11 setembro 2019

Como podemos ser salvos?

Certa vez, um homem rico se aproximou de Jesus questionando o que ele deveria fazer para herdar a vida eterna. O Senhor, sabendo que aquele homem entendia ser um cumpridor da lei, apontou para os mandamentos como meio para a salvação. A resposta que Jesus ouviu era que desde a infância aquele homem já fazia isso. Foi, então, que Jesus o colocou em um teste prático. Ele havia citado ao homem quase todos os mandamentos da segunda tábua, exceto um. Agora ele o põe à prova com o décimo mandamento, não cobiçarás, afirmando que só lhe faltava uma coisa: “vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me” (Lc 18.18-22).

Se você lembra da história sabe que este homem, ao ouvir estas palavras, “ficou muito triste, porque era riquíssimo” (Lc 18.23). Jesus o havia feito enxergar que ele não conseguia cumprir os mandamentos. Como bom judeu, ele sabia que “qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Aquele homem, ao cobiçar riquezas, as colocava como mais importantes que o próprio Deus. Jesus demonstrou que seu entendimento a respeito de quem pode ser salvo era errado.

Entretanto, não era somente o entendimento deste homem que estava errado, mas também o dos discípulos. Lucas continua a narrativa relatando que Jesus afirmou o quão difícil seria para um rico entrar no céu e que, mais fácil que isso, seria um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Diante disso, os discípulos ficaram espantados e perguntaram: “Sendo assim, quem pode ser salvo?” (Lc 18.26). A pergunta tinha como pressuposição o entendimento de que os ricos eram abençoados por Deus. Se eles, que eram abençoados por Deus, não podiam ser salvos, quem poderia? Jesus respondeu enfaticamente: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19.26).

A resposta de Jesus não deixa dúvida. Se depender do homem, morto em seus delitos e pecados, a salvação é impossível. O homem natural não quer a Cristo, logo, não pode alcançar a salvação. Entretanto, em sua obra, Jesus conquistou para o seu povo a redenção. A pergunta a ser feita é: “Como nos tornamos participantes da redenção adquirida por Cristo?” (Pergunta 29 do BCW). A resposta que temos no catecismo é que “tornamo-nos participantes da redenção adquirida por Cristo, pela eficaz aplicação dela a nós pelo seu Santo Espírito”.

A redenção nos é aplicada pelo Espírito de Cristo, o único que pode convencer “o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8). Mas “como o Espírito aplica-nos a redenção adquirida por Cristo?” O Espírito aplica-nos a redenção adquirida por Cristo, operando em nós a fé, e unindo-nos a Cristo por meio dela em nossa vocação eficaz”, responde o Breve Catecismo na pergunta 30.

Vocação eficaz é como chamamos a obra de convencimento do Espírito Santo no coração do pecador. A Confissão de Fé de Westminster ensina que o Senhor chama “eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito” (CFW X.I) aqueles que Deus predestinou para a salvação. Quando o evangelho é pregado, cai em ouvidos surdos. O homem, morto em seus delitos e pecados, não tem condições de responder com fé ao que ele ouve. A Palavra precisa ser proclamada, mas sem a operação sobrenatural de Deus, ela nunca será crida.

Um exemplo claro disto é o momento em que Paulo discursa diante do rei Agripa, em Atos dos apóstolos. O apóstolo começa dizendo estar feliz em apresentar defesa perante Agripa, visto ser ele versado nos costumes dos judeus (At 26.2). Após isso ele faz um arrazoado e termina perguntando: “Acreditas, ó rei Agripa, nos profetas? Bem sei que acreditas” (26.27).

Aqui a tradução da Bíblia Revista e Atualizada nos confunde um pouco. Ela traz a resposta de Agripa da seguinte maneira: “Por pouco me persuades a me fazer cristão” (26.28), dando a impressão ao leitor desatento de que Paulo quase convenceu Agripa, faltando mesmo bem pouquinho. John Wesley, certa vez, pregou um sermão intitulado “Os quase cristãos” e começando com este texto declarou que “muitos há que chegam até este ponto: pelo menos, desde que apareceu no mundo a religião cristã, sempre houve muitos, em todas as épocas e nações, que quase chegaram a ser persuadidos a se fazerem cristãos[1].

Esta é uma visão equivocada do texto. A tradução Revista e Corrigida de Almeida traz uma tradução melhor: “E disse Agripa a Paulo: Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!”. A fala de Agripa é jocosa. O rei desdenha da pregação de Paulo afirmando que não se tornaria cristão com tão pouco. A resposta de Paulo colabora para este entendimento: Assim Deus permitisse que, por pouco ou por muito, não apenas tu, ó rei, porém todos os que hoje me ouvem se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias” (At 26.29). Não existem quase cristãos ou quase salvos. Quando a pregação do evangelho encontra ouvidos mortos, sempre haverá rejeição. Entretanto, se juntamente com o chamado externo houver o chamado eficaz do Espírito, homens se renderão a Cristo.

Este é um alento para aqueles que cumprem o seu papel de testemunhas de Cristo e proclamam o evangelho. Podemos pregar e chamar homens ao arrependimento não porque somos eloquentes, mas porque o Senhor agirá na salvação dos eleitos. Apesar de termos de nos esmerar a fim de apresentar o evangelho da forma mais clara que conseguirmos, a salvação do pecador não depende da eloquência do pregador, mas da poderosa operação do Espírito Santo, por meio da sua Palavra.

O Breve Catecismo descreve assim este processo. “Vocação eficaz é a obra do Espírito Santo pela qual, convencendo-nos de nosso pecado e de nossa miséria, iluminando nosso entendimento pelo conhecimento de Cristo, e renovando a nossa vontade, ele nos persuade e habilita a abraçar Jesus Cristo, que nos é oferecido de graça no evangelho” (Resposta à “Pergunta 31 do BCW: O que é vocação eficaz?).

As palavras do Senhor Jesus Cristo aos discípulos são, então, um alento para a nossa alma. A salvação é impossível para os homens, mas para Deus não há impossíveis. Ele concede salvação pela graça, por meio da fé, que é dom concedido por ele (Ef 2.8).

Louve a Deus pelo privilégio de ter sido feito um filho de Deus, por meio da obra de Jesus Cristo aplicada em seu coração pelo Espírito de Deus e viva para a glória dele.


[1] Sermões de John Wesley no site da Igreja Metodista do Brasil: encurtador.com.br/qsyEV

03 setembro 2019

Jesus, o servo que foi exaltado

Se você é como eu, e creio que seja, o simples fato de pensar em passar vergonha o deixa desconfortável. Isso é algo natural, sobretudo por causa do pecado que ainda está presente, mesmo na vida daqueles que já se renderam ao Senhor Jesus Cristo. Como herdeiros de Adão, somos orgulhosos. Como afirma Mahaney, “embora ele [o orgulho] se apresente de formas e em intensidades diferentes, ele contamina todos. A questão aqui não é se o orgulho existe em seu coração; e sim onde ele se encontra e como se expressa em sua vida” [1].

É por conta disso que muitos chegam a ler com pesar a ordem de Tiago: “humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará” (Tg 4.10). Geralmente não vemos problema algum em sermos exaltados, mas a ideia de ter de se humilhar não desce bem.

Graças a Deus temos em Cristo um belo exemplo. Quando Paulo ordenou os filipenses que não fizessem nada por partidarismo ou para a glória de si mesmos, apontou para o exemplo de Jesus dizendo: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;
mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.
E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!”
(Fp 2.6-8 – NVI).

Pense no Senhor Jesus Cristo. Diferente de nós, ele não é um pecador, mas o Deus de toda a glória. A fim de assumir a culpa do seu povo e se dar por ele, teve de abrir mão de sua glória e tornar-se um de nós. Algo que sempre me impressiona é ler o relato do Evangelho de João em que Jesus está ensinando que é o bom pastor e que daria a vida em favor de suas ovelhas. O Rei da Glória está ali humilde, falando de sua obra em favor dos homens, e de repente, muitos dentre os judeus questionam: “Ele tem demônio e enlouqueceu; por que o ouvis?” (Jo 10.20).

Você já se imaginou no lugar de Jesus? Já pensou no que faria se tivesse todo o poder e fosse afrontado de tal maneira? Para piorar, enquanto ele agonizava na cruz, muitos debochavam dizendo, “Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz!” (Mt 27.40). Fosse eu ali, talvez eu só estalasse os dedos a fim de fulminar a todos. Mas em ambas as ocasiões, Jesus guardou silêncio e continuou em sua missão.

O que está por trás de tudo isso é o seu amor a Deus e ao próximo. Lembre-se que o resumo da lei é exatamente esse. Quando, em vez de amar a Deus e ao próximo, amamos a nós mesmos e queremos satisfazer a nossa vontade, buscando a nossa própria honra, pecamos. Para que haja humildade é preciso haver antes amor a Deus e aos homens. Jesus, humilhou-se para honrar o seu Pai e para servir ao seu povo, cravando na cruz os seus pecados.

O Breve Catecismo, respondendo a pergunta “Em que consistiu a humilhação de Cristo?”, ensina que “a humilhação de Cristo consistiu no fato de ele nascer, e isso em condição humilde; em ser sujeito à lei; em sofrer as misérias desta vida, a ira de Deus e a maldita morte na cruz; em ter sido sepultado e permanecer debaixo do poder da morte durante certo tempo” (Pergunta 27 do BCW).

O Deus de toda a glória, o doador da vida, humilhou-se, fez-se servo e morreu em favor do seu povo. Mas este não é o fim da história. Tivesse Jesus permanecido morto, estaria provado que ele não passava de mais um pecador, que merecia o salário da morte. Para ficar evidente que ali estava o Santo de Deus e para que o homem pudesse encontrar redenção, o Pai o exaltou.

“A exaltação de Cristo consiste em sua ressurreição dos mortos no terceiro dia, em sua ascensão ao Céu; em estar sentado à mão direita de Deus Pai; e em vir para julgar o mundo no último dia” (Resposta à “Pergunta 28 : Em que consiste a exaltação de Cristo?”). O apóstolo Paulo, após apontar aos filipenses a humilhação de Cristo como exemplo a ser seguido, continuou dizendo que “Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11).

Sim, Jesus Cristo foi exaltado pelo Pai e um dia retornará com grande poder e glória. Neste dia, todos estarão de joelhos diante dele, mas em situações distintas. Aqueles que o receberam pela fé, para serem exaltados com ele. Aqueles que o rejeitaram, para receberem a punição pelos seus pecados.

