19 julho 2019

O Deus Pactual

O Deus da Bíblia é o Soberano Deus que faz todas as coisas segundo o Conselho de sua vontade. Entretanto, ainda que tudo o que aconteça esteja debaixo de sua vontade, ele não é o autor do pecado, mas o Santo Deus. Em sua soberania e segundo a sua própria vontade ele decidiu relacionar-se com o homem por meio de um pacto.

“Quando Deus criou o homem, fez com ele um pacto de vida, com a condição de perfeita obediência, proibindo-lhe comer da árvores da ciência do bem e do mal, sob pena de morte” (Resposta à pergunta 12 do BCW: Que ato especial de providência Deus exerceu para com o homem, no estado em que ele foi criado?”). Para entender a razão do pacto ser descrito como um ato de especial providência é preciso lembrar da grandeza de Deus e da pequenez do homem. Isaías demonstra essa distância grandiosa entre o Criador e a criatura ao dizer que “todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo” – e perguntar em seguida – “Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.17,18).

Por esta razão, a Confissão de Fé explica que “tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele, como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de um pacto” (VII.I). Ou seja, as criaturas devem obediência a Deus e não tem o direito de receber nada em troca. Entretanto, ao estabelecer o pacto, Deus prometeu a vida, mediante à livre obediência do homem.

Se era necessária a obediência de Adão, pressupõe-se que havia um padrão a ser obedecido. Mas que padrão era esse? A resposta à pergunta 12 nos remete à ordem dada a Adão no livro de Gênesis: “De toda árvore do jardim comerás, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17).

Mas a lei não era somente esta. Pensando em nossos símbolos de fé, temos no Catecismo Maior a afirmação de que neste primeiro pacto, que chamamos de Pacto das Obras, o Senhor entrou com o homem em um pacto de vida “sob a condição de obediência pessoal, perfeita e perpétua, da qual a árvore da vida era um penhor” (CMW – Pergunta 20). Quando o Catecismo Maior trata da Lei Moral, que está resumida nos dez mandamentos, afirma que ela é “a declaração da vontade de Deus, feita ao gênero humano, que dirige e obriga todas as pessoas à conformidade e obediência pessoal, perfeita e perpétua a ela” (Pergunta 93). Ou seja, a vida é garantida para aqueles que cumprem os termos do Pacto, a saber, a Lei Moral, e isso de forma perfeita. Isso explica o porque de Jesus, ao ser interpelado pelo jovem rico que gostaria de saber o que fazer para herdar a vida eterna tenha apontado para a Lei recitando os mandamentos (Mc 10.17-22).

Ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal Adão vai contra a Lei Moral de Deus. Ele coloca a sua vontade à frente da vontade de Deus fazendo dele mesmo o seu deus (1º mandamento), desrespeita a autoridade superior de Deus (5º mandamento), leva à morte não somente ele, mas toda a sua posteridade (6º mandamento), se apropria do que não lhe pertencia (8º mandamento), dá ouvidos à mentira do diabo (9º mandamento), além de cobiçar (10º mandamento), que, conforme Tiago é o que dá à luz ao pecado.

O que percebemos no terceiro capítulo da Bíblia é que “nossos primeiros pais, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, caíram em estado em que foram criados, pecando contra Deus” (Resposta à pergunta 13 do BCW: Os nossos primeiros pais se conservaram no estão em que foram criados?). A definição do Breve Catecismo é que “pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgressão dessa lei” (Resposta à Pergunta 14 do BCW: O que é pecado?). Deus havia prometido a Adão vida, caso ele permanecesse em obediência pessoal, perfeita e perpétua, o que não aconteceu. “O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados foi terem comido do fruto proibido” (Resposta à pergunta 15 do BCW: Qual foi o pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados?”).

Quando falamos da ira de Deus sobre o homem pecador, muitos questionam dizendo que isso é injusto, visto que quem pecou foi Adão. O problema é que Adão ali não agia somente em nome dele, mas em nome de toda a sua posteridade. Deus estabeleceu o pacto com a humanidade por meio de seu representante, Adão. Nas palavras do Breve Catecismo, “visto que o pacto foi feito com Adão, não só para ele, mas também para a sua posteridade, todo o gênero humano, que dele procede por geração ordinária, pecou nele e caiu com ele na sua primeira transgressão” (Resposta à “Pergunta 16: Todo o gênero humano caiu pela primeira transgressão de Adão?”).

Esta é a realidade que o homem experimenta após a queda. Ele é nascido em pecado (Sl 51.5) e está destituído da glória de Deus (Rm 3.23). A única coisa que ele merece é a ira de Deus, pois o salário do pecado é a morte. Isso foi realidade tanto para Adão quanto para a sua descendência.

Voltemos, então, ao jovem rico. Por qual razão Jesus respondeu que ele herdaria a vida eterna, caso guardasse os mandamentos, se o homem está morto em delitos e pecados, sem condição de cumprir a Lei. Aquele moço entendia que era bom e que merecia a salvação. Por esta razão, após ouvir dele que desde a juventude ele guardava os mandamentos, Jesus o põe à prova: “Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me” (Mc 10.21). O resultado foi que, confrontado com a Lei, ele se viu um transgressor, um quebrador do décimo mandamento, o único mandamento da segunda tábua da Lei que Jesus não havia citado até então. Ele retirou-se triste.

Esta é a situação de muitas pessoas hoje. Se você perguntar se elas merecem ir para o céu a resposta, possivelmente será que sim, já que não matam, não roubam, etc. O homem precisa se ver pelo espelho da perfeita Lei de Deus a fim de entender a sua real situação, um pecador condenado por causa do seu represente. Essa é uma das funções da Lei, mostrar ao homem a sua incapacidade.

Como Deus se relaciona por meio de representantes, o homem precisa de um representante melhor do que Adão, alguém que consiga cumprir os mandamentos de forma pessoal, perfeita e perpétua. Alguém como o Senhor Jesus Cristo, o Redentor do seu povo.

13 julho 2019

O Deus da providência

O poderoso Deus, como vimos, decretou todas as coisas que acontecem e certamente levará a cabo todo o seu plano. A pergunta 8 do Catecismo se ocupa em declarar que o Senhor executa os seus decretos por meio das obras da criação e da providência. Vamos entender um pouco mais isso, olhando as próximas perguntas.

“A obra da criação é aquela pela qual Deus fez todas as coisas do nada, pela palavra do seu poder, no espaço de seis dias, e tudo muito bem” (Resposta à pergunta 9. Qual é a obra da criação?). Você pode perceber aqui que o Deus que decretou todas as coisas na eternidade, começou a executar o seu plano criando, do nada, todas as coisas. Somos chamados a crer naquilo que o Senhor fez. O escritor aos Hebreus diz que “pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hb 11.3). Na criação o Senhor estabeleceu o cenário onde cumpriria todo o seu santo propósito.

Deus falou e tudo veio a existir! Seu poder é imenso. Para ilustrar este poder o salmista descreveu o que os navegantes veem ao descer aos mares, eles “veem as obras do Senhor e as suas maravilhas nas profundezas do abismo. Pois ele falou e fez levantar o vento tempestuoso, que elevou as ondas do mar” (Sl 107.24,25). A descrição que se segue é terrível. Homens cambaleando como ébrios por causa do agito do barco em meio ao poderoso mar, até que oraram ao Senhor e ele “fez cessar a tormenta, e as ondas se acalmaram” (Sl 107.29). A criação é grandiosa, mas muito menor que o seu Criador e está sujeita à ele.

Quando Jesus acalmou a tempestade que assolava o barco dos seus discípulos, despertou neles admiração e temor que podem ser vistos na pergunta: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41). Certamente os discípulos tinham em mente o ensino do Salmo 107, acerca daquele que tem poder para acalmar o mar. João demonstra em seu evangelho que tudo foi feito por Jesus Cristo ao declarar que “no princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito” (Jo 1.1,3 – NVI).

Este Deus bendito e poderoso também criou o homem à sua imagem e semelhança, como parte dos seus decretos. O Catecismo declara que “Deus criou o homem, macho e fêmea, conforme a sua própria imagem, em conhecimento, retidão e santidade, com domínio sobre as criaturas” (Resposta à pergunta 10. Como Deus criou o homem?).

Até aqui percebemos que Deus criou todas as coisas e deu a cada uma delas uma finalidade específica. Mas ele não somente criou, ele cumpre seus decretos também por meio da sua providência. “As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas” (Resposta à pergunta 11. Quais são as obras da providência de Deus).

Já foi dito que o Senhor, em sua providência, usa todos os atos dos homens para levar a cabo a sua vontade, mas de uma maneira que ele não é o autor do pecado. Cada um é responsável por suas ações e um dia responderão por elas diante do tribunal de Cristo (2Co 5.12). Mas um pouco mais precisa ser dito sobre os decretos e a providência.

O governo santo de Deus é diferente de fatalismo. Por não entender a providência, muitos, ao pensar na doutrina da eleição, chegam à conclusão de que se todos aqueles que Deus escolheu serão salvos, não é preciso pregar o evangelho, nem mesmo viver de forma santa. Por isso é importante destacar que no decreto o Senhor estabelece o que vai ocorrer, enquanto na providência temos os meios que o Senhor usará para chegar ao fim do seu propósito.

Pense em algo simples. Se no livro de Deus estão escritos e determinados todos os nossos dias antes de eles terem acontecido (Sl 139.16), significa que se você hoje tomou leite no café da manhã, isto já estava determinado. Se alguém pensa que Deus não está preocupado e não interfere nessas pequenas coisas precisa lembrar que o Senhor Jesus afirmou aos seus temerosos discípulos que eles não precisavam temer a morte, pois “até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.30). Mas voltemos ao leite do café da manhã. O fato de isto estar decretado não significa que a pessoa se assentou à mesa e, num passe de mágica, apareceu diante dela um copo de leite. Imagine quantas coisas precisaram ocorrer para alguém se deliciar com seu leite no café da manhã! Dentre tantas outras coisas foi preciso alguém criar vacas, ordenha-las, processar o leite, vender ao supermercado, foi preciso ainda que a pessoa trabalhasse, ganhasse o seu salário, fosse ao supermercado, comprasse o leite, levantasse cedo, preparasse, etc., ou seja, entre o decreto eterno e o seu cumprimento num momento da história, Deus governou todas as ações de suas criaturas para um determinado fim.

