30 outubro 2019

Você precisa ver para crer?

“O segundo mandamento é: ‘Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo da terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Resposta à Pergunta 49 do BCW: Qual é o segundo mandamento?”).

Se o primeiro mandamento estabelece o objeto de culto, isto é, quem deve ser adorado, o segundo trata da maneira como Deus deve ser adorado. Não sei mencionar quantas vezes ouvi a mesma ladainha: “Deus não se importa com a maneira, mas com a sinceridade do coração”. Não era assim que entendiam os nossos pais puritanos. Nas respostas às perguntas 50 e 51 do Breve Catecismo temos: “O segundo mandamento exige que recebamos, observemos e guardemos puros e intactos o culto e as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra” (Resposta à Pergunta 50 do BCW: O que o segundo mandamento exige?) e “o segundo mandamento proíbe adorar a Deus por meio de imagens, ou de qualquer outra maneiras não prescrita em sua Palavra” (Resposta à Pergunta 51 do BCW: O que o segundo mandamento proíbe?).

A ideia aqui é rejeitar qualquer coisa que não esteja prescrita nas Escrituras para a adoração a Deus. É ele e somente ele que estabelece o culto. Temos exemplos claros na Escritura de que as coisas são assim. Quando o Senhor veio em socorro de nossos primeiros pais no Éden, após o pecado, rejeitou a “roupa” de folhas que eles fizeram e providenciou novas vestimentas. Para isso, o sangue de uma animal foi derramado e a mensagem aqui está explícita: o pecado leva à morte.

Quando Caim e Abel se apresentaram diante do Senhor, um trouxe do fruto da terra, enquanto outro trouxe das primícias do seu rebanho. Deus rejeitou o culto de Caim e aceitou o de Abel. A razão: “Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gn 3.4,5). Deus julgou tanto a intenção quanto a forma. Nesse ponto, talvez alguém questione (esse já foi também meu questionamento) que eles não sabiam como deveriam adorar, entretanto, creio que o princípio estabelecido na Confissão de Fé de Westminster pode nos ajudar a pensar: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.VI).

Jeremiah Burroughs demonstra este princípio de forma magistral ao apontar que apesar de não haver nenhuma proibição de se oferecer fogo estranho ao Senhor, Nadabe e Abiú foram mortos porque fizeram isso. Ele diz que “Deus queria que eles percebessem a sua intenção. No final do capítulo 9 [de Levítico], Deus mandou fogo do céu e lhes ordenou que conservassem constantemente esse fogo no altar para que nunca se apagasse. Parece que Deus queria que eles percebessem a sua intenção, [...] embora Deus jamais tenha lhes dito diretamente nestas palavras: ‘Deveis usar unicamente este fogo e nenhum outro’, ele queria que eles tivessem entendido a sua vontade. Por essa razão, o pecado deles consistiu em oferecer fogo estranho”[1]. Temos ainda os exemplos de Saul (1Sm 15) e Uzias (2Cr 16) reprovados por Deus ao fazer o que não lhes era ordenado.

Terry Johnson afirma que o princípio de fazer somente o que Deus ordenou ficou conhecido como “princípio regulador”. O princípio católico romano, luterano e anglicano é que existem normas, mas se alguma coisa não é expressamente proibida, pode ser feita. “A prática reformada é mais rigorosa. Ela afirma que tudo aquilo que não for ordenado pela Escritura (ou por mandamento, exemplo, ou ainda dedução de princípios abrangentes) é proibido”[2].

O segundo mandamento, então, se ocupa do culto ao Senhor. “As razões anexas ao segundo mandamento são a soberania de Deus sobre nós, o seu direito de propriedade sobre nós e o zelo que ele tem pelo seu culto” (Resposta à Pergunta 52 do BCW: Quais são as razões anexas ao segundo mandamento?). Mas não é só isso, vimos que é exigido que guardemos puros o culto e as ordenanças religiosas.

Não são poucos os que não veem problemas em fazer representações de Jesus ou das pessoas da Trindade. A proibição é de se fazer para adorar, dizem eles. A despeito disso, temos no Catecismo Maior a resposta ampliada que trata do segundo mandamento e podemos ler que é pecado “fazer qualquer imagem de Deus, de todas ou de qualquer das três Pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente, em qualquer forma de imagem e semelhança de alguma criatura” (Pergunta 109).

