13 março 2011

Deus Está no Controle

mundo na mão

Na madrugada e durante todo o dia de sexta-feira, 11/03, (no horário do Brasil) pudemos assistir estarrecidos o tsunami que varreu a costa nordeste do Japão. Cenas chocantes de muita destruição são continuamente repetidas nos noticiários. Já se somam mais de novecentas vidas que foram ceifadas e milhares de pessoas ainda estão desaparecidas.

Com isso, vários “teólogos” já se pronunciaram pela rede mundial de computadores, à semelhança do que fizeram em outras catástrofes, numa tentativa, ao que parece, de desculpar a Deus. “Ele não sabia que isso ocorreria” e outras afirmações semelhantes podem ser lidas na rede.

Ainda que vejamos com profunda tristeza tudo isto acontecer, devemos ter em mente que o Senhor Todo-Poderoso continua, sim, no controle. Mesmo as catástrofes e as guerras não escapam à sua soberania.

Esta verdade é claríssima nas Escrituras. Até nos atos maus dos homens vemos Deus cumprindo os seus propósitos na história. Basta que nos lembremos de José que foi vendido por seus irmãos e acabou se tornando o governador do Egito. Ao final da história vemos que Deus usou o pecado dos irmãos de José para preservar o povo de Israel que estava sem alimento e foi buscá-lo no Egito onde José já estava na posição de governador.

Sabemos que foi pecado o que os irmãos de José fizeram com ele, mas ainda assim, José enxergava a história da seguinte maneira: “Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, e me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito” (Gn 45.8).

Outro exemplo claro da soberania divina está registrado em Isaias 10.5ss. Nesse texto é relatado que Deus levantou a Assíria para punir a nação de Israel (o seu povo particular) porque Israel havia quebrado os preceitos da Aliança e logo depois puniu a Assíria por causa da arrogância do coração do seu rei, que achava que havia subjugado Israel por ser muito poderoso.

A história de Jó é outro exemplo gritante do controle absoluto de Deus. Mesmo sendo Satanás o instrumento para a aflição de Jó, tudo foi feito sob o domínio de Deus. Quem autorizou Satanás tocar naquele que é descrito como justo, íntegro e que se desvia do mal foi o próprio Senhor. Quando lemos o último capítulo do livro temos: “Então, vieram a ele todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele em sua casa, e se condoeram dele, e o consolaram de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado; cada um lhe deu dinheiro e um anel de ouro” (Jó 42.11).

A despeito dos relatos bíblicos, Ricardo Gomdin, adepto da teologia relacional, afirmou em seu microblog: “O deus que ‘administra’ os eventos, tem propósitos insondáveis e que, para isso deixa tragédias acontecerem, é um demônio (grifo meu). Outra pessoa afirmou ainda que “colocar Deus no controle de todas as coisas nos rouba o direito de lamentar a tragédia. Afinal, quem somos para lamentar uma decisão divina?”

Afirmações como essas revelam que para esses pensadores o homem é totalmente inocente e não merece sofrer, e que se Deus é de fato Soberano, o homem está nas mãos de um governante sádico. Eles não levam em conta a queda de Adão, e conseqüentemente a de todos nós, nem o fato de a terra ter sido amaldiçoada por causa do seu pecado a ponto de Paulo escrever que a própria natureza geme, aguardando a redenção (Gn 3.1-19; Rm 8.18-25).

Revelam ainda que, em sua crença, se Deus não serve para garantir o “bem-estar” do homem, ele só pode ser mau. Nesse caso, serve-se a Deus não por quem ele é, mas por aquilo que ele pode fazer em favor da humanidade. Isso me faz lembrar um episódio que vivi enquanto estava no seminário e que ilustra essa maneira utilitária de se relacionar com Deus. Tínhamos de fazer uma pesquisa em vários grupos religiosos e uma das perguntas era se a oração mudava a vontade de Deus. Estive numa igreja Renascer em Cristo e quando fiz essa pergunta ao pastor ele afirmou que certamente muda. No fim do seu arrazoado disse que se a oração não muda a vontade de Deus é melhor servir ao diabo.

Eles não entendem também que o sofrimento tem várias origens. Sofremos por causa da queda, por causa do pecado de outros contra nós, por causa dos nossos próprios pecados, por causa de Satanás e, em última instância, por causa de Deus.

Na história de Jó, por exemplo, temos Deus e Satanás envolvidos em seu sofrimento. A grande diferença são os objetivos. Enquanto Satanás infligia o sofrimento para que Jó negasse a Deus, o Senhor usou o sofrimento para lapidar e fortalecer as convicções de Jó que afirmou: “eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem" (Jó 42.5)[1].

Os teólogos relacionais assemelham-se à mulher de Jó que, por não entender os propósitos soberanos do Senhor em meio ao sofrimento do marido, ordenou: “amaldiçoa a Deus e morre”. A eles cabe a mesma repreensão de Jó à sua esposa: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2.9-10).