Este entendimento beneficiará a sua vida, pois por um lado, você terá a certeza de que não precisa temer e de que o Senhor está governando cada minuto de sua vida e por outro lado, não se acomodará e fará tudo aquilo que você pode, precisa e é ordenado pela Palavra a fazer. Em razão disso vemos o mesmo Paulo que declarou que Deus tem “misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm 9.18) perguntando: “Como crerão naquele de que nada ouviram? E como ouvirão se não há quem pregue?” (Rm 10.14), e afirmando que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.15).

José passou por muitas aflições sofrendo por causa dos seus próprios pecados e dos pecados de outros contra ele, mas no fim da história, quando seus irmãos estavam temendo que ele viesse a se vingar, ele fez uma declaração maravilhosa, que aponta para a providência de Deus: “Não temais; porventura estou eu em lugar de Deus? Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê hoje em dia, para conservar muita gente com vida” (Gn 50.19,20 – ACF).

Os exemplos bíblicos demonstram Deus não somente criando por meio de Cristo, mas também “ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser [do Deus invisível] sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). Este é o nosso Deus providente! Em suas mãos você está seguro, podendo descansar em seu governo ainda que não saiba o que o espera. Na verdade, você não precisa conhecer o futuro, mas aquele que tem todas as coisas sob o seu governo, como expressa o belo hino que diz: “Não sei o que de mal ou bem é destinado à mim; Se maus ou áureos dias vêm, até da vida o fim. Mas eu sei em quem tenho crido e estou bem certo que é poderoso! Guardará, pois, o meu tesouro até o dia final” (A certeza do crente – nº 105 do HNC).

Confie nele a cada dia!

09 julho 2019

O Soberano (e Santo) Deus

Por meio do profeta Isaías o Senhor declara a Israel a sua Soberania. Diferente dos ídolos, que precisam ser levados sobre os ombros dos seus adoradores e que ao ser colocados em algum lugar não se movem e nem podem responder à petições, o Senhor diz ao seu povo: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade(Is 46.9-10).

O texto é claríssimo! O Senhor anuncia tudo o que vai acontecer, pois ele mesmo decretou, daí dizer que o seu conselho (desígnio, propósito) irá permanecer e que ele cumprirá a sua vontade. O Breve Catecismo de Westminster declara esta doutrina da seguinte maneira: “Pergunta 7. O que são os decretos de Deus? Resposta: Os decretos de Deus são o seu eterno propósito, segundo o conselho da sua vontade, pelo qual, para a sua própria glória, ele preordenou tudo o que acontece”.

Esta declaração bíblico-confessional deixa muitas pessoas, incluindo cristãos professos, desconfortáveis e inquietas. Uma das perguntas que automaticamente vem à mente é: Quer dizer que as tragédias que acontecem ou os problemas que eu enfrento são vontade de Deus? Uma resposta breve seria um sonoro sim, pois como afirma Davi, “no teu livro [de Deus] foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16).

Entretanto, diante desta resposta, alguns irão recorrer à falácia de dizer que Deus, então, não é bom, pois deixa tragédias acontecerem com pessoas boas. E se ele é bom e não quer que elas aconteçam, ele não é Todo-Poderoso, pois não tem condição de impedi-las. Esta última conclusão, inclusive, foi a que chegou um famoso pastor brasileiro por ocasião do tsunami ocorrido na Ásia em 2006. Na ânsia de “preservar” a bondade de Deus ele afirmou: “Não aceito que Deus, para alcançar seu propósito, produza um sofrimento brutal em tanta gente miserável, que não pediu para nascer na beira de uma praia paupérrima. [...] Acredito que diante duma tragédia dessa magnitude precisamos repensar alguns conceitos teológicos. [...] Só uma réstia da revelação brilha em minha alma: o Deus da Bíblia soberanamente criou o universo, mas ao formar homens e mulheres, abriu mão de sua Soberania para estabelecer relacionamentos verdadeiros. [...] Não, ele não pôde evitar a catástrofe asiática”[1].

Ao tentar preservar Deus do veredito de ser mal, Gondim criou um deus segundo os seus anseios, segundo a sua imaginação, um Deus fraco conforme a imagem e semelhança do homem pecador que o criou.

É claro que Deus é bom! As Escrituras afirmam isto de forma abundante (Ed 3.11; Sl 34.8; Sl 86.5; Sl 100.5) e declaram ao mesmo tempo a sua total soberania. Nabucodonosor chegou a declarar que “não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35).

Aqueles que negam a soberania de Deus baseando-se nas tragédias ou nas mazelas da vida esquecem-se de questões básicas, como: 1) Houve uma queda; 2) O homem tornou-se totalmente corrompido e destituído da glória de Deus, merecendo apenas a sua ira; 3) A criação foi afetada pela queda, logo, vivemos num mundo quebrado e inóspito. Logo, o Senhor não é obrigado a ser benevolente com o homem.

Mas talvez alguém diga: Não foi a queda também decretada por Deus? Logo, a culpa é dele. É por isso que precisamos avançar um pouco mais no entendimento da questão. A sucinta resposta do Breve Catecismo precisa ser entendida à luz da Confissão de Fé de Westminster, que ao tratar desse assunto diz que “desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou a contingência das causas secundárias, antes estabelecidas” (CFW III.I).

Ou seja, Deus é soberano e o homem é responsável. Aqui a próxima pergunta do Breve Catecismo nos ajuda um pouco mais: “Pergunta 8. Como Deus executa os seus decretos? Resposta: Deus executa os seus decretos nas obras da criação e da providência”. Isso quer dizer que Deus soberanamente criou, mas não só isso, ele também dirige todas as coisas em sua providência. É assim que o Senhor usa até mesmo os atos maus dos homens para cumprir os propósitos que ele mesmo estabeleceu.

Pense em alguns exemplos bíblicos. Deus usou o pecado dos irmãos de José a fim de fazê-lo governador do Egito e, assim, salvar o povo da fome, preservando a linhagem do Messias (Gn 37 a 50). Você acha que o Senhor precisou colocar maldade no coração dos irmãos de José?

Deus usou o pecado de Davi a fim de que, por meio de Bate-Seba, a linhagem de onde viria o Messias continuasse. Mateus chega a escancarar o pecado de Davi quando registra a genealogia de Jesus e relata que “o rei Davi [gerou] a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6). Está claro que em sua providência Deus usou o ato mau do rei para cumprir sua vontade, mas Davi, livremente, pecou por cobiçar a Bate-Seba (2Sm 11.2-4).

Mais ainda, estava declarado que o Messias seria traído (Sl 41.9 conf. Jo 13.18). Contudo, não foi preciso que Deus movesse o coração de Judas para o mal. Ele traiu a Jesus porque desejava receber por isso. Judas amava o dinheiro e, como tesoureiro dos apóstolos, até roubava das ofertas (Mt 26.15; Jo 12.6). Em Atos Lucas registra que Pedro, ao pregar para os judeus, apontou tanto para a soberania de Deus quanto para a responsabilidade do homem ao tratar da morte de Jesus e acusar: “sendo este entregue pelo determinado desígnio de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.23).

Tudo está decretado por Deus e em sua providência ele leva a cabo seu plano usando, inclusive, os atos pecaminosos dos homens. Foi assim que ele cumpriu o seu plano de dar o seu Filho em favor de pecadores. Não tivesse o Senhor usado o falso testemunho dos homens, Jesus não teria sido jamais condenado, pois era Justo!

Este é o Soberano Deus que governa a sua vida. Entendendo que ele está no controle de todas as coisas, que seu plano é santo e sábio e que ele fará tudo para a sua própria glória, você pode descansar em seu governo e afirmar como Jó, “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2.10) e, assim, experimentar a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2), enquanto aguarda a consumação desse plano perfeito, na vinda do nosso Redentor!


[1] Ricardo Gondim. Quem Deus ouviu primeiro?, acessado em 05/07/19: encurtador.com.br/kmzTW

05 julho 2019

O único Deus verdadeiro

Este é o assunto da quinta pergunta do Breve Catecismo. A pergunta “Há mais de um Deus?”, traz uma resposta simples e direta: “Há um só Deus, o Deus vivo e verdadeiro”.

A consciência de que existe um Deus está em todos os homens. Calvino, acertadamente, afirmou que “sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natural, certo senso da Divindade. Para que não nos refugiemos na alegação de ignorância, o Senhor nos dotou de certa percepção de Sua majestade”[1]. O ensino do reformador ecoa as palavras de Paulo que afirmou aos romanos que

“o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles [os homens], porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.19-20).

Entretanto, esta consciência de Deus, por meio da criação, não é suficiente para a salvação. Daí o primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster afirmar que

“ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis; contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso, foi o Senhor servido [...] revelar-se [...]; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade [...] foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada” (I.I).

É por meio da Escritura, e somente por ela, que o homem pode ter conhecimento de Deus. Por vezes cristãos tentam provar de outras formas a existência de Deus, esquecendo-se que o simples assentimento de que existe um Deus não é suficiente para a salvação e de que isso a própria criação já faz. Deus tem que ser conhecido como revelado na Escritura.

Gosto muito da forma como o livro de Gênesis se inicia. “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Moisés não gasta tempo tentando provar que Deus existe, ele pressupõe isso e no decorrer do livro vai ensinar ao povo recém libertado do cativeiro quem é esse Deus Salvador. Em Deuteronômio, Moisés declara os mandamentos que o Senhor mandou ensinar a Israel e afirma: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6. 4). Este verso se constituiu numa importante declaração de fé para os judeus.

Se existe somente um Deus vivo e verdadeiro, todos os homens estão obrigados a dar a ele glória e louvor. Como já foi dito, ele é revelado na criação, mas Paulo afirma que os homens em seu pecado “inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.22,23). É por isso que precisamos proclamar Deus aos homens, como ele se revelou na Bíblia.

Na pergunta 6 do Breve Catecismo temos um pouco mais a respeito daquilo que entendemos que o Senhor revelou acerca de si mesmo em sua Palavra: “Quantas pessoas há na divindade? Resposta: Há três pessoas na Divindade: O Pai, o Filho e o Espírito Santo, e essas três são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e glória”.