Em Deuteronômio Moisés lembrou ao povo que por ocasião de terem recebido os mandamentos o Senhor vos falou [com o povo] do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma [...] Guardai, pois, cuidadosamente a vossa alma, pois aparência nenhuma vistes no dia em que o Senhor, vosso Deus, vos falou em Horebe, no meio do fogo; para que não vos corrompais e vos façais alguma imagem esculpida na forma de ídolo...” (Dt 4.12-16). O texto é claro. Deus não se mostrou de forma aparente para que o povo não inventasse de tentar reproduzir em imagens que porventura tivessem visto.

E quanto a Jesus?, pode alguém perguntar, ele não tinha aparência? Os homens não o viram? Sim Jesus tinha um corpo e foi visto. João afirma que eles viram “a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Paulo afirma que ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). Ainda assim, ninguém nunca retratou o Senhor. Isso, por si só, deveria chamar a atenção. A segunda Confissão Helvética estabelece que “embora Cristo tenha assumido a natureza humana, não a assumiu para fornecer modelo a escultores e pintores. Afirmou que não veio ‘revogar a lei ou os profetas’ (Mt 5.17). E as imagens são proibidas pela lei e pelos profetas (Dt 4.15; Is 44.9)”.

Aqueles que fazem ilustrações de Jesus cairão em um de dois erros: Ou farão uma imagem de Deus, o que é proibido, ou dirão que ali está representado somente o homem Jesus, incorrendo em heresia ao separar a natureza divina da natureza humana de nosso Salvador.

Quando Filipe pediu a Jesus para que lhes mostrasse o Pai, ouviu do Mestre: “Há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Um dia, todos os crentes terão o mesmo privilégio. Verão o Pai por meio do Filho, na glória eterna. Até lá, cabe a nós a mesma palavra que Jesus disse a Tomé: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29).


[1] Jeremiah Burroughs. Adoração evangélica. P. 13,14

[2] Terry L. Johnson. Adoração reformada. P.31,32

22 outubro 2019

Cuidado com a idolatria

Você já deve ter ouvido uma ou várias vezes alguém afirmar: “o importante é ter fé, não importa em que”, ou “o importante é ter uma religião, seja qual for”. Este pensamento é muito frequente, principalmente em nossos dias, onde a máxima pós-moderna de que não há verdade ou absolutos é a tônica de muitas conversas.

Lembro-me que em minha adolescência, quando deixei de frequentar a igreja romana, sempre ouvia a minha mãe repetir: “Junior, você precisa de uma igreja, você precisa de um caminho”, ainda que ela mesma não frequentasse nenhuma. Mas isso era só um detalhe, é importante ter uma fé. Será mesmo que o importante é ter fé, ou uma religião, independente de qual seja ou daquilo que se creia?

“O primeiro mandamento é: ‘Não terás outros deuses diante de mim’” (Resposta à Pergunta 45 do BCW: Qual é o primeiro mandamento?”. É importante lembrar o contexto. O povo recém libertado do Egito, onde a adoração à vários deuses era a regra, está sendo conduzido pelo Senhor para a terra da promessa. No deserto Deus está tratando o seu povo e mudando a sua visão de mundo ao revelar-se como o Criador, ao proclamar as suas obras e declarar o seu caráter, por meio de Moisés.

O mandamento é claro! Só há um Deus verdadeiro. Você percebe isso na expressão “Não terás outros deuses”. O ensino aqui não tem por objetivo que o povo escolha um entre várias opções de deuses, mas enfatizar a existência de que há somente um Deus verdadeiro. “O primeiro mandamento exige de nós conhecer e reconhecer a Deus como único Deus verdadeiro e nosso Deus, e como tal adorá-lo” (Resposta à Pergunta 46 do BCW: O que o primeiro mandamento exige?).

A verdade de que só existe um Deus vivo e verdadeiro deixa clara a loucura da idolatria e a inutilidade daqueles que os homens estabelecem como deuses em seu coração. O povo de Israel, que agora recebia a Lei do Senhor, tinha bem vivo em sua mente o confronto entre YAHWEH e os falsos deuses do Egito, por ocasião das dez pragas. “As pragas caem sobre áreas da vida social supostamente protegidas por deuses do Egito, demonstrando assim o poder do Senhor em relação aos deuses do país mais poderoso do mundo” (Nota da Bíblia de Estudo NAA). Entretanto, mesmo diante de toda esta verdade, não foram poucas as vezes que o povo de Deus incorreu em idolatria, durante a sua história, quebrando o mandamento.

