28 agosto 2019

Jesus, o Rei dos reis

Vez por outra eu escuto a mesma história: “Deus não tinha planos de um rei para Israel. O reinado foi uma ideia do povo desobediente, que rejeitou o governo do Senhor”. Eu sei que o texto bíblico de 1Samuel pode dar margem à este entendimento, mas somente se ele for tomado fora do contexto imediato e também do contexto mais amplo da Escritura.

Repare bem. O povo neste momento era liderado por juízes constituídos pelo Senhor. O profeta Samuel já estava velho. Ele era visto pelo povo também como juiz e na sua velhice, ele próprio constituiu seus filhos por juízes. Entretanto, o caráter dos filhos de Samuel não era bom. Os anciãos de Israel, vendo a morte de Samuel se aproximar e preocupados com o caráter de seus filhos, vêm a ele e pedem um rei. O problema aqui não é com o rei, em si, mas com a motivação. Eles dizem: “constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações(1Sm 8.4).

Ao pedir um rei o povo expressa que queria ser como as outras nações. A questão é que Israel não era como outras nações, mas foi constituído para ser um reino de sacerdotes e uma nação santa (Ex 19.6). Esta nação tinha leis dadas pelo próprio Deus e os líderes do povo o conduziriam segundo estas leis. Daí o Senhor ter dito a Samuel que o povo, na verdade, estava rejeitando o próprio Deus e o mandou falar acerca de como seria custoso o povo ter um rei. A despeito disso, o povo repete o seu desejo egoísta de ser como as demais nações (1Sm 8.20). Repito, o problema não era o rei, mas a motivação do povo em pedi-lo. Entretanto, para perceber isso, é preciso voltar ao início, quando o povo sequer existia.

Em Gênesis você aprende sobre a formação do povo de Deus. Deus chama Abraão de uma terra idólatra prometendo fazer dele uma grande nação. De Abraão nasce Isaque, deste Jacó, cujos filhos constituirão as 12 tribos de Israel. No capítulo 49, você pode notar que a bênção de Jacó não recaiu sobre o primogênito Rúben, tampouco sobre os filhos seguintes, Simeão e Levi. A bênção recaiu sobre Judá, que ouviu de seu pai: O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão (Gn 49.10 – NVI).

O povo ainda não havia sido politicamente constituído e o Senhor já prometeu um rei, apontando a tribo de onde este rei viria. Após o povo passar quatrocentos anos como escravo no Egito, o Senhor os tirou de lá com mão forte a fim de cumprir a promessa de levá-los à terra prometida. Deus deu ao povo as suas leis e, dentre elas, temos a que diz respeito ao rei (Dt 17.14-20). Quando o povo quisesse um rei, deveria ser um dentre o povo, aquele a quem Deus escolhesse (17.15). Este rei deveria confiar no Senhor e não em seu exército, por isso não deveria multiplicar cavalos (17.16). Não deveria levar o povo de volta ao Egito, terra de sua escravidão (17.16), não deveria multiplicar mulheres para não ter o coração pervertido, nem deveria ser ganancioso (17.17). Deveria ser um rei piedoso, conforme os mandamentos do Senhor (17.19) e deveria servir aos seus irmãos (17.20).

O primeiro rei, dado por Deus para punir o egoísmo de Israel, foi Saul. Ele não andava de acordo com o que a Lei dizia a respeito do rei. Ele é rejeitado e Deus escolhe, da tribo de Judá, a Davi. Quando Davi teve a ideia de construir um templo para o Senhor, Deus disse a ele por meio de Natã que não seria ele, mas o seu descendente que faria isso. Entretanto, Deus prometeu firmar o seu trono, afirmando que o estabeleceria para sempre (2Sm 2.13-16).

Se você conhece a história dos reis, sabe que começando por Davi e passando por seus descendentes, nenhum deles cumpriu com inteireza tudo o que a Lei prescrevia ao rei. Como exemplo, pense no homem mais sábio que já existiu, Salomão, que teve o coração pervertido e chegou a se dobrar diante de ídolos, por causa de suas muitas mulheres (1Re 11.1-13). Por cona da idolatria, Deus tiraria o reino de Salomão, entretanto, por amor de Davi e do povo, por causa de sua promessa, Deus daria uma tribo ao filho de Salomão. Você se lembra qual tribo foi essa? Com o reino dividido temos de um lado Israel e do outro Judá.

