16 fevereiro 2019

Deus ouve a oração de um ímpio?

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Esta questão surgiu dia desses em um grupo de discussões de nossa igreja quando um irmão nos deu a conhecer uma posição que defende que em virtude da graça comum, manifestada igualmente a crentes e não crentes, o Senhor ouve sim a oração de um ímpio, sendo a oração de Cornélio, no livro de Atos, uma demonstração disso.

O assunto é importante e precisa ser bem entendido, sobretudo, para nós presbiterianos, por uma perspectiva confessional. Deus ouve mesmo a oração de alguém que não o tema?

Olhemos primeiro para a resposta à pergunta 178 do Catecismo Maior de Westminster: “O que é oração? Resposta: Oração é um oferecimento de nossos desejos a Deus, em nome de Cristo e com o auxílio do seu Espírito, e com a confissão de nossos pecados e um grato reconhecimento de suas misericórdias” (destaque meu). Aqui já está clara a impossibilidade de se achegar a Deus sem um Mediador, que sabemos pela Escritura ser o Senhor Jesus Cristo, como afirmou Paulo a Timóteo: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5).

É isto que está também na pergunta 181, onde a questão é o porquê da necessidade de se orar em nome de Cristo, tendo como resposta o fato de que “o homem, em razão do seu pecado, ficou tão afastado de Deus que ele não se pode chegar sem ter um Mediador” – e enfatizando – “e não havendo ninguém, no céu ou na terra, constituído e preparado para esta gloriosa obra, senão Cristo unicamente, o nome dele é o único por meio do qual devemos orar”.

Temos um pouco mais na pergunta 154, “quais são os meios exteriores pelos quais Cristo nos comunica os benefícios de sua mediação?”. O ponto aqui são as bênçãos que temos por sermos representados por Cristo e a resposta é clara: “Os meios exteriores e ordinários, pelos quais Cristo comunica à sua Igreja os benefícios de sua mediação, são todas as suas ordenanças, especialmente a Palavra, os Sacramentos e a Oração; todas essas ordenanças se tornam eficazes aos eleitos em sua salvação”.

Para corroborar, veja a resposta à pergunta 117, “Como devemos orar, para que a oração seja agradável a Deus e ele nos ouça?” de outro Catecismo reformado, o Catecismo de Heidelberg: “Primeiro: devemos invocar, de todo o coração, o único e verdadeiro Deus, que se revelou a nós em sua palavra, e orar por tudo o que Ele nos ordenou pedir. Segundo: devemos muito bem conhecer nossa necessidade e miséria, a fim de nos humilharmos perante sua majestade. Terceiro: devemos ter a plena certeza de que Deus, apesar de nossa indignidade, quer atender à nossa oração, por causa de Cristo, como Ele prometeu em sua Palavra”.

Diante disso, parece estar claro que o ensino confessional aponta para a impossibilidade de um ímpio ser ouvido por Deus em sua oração. Mas de nada adianta o ensino confessional ser este, se for correto o entendimento de que o ímpio Cornélio tenha sido atendido por Deus, sendo esta a prova de que por causa da graça comum Deus ouviria um descrente.

Vamos olhar para o texto de Atos para ver se as coisas são de fato assim, mas já afirmo de antemão que se Deus, por causa da chamada graça comum, ouviu a oração de um ímpio, segue-se que há possibilidade de se achegar a ele sem o Mediador Jesus Cristo. Pense! Sem o Mediador, um ímpio orou e foi atendido pelo Senhor. Será que é isto que temos na história de Cornélio?

É claro e verdadeiro que Cornélio não conhecia a Jesus. A prova disso é que Pedro é enviado por Deus para pregar a ele, após ter o seu coração tratado para ir ver um gentio, já que os judeus os viam como impuros. A despeito disso, Lucas começa a narrativa afirmando que “morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana, piedoso e temente a Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava a Deus” (At 10.1-2). Perceba que o texto não descreve Cornélio como um ímpio que clamou a Deus em um tempo de aflição, mas como um homem piedoso que de contínuo orava a Deus. Além disso, em sua visão o anjo lhe disse: “As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus” (10.4).

Cornélio, notadamente, não era um ímpio, mas ele também não conhecia a Jesus, como já afirmei anteriormente. Como pode ser isso?, você pode perguntar. É preciso, então, mais uma vez, lembrar do nosso ensino confessional: Jesus Cristo é o Mediador do pacto da graça! Ao tratar do Pacto, temos na pergunta 33 do Catecismo Maior: “Foi o pacto da graça sempre administrado de uma maneira?”, a seguinte resposta: “O pacto da graça não foi administrado da mesma maneira; mas as suas administrações no Velho Testamento eram diferentes das debaixo do Novo”.

“O pacto da graça foi administrado no Velho Testamento por promessas, profecias, sacrifícios, pela circuncisão, pela páscoa e por outros símbolos e ordenanças, todos os quais tipificaram o Cristo, que havia de vir e eram naquele tempo suficientes para edificar os eleitos na fé do Messias prometido, por quem tiveram, ainda nesse tempo, a plena remissão do pecado e a salvação eterna.” (resposta à pergunta 34 do CMW).

Cornélio era um homem temente a Deus, pois já havia conhecido a fé dos judeus e, ainda que não fosse circuncidado, possivelmente frequentava a sinagoga, guardava as leis e as dietas alimentares dos judeus (conforme comentário de Atos – Kistemaker). Ou seja, Cornélio era um crente nos moldes do Velho Testamento, que cria na vinda do Messias. Quando Jesus foi apresentado a ele como sendo o Messias, ele logo creu! Deus não ouviu a oração de um ímpio, mas a oração mediada pelo Senhor Jesus Cristo.

A prova disso foi o anjo ter-lhe dito que suas obras subiram até Deus. Mais uma vez, lembro nosso ensino confessional, agora sobre as boas obras: “Estas boas obras, feitas em obediência aos mandamentos de Deus, são o fruto e as evidências de uma fé viva e verdadeira” (CFW XVI.II), “sendo aceitas por meio de Cristo as pessoas dos crentes, também são aceitas nele as boas obras deles, não como se fossem, nesta vida, inteiramente puras e irrepreensíveis à vista de Deus, mas porque Deus considerando-as em seu Filho, é servido aceitar e recompensar aquilo que é sincero, embora seja acompanhado de muitas fraquezas e imperfeições” (CFW XVI.VI).

Deus não ouve a oração de ímpios, pois como afirmou Salomão, “o que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável (Pv 28.9). Isso deve levar você a louvar e agradecer a Deus por ser aceito por ele por causa do Redentor amado, Jesus Cristo e também a proclamá-lo àqueles que ainda não o conhecem na esperança de que, pela ação do Espírito Santo, eles se convertam e também sejam aceitos e ouvidos pelo Pai.

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