É preciso muito cuidado a fim de não incorrermos neste pecado, mas muitos cristãos acham que estão livres da idolatria por considerarem como idolatria somente as imagens de escultura. Entretanto, como todo o pecado, a idolatria começa no coração. A representação iconográfica de algum falso deus é apenas a expressão daquilo que já ocorreu anteriormente no coração. Calvino, acertadamente, afirma que “é lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos”[1]. Por conta disso Deus condena no livro do profeta Ezequiel aqueles que levantam ídolos em seus corações.

Sempre que você buscar em coisas, pessoas ou até mesmo em si mesmo, aquilo que só pode ser encontrado plenamente no Senhor estará incorrendo em idolatria. A idolatria é tão enganosa que muitas vezes nos enganamos. Quando conhecemos alguém que não contribui financeiramente com a igreja, por exemplo, pensamos rapidamente que se trata de um sovina, alguém que ama demais o dinheiro. Por outro lado, quando conhecemos um dizimista fiel e pontual em sua oferta tendemos a achar que ali está um irmão fiel, que ama a Cristo. Entretanto, ambos podem estar amando o dinheiro de forma distinta. O primeiro ama tanto que não se importa com a ordenança bíblica para as contribuições, já o segundo, ama tanto o dinheiro que tem medo que Deus o amaldiçoe tirando os outros noventa por cento que ele acha que são dele, sendo esta a única razão de ser dizimista.

A religião cristã é de caráter exclusivista! Só há um Deus verdadeiro e, como afirma João, “sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” – daí o apóstolo concluir exortando – “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5.20). Valho-me do que escreveu Calvino, comentando o livro de Efésios, “do que ficou dito até aqui, a conclusão será facilmente formulada, ou seja: que fora de Cristo nada existe senão ídolos”[2].

“O primeiro mandamento proíbe negar, deixar de adorar ou glorificar ao verdadeiro Deus, como Deus, e nosso Deus, e dar a qualquer outro a adoração e a glória que só a ele são devidas” (Resposta à Pergunta 47 do BCW: O que o primeiro mandamento proíbe?”. Deus requer do homem exclusividade em seu coração. Por causa da libertação efetuada por Deus ao povo o Senhor não dividiria o seu louvor com quem quer que fosse. “As palavras ‘diante de mim’, no primeiro mandamento, nos ensinam que Deus, que vê todas as coisas, toma conhecimento e muito se ofende do pecado de ter-se em seu lugar outro deus” (Resposta à Pergunta 48 do BCW:O que nos é ensinado, especialmente, pelas palavras ‘diante de mim’, no primeiro mandamento?).

O mandamento chama a atenção para o fato de que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36). Da mesma forma que o Senhor libertou a Israel do cativeiro e ordenou que o povo só tivesse olhos para ele, você é chamado a olhar exclusivamente para Jesus Cristo, autor e consumador da sua fé, que o libertou do império das trevas a fim de que você viva exclusivamente para ele.


[1] João Calvino. Institutas, Livro I (Ed. Clássica), p. 107

[2] João Calvino. Efésios, p. 68

15 outubro 2019

O dever de guardar os mandamentos

Há duas atitudes opostas, mas igualmente terríveis, que muitos tomam em relação à Lei de Deus. A primeira é chamada de legalismo. Legalismo é a tentativa de justificar-se mediante o cumprimento da lei. Como após a queda o homem se tornou incapaz de cumprir a lei de forma perfeita, ele acaba, muitas vezes, por rebaixar o padrão da lei a fim de conseguir cumpri-la.

Temos um exemplo disso no sermão do monte. Alguns pensam, erroneamente, que Jesus estava ali aumentando as exigências da Lei, por causa das expressões “ouvistes que foi dito aos antigos...” e “eu, porém, vos digo...” repetidas algumas vezes pelo Senhor. Jesus não estava aumentando as exigências da Lei, antes estava corrigindo o ensino errado dos fariseus que a rebaixaram.

Um exemplo claro é o sexto mandamento. Para os fariseus, somente aquele que tirasse a vida de alguém é que quebrava o mandamento. É por isso que na ocasião em que Pilatos quis entregar Jesus aos judeus, para que ele fosse julgado segundo as suas leis, ouviu: “A nós não nos é lícito matar ninguém” (Jo 18.31). Perceba a hipocrisia aqui! Para eles, entregar alguém para ser morto não era o mesmo que matar. Diferente disso, Jesus afirmou no sermão do monte que aquele que se irasse sem motivo contra alguém já teria cometido assassinato. Jesus considera também a intenção do coração e não somente a atitude.