Todos estes reis pecaram, pois apontavam para um rei além deles, aquele que havia sido prometido desde Gênesis. Quando Mateus escreve o seu evangelho, começa afirmando a linhagem real de Jesus, filho de Davi, filho de Abraão. Ele está identificando Jesus como aquele em quem as promessas dadas a Abraão (um nome grandioso, um povo e uma terra) e a Davi (um reinado eterno) se cumpriam. É para este grande Rei que todos os outros apontavam.

Jesus, em seu ofício de Rei, foi humilhado. A despeito de ter sido saudado pelo povo na entrada triunfal, entrou na cidade não com a pompa dos reis, mas montado em um jumentinho e João afirma que isso era para se cumprir a Escritura: “Não temas, filha de Sião, eis que o teu Rei aí vem, montado em um filho de jumenta” (Jo 12.14-15). Além disso, ao ser morto de forma humilhante, foi posta na cruz a irônica acusação: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus” (Mt 27.37).

Mas não se engane, o Rei foi exaltado pelo Pai e está assentado em seu trono, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos, como ensina o Credo dos Apóstolos. Sua descrição no Apocalipse é gloriosa. Em vez de montado em um jumentinho, João diz: “Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; e seguiam-no os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com vestiduras de linho finíssimo, branco e puro. Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: rei dos reis e Senhor dos Senhores” (Ap 19.11-16).

Eis que aqui é visto o cumprimento pleno do que foi dito a Judá, a respeito do Rei a quem as nações obedecerão. O Breve Catecismo ensina que o Senhor Jesus “Cristo exerce as funções de rei, sujeitando-nos a si mesmos, governando-nos e protegendo-nos, contendo e subjugando todos os seus e os nossos inimigos” (Resposta à “Pergunta 26: Como Cristo exerce as funções de rei?”).

É este o grande Rei que governa a sua vida. Olhe para a sua Palavra que, como afirmou Calvino, é o cetro com que ele governa o seu reino. Descanse no seu governo e o honre. Como embaixador de seu reino, proclame as suas virtudes e, confiante, anseie pelo dia glorioso da volta do Rei dos reis.

22 agosto 2019

Jesus, o sumo sacerdote perfeito

Quando Adão desobedeceu a Deus no Jardim do Éden, tomando do fruto proibido oferecido por sua mulher, a Escritura declara que “abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueiras e fizeram cintas para si” (Gn 3.7). O pecado faz com que homem e mulher se envergonhem um do outro. A quebra do relacionamento com Deus afetou também o relacionamento do primeiro casal.

Ao invés de recorrerem ao Senhor, arrependidos, o que eles fizeram foi tentar resolver por si mesmos o seu problema. Se a consequência do pecado foi a vergonha da nudez, bastaria, então, eliminar a consequência a fim de sentirem-se bem. E foi por isso que eles fizeram cintas para si.

Essa autojustiça vista em nossos primeiros pais pode ser percebida também no decorrer da história. Em nossos dias, quando tentam os homens tentam resolver o problema de sua culpa ao seu próprio modo, estão espelhando a Adão, tentando estabelecer seus próprios “atos de justiça”.

Até mesmo os judeus, que receberam a Lei a fim de perceberem a sua incapacidade de viver em conformidade com o padrão de santidade exigido pelo Senhor, tentaram ver nela um instrumento de justificação. Daí Paulo ter de lembrar que

“tudo o que a lei diz, aos que vivem sob a lei o diz para que se cale toda a boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.19,20). Entretanto, eles “desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10.3).

Mas qual é a justiça de Deus? O Breve Catecismo afirma que “Cristo exerce as funções de sacerdote por ter oferecido a si mesmo, de uma vez por todas, em sacrifício, para satisfazer a justiça divina e reconciliar-nos com Deus, e fazendo continua intercessão por nós” (Resposta à pergunta 25 do BCW: “Como Cristo exerce as funções de sacerdote?”).

