27 março 2020

Batismo, sinal e selo do Pacto da graça

O entendimento Reformado acerca do batismo difere da posição católico romana, que ensina em sua doutrina da regeneração batismal que o batismo é essencial para a salvação. Também difere dos irmãos evangélicos que entendem que ele é somente um sinal de arrependimento. Muitos cristãos, com base no texto de Marcos 16.16, “Quem crer e for batizado será salvo;” entendem que para que alguém receba o batismo deve primeiramente dar evidências de que creu e, exatamente por isso, não aceitam a pratica do batismo infantil.

“Batismo é um sacramento no qual o lavar com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo demonstra e sela a nossa união com Cristo, a participação das bênçãos no pacto da graça, e a promessa de pertencermos ao Senhor” (Resposta à Pergunta 94 do BCW: O que é Batismo?).

Como entendemos que o pacto da graça teve início no Antigo Testamento o que temos no Novo Testamento é a sua continuidade, pois o Senhor não volta atrás em sua Palavra (Nm 23.19; Tt 1.2). Diferente do primeiro pacto, o pacto da obras, em que a vida era prometida sob a condição de obediência perfeita, no pacto da graça o Senhor “livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação em Jesus Cristo, exigindo daqueles a fé neste para que sejam salvos” (CFW VII.III). A diferença é que no Antigo Testamento era preciso crer na promessa do Messias, enquanto no Novo Testamento deve-se crer no em seu sacrifício, efetuado em favor de pecadores.

Já vimos que o sinal dado por Deus no Antigo Testamento para marcar a inserção daqueles que criam, bem como daqueles que nasciam na comunidade da fé foi a circuncisão. Com a vinda do Senhor Jesus, muita coisa mudou quanto à administração do pacto. Como exemplo, temos o fim dos sacrifícios que apontavam para Cristo (Jo 1.29; Hb 7.26,27). Houve também a mudança do sinal do Pacto, como veremos agora.

No evangelho conforme Lucas, temos o relato da circuncisão de Jesus (Lc 2.21). Ele foi circuncidado, pois convinha cumprir toda a Lei. Também para cumprir a Lei ele se apresentou ao batismo de João (Mt 3.15), que era o ritual de purificação que havia no Antigo Testamento (Nm 8.5-7; Ml 3.1 cf Nm 8.6), como podemos entender a partir da pergunta feita a João, “Então, por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?” (Jo 1.25). Isso explica porque batizamos por aspersão. Entendemos ser esta a forma bíblica, apesar de aceitarmos o batismo feito por efusão ou imersão.

Quando, porém, o Senhor enviou seus discípulos a pregar o evangelho, mandou-os batizar os conversos, não com o batismo de João, mas agora em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mt 28.19; At 19.1-5). O Senhor do Pacto muda o sinal. Em vez da circuncisão, aqueles que são inseridos na comunidade da fé recebem o batismo cristão.

O texto de Colossenses 2.11-12 demonstra claramente que a circuncisão agora não é mais física, é uma “circuncisão espiritual”, ou seja, a união mística com Cristo por meio do batismo do Espírito Santo, que é simbolizado pelo batismo com água (ver também Rm 6.3-4). Semelhante à circuncisão, que representava a purificação necessária para o pecador relacionar-se com um Deus Santo, o batismo representa o lavar regenerador do Espírito Santo operado no pecador. Isso pode ser visto de forma abundante no Novo Testamento (At 22.16; Tt 3.5; 1Co 6.11).

Essa representação fica ainda mais evidente na carta aos Efésios. Paulo afirma que Jesus se entregou pela igreja “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água, pela palavra” (Ef 5.26). É mui certo que o batismo cristão representa a lavagem espiritual, realizada pelo Espírito na vida dos crentes.

Quando ordenou o batismo, o Senhor Jesus disse que ele deveria ser feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Com isso temos a identificação da Trindade na salvação do homem, como vemos em 1Pedro 1.2: “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”.

“O Batismo não deve ser ministrado àqueles que estão fora da igreja visível, enquanto não professarem sua fé em Cristo e obediência a ele, mas os filhos daqueles que são membros da igreja visível devem ser batizados” (Resposta à Pergunta 95 do BCW: A quem o Batismo deve ser ministrado?).

Em outras palavras, ele é ordenado e não deve ser visto como algo de somenos importância, pois é um sinal perceptível da graça da salvação efetuada graciosamente pelo Senhor em seus eleitos. Além da ordem do próprio Senhor, para que os novos convertidos o recebam (Mt 28.19) temos também a ordem e a prática, por parte dos apóstolos e da igreja primitiva (At 2.38,41; 8.12,36; 9.18; 10.47 16.33; 19.5).

Como a circuncisão, o batismo marca a inclusão no povo do Pacto. Se o pacto permanece o mesmo, mudando apenas a sua administração e sinal, por implicação deve haver o batismo de filhos de crentes e não somente daqueles que já deram prova de fé e arrependimento, como entendem algumas igrejas cristãs. O silêncio do Novo Testamento usado por eles para dizer que crianças não podem receber o sinal do pacto, pelo fato de não terem condições de crer, deve ser entendido justamente ao contrário. Se não há mudança no significado do sinal, na nova Aliança inaugurada pelo Messias é evidente que os filhos nascidos em um lar pactual são contados como povo de Deus. É claro que isso não os exime de crer e, no momento próprio, professarão a sua fé diante da igreja.

Isso implica na responsabilidade dos pais em instruírem os filhos nos caminhos do Senhor, da mesma forma que acontecia com o povo de Israel no Antigo Testamento (Dt 6.6-9) e está em pleno acordo com a ordem do Senhor de fazer discípulos, batizando-os e ensinando-os a guardar todas as coisas que ele ordenou (Cf. Mt 28.18-20).

Nesse ponto alguém poderia indagar: “mas se os filhos de crentes também têm a responsabilidade de crer, porque não esperar que isso seja evidenciado a fim de não correr o risco de se ministrar o batismo a alguém que não é, de fato crente?”. Levado às últimas consequências, esse pensamento protelaria muito o batismo até de adultos. Lembre-se que na igreja primitiva ele era administrado tão logo alguém declarasse que cria. Isso levou os apóstolos a batizarem Simão (At 8.13), que mais à frente se mostrou alguém que não havia crido verdadeiramente (At 8.20-24).

O Batismo, sinal e selo do Pacto, é uma bênção para o cristão. No caso daqueles que são batizados na infância, será também uma constante lembrança da rebeldia contra o Senhor, caso se afastem dos seus caminhos após terem tido o privilégio de nascer em um lar que ama o Deus do Pacto.

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