O único e verdadeiro Deus é o Deus Trino! Esta é a verdade declarada na Escritura e que precisa ser crida pela Igreja. Não cremos em um deus qualquer, mas no Deus que se revela por meio do seu Filho, Jesus Cristo, que conforme afirmou Paulo “é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15), aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas (Cl 1.16, Jo 1.3). Cremos no Pai que, juntamente com o Filho, nos envia o seu Espírito, eternamente procedente de ambos. É o Deus Trino que trabalha na criação, redenção e glorificação daqueles que creem em Jesus Cristo.

Neste trabalho, cada Pessoa Divina realiza uma função, o que a teologia denomina de economia (ou administração) da Trindade. Não obstante, é o único e verdadeiro Deus que trabalha em todo o tempo. Tomo como exemplo a obra de salvação em que a Escritura declara que fomos eleitos por Deus, o Pai (Ef 1.3,4), redimidos na cruz por Deus, o Filho (Ef 1.7) e selados por Deus, o Espírito Santo, que habita em nós (Ef 1.13).

A realidade de um Deus Trino tem implicações diretas para o nosso viver diário, como iremos notar. Somos chamados a amar. Biblicamente, o amor é sempre direcionado para fora, daí sermos ordenados a amar a Deus e ao próximo, ao mesmo tempo em que somos ordenados a não ser egoístas, ou seja, a não amarmos a nós mesmos. A Bíblia afirma que Deus é amor! Mas ele não se tornou amor ao criar o homem a fim de ter alguém a quem amar. Deus é amor desde a eternidade, o que pode ser percebido quando João afirma que “o Pai ama o Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos” (Jo 3.35). Nosso amor é reflexo da imagem de Deus em nós. Este amor se tornou egoísta com a queda, mas é reorientado quando somos redimidos por Cristo e inseridos em seu corpo, a Igreja.

A esta Igreja é ordenado que viva em unidade. Paulo escreve aos efésios e diz: “rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados [...] esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.1,3). Mais uma vez é possível perceber a ação da Trindade para que a Igreja cumpra o que lhe foi ordenado. A unidade da Igreja é obra do Espírito Santo. Nós não promovemos a unidade, mas preservamos a unidade. Para isso, nosso Mediador orou intercedendo por nós: “guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um” (Jo 17.11).

Que pedido maravilhoso! Por ter sido feito por Jesus ao Pai, temos a garantia de que o Pai o ouve. Mas há algo ainda mais maravilhoso a ser notado, a saber, que a base para a unidade da Igreja é a unidade da Trindade Santa. Jesus disse: “para que eles sejam um, assim como nós. [...] a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti também sejam eles em nós;” (Jo 17.11,21).

Esta unidade, reflexo do Deus Trino, é para que o único Deus receba a glória devida ao seu nome. Jesus afirmou que isso é “para que o mundo creia que tu me enviaste. [...] eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.21b,23).

O único e verdadeiro Deus é o Deus Trino, que nos ama, nos dirige e nos abençoa, a fim de proclamarmos o seu Santo Nome.


[1] João Calvino. Institutas da Religião Cristã, Livro I

27 junho 2019

Conheça a Deus e deleite-se nele

A quarta pergunta do Breve Catecismo traz uma importante questão: “O que Deus é?”. Esta pergunta é de suma importância para a vida do homem, pois o que alguém entende a respeito de Deus determinará a forma como irá se portar em sua vida.

Isto pode ser visto claramente no ateísmo, por exemplo. Em outro texto escrevi que creio firmemente que o problema do ateu não é com Deus em si, mas com aquilo que Deus exige dos homens. Para livrar-se da ideia de um Deus que é Soberano e que faz exigências às suas criaturas o ateu simplesmente afirma que Deus não existe e, se ele não existe, não existe norma alguma superior a ser seguida.

É claro que isso não é novo. Davi afirma no Salmo 14 que “diz o tolo em seu coração: ‘Deus não existe’” – e que como resultado desse entendimento – “corromperam-se e cometeram atos detestáveis; não há quem faça o bem” (Sl 14.1 – NVI).

Entretanto, a falta de clareza a respeito de Deus não é notada somente entre os ateus. Aqueles que professam a religião de forma hipócrita e também muitos crentes piedosos padecem com este mesmo problema. Tome como exemplo o questionamento feito a Jesus pelos saduceus, que não criam na ressurreição. A fim de testá-lo estes homens perguntaram sobre a lei do levirato. Se um homem morresse seu irmão deveria tomar a sua esposa a fim de suscitar descendência ao falecido. Mas e se um homem morresse e seu irmão assumisse a sua esposa, vindo também a falecer, e isso ocorresse novamente com os sete irmãos, de quem seria a esposa na ressurreição? Está claro que eles querem pegar a Jesus numa contradição com a Lei.

A resposta de Jesus àqueles homens nos ajuda a entender o ponto: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? (Mc 12.24). A partir do que disse Jesus fica claro que o pensamento e a crença errada provinha de não conhecer as Escrituras e, consequentemente, não conhecerem o poder de Deus. Curiosamente vemos esta sequência no Breve Catecismo, a pergunta anterior tratou de “qual é a coisa principal que as Escrituras ensinam?”, tendo como resposta “o que homem deve crer acerca de Deus, e o dever que Deus requer do homem”. Daí se perguntar, em seguida, o que Deus é? A crença em Deus precisa partir das Escrituras, como Jesus bem afirmou: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38).

Aqui vimos o problema daqueles que professavam a religião judaica, mas rejeitavam o Messias enviado. Vejamos o mesmo problema em um personagem conhecido, Moisés, homem usado por Deus para libertar o povo do cativeiro. Moisés viu muitos milagres da parte de Deus e acerca dele é dito que “nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face, no tocante a todos os sinais e maravilhas que, por mando do Senhor, fez na terra do Egito, a Faraó, a todo os seus oficiais e a toda a sua terra” (Dt 34.10).

A despeito disso, houve uma ocasião na vida deste servo de Deus em que ele pediu a morte, pois estava se vendo envergonhado diante do povo, por não poder lhe prover comida. Após reclamar com Deus sobre a forma como o Senhor o estava tratando, pedindo para morrer a fim de não ver a sua reputação ir mal diante do povo, o Senhor, irado, falou que daria tanta carne àquele povo que reclamava que chegaria a sair pelos narizes. Moisés questionou a Deus dizendo que o povo era muito grande e que não havia carne que bastasse para eles, ao que respondeu o Senhor o repreendendo: “Ter-se-ia encurtado a mão do Senhor? Agora mesmo verás se cumprirá ou não a minha palavra!” (Nm 11.1-23).

Perceba bem! Deus está, em outra palavras, perguntando a Moisés se ele havia esquecido do seu poder. Notamos, então, que a forma como Moisés estava se portando, a sua tristeza, vinha de um entendimento equivocado (ou esquecido) a respeito do Senhor. Foi preciso uma dura repreensão para Moisés retomar a sua confiança em Deus.

Tudo isso nos mostra a importância da pergunta 4 do Breve Catecismo. A questão sobre o que Deus é precisa ser muito mais do que um mero exercício intelectual. Estudamos acerca do ser de Deus a fim de saber como nos portar diante dele, a partir da obra de Jesus Cristo que redimiu pecadores, inimigos de Deus, que agora podem dar ouvidos à sua voz.

Saber quem Deus é, conhecer o seu caráter, tudo aquilo que ele revelou acerca de si mesmo na Escritura, deve nos levar a adorá-lo e servi-lo corretamente, tendo como resultado uma vida segura e satisfeita nele.

A resposta do Breve Catecismo é simples, mas profunda: “Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”. Esta maravilhosa sentença, plenamente alicerçada naquilo que a Palavra revela a respeito do nosso Deus, traz a verdade de que, sendo espírito, o Senhor está em todo o lugar, o que chamamos de onipresença. Isso quer dizer que você nunca precisa sentir-se só, ainda que abandonado pelos homens. Também significa que todos os seus atos estão patentes diante dele, que não há como fugir de sua presença.

Deus, por ser eterno, nos garante que seus planos perfeitos nunca irão mudar. Você está nas mãos do Deus sábio que soberanamente guia a história a fim de que possa receber a glória que é devida ao seu nome. Sua sabedoria nos garante que tudo o que ele faz é bom, apesar de muitas vezes não compreendermos os seus caminhos. Ele tem todo o poder para levar à cabo tudo o que planejou, pois “não h á quem possa lhe deter a mão, nem lhe dizer: que fazes?” (Dn 4.35). Sua santidade é tamanha que, por não tolerar o pecado, puniu com a morte a seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, a fim de nos santificar para estar em sua presença. Nesta obra de Cristo temos, então, o exemplo de sua justiça: ele recebe pecadores, não sem antes punir os seus pecados e atribuir a eles a justiça de Cristo, daí ele ser justo e justificador.

Vemos em tudo isso a bondade de Deus, que em sua Palavra que é a verdade nos orienta, direciona, fortalece a fim de sermos um povo santo que o adora em Espírito e em verdade.

Você tem buscado conhecer a Deus? Qual tem sido o resultado deste conhecimento? Sabendo quem é o seu Senhor e nas mãos de quem você está, você poderá deleitar-se nele, tendo gozo e alegria a despeito das circunstâncias, sejam boas ou adversas.

19 junho 2019

Fé e prática - Vivendo de modo coerente

Você já deve ter ouvido por diversas vezes, da boca de vários cristãos, que a Bíblia é a nossa regra de fé e prática. Entretanto, o que pode ser visto na vida de muitos é que na prática, a teoria é outra.

É preciso entender corretamente o que se quer dizer com isso a fim de viver de forma coerente com aquilo que se professa como fé. O Breve Catecismo de Westminster em sua terceira pergunta traz esta questão: “Qual é a coisa principal que as Escrituras nos ensinam?” - e responde – “A coisa principal que as Escrituras nos ensinam é o que o homem deve crer acerca de Deus, e o dever que Deus requer do homem”.

Pensemos a respeito desta resposta. A primeira questão a se notar é que para os cristãos (sobretudo aqueles que subscrevem os documentos de Westminster, como nós presbiterianos) o entendimento acerca de quem é Deus e do que ele requer do homem não pode vir de fontes extra bíblicas. Somente na Palavra de Deus o homem poderá conhecer ao Senhor.

O conhecimento de Deus só é possível porque o Senhor decidiu se revelar e fazer registrar a sua Palavra. A Confissão de Fé de Westminster declara que “foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade a seu povo” (I.I).