Ao compreender isso você conseguirá lutar contra o orgulho e viver em humildade diante do Senhor, afinal de contas, Jesus não é só um bom exemplo. Ele é aquele que o liberta do pecado, concede a você o seu Espírito e o capacita a amar a Deus e ao próximo, não buscando seus próprios interesses. “Ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente”. Você pode imitá-lo, pois como disse Pedro aos seus leitores, “estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo de vossa alma” (1Pe 2.23,25).

Se você ama a Cristo, tenha plena certeza de que mesmo os momentos em que você enfrentar situações vexatórias e humilhantes, contribuirão para o seu bem, formar em você o caráter de Cristo (Rm 8.28). Em Cristo, você pode cumprir, pelo poder do Espírito Santo, o que Pedro ordenou aos crentes: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (1Pe 5.6-7).

Descanse em Jesus, o humilde servo que foi exaltado!


[1] C. J. Mahaney. Humildade, verdadeira grandeza, p. 28 – Ed. Fiel

28 agosto 2019

Jesus, o Rei dos reis

Vez por outra eu escuto a mesma história: “Deus não tinha planos de um rei para Israel. O reinado foi uma ideia do povo desobediente, que rejeitou o governo do Senhor”. Eu sei que o texto bíblico de 1Samuel pode dar margem à este entendimento, mas somente se ele for tomado fora do contexto imediato e também do contexto mais amplo da Escritura.

Repare bem. O povo neste momento era liderado por juízes constituídos pelo Senhor. O profeta Samuel já estava velho. Ele era visto pelo povo também como juiz e na sua velhice, ele próprio constituiu seus filhos por juízes. Entretanto, o caráter dos filhos de Samuel não era bom. Os anciãos de Israel, vendo a morte de Samuel se aproximar e preocupados com o caráter de seus filhos, vêm a ele e pedem um rei. O problema aqui não é com o rei, em si, mas com a motivação. Eles dizem: “constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações(1Sm 8.4).

Ao pedir um rei o povo expressa que queria ser como as outras nações. A questão é que Israel não era como outras nações, mas foi constituído para ser um reino de sacerdotes e uma nação santa (Ex 19.6). Esta nação tinha leis dadas pelo próprio Deus e os líderes do povo o conduziriam segundo estas leis. Daí o Senhor ter dito a Samuel que o povo, na verdade, estava rejeitando o próprio Deus e o mandou falar acerca de como seria custoso o povo ter um rei. A despeito disso, o povo repete o seu desejo egoísta de ser como as demais nações (1Sm 8.20). Repito, o problema não era o rei, mas a motivação do povo em pedi-lo. Entretanto, para perceber isso, é preciso voltar ao início, quando o povo sequer existia.

Em Gênesis você aprende sobre a formação do povo de Deus. Deus chama Abraão de uma terra idólatra prometendo fazer dele uma grande nação. De Abraão nasce Isaque, deste Jacó, cujos filhos constituirão as 12 tribos de Israel. No capítulo 49, você pode notar que a bênção de Jacó não recaiu sobre o primogênito Rúben, tampouco sobre os filhos seguintes, Simeão e Levi. A bênção recaiu sobre Judá, que ouviu de seu pai: O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão (Gn 49.10 – NVI).

O povo ainda não havia sido politicamente constituído e o Senhor já prometeu um rei, apontando a tribo de onde este rei viria. Após o povo passar quatrocentos anos como escravo no Egito, o Senhor os tirou de lá com mão forte a fim de cumprir a promessa de levá-los à terra prometida. Deus deu ao povo as suas leis e, dentre elas, temos a que diz respeito ao rei (Dt 17.14-20). Quando o povo quisesse um rei, deveria ser um dentre o povo, aquele a quem Deus escolhesse (17.15). Este rei deveria confiar no Senhor e não em seu exército, por isso não deveria multiplicar cavalos (17.16). Não deveria levar o povo de volta ao Egito, terra de sua escravidão (17.16), não deveria multiplicar mulheres para não ter o coração pervertido, nem deveria ser ganancioso (17.17). Deveria ser um rei piedoso, conforme os mandamentos do Senhor (17.19) e deveria servir aos seus irmãos (17.20).

O primeiro rei, dado por Deus para punir o egoísmo de Israel, foi Saul. Ele não andava de acordo com o que a Lei dizia a respeito do rei. Ele é rejeitado e Deus escolhe, da tribo de Judá, a Davi. Quando Davi teve a ideia de construir um templo para o Senhor, Deus disse a ele por meio de Natã que não seria ele, mas o seu descendente que faria isso. Entretanto, Deus prometeu firmar o seu trono, afirmando que o estabeleceria para sempre (2Sm 2.13-16).

Se você conhece a história dos reis, sabe que começando por Davi e passando por seus descendentes, nenhum deles cumpriu com inteireza tudo o que a Lei prescrevia ao rei. Como exemplo, pense no homem mais sábio que já existiu, Salomão, que teve o coração pervertido e chegou a se dobrar diante de ídolos, por causa de suas muitas mulheres (1Re 11.1-13). Por cona da idolatria, Deus tiraria o reino de Salomão, entretanto, por amor de Davi e do povo, por causa de sua promessa, Deus daria uma tribo ao filho de Salomão. Você se lembra qual tribo foi essa? Com o reino dividido temos de um lado Israel e do outro Judá.

Todos estes reis pecaram, pois apontavam para um rei além deles, aquele que havia sido prometido desde Gênesis. Quando Mateus escreve o seu evangelho, começa afirmando a linhagem real de Jesus, filho de Davi, filho de Abraão. Ele está identificando Jesus como aquele em quem as promessas dadas a Abraão (um nome grandioso, um povo e uma terra) e a Davi (um reinado eterno) se cumpriam. É para este grande Rei que todos os outros apontavam.

Jesus, em seu ofício de Rei, foi humilhado. A despeito de ter sido saudado pelo povo na entrada triunfal, entrou na cidade não com a pompa dos reis, mas montado em um jumentinho e João afirma que isso era para se cumprir a Escritura: “Não temas, filha de Sião, eis que o teu Rei aí vem, montado em um filho de jumenta” (Jo 12.14-15). Além disso, ao ser morto de forma humilhante, foi posta na cruz a irônica acusação: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus” (Mt 27.37).

Mas não se engane, o Rei foi exaltado pelo Pai e está assentado em seu trono, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos, como ensina o Credo dos Apóstolos. Sua descrição no Apocalipse é gloriosa. Em vez de montado em um jumentinho, João diz: “Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; e seguiam-no os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com vestiduras de linho finíssimo, branco e puro. Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: rei dos reis e Senhor dos Senhores” (Ap 19.11-16).

Eis que aqui é visto o cumprimento pleno do que foi dito a Judá, a respeito do Rei a quem as nações obedecerão. O Breve Catecismo ensina que o Senhor Jesus “Cristo exerce as funções de rei, sujeitando-nos a si mesmos, governando-nos e protegendo-nos, contendo e subjugando todos os seus e os nossos inimigos” (Resposta à “Pergunta 26: Como Cristo exerce as funções de rei?”).

É este o grande Rei que governa a sua vida. Olhe para a sua Palavra que, como afirmou Calvino, é o cetro com que ele governa o seu reino. Descanse no seu governo e o honre. Como embaixador de seu reino, proclame as suas virtudes e, confiante, anseie pelo dia glorioso da volta do Rei dos reis.

22 agosto 2019

Jesus, o sumo sacerdote perfeito

Quando Adão desobedeceu a Deus no Jardim do Éden, tomando do fruto proibido oferecido por sua mulher, a Escritura declara que “abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueiras e fizeram cintas para si” (Gn 3.7). O pecado faz com que homem e mulher se envergonhem um do outro. A quebra do relacionamento com Deus afetou também o relacionamento do primeiro casal.

Ao invés de recorrerem ao Senhor, arrependidos, o que eles fizeram foi tentar resolver por si mesmos o seu problema. Se a consequência do pecado foi a vergonha da nudez, bastaria, então, eliminar a consequência a fim de sentirem-se bem. E foi por isso que eles fizeram cintas para si.

Essa autojustiça vista em nossos primeiros pais pode ser percebida também no decorrer da história. Em nossos dias, quando tentam os homens tentam resolver o problema de sua culpa ao seu próprio modo, estão espelhando a Adão, tentando estabelecer seus próprios “atos de justiça”.

Até mesmo os judeus, que receberam a Lei a fim de perceberem a sua incapacidade de viver em conformidade com o padrão de santidade exigido pelo Senhor, tentaram ver nela um instrumento de justificação. Daí Paulo ter de lembrar que

“tudo o que a lei diz, aos que vivem sob a lei o diz para que se cale toda a boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.19,20). Entretanto, eles “desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10.3).

Mas qual é a justiça de Deus? O Breve Catecismo afirma que “Cristo exerce as funções de sacerdote por ter oferecido a si mesmo, de uma vez por todas, em sacrifício, para satisfazer a justiça divina e reconciliar-nos com Deus, e fazendo continua intercessão por nós” (Resposta à pergunta 25 do BCW: “Como Cristo exerce as funções de sacerdote?”).

Voltando à história de Adão percebemos que o Deus que afirmou aos judeus que suas obras de justiça, diante dele, eram como trapos de imundícia (Is 64.6), rejeitou também a autojustiça dos nossos primeiros pais. Suas roupas, apesar de cobrirem as partes que os faziam corar de vergonha, não podiam cobrir a sua nudez diante do Senhor. O próprio Deus tratou, então, de providenciar novas roupas, matando um animal e fazendo “vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu” (Gn 3.21).

Aqui está bem clara a dura realidade do pecado e a verdade da Palavra de Deus. A despeito de terem acreditado na serpente que afirmou que era certo que eles não morreriam ao desobedecerem a ordem do Senhor, a realidade estava diante dos seus olhos: o pecado gera a morte, ou, nas palavras de Paulo no Novo Testamento, “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Para que Adão não morresse, o Senhor matou um animal em seu lugar.

Esse padrão será repetido durante todo o Antigo Testamento. Ao olhar para o culto oferecido pelos filhos de Adão, percebemos que aquele que foi aceito por Deus foi o que levou ao Senhor das primícias do seu rebanho e da gordura deste (Gn 4.4). Quando o Senhor deu à Israel as leis cerimoniais prescreveu com detalhes a forma como os animais seriam oferecidos ao Senhor como oferta pela culpa (Lv 3 a 7).