Voltando à história de Adão percebemos que o Deus que afirmou aos judeus que suas obras de justiça, diante dele, eram como trapos de imundícia (Is 64.6), rejeitou também a autojustiça dos nossos primeiros pais. Suas roupas, apesar de cobrirem as partes que os faziam corar de vergonha, não podiam cobrir a sua nudez diante do Senhor. O próprio Deus tratou, então, de providenciar novas roupas, matando um animal e fazendo “vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu” (Gn 3.21).

Aqui está bem clara a dura realidade do pecado e a verdade da Palavra de Deus. A despeito de terem acreditado na serpente que afirmou que era certo que eles não morreriam ao desobedecerem a ordem do Senhor, a realidade estava diante dos seus olhos: o pecado gera a morte, ou, nas palavras de Paulo no Novo Testamento, “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Para que Adão não morresse, o Senhor matou um animal em seu lugar.

Esse padrão será repetido durante todo o Antigo Testamento. Ao olhar para o culto oferecido pelos filhos de Adão, percebemos que aquele que foi aceito por Deus foi o que levou ao Senhor das primícias do seu rebanho e da gordura deste (Gn 4.4). Quando o Senhor deu à Israel as leis cerimoniais prescreveu com detalhes a forma como os animais seriam oferecidos ao Senhor como oferta pela culpa (Lv 3 a 7).

Estes sacrifícios tinham de ser continuamente oferecidos, pois como afirma o escritor aos Hebreus, “é impossível que os sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb 10.4). Estes sacrifícios apontavam para a providência de Deus em enviar aquele que seria morto de uma vez por todas.

Para o oferecimento dos sacrifícios, o Senhor estabeleceu os sacerdotes. Uma tribo foi especificamente separada para este fim, a tribo de Levi. Eram eles que representavam o povo diante de Deus. O problema é que estes sacerdotes também eram pecadores, por isso, antes de oferecer sacrifícios pelo povo, precisavam oferecer sacrifícios por si mesmos (Hb 5.3). Uma vez por ano, o sumo sacerdote adentrava ao Santo dos Santos levando o sangue do sacrifício e o aspergia sobre o propiciatório, a tampa da Arca da Aliança. Era este o dia da expiação (Lv 16).

Todas essas figuras apontam de forma maravilhosa para o Senhor Jesus Cristo que é tanto o Sumo Sacerdote perfeito (Hb 3.1) quanto a oferta perfeita pelo pecado, oferecida de uma vez por todas (Hb 7.27,28). Em seu ministério, perto de sua morte, percebemos o Senhor Jesus purificando o templo, o que deveria ter sido feito pelos sacerdotes negligentes (Mt 11.15-18). Podemos perceber também como a figura de vários cordeiros do Antigo Testamento se cumprem em Cristo.

João Batista o descreve como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). É clara a sua identificação com a ovelha muda de Isaías 53, quando Pilatos o interroga e João, o evangelista, afirma: “Mas Jesus não lhe deu resposta” (Jo 19.9). Mais clara ainda é a sua identificação com o cordeiro pascal, que não podia ter seus ossos quebrados (Ex 12.46), cujo sangue livraria os primogênitos de Israel da morte. João registra que por ocasião de sua morte, diferente dos marginais crucificados ao seu lado, Jesus não teve os seus ossos quebrados para se cumprir a Escritura (Jo 19.32-36).

Jesus, o Cordeiro perfeito de Deus, como perfeito sacerdote, ofereceu a si mesmo para remissão dos pecados. Ao morrer, o véu do santuário foi rasgado (Lc 6.45) e agora todos aqueles que se arrependem de seus pecados, recebendo-o pela fé, tem pleno acesso à presença do Senhor podendo entrar no Santo dos Santos pelo novo e vivo caminho, o sangue de Jesus. Ele é o grande sacerdote que nos representa diante do Pai (Hb 10.19-22).

Por causa de Cristo, você não precisa tentar justificar a si mesmo. Ao olhar para si mesmo no espelho da Lei e ver-se um pecador, não se desespere, confie no Cordeiro Perfeito que cumpriu toda a Lei e ofereceu a si mesmo em lugar de pecadores. Entretanto, se você não deposita nele a sua confiança, precisa saber que este Cordeiro que um dia foi humilhado em sua morte, virá com grande poder e glória.

