20 fevereiro 2020

A Palavra de Deus e a salvação

Quando escreveu sua segunda epístola a Timóteo, Paulo, após elogiá-lo, fez uma recomendação: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Tm 3.14,15).

O texto é claríssimo e ensina que a Palavra de Deus é suficiente, ou melhor, é a única fonte para que alguém se torne sábio para a salvação pela fé em Cristo. Para isso, “O Espírito de Deus torna a leitura e, especialmente, a pregação da Palavra, meios eficazes para convencer e converter os pecadores, para os edificar em santidade e conforto, por meio da fé para a salvação” (Resposta à Pergunta 89 da CFW: Como a Palavra se torna eficaz para a salvação?).

Você se lembra da história de Lídia? Lucas registra que por ocasião da estada de Paulo em Filipos o apóstolo foi até um rio em que havia um lugar de oração. Lá havia algumas mulheres e Paulo pregou para elas. O texto diz que “certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia (At 16.14). Apesar de o texto não mencionar especificamente o Espírito Santo podemos ter certeza de que esta foi uma ação dele, pois Jesus afirmou: “quando ele vier convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8).

A despeito disso, muitas denominações evangélicas têm se deixado influenciar pelo pragmatismo e têm recorrido a vários métodos que supostamente têm dado certo para trazer pecadores ao “arrependimento”. O problema aqui é que, na ânsia de trazer pessoas para as igrejas, os métodos não têm sido questionados e analisados pelo crivo da Santa Palavra de Deus.

Como exemplo disso temos as várias igrejas ligadas a um movimento denominado “Sensível aos Interessados”. Esta ideia está presente em um livro que há alguns anos foi moda no Brasil, Uma igreja com propósitos. Neste livro o autor, Rick Warren, divulga ideias do tipo: pregar o evangelho nos termos do incrédulo a fim de que seja agradável e fácil eles se tornarem crentes, e mudar os métodos sempre que necessário. Para isso, ele ensina: “Estabeleça um culto voltado intencionalmente ao objetivo de que os membros da igreja tragam seus amigos. E torne esse culto tão atraente, agradável e relevante aos sem-igreja, que os membros de sua igreja ficarão ansiosos por compartilhar esse culto com os perdidos pelos quais eles se interessam”[1].

John MacArthur afirma que alguns dos gurus desse movimento aconselham inclusive a retirar do sermão todas as referências explícitas à Bíblia e ensinam a nunca pedir à congregação para abrir a Bíblia em um texto específico, pois os “interessados” ficam desconfortáveis com essa atitude[2]. Para esse tipo de movimento, a quantidade de pessoas atraídas ao culto valida o método, afinal, os fins justificam os meios.

É preciso voltar os olhos para o que Paulo afirmou a Timóteo: as Escrituras é que tornam o homem sábio para a salvação. O próprio Senhor Jesus afirmou certa vez: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38). Paulo, agora escrevendo aos romanos, assevera que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17).

É por meio da Palavra de Deus, e não de técnicas humanas, que o Espírito Santo convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Por esta razão é que Paulo, depois de afirmar a Timóteo que a Palavra de Deus é que torna o homem sábio para a salvação, continua sua argumentação dizendo que toda a Escritura é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2 Tm 3.16). Essa utilidade da Escritura, conforme Paulo, tem um fim: é para “que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.17).

Ao crer na suficiência das Escrituras para a salvação, a igreja não precisará recorrer a métodos humanos para que os homens creiam e, assim, glorificará o Senhor.

“Para que a Palavra se torne eficaz para a salvação devemos ouvi-la com diligência, preparação e oração; recebê-la com fé e amor, guardá-la em nosso coração e praticá-la em nossa vida” (Resposta à Pergunta 90 do BCW: Como se deve ler e ouvir a Palavra a fim de que ela se torne eficaz para a salvação?). Isso quer dizer que a fé cristã é racional. Há muitos que acham que em matéria de fé é preciso deixar a razão de lado. Isso explica a quantidade de pessoas que “tomaram uma decisão por Cristo” pautados na emoção que sentiram.

Uma história que sempre me chama a atenção é a do encontro de Filipe com o Eunuco. Deus enviou o diácono para um caminho deserto que descia de Jerusalém a Gaza e lá ele viu o eunuco que vinha lendo o profeta Isaías. Ao se aproximar do eunuco a pergunta de Filipe não foi: “sentiu algum arrepio, alguma sensação gostosa?”, mas sim: “compreendes o que vens lendo?”. Diante da negação ele explicou e o eunuco, após compreender, creu. A emoção está somente no final da história. Depois que entendeu, creu e foi batizado, o eunuco seguiu cheio de júbilo. A fé cristã não é baseada em emoções, mas no entendimento da Palavra. A emoção é consequência do entendimento correto acerca da obra do Redentor em nosso favor.

Entendida e crida, pela ação do Espírito, a Palavra precisa ser vivida. É Tiago, irmão do Senhor, quem alerta os crentes a se tornarem “praticantes da palavra e não somente ouvintes” a fim de não enganarem a si mesmos (Tg 1.22). Seu ensino ecoa as palavras de Jesus, que após proferir o sermão do monte alertou de que todo aquele que o ouvia e praticava, seria como um homem que edificou sua casa sobre a rocha, preparado para enfrentar todas as intempéries da vida, ao passo que os que ouvem e não praticam, seriam como um homem que edificou a casa sobre a areia que, diante das tribulações, veio a ser grande a sua ruína (Mt 7.24-27).

Ouça com atenção, medite na Palavra de Deus. Busque o auxílio do Espírito Santo que iluminará a sua mente e o capacitará a viver para a glória de Deus.


[1] Rick Warren. Uma igreja com propósitos. São Paulo: Vida, 1997, p. 253

[2] John MacArhur. Pregação Superficial. In “Fé para Hoje”, nº 30 – ano 2007: São José dos Campos: Fiel, p. 7

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