Mas não pense que há novidade aqui. Basta lembrar que Davi, quando foi repreendido pelo Senhor por meio do profeta Natã, ouviu a seguinte acusação: A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom (2Sm 12.8). De acordo com a intepretação dos fariseus do Novo Testamento, Davi não teria culpa, visto que quem matou Urias foram os amonitas. Entretanto, diante do Senhor, a entrega com intenção de que outro o matasse já foi considerada a quebra do sexto mandamento. O rebaixamento das exigências da Lei pelos fariseus, a fim de conseguir guarda-la e serem salvos, foi um pecado contra Deus.

A outra atitude é o antinomismo. Literalmente antinomismo quer dizer “contra a lei”. A atitude antinomista pode ser percebida, por exemplo, naqueles que afirmam que antigamente estávamos debaixo da Lei, mas agora estamos debaixo da graça. Estes entendem que a Lei não tem nenhuma validade para a igreja, pois Jesus a aboliu. Curiosamente, os antinomistas vão afirmar que a Lei que vale hoje é a lei do amor. Isso é uma tremenda ironia, pois já vimos que o Senhor Jesus, ao responder qual seria o maior dos mandamentos, afirmou que era amar a Deus e ao próximo, dizendo ainda que “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.38). A ironia se dá, então, quando em nome do que denominam de lei do amor, os antinomistas rejeitam a Lei moral, resumida por Jesus como sendo uma lei do amor a Deus e ao próximo.

Estas duas atitudes estão erradas! A fim de viver de modo agradável diante do Senhor, o homem não pode fazer o que ele entende que seja o amor. Lembro-me que certa vez, numa escola dominical em que o professor falava sobre a disciplina, ouvi uma senhora que visitava a nossa igreja afirmar que em sua igreja não existia disciplina, pois em uma igreja que existe disciplina, falta amor. É esse tipo de conclusão que haverá toda vez que os cristãos deixarem a objetividade da Lei para seguir os seus próprios conceitos.

Somos chamados a obedecer ao Senhor e aos seus mandamentos, não para ser salvos, como já vimos, mas para horar aquele que nos salvou. Se você observar o texto do capítulo 20 de Êxodo perceberá que “o prefácio dos dez mandamentos é: ‘Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão’” (Resposta à Pergunta 43 do BCW: Qual é o prefácio dos dez mandamentos?).

Após libertar o povo da escravidão do Egito, o Senhor entrega a ele a sua lei moral, resumida em dez mandamentos, por intermédio de Moisés. Ele relembra ao povo quem ele era, o Senhor. A palavra Senhor, grafada em maiúsculas em nossas Bíblias, é a tradução do tetragrama hebraico YHWH, outras vezes traduzido por Javé ou Jeová. Este foi o nome com que Deus se apresentou a Moisés, afirmando que era aquele que existe desde o início. Este Deus soberano e criador é que se dirigia ao povo. Suas palavras, que são uma espécie de prefácio à lei, apontam para o fato de que para haver obediência, deve haver antes libertação. É como se Deus estivesse dizendo: Eu tirei vocês da escravidão do Egito, agora vivam em obediência”.

Portanto, “o prefácio dos dez mandamentos ensina-nos que nós temos a obrigação de guardar todos os mandamentos de Deus, por ser ele o Senhor nosso Deus e nosso Redentor” (Resposta à Pergunta 44 do BCW: O que nos ensina o prefácio dos dez mandamentos?). É claro que sempre haverá aqueles que dirão que isso é Antigo Testamento e que vivemos no período do Novo Testamento, por isso é importante atentar ao que temos nos escritos de Paulo.

Paulo escreve aos gálatas combatendo a ideia legalista da salvação pela lei. Ele afirma “que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, [...] pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (Gl 2.16). Quando Paulo diz no capítulo 5 que “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” e que em razão disso os gálatas não deveriam mais sujeitar-se à “escravidão” da lei, é no sentido de que a salvação não era por meio dela. Entretanto, ele faz questão de dizer que a liberdade conquistada por Cristo era limitada pelo amor a Deus e ao próximo, ou seja, a lei era o parâmetro para viver a liberdade. Daí ele ter dito que “toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14).