Neste dia, em que os poderosos e os reis da terra implorarão aos montes: “Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” (Ap 6.15-17), só haverá duas possibilidades: ou você também estará desesperado, caso rejeite a graciosa salvação do Senhor, ou estará bem seguro, sob a intercessão do perfeito sumo sacerdote.

Portanto, rejeite a sua própria justiça, confesse os seus pecados, e creia no Cordeiro Santo de Deus.

14 agosto 2019

Jesus, O Profeta

Deus fala ao seu povo! Desde o início dos tempos o Senhor tem revelado a sua vontade ao homem. Logo após ter sido criado Adão ouviu as primeiras palavras da boca do Senhor. O texto bíblico registra que Deus disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28).

A Palavra de Deus ordenava ao homem que gerasse filhos a fim de espalhar a imagem do Senhor por toda a terra. Além disso, ordenava ao homem que cuidasse da criação como um vice-regente. Deus falou mais. Suas palavras anunciavam ao homem o cuidado do Senhor para com ele ao dizer: “Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será por mantimento” (Gn 1.29).

O homem é, então, guiado pela Palavra de Deus. É ela quem lhe dá direção e mostra a vontade de Deus para a sua vida. Um dos aspectos do Pacto de Deus com o homem é exatamente o Senhor declarar a sua vontade a fim de que o homem possa viver de modo agradável diante dele. No Pacto das Obras a Palavra de Deus não apontou apenas aquilo que ele deveria fazer, mas também aquilo de que ele estava terminantemente proibido: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16-17).

No início Adão ouvia a palavra diretamente da boca de Deus. Entretanto, após a sua transgressão, apesar de o Senhor continuar se revelando ao homem, ele o fez de maneiras distintas. Deus se revelou por sonhos, visões, teofanias, fez com que sua Palavra fosse escrita e comunicada ao povo. Além disso, a palavra vinha, comumente por meio de profetas, homens levantados por Deus para declarar a sua vontade ao povo.

Esses profetas funcionavam como mediadores entre Deus e povo. O primeiro e maior dos profetas foi Moisés. Por meio dele Israel tomou conhecimento de como o Senhor criou todas as coisas, formou um povo para si, libertou-o do cativeiro e lhe entregou a sua Lei. Em Deuteronômio Moisés disse ao povo:

O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás, segundo tudo o que pediste ao Senhor, teu Deus, em Horebe, quando reunido o povo: Não ouvirei mais a voz do Senhor, meu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não morra. Então, o Senhor me disse: Falaram bem aquilo que disseram. Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. De todo aquele que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas (Dt 18.15-19).

Desde então o povo está esperando O profeta anunciado por Moisés, pois, a despeito dos grandes profetas levantados por Deus como Isaías, Jeremias ou Elias, “nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face (Dt 34.10).

O povo entendeu que O profeta prometido por Deus seria o Messias. Isso pode ser claramente notado no Novo Testamento. Quando João Batista apareceu batizando, foram perguntar quem era ele. Após ele afirmar que não era o Cristo, continuaram a inquirir: “És tu Elias? [..] És tu o profeta?”. Diante das negativas, perguntaram-lhe ainda: “Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?” (Jo 1.19-25). A pergunta faz todo o sentido, pois Moisés, o profeta, aspergiu água sobre os filhos de Levi a fim de purifica-los (Nm 8.6-7). Malaquias também havia profetizado a respeito do mensageiro que prepararia o caminho para o Anjo da Aliança e identifica-o com Elias. Nesse contexto de anunciação do Messias e daquele que lhe abriria o caminho ele afirma que os filhos de Levi seriam purificados (Ml 3.1-3; 4.5)[1]. Ao ver João batizando, a associação foi inevitável.

Tempos depois, Jesus vai com seus discípulos ao monte e, diante deles, transfigura-se. Ao seu lado aparecem dois profetas: Moisés e Elias. Os discípulos, empolgados, sugerem fazer três tendas, uma para cada um deles, quando uma nuvem os encobre e a voz de Deus é ouvida dos céus: “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi”, não vendo mais ninguém os discípulos, exceto o Senhor Jesus. Este é O profeta semelhante a Moisés, tão aguardado pelo povo.