Estes sacrifícios tinham de ser continuamente oferecidos, pois como afirma o escritor aos Hebreus, “é impossível que os sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb 10.4). Estes sacrifícios apontavam para a providência de Deus em enviar aquele que seria morto de uma vez por todas.

Para o oferecimento dos sacrifícios, o Senhor estabeleceu os sacerdotes. Uma tribo foi especificamente separada para este fim, a tribo de Levi. Eram eles que representavam o povo diante de Deus. O problema é que estes sacerdotes também eram pecadores, por isso, antes de oferecer sacrifícios pelo povo, precisavam oferecer sacrifícios por si mesmos (Hb 5.3). Uma vez por ano, o sumo sacerdote adentrava ao Santo dos Santos levando o sangue do sacrifício e o aspergia sobre o propiciatório, a tampa da Arca da Aliança. Era este o dia da expiação (Lv 16).

Todas essas figuras apontam de forma maravilhosa para o Senhor Jesus Cristo que é tanto o Sumo Sacerdote perfeito (Hb 3.1) quanto a oferta perfeita pelo pecado, oferecida de uma vez por todas (Hb 7.27,28). Em seu ministério, perto de sua morte, percebemos o Senhor Jesus purificando o templo, o que deveria ter sido feito pelos sacerdotes negligentes (Mt 11.15-18). Podemos perceber também como a figura de vários cordeiros do Antigo Testamento se cumprem em Cristo.

João Batista o descreve como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). É clara a sua identificação com a ovelha muda de Isaías 53, quando Pilatos o interroga e João, o evangelista, afirma: “Mas Jesus não lhe deu resposta” (Jo 19.9). Mais clara ainda é a sua identificação com o cordeiro pascal, que não podia ter seus ossos quebrados (Ex 12.46), cujo sangue livraria os primogênitos de Israel da morte. João registra que por ocasião de sua morte, diferente dos marginais crucificados ao seu lado, Jesus não teve os seus ossos quebrados para se cumprir a Escritura (Jo 19.32-36).

Jesus, o Cordeiro perfeito de Deus, como perfeito sacerdote, ofereceu a si mesmo para remissão dos pecados. Ao morrer, o véu do santuário foi rasgado (Lc 6.45) e agora todos aqueles que se arrependem de seus pecados, recebendo-o pela fé, tem pleno acesso à presença do Senhor podendo entrar no Santo dos Santos pelo novo e vivo caminho, o sangue de Jesus. Ele é o grande sacerdote que nos representa diante do Pai (Hb 10.19-22).

Por causa de Cristo, você não precisa tentar justificar a si mesmo. Ao olhar para si mesmo no espelho da Lei e ver-se um pecador, não se desespere, confie no Cordeiro Perfeito que cumpriu toda a Lei e ofereceu a si mesmo em lugar de pecadores. Entretanto, se você não deposita nele a sua confiança, precisa saber que este Cordeiro que um dia foi humilhado em sua morte, virá com grande poder e glória.

Neste dia, em que os poderosos e os reis da terra implorarão aos montes: “Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” (Ap 6.15-17), só haverá duas possibilidades: ou você também estará desesperado, caso rejeite a graciosa salvação do Senhor, ou estará bem seguro, sob a intercessão do perfeito sumo sacerdote.

Portanto, rejeite a sua própria justiça, confesse os seus pecados, e creia no Cordeiro Santo de Deus.

14 agosto 2019

Jesus, O Profeta

Deus fala ao seu povo! Desde o início dos tempos o Senhor tem revelado a sua vontade ao homem. Logo após ter sido criado Adão ouviu as primeiras palavras da boca do Senhor. O texto bíblico registra que Deus disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28).

A Palavra de Deus ordenava ao homem que gerasse filhos a fim de espalhar a imagem do Senhor por toda a terra. Além disso, ordenava ao homem que cuidasse da criação como um vice-regente. Deus falou mais. Suas palavras anunciavam ao homem o cuidado do Senhor para com ele ao dizer: “Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será por mantimento” (Gn 1.29).

O homem é, então, guiado pela Palavra de Deus. É ela quem lhe dá direção e mostra a vontade de Deus para a sua vida. Um dos aspectos do Pacto de Deus com o homem é exatamente o Senhor declarar a sua vontade a fim de que o homem possa viver de modo agradável diante dele. No Pacto das Obras a Palavra de Deus não apontou apenas aquilo que ele deveria fazer, mas também aquilo de que ele estava terminantemente proibido: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16-17).

No início Adão ouvia a palavra diretamente da boca de Deus. Entretanto, após a sua transgressão, apesar de o Senhor continuar se revelando ao homem, ele o fez de maneiras distintas. Deus se revelou por sonhos, visões, teofanias, fez com que sua Palavra fosse escrita e comunicada ao povo. Além disso, a palavra vinha, comumente por meio de profetas, homens levantados por Deus para declarar a sua vontade ao povo.

Esses profetas funcionavam como mediadores entre Deus e povo. O primeiro e maior dos profetas foi Moisés. Por meio dele Israel tomou conhecimento de como o Senhor criou todas as coisas, formou um povo para si, libertou-o do cativeiro e lhe entregou a sua Lei. Em Deuteronômio Moisés disse ao povo:

O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás, segundo tudo o que pediste ao Senhor, teu Deus, em Horebe, quando reunido o povo: Não ouvirei mais a voz do Senhor, meu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não morra. Então, o Senhor me disse: Falaram bem aquilo que disseram. Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. De todo aquele que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas (Dt 18.15-19).

Desde então o povo está esperando O profeta anunciado por Moisés, pois, a despeito dos grandes profetas levantados por Deus como Isaías, Jeremias ou Elias, “nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face (Dt 34.10).

O povo entendeu que O profeta prometido por Deus seria o Messias. Isso pode ser claramente notado no Novo Testamento. Quando João Batista apareceu batizando, foram perguntar quem era ele. Após ele afirmar que não era o Cristo, continuaram a inquirir: “És tu Elias? [..] És tu o profeta?”. Diante das negativas, perguntaram-lhe ainda: “Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?” (Jo 1.19-25). A pergunta faz todo o sentido, pois Moisés, o profeta, aspergiu água sobre os filhos de Levi a fim de purifica-los (Nm 8.6-7). Malaquias também havia profetizado a respeito do mensageiro que prepararia o caminho para o Anjo da Aliança e identifica-o com Elias. Nesse contexto de anunciação do Messias e daquele que lhe abriria o caminho ele afirma que os filhos de Levi seriam purificados (Ml 3.1-3; 4.5)[1]. Ao ver João batizando, a associação foi inevitável.

Tempos depois, Jesus vai com seus discípulos ao monte e, diante deles, transfigura-se. Ao seu lado aparecem dois profetas: Moisés e Elias. Os discípulos, empolgados, sugerem fazer três tendas, uma para cada um deles, quando uma nuvem os encobre e a voz de Deus é ouvida dos céus: “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi”, não vendo mais ninguém os discípulos, exceto o Senhor Jesus. Este é O profeta semelhante a Moisés, tão aguardado pelo povo.

Uma diferença grandiosa entre os profetas que apontavam para O grande Profeta e Jesus é que aqueles falavam a Palavra de Deus, enquanto este é a Palavra de Deus encarnada, pois “no princípio era aquele que é a Palavra. [...] Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1.1,14). Jesus, O Profeta, é o ápice da revelação de Deus. Por esta razão o escritor aos hebreus afirma que “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho” (Hb 1.1). Deus hoje não fala mais como antigamente, mas por meio da Palavra de Cristo, a Bíblia Sagrada, daí a Confissão de Fé de Westminster declarar: “tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo (CFW I.I).

“Cristo exerce as funções de profeta, revelando-nos, pela sua Palavra e pelo seu Espírito, a vontade de Deus para a nossa salvação” (Resposta à “Pergunta 24. Como Cristo exerce as funções de profeta?”). Por toda a história o Senhor revelou a sua Palavra por meio de homens, até que ele mesmo se fez carne.

O Catecismo Maior afirma que Jesus exerceu suas funções de profeta, sacerdote e rei, tanto no estado de sua humilhação, como no de sua exaltação (Pergunta 42 do CMW). Em sua humilhação, zombaram de seu ofício profético ao baterem nele e dizerem: “profetiza-nos: quem é que te bateu?” (Lc 22.64). Entretanto, este glorioso Profeta foi exaltado e convoca todos os homens a reconciliarem-se com ele por meio da fé que “vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17). A pregação fiel da Palavra é, portanto, a voz do próprio Profeta Jesus chamando os homens ao arrependimento e fé e instruindo o seu povo acerca do caminho que deve andar.

Você tem dado ouvidos à voz de Jesus? Você tem estudado a Escritura a fim de conhecer a sua vontade? É somente por meio da Palavra de Cristo que você encontrará amparo, direção, consolo e conforto. Abra a sua Bíblia e escute o glorioso Profeta, Cristo Jesus.


[1] Sobre este assunto veja “O Batismo de João e a inovação imersionista”, capítulo do livro The Presbyterian Faith, do Rev. Geo. W. Belk, traduzido por A. Almeida

09 agosto 2019

Jesus, o único Mediador

Você já deve ter ouvido ou lido em algum lugar a frase “peça à mãe que o Filho atende”. Este pensamento da teologia católico romana faz de Maria uma participante na salvação dos homens. A ideia é que, sendo mãe de Jesus, o seu filho não lhe negaria um pedido. Entretanto, pensando biblicamente, nada poderia estar mais longe da verdade.

A pergunta 21 do Breve Catecismo trata exatamente dessa questão: “Quem é o Redentor dos eleitos de Deus? Resposta: O único Redentor dos escolhidos de Deus é o Senhor Jesus Cristo, que, sendo o eterno Filho de Deus, se fez homem em duas naturezas distintas, e uma só pessoa, para sempre”. O que temos aqui é a expressão inequívoca do claro ensino bíblico. Um redentor é aquele que resgata, liberta. Você lembra que os teólogos chamam de economia (ou administração) da Trindade o trabalho que cada pessoa divina realiza, o que mostra que o único e verdadeiro Deus faz todas as coisas? Pois bem, quando o Catecismo afirma que o único Redentor é o Senhor Jesus, está apontando para a sua obra dentro do plano de Deus para redimir os seus eleitos.