Mas porquê Paulo fala que a lei se cumpre em amar ao próximo? Amar ao próximo está acima do amor à Deus? O apóstolo João nos ajuda a entender isso ao escrever que se alguém diz amar a Deus, mas odeia o irmão é mentiroso, “pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20).

Como cristão, é seu dever guardar os mandamentos. O seu Senhor, Jesus Cristo, que o libertou da escravidão do pecado, ordena que você ame a Deus e ao próximo. O amor ao próximo é a evidência de que você ama a Deus, pois este amor fraternal só é possível por meio de Jesus Cristo, o libertador. Viva em obediência, para a glória dele!

08 outubro 2019

A regra de obediência

Tenho um filho de 5 anos de idade. Em uma de minhas conversas com ele após uma desobediência, a fim de ensinar que ele não pode fazer o que bem entende, expliquei que todos nós estamos debaixo de algum tipo de autoridade e que precisamos obedecer. Em um dos exemplos que dei disse que quando ele trabalhar terá um chefe e que não poderá fazer as coisas do jeito dele, sob o risco de ser mandado embora. Passam uns dois dias e ele pergunta para a mãe: “Quando eu trabalhar eu tenho de ter um chefe?”, sim, respondeu ela, e perguntou a razão do questionamento dele. A resposta foi ligeira: “Eu quero ser o chefe!”.

A questão do meu garotinho serve para mostrar o que é o anseio natural do homem após a queda, não querer obedecer a ninguém. Entretanto, a despeito de sua tentativa de autonomia, o homem foi criado para ser um servo e, como tal, deve satisfação ao seu Senhor.

“O dever que Deus exige do homem é obediência à sua vontade revelada” (Resposta à Pergunta 39 do BCW: O que Deus exige do homem?), ensina a pergunta 39 do Breve Catecismo. Perceba duas lições importantes aqui. A primeira é que Deus revelou a sua vontade ao homem. Isso é visto já no primeiro livro da Bíblia. Adão é formado e Deus revela qual a sua vontade para ele. Ele deveria encher a terra e dominar sobre ela. Além disso, ele não poderia tomar da árvore do conhecimento do bem e do mal, a única que foi vedada por Deus. Para isso, Deus deu a ele uma auxiliadora idônea. A segunda é que a obediência foi requerida. Caso desobedecesse, o homem experimentaria a morte.

Uma das questões que me chamam mais atenção na narrativa da queda é o fato de a serpente ter se dirigido primeiramente à mulher. Perceba algo aqui. Adão devia obediência a Deus, mas a mulher, além de obedecer a Deus, deveria obedecer àquele de quem era ela uma auxiliadora, seu marido Adão. É para ela que Satanás sugere que não era preciso obedecer a ninguém, nem a Adão, tampouco ao Senhor, pois se tomasse do fruto proibido, todos seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal. Logo, não haveria necessidade de alguém para apontar o que é bem ou o que é mal. O desejo por autonomia leva homem e mulher à ruína.

Há quem pense que a Lei foi dada ao homem somente no Sinai. Entretanto, temos no Breve Catecismo a pergunta: “O que revelou Deus primeiramente ao homem para regra de sua obediência?”, seguida da resposta que diz: “A regra que Deus revelou primeiramente ao homem para sua obediência foi a lei moral” (Pergunta 40 do BCW). Este ensino refere-se ao que temos na epístola aos Romanos. Em Romanos Paulo demonstra que tanto judeus quanto gentios estão sob a condenação de Deus. Os gentios porque Deus se revelou na criação, o que os torna indesculpáveis. Os judeus porque tinham a revelação especial da Palavra de Deus. Entretanto, ainda que os gentios não tivessem acesso à revelação especial, Paulo afirma que por vezes eles agem, “por natureza”, de acordo com a lei e afirma que “estes mostram a norma da lei gravada no seu coração” (Rm 2.15).

Mas o que é essa lei moral, gravada no coração? “A lei moral está resumidamente compreendida nos Dez mandamentos” (Resposta à Pergunta 41 do BCW: Onde a lei moral está resumidamente compreendida?”). Neste ponto, alguém poderia dizer: “Está vendo? Isso mostra que a lei foi dada somente no Sinai. Foi lá que Deus deu os Dez mandamentos à Moisés!”, mas pense um pouco mais comigo. Quando Paulo escreveu aos efésios ensinou que eles deveriam andar em santidade. Esta santidade consistia em abandonar padrões antigos e assumir novos padrões, daí ele dizer que os que roubavam, quebrando o oitavo mandamento, deveriam agora trabalhar fazendo com as próprias mãos para acudir ao necessitado (Ef 4.28).