O ensino confessional ecoa as palavras do Escritor aos Hebreus que escreveu: “Antigamente, Deus falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, mas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho...” (1.1,2). É somente pela Escritura que Deus se faz conhecido! Ao repreender os fariseus, que apesar de ler as Escrituras não queriam ir até ele, Jesus disse que “são elas mesmas que testificam de mim [de Jesus]” (Jo 5.39). Quando encontrou os discípulos desanimados e tristes no caminho de Emaús Jesus “começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27). De forma semelhante, ao ser convidado pelo eunuco para subir em seu carro a fim de lhe explicar o texto de Isaías, “Filipe explicou; e começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus” (At 8.35).

É sabido que em se ministério Paulo costumeiramente ia à Sinagoga anunciar a Cristo e que ele fazia isso abrindo a Escritura do Antigo Testamento. Ao escrever aos romanos ele disse que “a fé vem pela pregação, e pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). Deus já havia se revelado de muitas maneiras, mas no Novo Testamento a pregação parte sempre da Palavra registrada, chamada por Paulo de palavra de Cristo, daí o Escritor aos Hebreus dizer que nestes últimos dias Deus nos falou pelo Filho!

E quanto ao que está registrado no Novo Testamento? São também a Palavra de Cristo? Note o que disse Pedro. Quando ele escreveu denunciando os falsos mestres acusou-os de deturpar o ensino de Paulo “como também deturpam as demais Escrituras” (2Pe 3.16). Para Pedro, então, o que havia sido Escrito por Paulo tinha o mesmo peso de autoridade dos Escritos do Antigo Testamento. É por isso que a Igreja é edificada sobre o “fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20).

Isso torna a Escritura indispensável à nossa fé. Cremos naquilo que ela diz e somente naquilo que ela diz, daí as exortações para não nos sujeitarmos a preceitos de homens (Cl 2.22), não darmos ouvidos a doutrinas de homens (Tt 1.14) e para termos “cuidado que ninguém vos [nos]venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8).

Entretanto, é possível que uma pessoa saiba o que a Escritura revela sobre Deus, sobre o que ele requer do homem e, ainda assim, viva de forma incoerente com aquilo que diz crer. Ou algo ainda mais grave, como afirma Packer: “Interesse em teologia, conhecimento sobre Deus, e capacidade de pensar com clareza e falar bem sobre temas cristãos não são a mesma que conhecer a Deus. Podemos saber tanto quanto Calvino a respeito de Deus – na verdade, se estudarmos suas obras com diligência, cedo ou tarde isso vai acontecer – entretanto durante todo o tempo (ao contrário de Calvino) saberemos bem pouco a respeito de Deus[1].

A fé bíblica vem acompanhada de ação. Esta é uma verdade que precisa ser enfatizada, sobretudo em tempos de discussões sem fim sobre teologia nas redes sociais. E não somente isto. Vivemos dias em que a suficiência das Escrituras é pregada em muitos púlpitos ao mesmo tempo em que é negada no gabinete pastoral, razão de muitos pastores acreditarem na mentira de que para aconselharem precisam de fontes humanistas cujos pressupostos são contrários às afirmações da Escritura.

O ensino confessional afirma que as Escrituras revelam o que Deus requer do homem. Isso diz respeito à forma como os cristãos vão viver piedosamente em meio à um mundo caído, respondendo às suas circunstâncias de forma bíblica. O que está na Escritura é suficiente para a vida e para a piedade (1Pe 1.3), é útil para tornar o homem de Deus “sábio [...] perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.17).

Sua vida é o reflexo daquilo que você verdadeiramente crê. O homem bem-aventurado do salmo 1 medita de dia e de noite na Palavra e “tudo quanto ele faz será bem sucedido” . Josué ouviu do Senhor que ele deveria meditar, fazer e falar sobre o livro da lei e, então, o seu caminho seria próspero e bem sucedido (Js 1.8). Contrastando com isso, Jesus censurou os fariseus por dizerem e não fazerem. Você pode notar que muito do que eles diziam era correto, pois Jesus ordenou aos discípulos que fizessem e guardassem o que eles diziam, mas que não os imitassem. Daí eles serem tratados pelo Senhor como hipócritas.

A Escritura é a Palavra de Cristo, a única verdade. Ele o libertou para que você tenha condição de ouvi-la e guardá-la, por estar unido a ele. Sem ele ninguém pode fazer nada (Jo 15.5), mas aqueles que estão nele, darão muito fruto. A evidência de estar nele é ouvir e guardar a sua Palavra, crer e praticar, como ele mesmo afirmou: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). Que ele o ajude!

[1] J.L. Packer. O conhecimento de Deus, p. 19












12 junho 2019

O que importa é o coração?

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A primeira pergunta do Catecismo Menor de Westminster trata da finalidade para a qual Deus criou o homem: glorificá-lo e gozá-lo para sempre!

Creio que esta questão não seja problema para nenhum daqueles que se intitulam cristãos. Qualquer pessoa que leia a Bíblia chegará à conclusão de que o homem foi criado para adorar ao seu Criador. Entretanto, o entendimento de como Deus será glorificado, honrado, adorado e agradado pode mudar e têm mudado de acordo com grupos específicos, no decorrer da história.

Se olhamos para a igreja do primeiro século vamos lembrar que falsos mestres começaram a ensinar, influenciados pela ideia de que a matéria é inerentemente má, que Jesus não tinha um corpo, mas apenas aparentava ser homem. Esse tipo de crença acabava por influenciar toda a vida. Como resultado, houve tanto aqueles que entenderam que deveriam se abster totalmente das “coisas da carne”, como queriam fazer os coríntios em relação à vida sexual (1Co 7), quanto aqueles que entenderam que Deus não se importava com o que era feito por meio do corpo, já que o importante era a vida espiritual, razão de Pedro denunciar as práticas libertinas praticadas pelos seguidores dos falsos mestres (2Pe 2.1-3).

O que eu quero demonstrar citando estes exemplos é que todos os pensamentos e ações de uma pessoa decorrem daquilo que ela crê. Então, se é verdade que o homem foi criado para glorificar a Deus e ter alegria nele para sempre, teria Deus deixado ao arbítrio de cada um o entendimento de como viver assim? É claro que não!

A segunda pergunta do Catecismo Menor deixa isso bem claro: “Que regra Deus nos deu para nos orientar na maneira de o glorificar e gozar? – Resposta: A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, é a única regra para nos orientar na maneira de o glorificar e gozar”.

A Palavra de Deus, viva e eficaz, é tudo aquilo de que o homem precisa a fim de viver de uma maneira que agrade ao Senhor. A Palavra nos dá conhecimento a respeito de Cristo e, conforme Pedro, isso é tudo o que precisamos para a vida e piedade (2Pe 1.3-11).

Esta Palavra “é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16). É importante lembrar aqui que o mesmo apóstolo Paulo, em outra epístola afirmou aos irmãos que “somos feitura dele [de Deus], criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Isto confirma que o Senhor nos deu em sua Palavra tudo o que precisamos para viver para a sua glória.

A despeito disso, temos em nossos dias um falso ensino que, à semelhança dos falsos ensinos do primeiro século, tem levado muitos ao erro. Trata-se da ideia de que para Deus o que importa é o coração, ou seja, a única coisa com a qual o Senhor se importa é com a sinceridade do homem. Isso tem levado pessoas a desconsiderar o que a Escritura determina para o culto ao Senhor, chegando ao absurdo de se afirmar que Deus salvará pessoas que nunca ouviram falar sobre Cristo, mas que adoram algum outro deus com sinceridade. Segundo aqueles que defendem esta ideia, eles só não adoram a Cristo por não o conhecer, mas a sinceridade com que “buscam a Deus” será considerada pelo Senhor.

É claro que esse tipo de ensino não passa pelo crivo das Escrituras. Basta lembrar que Paulo, ao lamentar a situação dos judeus que rejeitaram a Cristo, afirmou aos romanos que dava o seu testemunho de que eles tinham zelo por Deus. Paulo não tinha dúvida da sinceridade de coração daqueles homens, afinal de contas, ele mesmo, outrora, perseguia a igreja achando que, com isso, estava agradando a Deus. Por isso, ao escrever a Timóteo ele afirmou: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, a mim, que, noutro tempo era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia pois o fiz na ignorância, na incredulidade” (1Tm 1.1-3).

Paulo esteve na situação daqueles judeus. Sincero, zeloso, mas errado. O que leva Paulo a lamentar, portanto, é que o zelo, sem entendimento, como ele diz em Romanos 10, leva o homem à condenação, pois o faz desconsiderar a Cristo e sua obra, confiando naquilo que ele mesmo faz. O Senhor não tem compromisso com a sinceridade do homem, mas com a sua obediência, de coração, à sua Palavra. Foi isso que ouviu o sincero Saul, ao ser repreendido por Samuel: “Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” (1Sm 15.22).

Enquanto escrevo, lembro-me de uma música antiga que dizia: “Se disser, ‘sou fiel naquilo que eu creio, todo caminho leva a Deus, só basta ser sincero’, mas se pegar a estrada do Rio prá Salvador, Porto Alegre não verá mesmo que sincero for”. Esta estrofe retrata claramente o que é a sinceridade sem o entendimento.

Portanto, graças a Deus por Jesus Cristo, aquele que fez toda a vontade do Pai, cumprindo perfeitamente toda a Lei e morrendo em lugar de pecadores. É ele quem declara: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6).

Se você estiver nele, tem condições de atentar à única regra que o Senhor nos deu a fim de nos orientar na maneira de o glorificar e gozar. Mas se você não atenta à Palavra, pode até achar que adora sinceramente a Deus, mas está completamente equivocado e condenado, pois Jesus afirmou: “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15), o que foi lembrado por João que disse: “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos” (1Jo 2.3).

Aqueles que dizem amar ao Senhor sem dar atenção à sua Palavra demonstram amar a si mesmos e aos seus desejos. Que a sua sinceridade esteja de acordo com a Palavra de Cristo, pois só assim você o glorificará e terá alegria nele para sempre!

27 abril 2019

Meu Pai trabalha até agora...

Não é incomum ver pessoas que sequer começaram a sua vida profissional e já pensam na aposentadoria. Apesar de nada terem produzido por meio do seu trabalho, já sonham com os dias em que só haverá viagens, belas praias, pores do sol esplendorosos, sombra e água fresca.

