21 junho 2013

Você tem sede de quê? – O cristão e as manifestações

cruz brasilCerta ocasião os fariseus enviaram seus discípulos para testar Jesus e eles lhe perguntaram: “É lícito pagar imposto a César?” e Jesus respondeu: É claro que não! A carga tributária é muito alta e o governo é corrupto, desvia todas as verbas para fazer suas festas e bacanais. Ajuntem os discípulos e preparem uma manifestação. Se não nos ouvirem, todo o império vai parar!

Tá bom, eu sei que não foi assim, mas é como muitos cristãos acham que deveria ter acontecido, pelo menos considerando as atitudes que estão tomando nestes últimos dias, em que a palavra de ordem é “O gigante acordou! Vem para a rua”.

Tenho lido nestes dias que Jesus era baderneiro, pois jogou mesa para todo lado no episódio em que expulsou do templo os cambistas. Li também que quando houve má administração por parte dos apóstolos, dos recursos arrecadados, houve uma manifestação popular e o resultado foi que os doze entregaram a administração dos fundos ao controle popular (pasme, essa é uma interpretação de Atos 6) e li ainda que “igreja que não protesta não é protestante”. Tudo isso para justificar a presença dos cristãos em meio a toda essa manifestação que inevitavelmente tem acabado em quebra-quebra e depredação de patrimônio público e privado. Haja ginástica hermenêutica e confusão histórica!

Sei muito bem que é direito constitucional manifestar-se. Meu ponto aqui não é sobre a legalidade do que tem acontecido, nem simplesmente afirmar categoricamente que crentes não deveriam estar nas ruas exercendo sua cidadania. Quer protestar, proteste, é seu direito constitucional, mas não precisa forçar a Bíblia como tem sido feito por aí. Meu objetivo aqui é procurar refletir sobre as motivações e incoerências que tenho visto. Vamos a elas:

1) Igreja que não protesta não é protestante – Pelo menos até onde eu sei, o protesto de Lutero não foi contra o Estado, mas contra a religião falsa que levava o povo ao erro. Aí está uma primeira e séria questão. Muitos dos crentes que estão justificando o protesto contra o governo, por serem protestantes, são os mesmos que afirmam que não podemos julgar a falsa religião. São aqueles que atribuem o rótulo de radical, briguento, intransigente aos que denunciam, pautados na Escritura, o que tem sido ensinado por muitos falsos mestres evangélicos (isso para ficar só dentro do nosso arraial). Enquanto escrevia o texto vi no Facebook uma convocação feita por um jovem presbiteriano que conclama todos os jovens, inclusive os da igreja contra a qual Lutero protestava, para orar juntos pela nação. Haja incoerência.

2) Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça – Este é outro “grito de guerra” dos crentes engajados. Mas será que estão entendendo bem sobre o que Jesus estava falando? Estaria Jesus tratando simplesmente sobre justiça social? Não! Como afirma acertadamente o teólogo Hendriksen, “esta justiça consiste em uma perfeita conformidade com a santa lei de Deus, ou seja, com a sua vontade”. Os que têm fome e sede de justiça são aqueles que clamam, não só por justiça pessoal e social, mas por ambas, que só serão plenas no reino messiânico, conforme outro teólogo, Carson.

Se é assim, o que deviam fazer era proclamar aos manifestantes e a todo o povo que eles devem se arrepender dos seus pecados (At 2.38), voltar-se para o Senhor confessando a Jesus Cristo a fim de, justificados mediante a fé, terem paz com Deus (Rm 4.24,25; 5.1-2). É dessa paz com Deus que decorrem as “boas obras” (justiça) de verdade (Tg 2.14). Mas, infelizmente, muitos desses cristãos que estão clamando contra o governo com todo vigor não demonstram a mesma disposição para apontar ao homem que, por melhor que seja o Estado, ele nunca poderá trazer a paz, a satisfação e a segurança que só Cristo pode dar e, sem o Salvador, só resta a dura realidade afirmada por um pastor, meu conhecido: “Quando o Estado é o meu pastor, tudo me faltará”.

3) Cristãos podem se manifestar com essa multidão? – Creio que sim, mas quando juntamente com isso não oram pelas autoridades e não proclamam a Cristo, quando o fazem por qualquer motivo que não seja a glória de Deus, gritando com a multidão palavras de ordem que ofendem autoridades instituídas por ele mesmo (Rm 13) ou compartilhando nas redes sociais imagens e vídeos com palavrões (Fp 4.8; Ef 5.3-5), acabam revelando um coração muito mais comprometido com o reino deste mundo do que com o reino de Deus.

Se você está disposto a pecar ou concordar com o pecado praticado por outros, por conta dos seus direitos, esteja certo de que o seu coração está sendo governado pelo reino errado. Se você protesta porque o roubo dos governantes o prejudica (saúde, educação, etc.) ao invés de pensar que o roubo é pecado contra Deus; se protesta porque a negligência do governo o afeta em vez de, primariamente, pensar que eles também estão pecando contra o Deus que os constituiu autoridade, você ainda não aprendeu como convém protestar.

Sei que o país está um caos. Também anseio por mudanças. Alguns acharão até que não sou patriota, mas entendo que se o compromisso do crente for primeiramente com a sua pátria terrena, inevitavelmente ele pecará contra o Senhor. Entretanto, se o compromisso for primeiro com a pátria celestial, seremos levados a uma vida de santidade diante do Supremo Governante, uma vida de testemunho diante dos homens e, consequentemente, de serviço ao próximo, pautado nas leis da pátria mais importante.

A sua sede de justiça provém de qual reino?

2 comentários:

Salomão Freitas disse...

Boa matéria Pr. Milton. É verdade que dentro do contexto de nosso tempo protestar, de forma ordeira, não constitui pecado contra Deus. Como o senhor citou Lutero, creio que podemos lembrar que dentro do seu tempo, não só ele, como também Calvino, discutiram e escreveram bastante sobre as mudanças pelas quais suas sociedades viviam, inclusive mudanças políticas. Pois a Reforma, como o senhor bem sabe, não atingia somente a Igreja, mas também o Estado. Aliás, Calvino tomou posições diferentes, em relação a Lutero, quanto ao Estado, colocando a possibilidade de resistência ao mesmo. Claro que sob a ordem de Deus, encontrada nas Escrituras, de respeito e honra as autoridades. Na Inglaterra a reforma protestante também teve influências e consequências importantes, e até radicais no aspecto social, econômico e político. As revoluções inglesas são seu maior exemplo. De forma direta aquelas revoluções foram responsáveis pelo surgimento de uma Monarquia Parlamentar mais democrática na Inglaterra, e o surgimento da grande República Norte Americana. E é claro que nesses processos houveram lutas, grandes lutas nos campos de batalha.
Sobre as manifestações de protesto, o senhor está correto quando avalia os jovens e demais cidadãos envolvidos. Não podemos esquecer que eles, a maioria, não estão muito propícios a submeterem-se a Deus e Sua Lei. Muitos deles, inclusive, levantaram cartazes defendendo os supostos direitos dos sodomitas. Creio Pastor, que esses protestos são nesse momento um desafio para jovens cristãos. O desafio de mostrar que apesar de podermos protestar e lutar contra injustiças sociais buscando mudanças, precisamos acima de tudo reconhecermos e submetermo-nos a Deus e Sua vontade revelada, em tudo que fizermos nessa vida.

Alecs Ferreira disse...

QUE A PAZ DO SENHOR JESUS CRISTO ESTEJA SEMPRE EM VOSSO CORAÇÃO!!!

Muito bom o artigo, que Deus continue te usando meu querido, abraços!!!

Pr. Alecs