14 março 2020

As santas ordenanças

Diferente do catolicismo romano que afirma serem sete os sacramentos[1], as igrejas protestantes entendem que há somente dois sacramentos no Novo Testamento, a saber, o batismo e a ceia do Senhor. Esses dois são os únicos ordenados por Jesus Cristo e que devem ser administrados pela igreja do Senhor.

“Um sacramento é uma santa ordenança, instituída por Cristo, na qual, por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados nos crentes” (Resposta à pergunta 92 do BCW: O que é um sacramento?). Para os reformadores, a administração correta dos sacramentos constitui-se em uma das marcas da verdadeira igreja de Cristo, somado à pregação fiel das Escrituras e ao exercício fiel da disciplina.

Eles são sinais visíveis ordenados por Cristo à sua igreja a fim de representar realidades espirituais. Conforme Calvino, “uma ordenança é um sinal externo pelo qual o Senhor retrata e testifica a sua boa vontade para conosco, a fim de dar suporte à nossa débil fé. [...] é uma expressão da graça de Deus declarada por um sinal exterior”[2]. Eles constituem-se, portanto, os únicos sinais visíveis ordenados pelo Senhor Jesus no Novo Testamento. Neles temos visivelmente representadas as realidades espirituais proclamadas nas Escrituras a respeito da purificação do pecador e de sua comunhão com o corpo de Cristo. Como afirmou Thomas Watson, “a Palavra é uma trombeta que proclama Cristo; o sacramento é um espelho que o representa”[3].

Entretanto, no Antigo Testamento essas realidades já eram proclamadas por meio de sombras (Cl 2.16-17) e também representadas visivelmente ao povo de Israel. Aqui é preciso lembrar que cremos que o Pacto da Graça foi estabelecido tão logo o homem pecou, sendo administrado no Antigo Testamento por meio de sombras que apontavam para Cristo, a realidade vista no Novo Testamento. Sobre isso a Confissão de Fé de Westminster ensina que “os sacramentos do Antigo Testamento, quanto às coisas espirituais por esses significadas e representadas, eram, em substância, os mesmos que os do Novo Testamento”.

O primeiro deles, a circuncisão, foi ordenada por Deus à Abraão para marcar a inclusão das crianças no Pacto que Deus tinha com seu povo (Gn 17.12-13). Deveriam ser circuncidadas todas as crianças nascidas no povo de Deus, bem como aqueles que estavam sob a autoridade do líder da família. Também aqueles que se convertiam à fé dos judeus e queriam participar da Páscoa, deveriam receber o sinal do Pacto (Ex 12.48).

O sinal do Pacto era uma constante lembrança de que o Senhor exige obediência do seu povo e esse ato higiênico apontava para a necessidade de purificação e de uma vida santa diante de Deus (Dt 10.12-16).

O segundo sacramento do Antigo Testamento era a Páscoa. Ela foi ordenada pelo Senhor por ocasião da saída de Israel da escravidão do Egito. Deus iria derramar sua ira sobre o Egito, matando todos os primogênitos, mas faria distinção não matando os primogênitos do seu povo. Ele ordenou, então, que se tomasse um cordeiro, colocasse o seu sangue na verga das portas e o comessem assado. Quando o Senhor começasse a ferir o Egito ele “passaria” as casas com sangue. Páscoa significa exatamente isso, passagem, e os israelitas deveriam celebrá-la todos os anos para lembrar que o Senhor os havia libertado do Egito e os livrado também da sua ira. O cordeiro foi morto em lugar dos filhos de Israel (Ex 12.1-28).

“Os sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e a Ceia do Senhor” (Resposta à Pergunta 93 do BCW: Quais são os sacramentos do Novo Testamento?). Eles representam a realidade daquilo que era apenas sombra no Antigo. Como ensina a Confissão de Fé, “sob o Evangelho, quando foi manifestado Cristo, a substância, as ordenanças, pelas quais este pacto é dispensado, são a pregação da Palavra e a administração dos Sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor; por essas ordenanças, posto que poucas em número e administradas com mais simplicidade e menos glória externa, o pacto é manifestado com mais plenitude, evidência e eficácia espiritual, a todas as nações; aos judeus bem como aos gentios” (CFW VII.VI).

Por serem os sacramentos uma ordenança de Deus para o nosso benefício espiritual, eles não devem ser negligenciados. “Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação não por alguma virtude que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas somente pela bênção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que os recebem pela fé” (Resposta à Pergunta 91 do BCW: Como os sacramentos se tornam meios eficazes para a salvação?).

Isso é importante ser entendido, pois há muitos que tem negligenciado o batismo. Pessoas que até mesmo dizem crer em Jesus, mas que preferem se abster do sacramento por causa de tradição religiosa da família, por exemplo. De igual modo, muitos cristãos tem negligenciado a Ceia do Senhor, faltando aos cultos dominicais sem qualquer justificativa plausível.

Como escreveu James Bannerman,

na comunhão com a igreja, e no uso das suas ordenanças, há uma experiência com uma influência espiritual, que o cristão não pode gozar quando está isolado; e por meio do ministério do sacramento e da ordenança, o poder da igreja se torna útil de forma muito perceptível e evidente para a confirmação da fé, o crescimento da graça, o auxílio da santidade, e o estabelecimento da obediência dos crentes. Por seu ministério dessa provisão espiritual, feita por ordenança e sacramento, para ajuda e progresso dos seus membros, a igreja torna-se um poder vivo para a alma dos crentes, extremamente poderoso e eficaz; e dia após dia, à medida que administra os sacramentos e, através deles, como canais, comunica uma graça e uma influência que não provém dela mesma, opera como o mais poderoso instrumento para a edificação do corpo de Cristo[4].

As santas ordenanças foram dadas pelo Senhor para o benefício de sua Igreja. Valorize-as e participe delas para a glória do seu Redentor.


[1] Além dos dois sacramentos ordenados por Cristo a ICAR acrescentou: confirmação, penitência, ordenação, matrimônio e extrema unção;

[2] João Calvino. A verdade para todos os tempos. Ed. PES, p. 78

[3] Thomas Watson. A Ceia do Senhor. P. 11

[4] James Bannerman. A igreja de Cristo. Ed. Kindle, posição 5408

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