08 abril 2020

A Ceia, alimento para a alma

O segundo dos sacramentos que temos no Novo Testamento é a Ceia do Senhor. Já vimos que o Senhor do Pacto, Jesus Cristo, substituiu a circuncisão pelo batismo. Da mesma forma, a Páscoa, dada pelo Senhor a Israel, foi substituída pela Ceia.

No Novo Testamento percebemos que foi exatamente na Páscoa que Cristo Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29), instituiu a Ceia, como uma lembrança de sua obra (Mt 26.26-30). A Ceia seria em memória daquele que deu o seu corpo e o seu sangue, “o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.28).

A Ceia representa para o cristão aquilo que a Páscoa representa para o judeu, libertação, mas não do cativeiro do Egito e sim do cativeiro do pecado (Cl 1.13). A Páscoa demonstrava, como sombra, aquilo que o Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro Perfeito, iria fazer em favor de sua igreja. Algo que demonstra isso de forma magnífica é o relato de João sobre a crucificação. Ele afirma que os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos que estavam crucificados, para que não houvesse corpos na cruz durante o sábado. Ao chegar perto de Jesus o guarda constatou que ele já estava morto e não lhe quebrou a pernas. João afirma que isso foi para cumprir a Escritura: “Nenhum dos seus ossos será quebrado” (Jo 19.31).

Esta foi uma citação direta de um dos Salmos messiânicos de Davi (Sl 34.20). Entretanto, é preciso voltar um pouco mais na história para perceber a que se refere tudo isso. Em Êxodo o Senhor, ao instituir a Páscoa, ordenou: “O cordeiro há de ser comido numa só casa; da sua carne não levareis fora da casa, nem lhe quebrareis osso nenhum” (Ex 12.46). Tudo isso apontava, então, para o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Jesus Cristo (Jo 1.29). É importante notar que, após a morte do Senhor, não há mais menção às comemorações da Páscoa pela igreja, mas às celebrações da Ceia do Senhor.

Portanto, “a Ceia do Senhor é um sacramento no qual, ao dar e receber pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a sua morte; e aqueles que participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal, mas pela fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos para o seu alimento espiritual e crescimento em graça” (Resposta à Pergunta 96 do BCW: O que é Ceia do Senhor?).

Na Ceia devemos nos examinar para comer do pão e beber do cálice (1Co 11.28), entendendo que não podemos permanecer em nosso pecado diante da lembrança do sacrifício do Cordeiro de Deus. Na carta aos Coríntios, Paulo afirmou que eles não poderiam se orgulhar do pecado exatamente porque “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1Co 5.7). Muitos coríntios estavam morrendo exatamente por participar da Ceia de modo indigno.

A Igreja de Roma erroneamente entende que na eucaristia os elementos se transformam no corpo de Cristo que é novamente oferecido em sacrifício. Esse não é o entendimento Reformado. A Confissão de Fé de Westminster explica essa questão afirmado que “Os que comungam dignamente, participando exteriormente dos elementos visíveis desse sacramento, também recebem intimamente, pela fé, a Cristo crucificado e a todos os benefícios da sua morte, e dele se alimentam, não carnal ou corporalmente, mas real, verdadeira e espiritualmente; não estando o corpo e o sangue de Cristo, corporal ou carnalmente nos elementos pão e vinho, nem com eles ou sob eles, mas, espiritual e realmente, presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos em relação aos seus sentidos corporais” (CFW XXIX.VII).

Em suma, na Ceia os crentes são espiritualmente fortalecidos em sua fé, por estarem unidos à Cristo. Em relação ao sacramento do batismo, temos algumas diferenças. Além da diferença dos elementos, água no batismo, pão e vinho na Ceia, o primeiro é administrado uma só vez, enquanto o segundo é continuamente administrado pela Igreja.

O batismo marca a entrada na igreja, enquanto a Ceia é para aqueles que já fazem parte do povo de Deus. A despeito disso, ela é vedada às crianças que, mesmo sendo batizadas e fazendo parte do povo de Deus, não fizeram ainda sua profissão de fé, por não terem “idade e aptidão para se examinarem a si mesmos” (CMW – pergunta 177 – Cf 1Co 11.28-29).

“Exige-se daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor que se examinem sobre o seu conhecimento em discernir o corpo do Senhor, sobre a sua fé para se alimentarem dele, sobre o seu arrependimento, amor e nova obediência, para não suceder que, vindo indignamente, comam e bebam para si a condenação” (Resposta à Pergunta 97 do BCW: O que é exigido para participar dignamente da Ceia do Senhor?).

Diante de tudo isso constatamos que é por não entenderem corretamente o que é a Ceia do Senhor que muitos cristãos tanto a negligenciam quanto ao mesmo tempo anseiam o ano inteiro pela Páscoa. Talvez isso se dê por conta dos inúmeros teatros e encenações sobre a Paixão de Cristo. Muitos são levados à emoção ao ver Jesus apanhando e saem impactados, muitas vezes sem entender o que de mais grave ocorreu por ocasião da sua morte, ele ter recebido sobre si a justa ira do Pai em lugar de pecadores que, pela fé, podem ter agora vida. Tais encenações, por mais profissionais que sejam, além de ser uma quebra do segundo mandamento, não conseguirão encenar isso e, se a Ceia, que deve ser tomada com entendimento, não encenar, nada mais o fará.

Sabendo disso, você não pode transigir com o pecado, mas, no poder do Espírito de Cristo, deve lutar contra ele. O puritano Thomas Watson escreveu:

se uma mulher viu a espada que matou seu marido, quão odiosa ela será à vista dela! Acaso consideraríamos leve aquele pecado que fez a alma de Cristo ‘profundamente triste até a morte (Mc 14.34)? Acaso nos seria motivo de júbilo aquilo que fez o Senhor Jesus Cristo ‘um homem de dores’ (Is 53.3)? Acaso ele não clamou: ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste’ (Mt 27.46)? Acaso esqueceríamos aquele pecado que fez Cristo esquecer-se de si mesmo? Oh, que olhemos para o pecado com profunda indignação![1].

Diante do imenso privilégio que é participar da Ceia do Senhor, lembre-se do quão terrível é o pecado que fez morrer o seu Senhor e receba de sua graça para viver em santidade a cada dia de sua vida, para a glória dele. Não se ausente da Ceia do Senhor!


[1] Thomas Watson. A Ceia do Senhor. Pg. 37,38

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