É fácil perceber isso quando lemos o que Paulo afirmou os colossenses: “Ele [o Pai] nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho [Jesus] do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão de pecados” (Cl 1.13). Para que o homem pudesse ser resgatado do reino das trevas, “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4).

O Filho, a segunda pessoa da Trindade, se fez homem, pois foram homens que pecaram contra Deus. Era preciso que um homem perfeito, que não quebrou a lei, morresse em lugar de pecadores, esta é a única maneira de Deus ser justo, punindo o pecado, e justificador, imputando a justiça do seu Filho àqueles que creem pela fé. Não poderia ser somente um homem, afinal de contas, se eu me oferecesse para morrer em seu lugar, alguém deveria também morrer no meu lugar, visto que o salário do pecado é a morte e ambos, eu e você, somos pecadores. Esta é a razão de Maria também não poder ser uma redentora, visto ser uma pecadora, como podemos perceber em seu cântico: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador” (Lc 1.46). Maria necessitava de um Salvador, logo, ela se reconhece pecadora.

A partir do momento em que Jesus se faz carne ele nunca mais deixa de ser plenamente Deus e plenamente homem. Em razão disso, Paulo enfatiza: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem (1Tm 2.5). Há muitos cristãos que erram ao pensar que Jesus hoje, no céu com o Pai, deixou de ser homem, mas basta lembrar que ao ser assunto ao céu ele foi como homem, podendo ser visto pelos discípulos que ouviram dos anjos “varões galileus, porque estais olhando para as alturas? Este Jesus que dentre vós foi assunto aos céu virá do modo como o viste subir (At 1.11). A Escritura declara que a volta de Jesus será visível, logo, necessariamente corpórea. João afirma que “eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá” (Ap1.7)!

O Breve Catecismo resume tudo isso ao declarar que “Cristo, o Filho de Deus, fez-homem tomando um verdadeiro corpo e uma alma racional, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da virgem Maria, e nascendo dela, mas sem pecado” (Resposta à “Pergunta 22. Como Cristo, sendo o Filho de Deus, se fez homem?” do BCW). Esta encarnação foi plenamente anunciada no Antigo Testamento. Isaías profetizou que “um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, duas naturezas em uma só pessoa, para sempre!

Mas o Antigo Testamento anunciou muito mais. Além de anunciar a encarnação do Verbo de Deus, apontou também para toda a sua obra. Jesus afirmou aos fariseus que liam as Escrituras por julgar que nelas tinha a vida eterna que elas falavam a respeito dele, mas que, contudo, eles não queriam ir a ele para ter vida (Jo 5.39). Isso quer dizer que, no Antigo Testamento, o Redentor prometido por Deus é amplamente anunciado e tipificado.

Por exemplo, o próprio título “Messias”, aponta para a pessoa e para a obra do Salvador. Messias é o termo hebraico para “ungido”. No Antigo Testamento os reis eram ungidos para o seu ofício (1Sm 16.12; 2Sm 3.39; 1Sm 24.6). Semelhantemente, os sacerdotes também o eram (Lv 4.3,5,16; Lv 16.32). Por inferência, percebemos que os profetas também eram ungidos a fim de desempenharem o seu ofício (Sl 105.15; 1Cr 16.22).

Muitos acham que Cristo é o sobrenome de Jesus, o que é um ledo engano. Cristo é a palavra grega equivalente ao termo hebraico para ungido, logo, dizer Jesus Cristo é o mesmo que dizer Jesus, o Ungido, ou Jesus, o Messias. É nele que se cumprem plenamente todos os ofícios do Antigo Testamento. Daí o Breve Catecismo ensinar que “Cristo, como nosso Redentor, exerce os ofícios de profeta, sacerdote e rei, tanto no seu estado de humilhação como no de exaltação” (Resposta à “Pergunta 23. Que ofícios Cristo exerce como nosso Redentor?”).

O Catecismo Maior amplia um pouco mais este entendimento ao perguntar “Por que foi o nosso Mediador chamado de Cristo?” e responder que ele “foi chamado de Cristo porque foi, acima de toda medida, ungido com o Espírito Santo; e assim separado e plenamente revestido com toda autoridade e poder para exercer as funções de profeta, sacerdote e rei da sua Igreja, tanto no estado de sua humilhação, como no de sua exaltação”.

Jesus, o único Mediador entre Deus e os homens é o seu Profeta, Sacerdote e Rei. Você precisa dar ouvidos à sua Palavra revelada nas Escrituras. Nele você tem perdão para os seus pecados e conta com sua incessante intercessão. Acima de tudo, nele você está seguro, pois ele é grande governante de todo o universo. Foi ele que se deu por você a fim de que você possa viver plenamente uma vida abundante.

31 julho 2019

A maravilhosa graça de Deus

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia...” (Ef 2.4). É assim que o apóstolo Paulo, após descrever o estado de pecado e miséria do homem, enfatiza a graça de Deus em favor dos pecadores.

Estes pecadores são descritos como mortos em delitos e pecados, totalmente rendidos ao curso do mundo, andando segundo o príncipe da potestade do ar, vendidos à sua própria carne e, por tudo isso, naturalmente filhos da ira. Esta situação do pecador, descrita por Paulo, somente enfatiza o quão gracioso é o Senhor. Daí o apóstolo usar uma adversativa (mas) para mostrar que a despeito do homem e daquilo que ele merece, ou seja, o inferno, o Senhor é rico em misericórdia.

O Breve Catecismo pergunta se “Deus deixou todo o gênero humano perecer no estado de pecado e de miséria” e responde afirmando que “tendo Deus, unicamente pela sua boa vontade, desde toda a eternidade, escolhido alguns para a vida eterna, entrou com eles em um pacto de graça, para os livrar do estado de pecado e miséria, e os levar a um estado de salvação, por meio de um Redentor” (Pergunta 20 do CBW).

Você pode perceber nesta resposta que em seu decreto eterno o Senhor escolheu, por livre vontade, aqueles que seriam salvos. É claro que estes foram primeiramente representados por Adão no Pacto das Obras e, como consequência da sua queda, estão dentre aqueles que merecem a ira do Todo-Poderoso. Paulo afirmou isso quando disse aos crentes efésios que “Ele [Jesus] vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora” – e – “entre os quais também todos nós andamos outrora” (Cf Ef 2.1-3). Esta era, se você já crê em Cristo, também a sua situação, morto em delitos e pecados.

Entretanto, aprouve a Deus estabelecer com aqueles que ele escolheu antes da fundação do mundo (Ef 1.4) um pacto de graça, por meio de outro representante. Você deve lembrar que logo após a queda de Adão o Senhor, depois de confrontar o pecado de nossos primeiros pais, amaldiçoa a serpente e anuncia o seu pacto gracioso. O homem deveria morrer, mas o Senhor lhe promete vida, anunciando um Redentor, ao declarar: “porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este lhe ferirá a cabeça , e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Este Redentor é o novo representante no Pacto da Graça. O Catecismo Maior nos ajuda a entender um pouco mais: “Com quem foi feito o pacto da graça? Resposta: O pacto da graça foi feito com Cristo, como o segundo Adão; e, nele, com todos os eleitos, como sua semente” (Pergunta 31 do CMW).

Entendemos, então, que o Pacto da Graça não é uma novidade do Novo Testamento, mas que foi estabelecido tão logo o homem pecou e, a partir de então, merecia nada menos que a morte. O Pacto da graça é bem melhor que o Pacto das obras, pois este foi feito entre Deus e Adão, enquanto aquele foi feito entre o Pai e seu Filho Jesus Cristo. Adão poderia e efetivamente descumpriu os termos do Pacto, mas Cristo nunca fará isso. Como afirma Joel Beeke,

o laço da aliança entre Deus e Adão demonstrou que era frágil, pois havia sido estabelecido de modo exterior ao ser de Deus. Mas quando o Espírito Santo une um pecador a Cristo, o laço é interno ao ser de Deus. Ele é estabelecido dentro da segunda pessoa da Trindade, no Senhor Jesus Cristo. Quando um pecador é unido a Cristo, ele é unido ao Deus Trino com um laço pactual que não poder ser rompido por toda a eternidade. Assim como é impossível separar as naturezas divina e humana de Cristo, é igualmente impossível dissolver o laço pactual entre Deus e seu povo, estabelecido em Cristo.[1]

Você consegue perceber como é imensa a graça de Deus? Foi por entender isso que o apóstolo Paulo pôde afirmar aos romanos que ele não precisavam temer. Suas perguntas retóricas pressupõem esta maravilhosa graça:

“Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? [...] Quem os condenará? [...] Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8.31-35). A resposta não poderia ser outra. Por causa da obra graciosa de Cristo em favor do seu povo, nada pode separar este povo “do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39).

Sim, você merecia somente a morte, mas foi alcançado pela maravilhosa graça e por causa disso pode viver seguro, sabendo “que todas as coisa cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Este propósito, definido por Deus na eternidade, é de forjar em você o caráter de Cristo e, como além de gracioso é poderoso, ele cumprirá tudo aquilo que ele tem determinado para a sua vida.

Creia nisso e deixe de lado as angústias, a insegurança, o medo, a ansiedade, e tudo o mais que o aflige. A graça de Deus foi tamanha que estabeleceu entre você e o Santo Deus um laço de vida inviolável, por meio do Senhor Jesus Cristo. Por vezes os cristãos são rápidos para crer que Deus é poderoso para salvá-los, mas se angustiam pelas coisas menores. O Senhor Jesus fez os seus discípulos ponderarem a respeito disso quando ordenou que eles não andassem ansiosos pelo que comer ou pelo que vestir e perguntou: “Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que as vestes?” (Mt 6.25). A resposta é óbvia! A lição, então, é que o Deus que deu o que é mais valioso, a vida e o corpo, daria também o que era menos valioso, o alimento e as vestes.

O que tem tirado o seu sossego? O que tem angustiado a sua vida? Lembre-se da maravilhosa graça de Deus, razão pela qual você foi alcançado por Cristo Jesus. Você estava morto em delitos e pecados, “mas Deus, sendo rico em misericórdia” livrou a sua vida do inferno ao castigar em seu Filho amado os seus pecados. Lembre-se do belo hino que declara: “Foi na cruz, foi na cruz que um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus! Foi ali pela fé que meus olhos abri e agora me alegro em sua luz” (Conversão – HNC).

Entender a graça de Deus dá a você razão para se alegrar. Alegre-se, portanto, e confie no seu gracioso Redentor.