Além de esta ser uma realidade distante da maioria daqueles que se aposentam, há o fato de que, em se tratando de trabalho, são muitas as distorções. O trabalho é visto como maldição por causa do pecado de Adão, como um mal necessário, como o meio de subsistência, como o sentido da vida, como algo que traz dignidade, afinal, “o trabalho dignifica o homem”, etc.

Biblicamente o trabalho é um mandamento. Deus fez o homem para trabalhar e isto é visto de modo claro no livro de Gênesis, quando o Senhor coloca Adão no Jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2.15). As coisas não poderiam ser diferentes, pois por ser criado à imagem e semelhança de Deus o homem é um reflexo do seu Criador. E o que você vê Deus fazendo no primeiro capítulo da Escritura? O Senhor está trabalhando, realizando a obra da criação.

No sexto dia ele cria o homem, ação descrita por Davi da seguinte maneira: “Fizeste-o por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão (Sl 8.5-6a). Ao cabo de sua obra, Moisés relata que “havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito (Gn 2.2).

Com a queda todas as relações do homem foram afetadas. Sua relação com Deus, com o próximo e também com o trabalho. A maldição dada por Deus após o pecado não foi o trabalho, mas a dificuldade e a penosidade de se ganhar o pão: “No suor do rosto comerá o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.19). O trabalho, bênção do Senhor, se tornara penoso e assim seria até que o homem experimentasse a pior das consequências do seu pecado, a morte.

Entretanto, antes de amaldiçoar o homem o Senhor havia amaldiçoado a serpente, afirmando que da mulher nasceria aquele que iria esmagar a sua cabeça (Gn 3.15). A obra (trabalho) de Cristo estava anunciada. Haveria um dia em que o homem voltaria a encontrar vida e o verdadeiro descanso, prenunciado pela lei.

Quando o Senhor deu a Moisés o quarto mandamento, ordenou-o lembrar do padrão “seis para um” estabelecido na criação:

Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho [...] porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra [...] e, ao sétimo dia, descansou (Ex 20.8-9).

O descanso do Pai após a sua obra era o padrão para o descanso dos seus servos e apontava para o descanso do Filho, após terminar a sua obra de redenção. Esta é, inclusive, a razão de a igreja descansar no primeiro dia, dia da ressurreição do nosso Senhor.

Infelizmente, a lei dada para demonstrar ao homem que o Senhor era o seu cuidador e sustentador, prefigurando o descanso em Cristo, foi transformada pelos judeus em um dia cheio de ritos e proibições vazias que eles entendiam ser necessários à salvação.

Isto pode ser notado no episódio de João 5. Após ter sido curado por Jesus, o paralítico foi questionado pelos judeus, pois estava carregando o seu leito em dia de sábado. Ele respondeu que aquele que o havia curado (um claro sinal de que Jesus era o Messias) o havia mandado carregar o leito. Ao ser perseguido pelos judeus Jesus respondeu que, semelhante ao seu Pai que trabalhava até aquele momento, ele também trabalhava, razão de os judeus quererem matá-lo, pois além de “violar” o sábado se fazia igual a Deus.

Com isso Jesus demonstra que o sábado, dia do descanso das atividades cotidianas para “ganhar” pão de cada dia, era também dia de trabalho, porém, um trabalho para Deus e para o próximo. O Breve Catecismo descreve esse trabalho como “exercícios públicos e particulares de adoração” e “obras de necessidade e misericórdia” (P. 60).

Diante disso, podemos pensar em algumas lições:

1. Não é o trabalho que dignifica o homem – Sua dignidade está em ser imagem e semelhança de Deus. Seu valor não está em quem ele é, mas a quem ele representa. O trabalho é expressão dessa imagem e precisa ser feito para a glória de Deus. Para isso...

2. A penosidade do trabalho é redimida em Cristo – A obra de Cristo, para salvação do seu povo dos seus pecados, liberta o homem para viver para a glória de Deus e encontrar satisfação no que outrora era penoso. Essa é a experiência do homem temente ao Senhor do Salmo 128, que come do trabalho de suas mãos e é feliz.

3. Não trabalhar é pecado – Paulo foi categórico ao exortar os tessalonicenses: “quando ainda convosco, vos ordenamos isto se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2Ts 3.10). Aqui alguém pode questionar: Mas eu já trabalhei, juntei dinheiro e estou aposentado, o que fazer? Concordo com Jay Adams:

Se [...] a pessoa interpreta a aposentadoria como a mudança de um tipo de trabalho para outro, e a entrada numa nova fase de atividade produtiva (possivelmente a realização de muitas atividades não-remuneradas para a igreja de Cristo, coisas que ela nunca tivera tempo para fazer), isto é bom. Quando Deus manda o homem fazer ‘toda a sua obra’ em seis dias, ele se refere a mais do que uma única espécie de trabalho (não meramente trabalho remunerado)[1].

4. Não descansar é pecado – O dia do Senhor continua sendo ordenado aos cristãos. É preciso, neste dia de descanso, servir a Deus e ao próximo, adorar aquele que enviou o seu único Filho para que, por meio do seu trabalho de Redenção, salvasse e purificasse “para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras [trabalho]” Tt 2.14). Todos os domingos você lembra e declara que não é sustentado por causa do seu trabalho, mas por causa do Senhor (Sl 127.1-2) e, por isso, dedica este dia inteiramente ao seu mantenedor!

O Pai de Jesus trabalha até agora e ele também trabalha. Trabalhe você também, para a glória de Deus, vislumbrando no dia de descanso o glorioso e eterno descanso que teremos por estarmos unidos a Cristo, aquele que concedeu a vida!


[1] Jay Adams. Teologia do Aconselhamento Cristão, p. 192. Ed. Peregrino

23 abril 2019

Qual é a razão da nossa existência?

Esta é uma questão presente na história da humanidade, cuja resposta varia, dependendo da visão de mundo de quem a elabora. Para aqueles que negam a existência de Deus, a vida, fruto do acaso, encerra-se assim que a pessoa morre. Esta ideia naturalista implica na falta de um referencial para a moralidade. Se não existe um Deus, não existe uma moral absoluta e cada um pode construir a sua própria “moralidade”.

Longe de ser uma novidade, esta visão de mundo e sua consequência foi apontada por Davi em dois de seus salmos, o 14 e o 51, em que afirma:

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus”.

O resultado lógico da crença na não existência de um Deus que soberanamente estabelece o que é certo e o que é errado, está na sequência:

“Corrompem-se e praticam iniquidade; já não há quem faça o bem” (Sl 53.1).

Alguém que não crê em Deus não tem esperança e, inevitavelmente buscará uma razão para motivá-lo a viver, visto que, por ter sido o homem criado para adorar a Deus, ao tentar eliminá-lo de sua vida, fatalmente colocará outro deus em seu lugar. Este falso deus que o motivará a viver pode ser a família, o trabalho, o status, ou qualquer outra coisa que ele entenda ser importante e que valha a pena viver por ela. Porém, sem um referencial absoluto de moralidade, pecará para conquistar aquilo que tanto almeja.

Entretanto, Davi descreve como o Senhor enxerga estas pessoas:

“Do céu, olha Deus para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem sequer um” (Sl 53.2-3).

A vida daqueles que não creem em Deus é uma vida sem sentido. Mas não somente a deles, a dos que creem em um deus que é fruto de sua própria imaginação também é uma vida vazia. Uma vez que esta pretensa deidade é falsa, persiste a falta de razão para a existência.

Todavia, uma boa resposta à esta questão foi dada pelos teólogos de Westminster, já na primeira pergunta do Breve Catecismo: “Qual é o fim principal do homem? Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.

A questão da razão da existência está magistralmente colocada aqui. O homem foi feito para dar glória a Deus. É isto que confere razão à sua existência e, ao viver assim, ele encontra verdadeira alegria em tudo o que faz. A alegria no que se faz é fruto de se fazer pela razão correta.

Adão foi criado desta maneira, conforme o relato do livro de Gênesis. O problema é que, com a queda, o homem passou a ser inimigo de Deus. É por isso que ele rejeita a Deus e, ao mesmo tempo, busca falsos deuses. Como afirma Calvino, “sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natural, certo senso da Divindade. [...] Até a idolatria nos serve de grande argumento em favor desta ideia” (Institutas, livro I).

Diante disso, para que o homem encontre novamente a verdadeira razão para viver, Deus enviou seu Filho a fim de resgatá-lo. Após a queda de Adão, o único homem que teve condições de glorificar a Deus e gozá-lo para sempre foi o Senhor Jesus Cristo, por ser o próprio Deus encarnado. Ao viver de forma perfeita e morrer em favor dos seus eleitos para que estes possam ser salvos pela fé, o Senhor Jesus Cristo garante aos que estão unidos a ele condições de também glorificar a Deus e ter alegria nele, para sempre.

Você pode notar isto na oração sacerdotal registrada no Evangelho de João. Jesus diz ao Pai:

“Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste a fazer” (Jo 17.4).

O Filho bendito de Deus, glorificou a seu Pai, realizando uma obra penosa. Lembre-se que em sua obra ele teve de suportar o cálice da ira divina, em lugar dos seus. Após isso ele roga ao Pai:

agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (17.5).

Quando pregou aos judeus, Pedro citou a alegria de Cristo em sua obra, ao aplicar a ele as palavras de Davi:

“Diante de mim via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado. Por isso, se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; além disto, também a minha própria carne repousará em esperança, porque não deixará a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria na tua presença (At 2.25-28).

Jesus glorificou ao Pai e teve alegria nele!

Voltando à oração sacerdotal, Jesus afirma que em seus discípulos ele é glorificado (17.10) e diz:

“agora, vou para junto de ti [do pai] e isto falo no mundo para que eles tenham o meu gozo completo em si mesmos” (17.13).

Comentando esta passagem Carson afirma que “minha alegria [meu gozo] aponta, sem dúvida, para [Jo] 15.11, em que a alegria de Jesus, como a dos discípulos pelos quais Jesus ora, depende do fato de permanecer no amor do Pai, obediente a ele e em fidelidade de coração à Palavra que Jesus ensinou” (Comentário de João).

A obra de Cristo liberta o pecador e o leva à obediência que glorifica a Deus e redunda em alegria nele, para sempre. Se você não entender que a razão da vida está em realizar aquilo para o qual foi você foi criado, continuará a buscar fontes de alegria fora de Deus e razões para continuar que só funcionam enquanto o seu interesse estiver nelas ou você não se decepcionar com elas.