Isso demonstra que o padrão de santidade de Deus exige trabalho e doação em vez de roubo. Ora, não foi isto que Deus revelou a Adão no Éden? Adão deveria trabalhar. A lei moral foi dada no Éden de forma positiva. O padrão normativo estabelecido por Deus está na criação. Como exemplo, o homem deveria deixar pai e mãe e casar-se com a sua esposa (sétimo mandamento), deveria trabalhar (oitavo mandamento) e deveria dar ouvidos à verdade da Palavra (nono mandamento), sendo pecado a desobediência a este padrão. Por isso, após a queda, Deus dá a lei em forma de tábuas no Sinai, para que o homem viva de acordo com o padrão original, por isso não pode adulterar, nem roubar, tampouco dar falso testemunho, visto de forma positiva nos exemplos citados. A forma como Deus dá o quarto mandamento também aponta para a lei na criação. Repare que ele inicia com “lembra-te do dia de descanso” (Ex 20.8), demonstrando o padrão estabelecido na criação (Gn 2.3). O Pacto de obras consistia na obediência à esta lei, para justificação ou condenação[1].

Mas pense um pouco mais. “Os dez mandamentos se resumem em amar ao Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças e de todo o nosso entendimento; e ao nosso próximo como a nós mesmos” (Resposta à Pergunta 42 do BCW: Em que se resumem os Dez mandamentos?). Esta resposta à pergunta 42 do BCW, é exatamente a resposta de Jesus aos fariseus que o interrogaram acerca do mandamento mais importante. Jesus resume desta forma, pois os quatro primeiros mandamentos versam sobre o amor a Deus e os seis últimos tratam do amor ao próximo.

Se você acha que aqueles que advogam que a Lei foi dada somente no Sinai estão certos, talvez se surpreenda com o fato de José, que resistiu à tentação da esposa de Potifar, ter dado como razão para a sua atitude exatamente o resumo da Lei, ao dizer: “Ele [Potifar] não é maior do que eu nesta casa e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como, pois, cometeria eu tamanha maldade [quebrando o sétimo mandamento e não amando o próximo] e pecaria contra Deus [não amando o Senhor] (Gn 39.9). José resistiu à tentação por amar a Deus e a Potifar.

A regra de obediência, dada por Deus a Adão e à sua posteridade como um pacto de obras foi a sua Lei Moral, reflexo de seu caráter santo. É por isso que Paulo pode afirmar que “a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom” (Rm 7.12). É claro que após o pecado o homem não consegue cumprir perfeitamente esta lei, contudo, o Catecismo Maior ensina que a lei moral continua útil a todos os homens após a queda, a fim de instruí-los acerca de Deus, seu caráter e sua vontade. Além disso, ela é útil aos não regenerados para que tenham consciência de sua imperfeição e busquem a Cristo. Por fim, ela é útil aos regenerados a fim de lhes mostrar o quanto devem a Cristo e buscarem viver em acordo com ela, não para serem salvos, mas para glorificar aquele que os salvou, Jesus Cristo, que cumpriu cabalmente toda a Lei (Mt 5.17).

Diante de tudo isso, como Davi, você precisa estimar a Lei do Senhor e considera-la mais desejável que o ouro e mais doce que o mel e o destilar dos favos.


[1] Ver Confissão de Fé de Westminster, XIX.I,V,VI

01 outubro 2019

Na vida, na morte e eternamente

No meu primeiro ano de convertido ao Senhor eu escutava sempre uns amigos que repetiam constantemente o comecinho de uma música: “É bênção, sobre bênção, vivendo cada dia no Senhor”. É isto que temos, literalmente, nas perguntas 36 a 38 do Breve Catecismo. A pergunta 32 já havia estabelecido que os que são chamados eficazmente gozam nesta vida de três bênçãos, a justificação, a adoção e a santificação.

Agora temos três perguntas que tratam das bênçãos que acompanham estas bênçãos já citadas. A primeira delas ensina que “as bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, a adoção e a santificação, ou delas procedem, são: certeza do amor de Deus, paz de consciência, gozo no Espírito Santo, aumento de graça e perseverança nela até o fim” (Resposta à “Pergunta 36 – Quais são as bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, a adoção e a santificação, ou delas procedem?).