[1] Joel Beeke. A união com Cristo – Bíblia de Estudo Herança Reformada

25 julho 2019

A realidade da nossa miséria

Você já se pegou decepcionado com alguma atitude que tomou? Se isso nunca aconteceu você precisa dar uma olhada em sua aparência quando refletida pela santa Lei de Deus. Foi isso o que aconteceu com o jovem rico. Se no início de sua conversa com o Senhor Jesus ele estava convicto de que era bom e que merecia a vida eterna, ao ser passado pelo crivo da Lei se viu transgressor e se entristeceu (Mc 10.17-22).

Isso acontece porque “a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom” (Rm 7.12). Ela é tudo isso porque é o reflexo do caráter de Deus, diante de quem nos vemos inequivocamente como pecadores. A experiência de Isaías aponta para isso. Você tem no capítulo cinco do seu livro o profeta proferindo vários ais, dirigidos aos que pecam contra Deus. Entretanto, no início do capítulo seis você tem o profeta contando que ele mesmo viu o Senhor assentado em seu trono. Além disso, ele viu serafins, seres sem pecado, que não ousavam olhar para Deus e cobriam os pés em sinal de respeito diante do Senhor. O resultado de contemplar o Senhor foi a afirmação: “ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos! (Is 6.1-5).

É isso que o Breve Catecismo ensina quando pergunta “qual foi o estado a que a queda reduziu o gênero humano?” e responde que “a queda reduziu o gênero humano a um estado de pecado e miséria” (Pergunta 17 do BCW). Se antes da queda o homem espelhava perfeitamente o seu Criador, após a queda a imagem de Deus nele se tornou deformada.

Este estado de pecado em que estamos é declarado por Paulo que afirma aos crentes de Roma que “por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação” e “pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores” (Rm 5.18a,19a). Por causa desse primeiro pecado todos os nossos atos, pensamentos e sentimentos estão maculados. Pecamos em Adão e pecamos a cada dia contra o Senhor.

Esta situação é tão terrível que Paulo explica que tanto os judeus que tinham a revelação da Lei do Senhor, quanto os gentios, que tem a Lei gravada apenas no coração, estão na mesma situação, condenados diante de Deus. O homem pecador, mesmo o que não conhece a Lei de Deus, estabelecerá padrões morais de conduta e não conseguirá viver por eles. Ninguém consegue viver o tempo todo em coerência com seus padrões morais. O pecado é terrível. Não é à toa que a Escritura descreve a situação do homem pós-queda como morto em delitos e pecados (Ef 2.1; Cl 2.13).

O ensino do Catecismo é preciso: “O estado de pecado em que o homem caiu consiste na culpa do primeiro pecado de Adão, na sua falta de retidão original e na corrupção de toda a sua natureza, o que ordinariamente se chama de pecado original, juntamente com todas as transgressões atuais que procedem dele” (Resposta à “Pergunta 18 do BCW: Em que consiste o estado de pecado em que o homem caiu?).

Diante desta realidade é comum que para se sentirem bem consigo mesmos os homens acabem achando alguém pior que eles a fim de estabelecer a sua justiça própria e dizem, bem, não sou perfeito, mas pelo menos não sou como fulano. Nossas comparações sempre serão no nível horizontal, escolhendo aqueles que são piores que nós como referência. E ainda pior, ao comparar, costumamos confrontar nossas qualidades com os defeitos alheios, como por exemplo, “eu sou bom em matemática e você canta desafinado”. Entretanto, Deus não nos mede assim. O padrão para nos avaliar é o seu Filho Perfeito, o Senhor Jesus Cristo, que cumpriu perfeitamente a Lei e diante de quem todos estão condenados. Diante de Deus não importa o “pelo menos”, a obediência precisa ser pessoal, perfeita e perpétua.

Todos os homens, então, a partir do momento em que são gerados, merecem somente a justa e santa ira de Deus. Eles estão separados dele por causa dos seus pecados (Is 59.2) e como transgressores do Pacto a sua condenação é justa. Nada há que eles possam fazer a fim de remediar esta triste situação. Todas as suas ações são pecaminosas em si, pois não são feitas para a glória de Deus, daí Isaías ser categórico ao afirmar que diante dele “todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapos da imundícia” (Is 64.6). Ao responder a questão sobre “qual é a miséria do estado em que o homem caiu?” – o Breve Catecismo deixa isso claro: “Todo gênero humano, pela sua queda, perdeu a comunhão com Deus, está debaixo de sua ira e maldição, e, assim, sujeito a todas as misérias nesta vida, à própria morte e às penas do inferno para sempre” (Pergunta 19 do BCW).

Todos os males que possam sobrevir a uma pessoa nesta vida, por mais terríveis que possam ser, não são injustiça, mas apenas “adiantamentos” do terrível salário devido a todos aqueles que estão nesta situação: a morte eterna! Todavia, por causa de Cristo os crentes podem “ter por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18), entretanto, sem Cristo, aqueles que receberem o salário da morte como consequência de seu pecado, perceberão que as mazelas que sofreram na vida não foram nada comparados ao terrível peso da ira do Santo Deus e, se pudessem escolher, iriam preferir dez mil anos de sofrimento terreno a um breve instante diante da ira do Poderoso Deus.

O estado de pecado e miséria do homem após a queda, se bem compreendido, leva o homem a dar glória a Deus por Jesus Cristo, pois “aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.20 – NAA). Entendendo o seu estado você pode alcançar o perdão de Deus e não precisará mais se medir pelos outros a fim de sentir-se um pouco melhor acerca de si mesmo, mas unido a Cristo, será visto pelo Senhor pela mediação dele. Como resultado, o Catecismo de Heildelberg afirma que “Deus me trata como se eu nunca tivesse cometido pecado algum ou jamais tivesse sido pecador; e, como se pessoalmente eu tivesse cumprido toda a obediência que Cristo cumpriu por mim” (Pergunta 60: Como você é justo perante Deus?).

O estado de pecado e miséria é real, mas louve a Deus porque consciente dele você pode se esconder em Jesus Cristo!

19 julho 2019

O Deus Pactual

O Deus da Bíblia é o Soberano Deus que faz todas as coisas segundo o Conselho de sua vontade. Entretanto, ainda que tudo o que aconteça esteja debaixo de sua vontade, ele não é o autor do pecado, mas o Santo Deus. Em sua soberania e segundo a sua própria vontade ele decidiu relacionar-se com o homem por meio de um pacto.

“Quando Deus criou o homem, fez com ele um pacto de vida, com a condição de perfeita obediência, proibindo-lhe comer da árvores da ciência do bem e do mal, sob pena de morte” (Resposta à pergunta 12 do BCW: Que ato especial de providência Deus exerceu para com o homem, no estado em que ele foi criado?”). Para entender a razão do pacto ser descrito como um ato de especial providência é preciso lembrar da grandeza de Deus e da pequenez do homem. Isaías demonstra essa distância grandiosa entre o Criador e a criatura ao dizer que “todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo” – e perguntar em seguida – “Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.17,18).

Por esta razão, a Confissão de Fé explica que “tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele, como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de um pacto” (VII.I). Ou seja, as criaturas devem obediência a Deus e não tem o direito de receber nada em troca. Entretanto, ao estabelecer o pacto, Deus prometeu a vida, mediante à livre obediência do homem.

Se era necessária a obediência de Adão, pressupõe-se que havia um padrão a ser obedecido. Mas que padrão era esse? A resposta à pergunta 12 nos remete à ordem dada a Adão no livro de Gênesis: “De toda árvore do jardim comerás, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17).

Mas a lei não era somente esta. Pensando em nossos símbolos de fé, temos no Catecismo Maior a afirmação de que neste primeiro pacto, que chamamos de Pacto das Obras, o Senhor entrou com o homem em um pacto de vida “sob a condição de obediência pessoal, perfeita e perpétua, da qual a árvore da vida era um penhor” (CMW – Pergunta 20). Quando o Catecismo Maior trata da Lei Moral, que está resumida nos dez mandamentos, afirma que ela é “a declaração da vontade de Deus, feita ao gênero humano, que dirige e obriga todas as pessoas à conformidade e obediência pessoal, perfeita e perpétua a ela” (Pergunta 93). Ou seja, a vida é garantida para aqueles que cumprem os termos do Pacto, a saber, a Lei Moral, e isso de forma perfeita. Isso explica o porque de Jesus, ao ser interpelado pelo jovem rico que gostaria de saber o que fazer para herdar a vida eterna tenha apontado para a Lei recitando os mandamentos (Mc 10.17-22).

Ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal Adão vai contra a Lei Moral de Deus. Ele coloca a sua vontade à frente da vontade de Deus fazendo dele mesmo o seu deus (1º mandamento), desrespeita a autoridade superior de Deus (5º mandamento), leva à morte não somente ele, mas toda a sua posteridade (6º mandamento), se apropria do que não lhe pertencia (8º mandamento), dá ouvidos à mentira do diabo (9º mandamento), além de cobiçar (10º mandamento), que, conforme Tiago é o que dá à luz ao pecado.

O que percebemos no terceiro capítulo da Bíblia é que “nossos primeiros pais, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, caíram em estado em que foram criados, pecando contra Deus” (Resposta à pergunta 13 do BCW: Os nossos primeiros pais se conservaram no estão em que foram criados?). A definição do Breve Catecismo é que “pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgressão dessa lei” (Resposta à Pergunta 14 do BCW: O que é pecado?). Deus havia prometido a Adão vida, caso ele permanecesse em obediência pessoal, perfeita e perpétua, o que não aconteceu. “O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados foi terem comido do fruto proibido” (Resposta à pergunta 15 do BCW: Qual foi o pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados?”).

Quando falamos da ira de Deus sobre o homem pecador, muitos questionam dizendo que isso é injusto, visto que quem pecou foi Adão. O problema é que Adão ali não agia somente em nome dele, mas em nome de toda a sua posteridade. Deus estabeleceu o pacto com a humanidade por meio de seu representante, Adão. Nas palavras do Breve Catecismo, “visto que o pacto foi feito com Adão, não só para ele, mas também para a sua posteridade, todo o gênero humano, que dele procede por geração ordinária, pecou nele e caiu com ele na sua primeira transgressão” (Resposta à “Pergunta 16: Todo o gênero humano caiu pela primeira transgressão de Adão?”).