Em Cristo, tudo ganha sentido. Sem ele, a vida se restringe ao que Salomão registra no livro de Eclesiastes:

“Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Ec 1.14).

Crendo em Cristo você tem um referencial absoluto para a sua moralidade e viverá de forma a glorificar a Deus em tudo o que faz, tanto nas coisas menores, “quer comais, quer bebais” – quanto em tudo o mais – “ou façais outra coisa qualquer” (1Co 10.31). Assim, desfrutará de alegria, a despeito das circunstâncias, pois terá aprendido como Paulo “a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.11), sendo Cristo aquele que te fortalece.

Agostinho afirmou em suas Confissões: “porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso”. Este descanso é o Senhor Jesus Cristo, que glorificou ao Pai e tem alegria nele eternamente para que você possa viver da mesma forma. Só em Jesus Cristo há verdadeira razão para viver.

06 abril 2019

Autoestima - uma doutrina anátema

Sei que o título talvez espante aqueles cristãos que já assimilaram que o dogma da autoestima é algo ensinado pelas Escrituras, mas é preciso apontar e nominar o falso ensino, afinal de contas, conforme Paulo, qualquer evangelho que seja diferente daquele pregado pelos apóstolos deve ser classificado como maldito (Gl 1.6-9).

Se você pesquisar na internet verá várias definições sobre o que seria o ensino da autoestima. Creio que uma que resume bem é o de Dorothy Briggs: “a autoestima é a maneira pela qual uma pessoa se sente em relação a si mesma. É o juízo de si mesmo, o quanto gosta de sua própria pessoa”.

A ideia é que se alguém não se sente bem em relação a si mesmo e não gosta de sua própria pessoa possui uma baixa autoestima, ou seja, esta pessoa carece de amor próprio. Como consequência pode vir a depressão, timidez em excesso, problema em dizer não, sensação de culpa, necessidade constante de elogios, etc.

Por outro lado, se alguém tem a sua autoestima elevada, ou seja, se é uma pessoa com um bom conceito a respeito de si mesma e que se ama, esses problemas seriam curados e não mais existiriam.

Estas ideias não saíram da Escritura. Na verdade, ao falar sobre o amor próprio, as Escrituras o apontam como um mal. Paulo advertiu a Timóteo afirmando que “nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos; porque haverá homens amantes de si mesmos” (2Tm 3.1-2a – ARC). Entretanto, elas podem ser vistas em várias linhas das psicologias existentes, que tentam explicar quem é o homem, o que está errado com ele e como ele pode ser “consertado”. A despeito disso, elas foram inseridas na pregação de muitos pastores que a tomam como base de seus sermões. Um exemplo desse tipo de pregação é um vídeo que viralizou recentemente em que Deive Leonardo, pregador itinerante, afirma aos seus ouvintes frases como:

“Do evangelho Jesus é o centro, mas de Jesus... você é o centro”, “você é importante. Tudo o que Jesus fez apontou para você”, “Você é importante. Se qualquer história, qualquer legado, qualquer palavra, contra você, menosprezou, colocou para baixo, eu digo em nome de Jesus, pra você: você é a pessoa mais importante da terra, porque tudo o que Jesus fez, foi por tua culpa. Você é importante”.

Ao assistir este vídeo, lembrei de imediato das palavras de um pastor Luterano, Don Motzat, que li há alguns anos:

Tenho ouvido mais de um pastor declarar em sermão que a morte de Cristo prova nosso valor pessoal. [...]

Um recente programa de televisão reportou a acareação de um assassino que admitiu a responsabilidade por pelo menos quinze assassinatos. O juiz firmou sua fiança em cinco milhões de reais! Será que usaríamos o mesmo tipo de raciocínio para concluir que esse homem deveria se sentir bem acerca de si mesmo considerando-se como um ser humano de especial valor, uma vez que o juiz firmou sua fiança em valor tão alto? Afinal, ele vale cinco milhões de reais para a sociedade!

A fiança de cinco milhões obviamente não reflete o valor do assassino, mas a severidade do seu crime. Igualmente, a morte do nosso Senhor Jesus Cristo na cruz não é uma declaração de nosso valor, mas indica a profundidade do nosso pecado e culpa diante de Deus.

[...]

Geralmente ouvimos dizer: ‘Se eu fosse a única pessoa na terra, ainda assim Jesus teria morrido por mim’. Embora nosso Senhor pudesse ter dado sua vida por apenas uma pessoa, isso não seria por que essa pessoa era valiosa, mas porque Deus seria gracioso. Tal ocorrência dificilmente poderia ser vista como fonte de orgulho ou auto-estima. Argumentar que Jesus teria morrido por mim ainda que eu fosse a única pessoa na terra, simplesmente indica que meus pecados, sem a contribuição de outras pessoas, eram suficientes para exigir a severa punição que Jesus Cristo vicariamente assumiu em meu lugar. Quando confrontado com essa realidade, devemos lamentar pelo sacrifício altruísta de nosso Senhor em vez de achar nisso mais uma oportunidade de sentir-nos bem sobre nós mesmos (Religião de Poder – Ed. Cultura Cristã).

Notou a discrepância da abordagem? O que faz toda a diferença é que uma está centrada em Cristo enquanto a outra tem como centro o homem. Este é um grande mal que a tentativa de integrar a psicologia com a Bíblia tem feito ao evangelho. Por esta razão afirmei de início que a mensagem da autoestima deve ser classificada como anátema. Quando Paulo afirmou aos gálatas que um evangelho diferente do que ele pregou seria anátema, o problema era também tirar Cristo do centro. Em vez de entender a salvação pela graça, os gálatas estavam acreditando que a salvação se dava por causa daquilo que eles faziam, da guarda da lei.

A pregação sobre a autoestima, sobre o valor do homem faz o mesmo, mudando o que deve ser mudado, pois nesse caso, não há nem o esforço para o homem fazer algo a fim de ser salvo. Ele é salvo por causa daquilo que é da importância que tem, o que teria movido Deus a salvá-lo. No fim das contas, em ambas as distorções, o homem é o centro.

Tenho dito que o pior livro para aqueles que querem ter uma autoestima elevada e querem se ver como muito importantes é a Escritura. Na Escritura, o valor do homem não é definido por causa de quem ele é, em si mesmo, mas por causa de quem ele representa. Ele foi formado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26-28). Seu valor não é próprio, mas atribuído e é isso que lhe confere dignidade.

O problema é que a Escritura anuncia a queda de Adão (Gn 3) e, como consequência, a queda de toda a humanidade. A partir de então, como afirma Paulo, “tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda a boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.19-20).

Como o dogma da autoestima quer livrar o homem da culpa, ele está em franca oposição com o objetivo da Lei. Logo, da mesma maneira em que a Lei, ao evidenciar a culpa do homem, aponta para Cristo, única solução para a sua vida, o dogma da autoestima afasta o homem de Cristo ou, pelo menos, do verdadeiro Cristo revelado nas Escrituras, ao “aproximá-lo” de um Jesus que tem o homem como centro.

Os discípulos que tinham uma elevada ideia a respeito de si mesmos e que, por isso, se acharam no direito de pedir ao Senhor que no seu reino um se assentasse à sua direita e outro à sua esquerda, ouviram que no Reino de Deus “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mt 20.20-28 cf Mc 10.35-45).

O homem já se ama por demais. O que ele precisa, convencido pela Lei, é confessar o pecado de viver para si mesmo, se render a Cristo e, por meio dele, aprender a amar a Deus e ao próximo, pois “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.40).

O cristão é chamado a negar a si mesmo e seguir a Cristo (Mc 8.34-38). É chamado a considerar os outros superiores a si mesmos (Fp 2.3), a preferir os outros em honra (Rm 12.10), a não pensar de si mesmo mais do que convém (Rm 12.3), pois o verdadeiro amor (a Cristo e ao próximo) não procura seus próprios interesses (1Co 13.5).

Ensinar os homens a amarem a si mesmos é afasta-los da dura realidade de seus pecados e, consequentemente, da Redenção que há somente em Cristo Jesus.

Se o amor próprio ou a estima por si mesmo pudesse ajudar o homem, o Senhor Jesus Cristo não precisaria dar a própria vida a fim de que pecadores pudessem ter vida em abundância ao negarem a si mesmos e viverem para Deus. A suficiência do cristão não está em si mesmo, mas na pessoa bendita do Redentor Jesus Cristo. Ao invés de autoajuda ou autoestima, o cristão deve ter uma alta estima por Jesus. Como afirma Powlison, em um de seus livros, “a alta estima por Jesus dá resultado!”.

Rejeite as ideias seculares que se opõem às Escrituras!


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Amar a quem?

Na verdade não, você não pode!

02 abril 2019

Tudo é para o seu bem, é o que basta a você saber

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No texto anterior tratei do questionamento errôneo por parte de muitos que, ao sofrer, perguntam o que fizeram para merecer tal aflição. Demonstrei que, biblicamente, o homem já nasce inimigo de Deus, portanto, merecedor apenas de sua ira. Aqueles que não compreendem esta verdade, fatalmente viverão lamentando, independente do tamanho da aflição por que passam, seja grande ou pequena.

Por outro lado, mostrei que a pergunta “o que eu fiz para merecer isso?” vista pela perspectiva da graça de Deus, leva o homem a ser grato a Deus que, por causa de Cristo, não nos dá toda a punição que merecemos, ao mesmo tempo em que, sem nenhum mérito nosso, a não ser os de Cristo aplicados a todo o que nele crê, concede pela graça a vida eterna. Esta é a razão de os sofrimentos aqui, não se compararem à glória a ser revelada em nós.

Entretanto, mesmo aqueles que creem em Deus, seja no Antigo Testamento por meio da fé no Messias que viria, seja no Novo Testamento, por meio da fé no Messias que cumpriu as promessas de sua vinda, por vezes fizeram a mesma pergunta: O que eu fiz para merecer isso?, ainda que não com as mesmas palavras.

Lembre-se, por exemplo, de Jó. Homem descrito pelo próprio Senhor como sendo íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal. No início do livro, após sofrer vários infortúnios, ele continuou louvando a Deus, chegando a afirmar à sua esposa: “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2.10). Entretanto, após esse primeiro momento, ele amaldiçoou o dia do seu nascimento (Jó 3) e chegou a dizer:

“Ah! Se eu soubesse onde o poderia achar! Então, me achegaria ao seu tribunal. Exporia ante ele a minha causa, encheria a minha boca de argumentos. Saberia as palavras que ele me respondesse e entenderia o que me dissesse. Acaso, segundo a grandeza de seu poder, contenderia comigo? Não; antes, me atenderia. Ali, o homem reto pleitearia com ele, e eu me livraria do meu juiz” (Jó 23.3-7).