Outra questão a se perceber é que as afirmações acima revelam que, no fundo, eles não estão lamentando a tragédia, mas a decisão de Deus em agir da forma como bem entende. Mesmo sendo Deus Soberano sobre todas as coisas, inclusive tal tragédia, não proíbe que demonstremos compaixão e solidariedade com a dor do próximo e até mesmo ordena isso. Olhando para as Escrituras podemos perceber que a morte, mesmo sendo decretada por Deus como conseqüência da desobediência no Éden, provocou o choro de Jesus diante do túmulo de Lázaro (Jo 11.34,34). Usando a mesma lógica da afirmação acima, ao ler esse texto eles deveriam reprovar o choro de Jesus e declará-lo um hipócrita, visto que a morte só aconteceu por causa de seu decreto, sendo ele o próprio Deus.

Deixando de lado os teólogos relacionais, é duro perceber que até mesmo entre crentes de igrejas ortodoxas há também a recusa em admitir que o Senhor governa até as catástrofes. Ao mesmo tempo em que afirmam sem titubear que aqueles que não se arrependerem dos seus pecados perecerão no inferno, relutam em envolver Deus com a questão do sofrimento.

Isso é sintomático e pode indicar pelo menos duas coisas. A primeira é a falta de entendimento do que será o inferno e o sofrimento eterno, certamente muito pior que qualquer tragédia que já vimos ou que ainda veremos. A segunda e mais grave é a descrença, mesmo afirmando o contrário, de que haverá sofrimento eterno para aqueles que não se arrependerem e confessarem o Senhorio do Redentor.

Deus age e controla a história da humanidade como bem entende, não precisa de conselheiros (Is 40.14; 1Co 2.16; Rm 11.34), nem precisa pedir autorização para agir, pois“faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Ele mesmo afirma que ao agir, ninguém o pode impedir (Is 43.13). Até o ímpio Nabucodonosor entendeu que “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.36). Ele é o Grande Rei de toda a terra (Sl 47.2).

Não entendemos os propósitos de Deus com as catástrofes, nem como ele pode ser glorificado nisso tudo. Não precisamos entender isso. Precisamos crer que esse Deus Soberano é Santo, Justo e amoroso, e que sua vontade é boa agradável e perfeita (Rm 12.2).

A nós, cabe orar pelos que sofrem no meio às tragédias e calamidades, solidarizar-se e ajudar no que for possível, sem nunca nos esquecer que o Senhor dirige a história.


[1] Podemos ver essa mesma questão na história de Paulo e seu espinho na carne (2Co 10.1-10). Mesmo sendo o espinho um mensageiro de Satanás, serviu para aproximar mais o apóstolo do Senhor.

8 comentários:

Ricardo Moura Lopes Coelho disse...

Irmão, sua escrita melhora a cada texto. Fico feliz. Sua teologia melhora a cada crítica...rsrs... fico mais sarcástico com isso...srsrs... Só o que não me agrada é a insistência de crentes em acharem que este mundo, a salvação, o evangelho, a queda, a glorificação é algo que se trata deles mesmos, ao invés da glória do Redentor que se mostra único para toda a sua criação.

Bênçãos.

Milton Jr. disse...

Valeu Ricardo.
O ponto é esse mesmo. O homem olha somente para o seu próprio umbigo e, portanto, está pronto a rejeitar qualquer um que não lhe satisfaça os interesses, inclusive Deus.

Grande abraço.

folton nogueira disse...

Bravo Milton. Tocou no nervo. Que Deus continue te abençoando com tamanha perspicácia e você sempre a use para glória dele.
ab
Fôlton

Milton Jr. disse...

Amém Folton.

Ana Carolina disse...

Olá Rev. Milton
Ótimo texto! De fato, grande parte das pessoas, inclusive muitos crentes, tentam "desculpar" a Deus em circunstâncias trágicas como essa.
Mas, Deus é Soberano sob todas as coisas e, tudo resulta ou um dia resultará em Glória para Ele mesmo!
Como o sr. bem comentou, só nos cabe interceder por aquelas pessoas e jamais esquecer que Deus sempre está no controle... mesmo quando, aos nossos olhos, pareça que não.
"Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas." Isaías 45:7

Milton Jr. disse...

É isso mesmo Carol.
No último estudo bíblico acabamos falando um pouco sobre o tsunami e eu disse aos irmãos que os mesmos crentes que acham que Deus não tem nada a ver com as ondas gigantes e que isso é simplesmente um fenômeno natutal, são os que cantam: "as ondas atendem ao meu mandar... sossegai"..
Parece que muitos não têm prestado a devida atenção ao que cantam, isso para não dizer que não estão prestando atenção às Escrituras.

Anônimo disse...

A despeito dos relatos bíblicos, Ricardo Gomdin, adepto da teologia relacional, afirmou em seu microblog: “O deus que ‘administra’ os eventos, tem propósitos insondáveis e que, para isso deixa tragédias acontecerem, é um demônio” (grifo meu).Afinal quem é demônio,não entendi?

Milton Jr. disse...

Caro Anônimo, para Gondim, se Deus está no controle de catástrofes não pode ser bom, antes, é um demônio.