Uma diferença grandiosa entre os profetas que apontavam para O grande Profeta e Jesus é que aqueles falavam a Palavra de Deus, enquanto este é a Palavra de Deus encarnada, pois “no princípio era aquele que é a Palavra. [...] Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1.1,14). Jesus, O Profeta, é o ápice da revelação de Deus. Por esta razão o escritor aos hebreus afirma que “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho” (Hb 1.1). Deus hoje não fala mais como antigamente, mas por meio da Palavra de Cristo, a Bíblia Sagrada, daí a Confissão de Fé de Westminster declarar: “tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo (CFW I.I).

“Cristo exerce as funções de profeta, revelando-nos, pela sua Palavra e pelo seu Espírito, a vontade de Deus para a nossa salvação” (Resposta à “Pergunta 24. Como Cristo exerce as funções de profeta?”). Por toda a história o Senhor revelou a sua Palavra por meio de homens, até que ele mesmo se fez carne.

O Catecismo Maior afirma que Jesus exerceu suas funções de profeta, sacerdote e rei, tanto no estado de sua humilhação, como no de sua exaltação (Pergunta 42 do CMW). Em sua humilhação, zombaram de seu ofício profético ao baterem nele e dizerem: “profetiza-nos: quem é que te bateu?” (Lc 22.64). Entretanto, este glorioso Profeta foi exaltado e convoca todos os homens a reconciliarem-se com ele por meio da fé que “vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17). A pregação fiel da Palavra é, portanto, a voz do próprio Profeta Jesus chamando os homens ao arrependimento e fé e instruindo o seu povo acerca do caminho que deve andar.

Você tem dado ouvidos à voz de Jesus? Você tem estudado a Escritura a fim de conhecer a sua vontade? É somente por meio da Palavra de Cristo que você encontrará amparo, direção, consolo e conforto. Abra a sua Bíblia e escute o glorioso Profeta, Cristo Jesus.


[1] Sobre este assunto veja “O Batismo de João e a inovação imersionista”, capítulo do livro The Presbyterian Faith, do Rev. Geo. W. Belk, traduzido por A. Almeida

09 agosto 2019

Jesus, o único Mediador

Você já deve ter ouvido ou lido em algum lugar a frase “peça à mãe que o Filho atende”. Este pensamento da teologia católico romana faz de Maria uma participante na salvação dos homens. A ideia é que, sendo mãe de Jesus, o seu filho não lhe negaria um pedido. Entretanto, pensando biblicamente, nada poderia estar mais longe da verdade.

A pergunta 21 do Breve Catecismo trata exatamente dessa questão: “Quem é o Redentor dos eleitos de Deus? Resposta: O único Redentor dos escolhidos de Deus é o Senhor Jesus Cristo, que, sendo o eterno Filho de Deus, se fez homem em duas naturezas distintas, e uma só pessoa, para sempre”. O que temos aqui é a expressão inequívoca do claro ensino bíblico. Um redentor é aquele que resgata, liberta. Você lembra que os teólogos chamam de economia (ou administração) da Trindade o trabalho que cada pessoa divina realiza, o que mostra que o único e verdadeiro Deus faz todas as coisas? Pois bem, quando o Catecismo afirma que o único Redentor é o Senhor Jesus, está apontando para a sua obra dentro do plano de Deus para redimir os seus eleitos.

É fácil perceber isso quando lemos o que Paulo afirmou os colossenses: “Ele [o Pai] nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho [Jesus] do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão de pecados” (Cl 1.13). Para que o homem pudesse ser resgatado do reino das trevas, “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4).