Esta é a realidade que o homem experimenta após a queda. Ele é nascido em pecado (Sl 51.5) e está destituído da glória de Deus (Rm 3.23). A única coisa que ele merece é a ira de Deus, pois o salário do pecado é a morte. Isso foi realidade tanto para Adão quanto para a sua descendência.

Voltemos, então, ao jovem rico. Por qual razão Jesus respondeu que ele herdaria a vida eterna, caso guardasse os mandamentos, se o homem está morto em delitos e pecados, sem condição de cumprir a Lei. Aquele moço entendia que era bom e que merecia a salvação. Por esta razão, após ouvir dele que desde a juventude ele guardava os mandamentos, Jesus o põe à prova: “Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me” (Mc 10.21). O resultado foi que, confrontado com a Lei, ele se viu um transgressor, um quebrador do décimo mandamento, o único mandamento da segunda tábua da Lei que Jesus não havia citado até então. Ele retirou-se triste.

Esta é a situação de muitas pessoas hoje. Se você perguntar se elas merecem ir para o céu a resposta, possivelmente será que sim, já que não matam, não roubam, etc. O homem precisa se ver pelo espelho da perfeita Lei de Deus a fim de entender a sua real situação, um pecador condenado por causa do seu represente. Essa é uma das funções da Lei, mostrar ao homem a sua incapacidade.

Como Deus se relaciona por meio de representantes, o homem precisa de um representante melhor do que Adão, alguém que consiga cumprir os mandamentos de forma pessoal, perfeita e perpétua. Alguém como o Senhor Jesus Cristo, o Redentor do seu povo.

13 julho 2019

O Deus da providência

O poderoso Deus, como vimos, decretou todas as coisas que acontecem e certamente levará a cabo todo o seu plano. A pergunta 8 do Catecismo se ocupa em declarar que o Senhor executa os seus decretos por meio das obras da criação e da providência. Vamos entender um pouco mais isso, olhando as próximas perguntas.

“A obra da criação é aquela pela qual Deus fez todas as coisas do nada, pela palavra do seu poder, no espaço de seis dias, e tudo muito bem” (Resposta à pergunta 9. Qual é a obra da criação?). Você pode perceber aqui que o Deus que decretou todas as coisas na eternidade, começou a executar o seu plano criando, do nada, todas as coisas. Somos chamados a crer naquilo que o Senhor fez. O escritor aos Hebreus diz que “pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hb 11.3). Na criação o Senhor estabeleceu o cenário onde cumpriria todo o seu santo propósito.

Deus falou e tudo veio a existir! Seu poder é imenso. Para ilustrar este poder o salmista descreveu o que os navegantes veem ao descer aos mares, eles “veem as obras do Senhor e as suas maravilhas nas profundezas do abismo. Pois ele falou e fez levantar o vento tempestuoso, que elevou as ondas do mar” (Sl 107.24,25). A descrição que se segue é terrível. Homens cambaleando como ébrios por causa do agito do barco em meio ao poderoso mar, até que oraram ao Senhor e ele “fez cessar a tormenta, e as ondas se acalmaram” (Sl 107.29). A criação é grandiosa, mas muito menor que o seu Criador e está sujeita à ele.

Quando Jesus acalmou a tempestade que assolava o barco dos seus discípulos, despertou neles admiração e temor que podem ser vistos na pergunta: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41). Certamente os discípulos tinham em mente o ensino do Salmo 107, acerca daquele que tem poder para acalmar o mar. João demonstra em seu evangelho que tudo foi feito por Jesus Cristo ao declarar que “no princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito” (Jo 1.1,3 – NVI).

Este Deus bendito e poderoso também criou o homem à sua imagem e semelhança, como parte dos seus decretos. O Catecismo declara que “Deus criou o homem, macho e fêmea, conforme a sua própria imagem, em conhecimento, retidão e santidade, com domínio sobre as criaturas” (Resposta à pergunta 10. Como Deus criou o homem?).

Até aqui percebemos que Deus criou todas as coisas e deu a cada uma delas uma finalidade específica. Mas ele não somente criou, ele cumpre seus decretos também por meio da sua providência. “As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas” (Resposta à pergunta 11. Quais são as obras da providência de Deus).

Já foi dito que o Senhor, em sua providência, usa todos os atos dos homens para levar a cabo a sua vontade, mas de uma maneira que ele não é o autor do pecado. Cada um é responsável por suas ações e um dia responderão por elas diante do tribunal de Cristo (2Co 5.12). Mas um pouco mais precisa ser dito sobre os decretos e a providência.

O governo santo de Deus é diferente de fatalismo. Por não entender a providência, muitos, ao pensar na doutrina da eleição, chegam à conclusão de que se todos aqueles que Deus escolheu serão salvos, não é preciso pregar o evangelho, nem mesmo viver de forma santa. Por isso é importante destacar que no decreto o Senhor estabelece o que vai ocorrer, enquanto na providência temos os meios que o Senhor usará para chegar ao fim do seu propósito.

Pense em algo simples. Se no livro de Deus estão escritos e determinados todos os nossos dias antes de eles terem acontecido (Sl 139.16), significa que se você hoje tomou leite no café da manhã, isto já estava determinado. Se alguém pensa que Deus não está preocupado e não interfere nessas pequenas coisas precisa lembrar que o Senhor Jesus afirmou aos seus temerosos discípulos que eles não precisavam temer a morte, pois “até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.30). Mas voltemos ao leite do café da manhã. O fato de isto estar decretado não significa que a pessoa se assentou à mesa e, num passe de mágica, apareceu diante dela um copo de leite. Imagine quantas coisas precisaram ocorrer para alguém se deliciar com seu leite no café da manhã! Dentre tantas outras coisas foi preciso alguém criar vacas, ordenha-las, processar o leite, vender ao supermercado, foi preciso ainda que a pessoa trabalhasse, ganhasse o seu salário, fosse ao supermercado, comprasse o leite, levantasse cedo, preparasse, etc., ou seja, entre o decreto eterno e o seu cumprimento num momento da história, Deus governou todas as ações de suas criaturas para um determinado fim.

Este entendimento beneficiará a sua vida, pois por um lado, você terá a certeza de que não precisa temer e de que o Senhor está governando cada minuto de sua vida e por outro lado, não se acomodará e fará tudo aquilo que você pode, precisa e é ordenado pela Palavra a fazer. Em razão disso vemos o mesmo Paulo que declarou que Deus tem “misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm 9.18) perguntando: “Como crerão naquele de que nada ouviram? E como ouvirão se não há quem pregue?” (Rm 10.14), e afirmando que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.15).

José passou por muitas aflições sofrendo por causa dos seus próprios pecados e dos pecados de outros contra ele, mas no fim da história, quando seus irmãos estavam temendo que ele viesse a se vingar, ele fez uma declaração maravilhosa, que aponta para a providência de Deus: “Não temais; porventura estou eu em lugar de Deus? Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê hoje em dia, para conservar muita gente com vida” (Gn 50.19,20 – ACF).

Os exemplos bíblicos demonstram Deus não somente criando por meio de Cristo, mas também “ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser [do Deus invisível] sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). Este é o nosso Deus providente! Em suas mãos você está seguro, podendo descansar em seu governo ainda que não saiba o que o espera. Na verdade, você não precisa conhecer o futuro, mas aquele que tem todas as coisas sob o seu governo, como expressa o belo hino que diz: “Não sei o que de mal ou bem é destinado à mim; Se maus ou áureos dias vêm, até da vida o fim. Mas eu sei em quem tenho crido e estou bem certo que é poderoso! Guardará, pois, o meu tesouro até o dia final” (A certeza do crente – nº 105 do HNC).

Confie nele a cada dia!

09 julho 2019

O Soberano (e Santo) Deus

Por meio do profeta Isaías o Senhor declara a Israel a sua Soberania. Diferente dos ídolos, que precisam ser levados sobre os ombros dos seus adoradores e que ao ser colocados em algum lugar não se movem e nem podem responder à petições, o Senhor diz ao seu povo: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade(Is 46.9-10).

O texto é claríssimo! O Senhor anuncia tudo o que vai acontecer, pois ele mesmo decretou, daí dizer que o seu conselho (desígnio, propósito) irá permanecer e que ele cumprirá a sua vontade. O Breve Catecismo de Westminster declara esta doutrina da seguinte maneira: “Pergunta 7. O que são os decretos de Deus? Resposta: Os decretos de Deus são o seu eterno propósito, segundo o conselho da sua vontade, pelo qual, para a sua própria glória, ele preordenou tudo o que acontece”.

Esta declaração bíblico-confessional deixa muitas pessoas, incluindo cristãos professos, desconfortáveis e inquietas. Uma das perguntas que automaticamente vem à mente é: Quer dizer que as tragédias que acontecem ou os problemas que eu enfrento são vontade de Deus? Uma resposta breve seria um sonoro sim, pois como afirma Davi, “no teu livro [de Deus] foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16).

Entretanto, diante desta resposta, alguns irão recorrer à falácia de dizer que Deus, então, não é bom, pois deixa tragédias acontecerem com pessoas boas. E se ele é bom e não quer que elas aconteçam, ele não é Todo-Poderoso, pois não tem condição de impedi-las. Esta última conclusão, inclusive, foi a que chegou um famoso pastor brasileiro por ocasião do tsunami ocorrido na Ásia em 2006. Na ânsia de “preservar” a bondade de Deus ele afirmou: “Não aceito que Deus, para alcançar seu propósito, produza um sofrimento brutal em tanta gente miserável, que não pediu para nascer na beira de uma praia paupérrima. [...] Acredito que diante duma tragédia dessa magnitude precisamos repensar alguns conceitos teológicos. [...] Só uma réstia da revelação brilha em minha alma: o Deus da Bíblia soberanamente criou o universo, mas ao formar homens e mulheres, abriu mão de sua Soberania para estabelecer relacionamentos verdadeiros. [...] Não, ele não pôde evitar a catástrofe asiática”[1].

Ao tentar preservar Deus do veredito de ser mal, Gondim criou um deus segundo os seus anseios, segundo a sua imaginação, um Deus fraco conforme a imagem e semelhança do homem pecador que o criou.

É claro que Deus é bom! As Escrituras afirmam isto de forma abundante (Ed 3.11; Sl 34.8; Sl 86.5; Sl 100.5) e declaram ao mesmo tempo a sua total soberania. Nabucodonosor chegou a declarar que “não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35).