Você percebe o que está havendo aqui? Jó, arrogantemente, está declarando que se ele se defendesse diante de Deus, este retiraria dele o sofrimento por reconhecer a sua justiça.

Veja um pouco mais. O capítulo 31 é uma amostra da justiça de Jó. Ali ele declara que nunca havia posto os olhos maliciosamente em uma donzela, que não cobiçou, não adulterou, foi justo e caridoso com seus servos, nunca havia negado a Deus nem se alegrado com o mal. Após ele termina dizendo: “Eis aqui a minha defesa assinada! Que o Todo-Poderoso me responda! Que o meu adversário escreva a sua acusação!” (Jó 31.35).

Como afirmei no texto anterior, a pergunta “o que eu fiz para merecer isso?” não é uma boa pergunta a se fazer. Mas é isso, basicamente, o que Jó está fazendo. É preciso enfatizar que a contar pelo testemunho do próprio Deus a respeito dele no início do livro, Jó de fato fazia tudo isso. Ele era justo, íntegro e se desviava do mal.

A questão é que ele achava que estas ações, fruto da graça de Deus sobre ele, eram motivo suficiente para ele não experimentar tamanho sofrimento. O erro, então, era ele confiar em sua própria justiça.

O problema de se perguntar a razão do sofrimento é Deus resolver responder. No capítulo 38 o Senhor aparece a Jó e o responde questionando: “Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento?” (Jó 38.1-2). Deus começa apontando para a soberba (“quem é este?”) daquele que falava sem entendimento e passa, então, a fazer perguntas a Jó a fim de que ele respondesse.

Após uma série de perguntas que apontavam para a criação e para o governo de Deus sobre suas criaturas o Senhor, termina com um ultimato: “Acaso, quem usa de censuras contenderá com o Todo-Poderoso? Quem assim argui a Deus que responda” (Jó 40.2). O que responderia Jó diante de tamanha grandeza? Ele simplesmente não tem o que responder e diz que taparia a boca para não mais falar.

Mas o Senhor ainda não havia terminado de ministrar ao coração de Jó. Ele afirma que Jó o acusava de injustiça e novamente faz mais uma série de perguntas que demonstravam o seu poder e a grandeza, mostrando a Jó que ele sequer conseguiria subjugar suas grandes criaturas, quanto mais contender com o seu Criador.

Jó finalmente entende a questão. Ele declara no capítulo 42 o poder do Senhor: “Bem sei que tudo podes” – e sua total soberania sobre todas as coisas – “e nenhum dos deus planos pode ser frustrado” (v. 2). Ele declara ainda que falou do que não sabia e do que não entendia. Ele conhecia só de ouvir, mas agora via o Senhor. A ideia é que agora, ele mais intimamente entendia que o plano de Deus era perfeito, ainda que Deus não tenha explicado a ele a razão do sofrimento.

Esta última declaração de Jó está em acordo com o propósito das provações, como descrito por Tiago. Elas tem por fim tornar o homem perfeito, íntegro e em nada deficiente (Tg 1.4). O Deus que salva pecadores, sem que eles mereçam, os “predestinou para serem conformes a imagem de seu Filho” (Rm 8.29), daí Paulo estar convicto de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Nossa vantagem em relação a Jó é o ensino do Novo Testamento a respeito das provações que afligiram o nosso irmão. Portanto, consciente do propósito do Senhor de conformar todos os seus filhos adotivos à imagem do Filho Perfeito, o Senhor Jesus Cristo, não ceda à tentação de perguntar “o que eu fiz para merecer isso”, antes, como fez Jó no final do livro, confie naquele que não terá nenhum de seus planos frustrado e que faz coisas maravilhosas, muitas vezes não entendidas por você.

Você não precisa entender os planos que Deus não revelou, mas, pela revelação da Escritura, entender quem é o Deus Bendito que por amor ao seu povo, fez sofrer o seu próprio Filho, verdadeiramente justo, que justificou a Jó e a todo o que nele crê.

28 março 2019

O que eu fiz para merecer isso?

O que são bancos de carga?Talvez você já tenha ouvido muito esta frase. Talvez você mesmo já a tenha dito em um ou em vários momentos da sua vida. Ela é geralmente usada em momentos de aflição, quando o sofrimento parece estar além das forças.

Costumo dizer que essa não é uma boa pergunta a se fazer, pois, biblicamente, uma resposta simples e direta à pergunta “o que eu fiz para merecer isso” seria: “você nasceu”.

Eu sei que esta resposta não é muito popular, tampouco é bem vista até mesmo por muitos cristãos que pressupõe que para recebermos algo de ruim seria necessário ter feito algo ruim. A própria pergunta “o que eu fiz” aponta para isso. Entretanto, a realidade bíblica é outra.

Desde que Adão transgrediu o Pacto que Deus estabeleceu com ele no Éden, toda a sua posteridade já nasce em um estado de pecado e de miséria, visto ter sido ele o nosso representante. Esta verdade é ensinada pelo apóstolo Paulo ao afirmar que

“por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12), e como ele ensinou aos coríntios, “todos morrem em Adão” (1Co 15.21).

É por causa desta verdade que Davi afirmou ter nascido na iniquidade (Sl 51.5) e que o próprio Paulo afirmou que por natureza todos os homens são filhos da ira (Ef 2.3). Ou seja, basta nascer um homem que está ali alguém merecedor da ira do Deus Todo-Poderoso.

Mas a resposta pode ficar ainda pior. Além do fato de o homem nascer pecador, em dívida para com Deus, merecendo assim toda sorte de calamidade sem ter cometido uma ação sequer, ele ainda aumenta a sua dívida ao cometer pecados em cada um dos dias de sua vida. Um agravante é que o homem sem Cristo ao cumprir externamente a Lei do Senhor continua culpado de pecado por não ter levado em conta a glória de Deus e de não ter a Cristo como seu Mediador. Daí Isaías afirmar que “todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia (64.6).

A resposta à pergunta 27 do Catecismo Maior, Qual é a miséria que a queda trouxe sobre o gênero humano?, resume bem a questão:

“A queda trouxe sobre o gênero humano a perda da comunhão com Deus, o seu desagrado e maldição; de modo que somos por natureza filhos da ira, escravos de Satanás e justamente expostos a todas as punições, neste mundo e no vindouro”.

Há ainda mais uma questão a se considerar. Mesmo que o homem não merecesse nenhum infortúnio, o fato de ele viver em um mundo quebrado pelo pecado, por si só, já o levaria ter problemas. Isto porque a própria terra foi amaldiçoada, também por causa do pecado de Adão.

Diante deste quadro, convido você a considerar a graça de Deus. Esta graça maravilhosa, fruto do amor de Deus por aqueles que ele escolheu antes da fundação do mundo (Ef 1.4,5), é vista de forma sublime na cruz de Cristo.

Tratando da obra redentora de Jesus Paulo diz que dificilmente alguém se animaria a morrer por um justo, “mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Atente bem à essas palavras. O que você merecia, todo o peso da ira de Deus, foi derramado sobre o Senhor Jesus Cristo que foi “traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Is 53.5).

Jesus, o Filho Perfeito, Santo e Justo de Deus, nada fez para merecer a morte que é o salário do pecado (Rm 6.23). Quem fez foi Adão, eu, você e todos os homens. Este salário era devido a nós, que fizemos por merecê-lo, mas foi o Redentor que o recebeu, para que aqueles que confiam nele pudessem ser justificados pela graça, mediante a fé, e nem isso vem de nós, a fé é também um dom, um presente de Deus (Ef 28).

Se você é um cristão precisa, diante das calamidades, infortúnios, mazelas que lhe sobrevierem, lembrar da obra de Cristo que o livrou da ira vindoura e considerar a pergunta inicial deste texto de duas maneiras:

Estou sofrendo: O que fiz para merecer isso? Nasci e pequei.

Fui salvo por Cristo: O que fiz para merecer isso? NADA!

Assim entenderá que por maior que seja o sofrimento que você experimentar (e certamente, neste mundo caído, irá experimentar), não chega perto daquilo que você realmente merece: A ira do Deus Todo-Poderoso que por misericórdia não lhe dá o que você realmente merece e por infinita graça lhe concede a vida eterna.

É este entendimento, aplicado pelo Espírito de Deus, que dará a você a mesma convicção do apóstolo Paulo, que após falar da esperança da ressurreição afirmou:

“Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2Co 4.16-18).

Escrevendo aos romanos, após dizer que se padecemos com Cristo, também seremos glorificados com ele, Paulo assevera:

“Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. [...] Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.18,28).

Portanto, se você professa a Cristo, lembre-se do que você fez por merecer e foi livrado, ao mesmo tempo em que se lembra de que nada fez para merecer a vida eterna e, ainda assim, foi salvo pela graça daquele que não merecia, mas que morreu em seu lugar.

Se você não professa a Cristo, saiba que aqueles que morrem nesta situação, experimentarão a maior das calamidades, a ira do Deus Todo-Poderoso. Como afirmou o puritano Jonathan Edwards, “a terra é o único inferno que os cristãos irão suportar, e o único paraíso que os descrentes irão desfrutar”. Logo, arrependa-se e creia em Jesus Cristo, aquele que concede salvação a homens que nada fizeram para merecê-la.

20 março 2019

Rótulos são importantes

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Imagine que você tenha alergia à lactose e vá a um supermercado comprar um queijo. Chegando lá você pergunta a um funcionário se há tal produto para vender e ele aponta a direção da seção de queijos, afirmando que nela você encontraria o que procura.

Você caminha até lá, é uma seção grande, com muitos queijos, mas para a sua surpresa, não há rótulos em nenhum deles. Você está com muita vontade de comer queijo, mas sabe que por causa da sua alergia, que é grave, pode vir à morrer. Você pegaria qualquer um e levaria, ou deixaria todos para trás, a despeito de sua vontade, por não ter informações claras que demonstrem a você que não há risco?

Rótulos são ignorados por muitas pessoas, mas aqueles que se preocupam com o que estão comprando e consumindo sabem da sua importância.