O Filho, a segunda pessoa da Trindade, se fez homem, pois foram homens que pecaram contra Deus. Era preciso que um homem perfeito, que não quebrou a lei, morresse em lugar de pecadores, esta é a única maneira de Deus ser justo, punindo o pecado, e justificador, imputando a justiça do seu Filho àqueles que creem pela fé. Não poderia ser somente um homem, afinal de contas, se eu me oferecesse para morrer em seu lugar, alguém deveria também morrer no meu lugar, visto que o salário do pecado é a morte e ambos, eu e você, somos pecadores. Esta é a razão de Maria também não poder ser uma redentora, visto ser uma pecadora, como podemos perceber em seu cântico: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador” (Lc 1.46). Maria necessitava de um Salvador, logo, ela se reconhece pecadora.

A partir do momento em que Jesus se faz carne ele nunca mais deixa de ser plenamente Deus e plenamente homem. Em razão disso, Paulo enfatiza: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem (1Tm 2.5). Há muitos cristãos que erram ao pensar que Jesus hoje, no céu com o Pai, deixou de ser homem, mas basta lembrar que ao ser assunto ao céu ele foi como homem, podendo ser visto pelos discípulos que ouviram dos anjos “varões galileus, porque estais olhando para as alturas? Este Jesus que dentre vós foi assunto aos céu virá do modo como o viste subir (At 1.11). A Escritura declara que a volta de Jesus será visível, logo, necessariamente corpórea. João afirma que “eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá” (Ap1.7)!

O Breve Catecismo resume tudo isso ao declarar que “Cristo, o Filho de Deus, fez-homem tomando um verdadeiro corpo e uma alma racional, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da virgem Maria, e nascendo dela, mas sem pecado” (Resposta à “Pergunta 22. Como Cristo, sendo o Filho de Deus, se fez homem?” do BCW). Esta encarnação foi plenamente anunciada no Antigo Testamento. Isaías profetizou que “um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, duas naturezas em uma só pessoa, para sempre!

Mas o Antigo Testamento anunciou muito mais. Além de anunciar a encarnação do Verbo de Deus, apontou também para toda a sua obra. Jesus afirmou aos fariseus que liam as Escrituras por julgar que nelas tinha a vida eterna que elas falavam a respeito dele, mas que, contudo, eles não queriam ir a ele para ter vida (Jo 5.39). Isso quer dizer que, no Antigo Testamento, o Redentor prometido por Deus é amplamente anunciado e tipificado.

Por exemplo, o próprio título “Messias”, aponta para a pessoa e para a obra do Salvador. Messias é o termo hebraico para “ungido”. No Antigo Testamento os reis eram ungidos para o seu ofício (1Sm 16.12; 2Sm 3.39; 1Sm 24.6). Semelhantemente, os sacerdotes também o eram (Lv 4.3,5,16; Lv 16.32). Por inferência, percebemos que os profetas também eram ungidos a fim de desempenharem o seu ofício (Sl 105.15; 1Cr 16.22).

Muitos acham que Cristo é o sobrenome de Jesus, o que é um ledo engano. Cristo é a palavra grega equivalente ao termo hebraico para ungido, logo, dizer Jesus Cristo é o mesmo que dizer Jesus, o Ungido, ou Jesus, o Messias. É nele que se cumprem plenamente todos os ofícios do Antigo Testamento. Daí o Breve Catecismo ensinar que “Cristo, como nosso Redentor, exerce os ofícios de profeta, sacerdote e rei, tanto no seu estado de humilhação como no de exaltação” (Resposta à “Pergunta 23. Que ofícios Cristo exerce como nosso Redentor?”).

O Catecismo Maior amplia um pouco mais este entendimento ao perguntar “Por que foi o nosso Mediador chamado de Cristo?” e responder que ele “foi chamado de Cristo porque foi, acima de toda medida, ungido com o Espírito Santo; e assim separado e plenamente revestido com toda autoridade e poder para exercer as funções de profeta, sacerdote e rei da sua Igreja, tanto no estado de sua humilhação, como no de sua exaltação”.

Jesus, o único Mediador entre Deus e os homens é o seu Profeta, Sacerdote e Rei. Você precisa dar ouvidos à sua Palavra revelada nas Escrituras. Nele você tem perdão para os seus pecados e conta com sua incessante intercessão. Acima de tudo, nele você está seguro, pois ele é grande governante de todo o universo. Foi ele que se deu por você a fim de que você possa viver plenamente uma vida abundante.