Aqueles que negam a soberania de Deus baseando-se nas tragédias ou nas mazelas da vida esquecem-se de questões básicas, como: 1) Houve uma queda; 2) O homem tornou-se totalmente corrompido e destituído da glória de Deus, merecendo apenas a sua ira; 3) A criação foi afetada pela queda, logo, vivemos num mundo quebrado e inóspito. Logo, o Senhor não é obrigado a ser benevolente com o homem.

Mas talvez alguém diga: Não foi a queda também decretada por Deus? Logo, a culpa é dele. É por isso que precisamos avançar um pouco mais no entendimento da questão. A sucinta resposta do Breve Catecismo precisa ser entendida à luz da Confissão de Fé de Westminster, que ao tratar desse assunto diz que “desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou a contingência das causas secundárias, antes estabelecidas” (CFW III.I).

Ou seja, Deus é soberano e o homem é responsável. Aqui a próxima pergunta do Breve Catecismo nos ajuda um pouco mais: “Pergunta 8. Como Deus executa os seus decretos? Resposta: Deus executa os seus decretos nas obras da criação e da providência”. Isso quer dizer que Deus soberanamente criou, mas não só isso, ele também dirige todas as coisas em sua providência. É assim que o Senhor usa até mesmo os atos maus dos homens para cumprir os propósitos que ele mesmo estabeleceu.

Pense em alguns exemplos bíblicos. Deus usou o pecado dos irmãos de José a fim de fazê-lo governador do Egito e, assim, salvar o povo da fome, preservando a linhagem do Messias (Gn 37 a 50). Você acha que o Senhor precisou colocar maldade no coração dos irmãos de José?

Deus usou o pecado de Davi a fim de que, por meio de Bate-Seba, a linhagem de onde viria o Messias continuasse. Mateus chega a escancarar o pecado de Davi quando registra a genealogia de Jesus e relata que “o rei Davi [gerou] a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6). Está claro que em sua providência Deus usou o ato mau do rei para cumprir sua vontade, mas Davi, livremente, pecou por cobiçar a Bate-Seba (2Sm 11.2-4).

Mais ainda, estava declarado que o Messias seria traído (Sl 41.9 conf. Jo 13.18). Contudo, não foi preciso que Deus movesse o coração de Judas para o mal. Ele traiu a Jesus porque desejava receber por isso. Judas amava o dinheiro e, como tesoureiro dos apóstolos, até roubava das ofertas (Mt 26.15; Jo 12.6). Em Atos Lucas registra que Pedro, ao pregar para os judeus, apontou tanto para a soberania de Deus quanto para a responsabilidade do homem ao tratar da morte de Jesus e acusar: “sendo este entregue pelo determinado desígnio de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.23).

Tudo está decretado por Deus e em sua providência ele leva a cabo seu plano usando, inclusive, os atos pecaminosos dos homens. Foi assim que ele cumpriu o seu plano de dar o seu Filho em favor de pecadores. Não tivesse o Senhor usado o falso testemunho dos homens, Jesus não teria sido jamais condenado, pois era Justo!

Este é o Soberano Deus que governa a sua vida. Entendendo que ele está no controle de todas as coisas, que seu plano é santo e sábio e que ele fará tudo para a sua própria glória, você pode descansar em seu governo e afirmar como Jó, “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2.10) e, assim, experimentar a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2), enquanto aguarda a consumação desse plano perfeito, na vinda do nosso Redentor!


[1] Ricardo Gondim. Quem Deus ouviu primeiro?, acessado em 05/07/19: encurtador.com.br/kmzTW

05 julho 2019

O único Deus verdadeiro

Este é o assunto da quinta pergunta do Breve Catecismo. A pergunta “Há mais de um Deus?”, traz uma resposta simples e direta: “Há um só Deus, o Deus vivo e verdadeiro”.

A consciência de que existe um Deus está em todos os homens. Calvino, acertadamente, afirmou que “sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natural, certo senso da Divindade. Para que não nos refugiemos na alegação de ignorância, o Senhor nos dotou de certa percepção de Sua majestade”[1]. O ensino do reformador ecoa as palavras de Paulo que afirmou aos romanos que

“o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles [os homens], porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.19-20).

Entretanto, esta consciência de Deus, por meio da criação, não é suficiente para a salvação. Daí o primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster afirmar que

“ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis; contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso, foi o Senhor servido [...] revelar-se [...]; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade [...] foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada” (I.I).

É por meio da Escritura, e somente por ela, que o homem pode ter conhecimento de Deus. Por vezes cristãos tentam provar de outras formas a existência de Deus, esquecendo-se que o simples assentimento de que existe um Deus não é suficiente para a salvação e de que isso a própria criação já faz. Deus tem que ser conhecido como revelado na Escritura.

Gosto muito da forma como o livro de Gênesis se inicia. “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Moisés não gasta tempo tentando provar que Deus existe, ele pressupõe isso e no decorrer do livro vai ensinar ao povo recém libertado do cativeiro quem é esse Deus Salvador. Em Deuteronômio, Moisés declara os mandamentos que o Senhor mandou ensinar a Israel e afirma: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6. 4). Este verso se constituiu numa importante declaração de fé para os judeus.

Se existe somente um Deus vivo e verdadeiro, todos os homens estão obrigados a dar a ele glória e louvor. Como já foi dito, ele é revelado na criação, mas Paulo afirma que os homens em seu pecado “inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.22,23). É por isso que precisamos proclamar Deus aos homens, como ele se revelou na Bíblia.

Na pergunta 6 do Breve Catecismo temos um pouco mais a respeito daquilo que entendemos que o Senhor revelou acerca de si mesmo em sua Palavra: “Quantas pessoas há na divindade? Resposta: Há três pessoas na Divindade: O Pai, o Filho e o Espírito Santo, e essas três são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e glória”.

O único e verdadeiro Deus é o Deus Trino! Esta é a verdade declarada na Escritura e que precisa ser crida pela Igreja. Não cremos em um deus qualquer, mas no Deus que se revela por meio do seu Filho, Jesus Cristo, que conforme afirmou Paulo “é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15), aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas (Cl 1.16, Jo 1.3). Cremos no Pai que, juntamente com o Filho, nos envia o seu Espírito, eternamente procedente de ambos. É o Deus Trino que trabalha na criação, redenção e glorificação daqueles que creem em Jesus Cristo.

Neste trabalho, cada Pessoa Divina realiza uma função, o que a teologia denomina de economia (ou administração) da Trindade. Não obstante, é o único e verdadeiro Deus que trabalha em todo o tempo. Tomo como exemplo a obra de salvação em que a Escritura declara que fomos eleitos por Deus, o Pai (Ef 1.3,4), redimidos na cruz por Deus, o Filho (Ef 1.7) e selados por Deus, o Espírito Santo, que habita em nós (Ef 1.13).

A realidade de um Deus Trino tem implicações diretas para o nosso viver diário, como iremos notar. Somos chamados a amar. Biblicamente, o amor é sempre direcionado para fora, daí sermos ordenados a amar a Deus e ao próximo, ao mesmo tempo em que somos ordenados a não ser egoístas, ou seja, a não amarmos a nós mesmos. A Bíblia afirma que Deus é amor! Mas ele não se tornou amor ao criar o homem a fim de ter alguém a quem amar. Deus é amor desde a eternidade, o que pode ser percebido quando João afirma que “o Pai ama o Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos” (Jo 3.35). Nosso amor é reflexo da imagem de Deus em nós. Este amor se tornou egoísta com a queda, mas é reorientado quando somos redimidos por Cristo e inseridos em seu corpo, a Igreja.

A esta Igreja é ordenado que viva em unidade. Paulo escreve aos efésios e diz: “rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados [...] esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.1,3). Mais uma vez é possível perceber a ação da Trindade para que a Igreja cumpra o que lhe foi ordenado. A unidade da Igreja é obra do Espírito Santo. Nós não promovemos a unidade, mas preservamos a unidade. Para isso, nosso Mediador orou intercedendo por nós: “guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um” (Jo 17.11).

Que pedido maravilhoso! Por ter sido feito por Jesus ao Pai, temos a garantia de que o Pai o ouve. Mas há algo ainda mais maravilhoso a ser notado, a saber, que a base para a unidade da Igreja é a unidade da Trindade Santa. Jesus disse: “para que eles sejam um, assim como nós. [...] a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti também sejam eles em nós;” (Jo 17.11,21).

Esta unidade, reflexo do Deus Trino, é para que o único Deus receba a glória devida ao seu nome. Jesus afirmou que isso é “para que o mundo creia que tu me enviaste. [...] eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.21b,23).

O único e verdadeiro Deus é o Deus Trino, que nos ama, nos dirige e nos abençoa, a fim de proclamarmos o seu Santo Nome.


[1] João Calvino. Institutas da Religião Cristã, Livro I

27 junho 2019

Conheça a Deus e deleite-se nele

A quarta pergunta do Breve Catecismo traz uma importante questão: “O que Deus é?”. Esta pergunta é de suma importância para a vida do homem, pois o que alguém entende a respeito de Deus determinará a forma como irá se portar em sua vida.

Isto pode ser visto claramente no ateísmo, por exemplo. Em outro texto escrevi que creio firmemente que o problema do ateu não é com Deus em si, mas com aquilo que Deus exige dos homens. Para livrar-se da ideia de um Deus que é Soberano e que faz exigências às suas criaturas o ateu simplesmente afirma que Deus não existe e, se ele não existe, não existe norma alguma superior a ser seguida.

É claro que isso não é novo. Davi afirma no Salmo 14 que “diz o tolo em seu coração: ‘Deus não existe’” – e que como resultado desse entendimento – “corromperam-se e cometeram atos detestáveis; não há quem faça o bem” (Sl 14.1 – NVI).

Entretanto, a falta de clareza a respeito de Deus não é notada somente entre os ateus. Aqueles que professam a religião de forma hipócrita e também muitos crentes piedosos padecem com este mesmo problema. Tome como exemplo o questionamento feito a Jesus pelos saduceus, que não criam na ressurreição. A fim de testá-lo estes homens perguntaram sobre a lei do levirato. Se um homem morresse seu irmão deveria tomar a sua esposa a fim de suscitar descendência ao falecido. Mas e se um homem morresse e seu irmão assumisse a sua esposa, vindo também a falecer, e isso ocorresse novamente com os sete irmãos, de quem seria a esposa na ressurreição? Está claro que eles querem pegar a Jesus numa contradição com a Lei.