Isto é maravilhoso! Tem já nesta vida a certeza do amor de Deus. Ao crer naquilo que o Senhor Jesus fez na cruz do Calvário, temos uma demonstração maravilhosa deste amor. Paulo afirma que “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). O amor de Deus não é mera declaração. Declarar o amor é fácil, se você percorrer as delegacias notará a quantidade de denúncias de mulheres que foram espancadas pelos companheiros que diziam amá-las. Deus não somente declara o amor, mas prova que ama. O apóstolo João, num dos textos mais conhecidos pelos cristãos, declara esse amor dizendo que “Deus amou o mundo” – e demonstra como ele fez isso, ao continuar – “de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

É esse entendimento que levará você a experimentar paz de consciência. Saber que a sua dívida para com Deus já está paga, de uma vez por todas, pelo seu Redentor, levando você a se alegrar a despeito das circunstâncias adversas que possa enfrentar em sua vida. Levará você também a crescer em graça diante do Senhor, com a firme certeza que tinha Paulo “de que aquele que começou boa obra em vós há de completa-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Mas as bênçãos não são somente para viver. “A alma dos fiéis, na hora da morte, é aperfeiçoada em santidade, e imediatamente entra na glória; e o corpo, que continua unido a Cristo, descansa na sepultura até a ressurreição”. Ao ser justificado, adotado e santificado, o cristão aprende e cresce a cada dia mais no conhecimento da Palavra e como disse o puritano John Flavel, “As Escrituras ensinam-nos a melhor maneira de viver, a mais nobre forma de sofrer e o modo mais confortável de morrer”[1].

Você consegue perceber esta verdade bíblica claramente quando Paulo escreve aos filipenses e afirma que para ele “o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21) e que “partir e estar com Cristo [...] é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). O apóstolo estava bastante convicto que, para o crente, a morte não é o final. Como afirmou de forma maravilhosa outro puritano, Thomas Brooks, “a morte é outro Moisés: livra os crentes da escravidão e de fazer tijolos no Egito. É um dia ou um ano de jubileu para um espírito gracioso – o ano em que ele sai livre de todos os feitores cruéis que tinham há muito o feito gemer”[2].

Entretanto, a mesma convicção de Paulo e dos puritanos citados não está presente na vida de muitos cristãos. Estes, ao pensar na morte, a veem como um problema, como algo que os tirará a oportunidade de gozar das alegrias desta vida. Cristãos assim precisam estar convictos a respeito da verdade da ressurreição. Quando escreveu aos coríntios corrigindo os ensinos errados daqueles que afirmavam que não haveria ressurreição Paulo afirmou que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). Os crentes precisam estar bem convictos de que o melhor que puderem experimentar nesta vida não se compara ao que teremos no porvir.

Na morte, o corpo dos crentes “descansa na sepultura até a ressurreição” e “na ressurreição, os fiéis, sendo ressuscitados em glória, serão publicamente reconhecidos e absolvidos no dia do juízo, e tornados perfeitamente felizes no pleno gozo de Deus por toda a eternidade” (Resposta à “Pergunta 38: Quais são as bênçãos que os crentes recebem de Cristo na ressurreição?”).

O que temos aqui é algo que, se bem entendido e assimilado, levará você a clamar como João, “vem Senhor Jesus!” (Ap 22.20). Ele é a razão de termos todas estas bênçãos e, diante disso, precisamos exaltá-lo a cada dia e ansiar pela consumação plena de sua obra. Tendo Cristo como o seu maior tesouro, você estará sempre seguro. Se Cristo é o seu maior anseio, como Paulo você pode estar certo de que Cristo será engrandecido em seu corpo, “quer pela vida, quer pela morte” (Fp 1.20).

Há bênçãos de Cristo na vida, na morte e eternamente. Que a sua convicção seja como a resposta à primeira pergunta do Catecismo de Heidelberg, “Qual o seu único conforto na vida e na morte?”, que inicia dizendo que “o meu único consolo é que – corpo e alma, na vida e na morte – não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que, ao preço do seu próprio sangue pagou totalmente por todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do pecado”.

Que você, abençoado pelo Senhor, na vida, na morte e eternamente, engrandeça sempre o seu Redentor!


[1] Citado por John Blanchard em Pérolas para a vida

[2] Thomas Brooks no livro Sermões sobre a morte. Ed. Soli Deo Gloria. Ed. do Kindle, posição 313