Dentro da tradição cristã há muitos “rótulos”. Reformado (ou Calvinista), Luterano, Anabatista, Pentecostal, Cessacionista, Integracionista, Amilenista, Dispensacionalista, Dicotomista, Tricotomista, Arminiano, Presbiteriano, Batista, Metodista, etc. Estes, são apenas alguns dos vários “rótulos” que usamos. Infelizmente, ainda que se assuma a importância dos rótulos quando se trata do que alimenta os nossos corpos, muitos não se preocupam com os “rótulos” que identificam as doutrinas que alimentam a alma.

Isso se nota, por exemplo, no discurso daqueles que dizem que a doutrina só serve para dividir e que o que importa, na verdade, é Jesus. É claro que o que importa é Jesus! Pergunte a membros de diversas tradições cristãs se eles concordam com isso e, certamente, a resposta será afirmativa. O problema é que, a despeito disso e de a Escritura ser a mesma para todos, a percepção e o entendimento a respeito do que Deus revelou em sua Palavra é e tem sido diferente no decorrer dos séculos.

Creio ser essa uma das razões de a Confissão de Fé de Westminster afirmar que a “Igreja católica [universal] tem sido ora mais, ora menos visível” – e – “As igrejas particulares [locais], que são membros dela, são mais ou menos puras conforme nelas é, com mais ou menos pureza, ensinado e abraçado o Evangelho, administradas as ordenanças e celebrado o culto público” (CFW XXV.IV).

Perceba! Eu tenho esse entendimento a respeito da Igreja por ser um presbiteriano, subscritor da Confissão de Fé de Westminster, mas ele certamente difere do entendimento de muitos irmãos de outras denominações.

Por que existem presbiterianos, batistas e assembleianos (para ficar só em alguns “rótulos”), senão por percepções diferentes acerca do que a Bíblia ensina sobre o sistema de governo eclesiástico, cessação ou não dos dons, batismo, sobre como se dá a salvação, etc.? Por mais que sejamos irmãos, salvos pelo mesmo Redentor, temos diferenças, fruto de entendimento, certo ou errado, de determinadas doutrinas.

Não pense que isso é uma novidade. O Novo Testamento frequentemente cita dois grupos, ambos de judeus, os fariseus e os saduceus. Uma das diferenças entre eles, apontada pela Bíblia de Estudo ARA, é que “quanto às suas doutrinas, [os saduceus] se apegavam somente à lei mosaica escrita e, para interpretá-la, desprezavam a tradição oral em que se apoiavam os fariseus”. Além disso, os saduceus não criam em ressurreição. Foram eles que questionaram a Jesus sobre quem seria o marido de uma mulher que, por causa da viuvez, havia casado com vários irmãos em cumprimento à lei do levirato (Mt 22.23-33).

Curiosamente, foi exatamente por saber qual era a crença de cada grupo que Paulo provocou uma dissenção entre eles, quando esteve perante ao Sinédrio, composto pelos dois grupos, ao afirmar que estava sendo julgado por causa da esperança na ressurreição dos mortos (At 23.6).

É importante definir aquilo em que se crê e, por causa de entendimentos distintos, é inevitável que se nomeie as linhas de pensamento.  É por causa dessa importância que temos, por exemplo, o Credo dos Apóstolos. Diante de várias heresias, a Igreja precisou afirmar que aquilo em que ela cria diferia dos falsos ensinos.

Um fato curioso, que mostra a importância de definir o que se crê, é a mudança que muitos fazem na cláusula do Credo em que se afirma: “Creio na santa igreja católica”, para “Creio na santa igreja universal”, a fim de não se confundir com a Igreja Católica Apostólica Romana (nesse sentido, acho que atualmente ficou pior, pois a associação pode ser com a Igreja Universal do Reino de Deus).

Foi o entendimento de que é importante definir o que se crê que levou irmãos do passado a escreverem tantas Confissões e catecismos, nos dias da Reforma.

Nós, presbiterianos, temos um corpo doutrinário. Se alguém perguntasse a respeito do que crê (ou deveria crer) um membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, a resposta deveria ser óbvia: Um presbiteriano (da IPB) crê nas Escrituras como única regra de fé e de prática e adota como sistema de doutrina e prática a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster (CI-IPB – Art. 1º). O “rótulo” presbiteriano, implica necessariamente isso.

Infelizmente, fruto de uma época em que as pessoas não querem saber de absolutos, hoje temos presbiterianos pentecostais, que creem em línguas e profecias (eu morro e não vejo o contrário, um assembleiano cessacionista); presbiterianos congregacionais, que acham que o governo da igreja cabe à assembleia; presbiterianos batistas, que não apresentam seus filhos ao batismo infantil, por acharem que eles é que têm de tomar essa decisão em idade apropriada; presbiterianos católico-luteranos, que deixam de lado o princípio regulador do culto e entendem que o fato de não haver proibição na Escritura é motivo para inserir no culto aquilo que o Senhor não ordenou; e muitos outros tantos tipos de presbiterianos que engrossam as fileiras daqueles que dizem: rótulos não são importantes.

Desta forma, ao desprezar os “rótulos”, corremos o risco de ver uma denominação morrer para a sua rica história doutrinária e crendo num evangelho diferente do que criam nossos pais, enquanto afirmam: O importante é Cristo, ao mesmo tempo em que não conseguem definir coerentemente a sua fé.

Tenha preocupação com o que você come, mas, sobretudo, preocupe-se com o que você crê. Leia os rótulos!

13 março 2019

Alegria, resultado da confiança no Senhor

Resultado de imagem para alegria do senhorEm Provérbios 16.20 lemos: “O que atenta para o ensino acha o bem, e o que confia no Senhor, esse é feliz, e o Salmo 33.21 diz: “Nele o nosso coração se alegra, pois confiamos em seu santo nome.”

A Bíblia sempre nos exorta a confiar no Senhor e aponta para a alegria como resultado dessa confiança.

A oração do profeta Habacuque nos traz um exemplo tremendo dessa alegria proporcionada pela confiança no Senhor. Ele diz que ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, mesmo apesar disso ele se alegra no Senhor (Hc 3.18-19).

Que confiança tinha esse Profeta no Deus Altíssimo a ponto de declarar que, apesar dos problemas, continuaria alegre, confiado no Deus provedor.

Precisamos ter em nossas vidas a mesma confiança que tinha o profeta. Como ele, todos passamos por provações e dificuldades, mas, a partir do momento em que colocamos tudo diante do Senhor e confiamos, temos razões para nos alegrar, pois teremos no coração a certeza do cuidado do Senhor.

Habacuque tinha no Senhor o seu amparo, como ele mesmo afirma no versículo seguinte: “O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente” (Hc 3.20). Mas de onde vinha esta confiança que o fazia estar alegre, a despeito das tribulações?

Se você olhar para o segundo capítulo do livro, no momento em que Deus responde ao clamor do profeta afirmando que usaria os caldeus a fim de castigar e corrigir o seu povo, mas que depois puniria a arrogância dos caldeus, verá que o Senhor afirmou a Habacuque que diferente do soberbo, cuja alma não é reta nele; “o justo viverá por fé” (2.4).

Conforme escreveu Lloyd-Jones, “a verdade é que há somente duas atitudes possíveis para a vida neste mundo: a da fé e a da incredulidade. Ou vemos nossa vida mediante a crença que temos em Deus, e as conclusões que daí deduzimos, ou nossa perspectiva se baseia numa rejeição de Deus e das negações correspondentes. Podemos ‘afastar-nos’ do caminho da fé em Deus, ou viver pela fé em Deus” (Do temor à fé – Ed. Vida).

Durante todo o Antigo Testamento, aqueles que foram vistos como justos (ou justificados), foram os que creram na promessa do Messias que viria. Eles confiavam que o Senhor cumpriria a sua promessa de redenção. Abrão, por exemplo, “creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15.6).

O texto de Habacuque, citado no Novo Testamento por Paulo, confirma que a fé tinha como alvo o Messias. Na Epístola aos Romanos ele afirma não se envergonhar do evangelho de Cristo, visto que ele é o poder de Deus para salvação do que crê. Ele diz ainda que o evangelho demonstra a justiça de Deus de fé em fé e termina com Habacuque, “como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm 1.17).

Ao escrever aos Gálatas, ele cita este versículo após dizer que ninguém é justificado (tornado justo) por Deus mediante a lei, mas pela fé. É a fé, a confiança em Cristo Jesus, que produz alegria verdadeira.

Não pode ser diferente! Jesus ensinou a seus discípulos que ele é a videira e seus discípulos os ramos, logo, “quem permanece em mim [em Jesus], e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Ele enviou o seu Espírito que habita em nós, cujo fruto será evidenciado à medida em que crescemos em comunhão com o nosso Redentor. Você lembra qual é o fruto do Espírito? “É: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22). A alegria verdadeira é fruto (resultado) do Espírito que habita naqueles que confiam no Redentor Jesus Cristo.

Esta confiança em Cristo foi o motivo de Paulo afirmar que aprendeu a viver contente em toda e qualquer tribulação (Fp 4.11), fez com que os leitores de Pedro, crendo, exultassem com alegria indizível (1Pe 1.8) e levou Tiago a escrever aos irmãos que tivessem por motivo de toda alegria o passar por várias provações, visto que elas tem por fim torná-los como ele, “perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.1-4).

Creio que os exemplos bíblicos já bastariam. Mas há pessoas que teimam em não crer no que diz a Escritura, por isso cito ainda uma história mais recente, passada no século XIX.

Um homem chamado Horatio Gates Spafford, depois de saber da morte de suas filhas numa tragédia, em meio à dor da perda escreveu um hino em que dizia já na primeira estrofe: “Quando a paz como um rio, atravessa o meu caminho; Quando tristezas como as ondas do mar me inundam; Seja o que for minha porção, Tu me ensinas que tudo está bem com a minha alma”.

Certamente você conhece este hino, que em nosso hinário está assim: “Se paz a mais doce me deres gozar, se dor a mais forte sofrer, oh seja o que for, tu me fazes saber, que feliz com Jesus sempre sou! Sou feliz com Jesus, sou feliz com Jesus meu Senhor.” (Hino 108 – NC).

Ao entoar este belo hino, lembre-se de tudo o que a Escritura ensina a respeito de como podemos ter a verdadeira alegria, mesmo em meio à tribulações. Ela só pode ser experimentada por aqueles que confiam plenamente em Jesus.