A resposta de Jesus àqueles homens nos ajuda a entender o ponto: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? (Mc 12.24). A partir do que disse Jesus fica claro que o pensamento e a crença errada provinha de não conhecer as Escrituras e, consequentemente, não conhecerem o poder de Deus. Curiosamente vemos esta sequência no Breve Catecismo, a pergunta anterior tratou de “qual é a coisa principal que as Escrituras ensinam?”, tendo como resposta “o que homem deve crer acerca de Deus, e o dever que Deus requer do homem”. Daí se perguntar, em seguida, o que Deus é? A crença em Deus precisa partir das Escrituras, como Jesus bem afirmou: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38).

Aqui vimos o problema daqueles que professavam a religião judaica, mas rejeitavam o Messias enviado. Vejamos o mesmo problema em um personagem conhecido, Moisés, homem usado por Deus para libertar o povo do cativeiro. Moisés viu muitos milagres da parte de Deus e acerca dele é dito que “nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face, no tocante a todos os sinais e maravilhas que, por mando do Senhor, fez na terra do Egito, a Faraó, a todo os seus oficiais e a toda a sua terra” (Dt 34.10).

A despeito disso, houve uma ocasião na vida deste servo de Deus em que ele pediu a morte, pois estava se vendo envergonhado diante do povo, por não poder lhe prover comida. Após reclamar com Deus sobre a forma como o Senhor o estava tratando, pedindo para morrer a fim de não ver a sua reputação ir mal diante do povo, o Senhor, irado, falou que daria tanta carne àquele povo que reclamava que chegaria a sair pelos narizes. Moisés questionou a Deus dizendo que o povo era muito grande e que não havia carne que bastasse para eles, ao que respondeu o Senhor o repreendendo: “Ter-se-ia encurtado a mão do Senhor? Agora mesmo verás se cumprirá ou não a minha palavra!” (Nm 11.1-23).

Perceba bem! Deus está, em outra palavras, perguntando a Moisés se ele havia esquecido do seu poder. Notamos, então, que a forma como Moisés estava se portando, a sua tristeza, vinha de um entendimento equivocado (ou esquecido) a respeito do Senhor. Foi preciso uma dura repreensão para Moisés retomar a sua confiança em Deus.

Tudo isso nos mostra a importância da pergunta 4 do Breve Catecismo. A questão sobre o que Deus é precisa ser muito mais do que um mero exercício intelectual. Estudamos acerca do ser de Deus a fim de saber como nos portar diante dele, a partir da obra de Jesus Cristo que redimiu pecadores, inimigos de Deus, que agora podem dar ouvidos à sua voz.

Saber quem Deus é, conhecer o seu caráter, tudo aquilo que ele revelou acerca de si mesmo na Escritura, deve nos levar a adorá-lo e servi-lo corretamente, tendo como resultado uma vida segura e satisfeita nele.

A resposta do Breve Catecismo é simples, mas profunda: “Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”. Esta maravilhosa sentença, plenamente alicerçada naquilo que a Palavra revela a respeito do nosso Deus, traz a verdade de que, sendo espírito, o Senhor está em todo o lugar, o que chamamos de onipresença. Isso quer dizer que você nunca precisa sentir-se só, ainda que abandonado pelos homens. Também significa que todos os seus atos estão patentes diante dele, que não há como fugir de sua presença.

Deus, por ser eterno, nos garante que seus planos perfeitos nunca irão mudar. Você está nas mãos do Deus sábio que soberanamente guia a história a fim de que possa receber a glória que é devida ao seu nome. Sua sabedoria nos garante que tudo o que ele faz é bom, apesar de muitas vezes não compreendermos os seus caminhos. Ele tem todo o poder para levar à cabo tudo o que planejou, pois “não h á quem possa lhe deter a mão, nem lhe dizer: que fazes?” (Dn 4.35). Sua santidade é tamanha que, por não tolerar o pecado, puniu com a morte a seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, a fim de nos santificar para estar em sua presença. Nesta obra de Cristo temos, então, o exemplo de sua justiça: ele recebe pecadores, não sem antes punir os seus pecados e atribuir a eles a justiça de Cristo, daí ele ser justo e justificador.

Vemos em tudo isso a bondade de Deus, que em sua Palavra que é a verdade nos orienta, direciona, fortalece a fim de sermos um povo santo que o adora em Espírito e em verdade.

Você tem buscado conhecer a Deus? Qual tem sido o resultado deste conhecimento? Sabendo quem é o seu Senhor e nas mãos de quem você está, você poderá deleitar-se nele, tendo gozo e alegria a despeito das circunstâncias, sejam boas ou adversas.

19 junho 2019

Fé e prática - Vivendo de modo coerente

Você já deve ter ouvido por diversas vezes, da boca de vários cristãos, que a Bíblia é a nossa regra de fé e prática. Entretanto, o que pode ser visto na vida de muitos é que na prática, a teoria é outra.

É preciso entender corretamente o que se quer dizer com isso a fim de viver de forma coerente com aquilo que se professa como fé. O Breve Catecismo de Westminster em sua terceira pergunta traz esta questão: “Qual é a coisa principal que as Escrituras nos ensinam?” - e responde – “A coisa principal que as Escrituras nos ensinam é o que o homem deve crer acerca de Deus, e o dever que Deus requer do homem”.

Pensemos a respeito desta resposta. A primeira questão a se notar é que para os cristãos (sobretudo aqueles que subscrevem os documentos de Westminster, como nós presbiterianos) o entendimento acerca de quem é Deus e do que ele requer do homem não pode vir de fontes extra bíblicas. Somente na Palavra de Deus o homem poderá conhecer ao Senhor.

O conhecimento de Deus só é possível porque o Senhor decidiu se revelar e fazer registrar a sua Palavra. A Confissão de Fé de Westminster declara que “foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade a seu povo” (I.I).

O ensino confessional ecoa as palavras do Escritor aos Hebreus que escreveu: “Antigamente, Deus falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, mas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho...” (1.1,2). É somente pela Escritura que Deus se faz conhecido! Ao repreender os fariseus, que apesar de ler as Escrituras não queriam ir até ele, Jesus disse que “são elas mesmas que testificam de mim [de Jesus]” (Jo 5.39). Quando encontrou os discípulos desanimados e tristes no caminho de Emaús Jesus “começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27). De forma semelhante, ao ser convidado pelo eunuco para subir em seu carro a fim de lhe explicar o texto de Isaías, “Filipe explicou; e começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus” (At 8.35).

É sabido que em se ministério Paulo costumeiramente ia à Sinagoga anunciar a Cristo e que ele fazia isso abrindo a Escritura do Antigo Testamento. Ao escrever aos romanos ele disse que “a fé vem pela pregação, e pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). Deus já havia se revelado de muitas maneiras, mas no Novo Testamento a pregação parte sempre da Palavra registrada, chamada por Paulo de palavra de Cristo, daí o Escritor aos Hebreus dizer que nestes últimos dias Deus nos falou pelo Filho!

E quanto ao que está registrado no Novo Testamento? São também a Palavra de Cristo? Note o que disse Pedro. Quando ele escreveu denunciando os falsos mestres acusou-os de deturpar o ensino de Paulo “como também deturpam as demais Escrituras” (2Pe 3.16). Para Pedro, então, o que havia sido Escrito por Paulo tinha o mesmo peso de autoridade dos Escritos do Antigo Testamento. É por isso que a Igreja é edificada sobre o “fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20).

Isso torna a Escritura indispensável à nossa fé. Cremos naquilo que ela diz e somente naquilo que ela diz, daí as exortações para não nos sujeitarmos a preceitos de homens (Cl 2.22), não darmos ouvidos a doutrinas de homens (Tt 1.14) e para termos “cuidado que ninguém vos [nos]venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8).

Entretanto, é possível que uma pessoa saiba o que a Escritura revela sobre Deus, sobre o que ele requer do homem e, ainda assim, viva de forma incoerente com aquilo que diz crer. Ou algo ainda mais grave, como afirma Packer: “Interesse em teologia, conhecimento sobre Deus, e capacidade de pensar com clareza e falar bem sobre temas cristãos não são a mesma que conhecer a Deus. Podemos saber tanto quanto Calvino a respeito de Deus – na verdade, se estudarmos suas obras com diligência, cedo ou tarde isso vai acontecer – entretanto durante todo o tempo (ao contrário de Calvino) saberemos bem pouco a respeito de Deus[1].

A fé bíblica vem acompanhada de ação. Esta é uma verdade que precisa ser enfatizada, sobretudo em tempos de discussões sem fim sobre teologia nas redes sociais. E não somente isto. Vivemos dias em que a suficiência das Escrituras é pregada em muitos púlpitos ao mesmo tempo em que é negada no gabinete pastoral, razão de muitos pastores acreditarem na mentira de que para aconselharem precisam de fontes humanistas cujos pressupostos são contrários às afirmações da Escritura.

O ensino confessional afirma que as Escrituras revelam o que Deus requer do homem. Isso diz respeito à forma como os cristãos vão viver piedosamente em meio à um mundo caído, respondendo às suas circunstâncias de forma bíblica. O que está na Escritura é suficiente para a vida e para a piedade (1Pe 1.3), é útil para tornar o homem de Deus “sábio [...] perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.17).

Sua vida é o reflexo daquilo que você verdadeiramente crê. O homem bem-aventurado do salmo 1 medita de dia e de noite na Palavra e “tudo quanto ele faz será bem sucedido” . Josué ouviu do Senhor que ele deveria meditar, fazer e falar sobre o livro da lei e, então, o seu caminho seria próspero e bem sucedido (Js 1.8). Contrastando com isso, Jesus censurou os fariseus por dizerem e não fazerem. Você pode notar que muito do que eles diziam era correto, pois Jesus ordenou aos discípulos que fizessem e guardassem o que eles diziam, mas que não os imitassem. Daí eles serem tratados pelo Senhor como hipócritas.

A Escritura é a Palavra de Cristo, a única verdade. Ele o libertou para que você tenha condição de ouvi-la e guardá-la, por estar unido a ele. Sem ele ninguém pode fazer nada (Jo 15.5), mas aqueles que estão nele, darão muito fruto. A evidência de estar nele é ouvir e guardar a sua Palavra, crer e praticar, como ele mesmo afirmou: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). Que ele o ajude!

[1] J.L. Packer. O conhecimento de Deus, p. 19