulo está afirmando que podemos e devemos desenvolver a nossa salvação, ou seja, buscar a santificação, porque Deus nos dá condições para isso. Portanto, em vez de se gloriar e/ou esperar reconhecimento de Deus, aqueles que se esforçam para ser santos devem dizer o que ordenou Jesus a seus discípulos depois de os ter ensinado sobre a obrigação do perdão: “Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que deveríamos fazer” (Lc 17.10).

Louve a Deus por tantas bênçãos e usufrua delas para o louvor de sua glória!


[1] R.C. Sproul. Somos todos teólogos. Ed. Kindle, posição 359