11 janeiro 2020

Você está satisfeito?

Muitos são os que sonham em ganhar muito dinheiro sem esforço algum. Prova disto são as filas e mais filas que se formam em nosso país diante de casas de aposta. Normalmente elas já são grandes, mas basta anunciar um prêmio acumulado e pronto, a fila multiplica enormemente o seu tamanho. Em decorrência disso muitas pessoas perdem dinheiro, bens, dignidade, respeito e até a família por conta dos jogos de azar. A escravidão ao jogo é uma grande desgraça.

É possível afirmar categoricamente que o que leva uma pessoa a viver desta forma, trazendo problemas para si e para outros, é a cobiça. “O décimo mandamento é: ‘Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo’ (Ex 20.17) (Resposta à Pergunta 79 do BCW: Qual é o décimo mandamento?). Como se percebe, não só o dinheiro, mas nada pode ser cobiçado.

A palavra traduzida aqui por cobiça significa, literalmente, desejo. Contudo, a ideia de cobiça é de um desejo desordenado de adquirir, sobretudo, o que é de outrem. No Novo Testamento Tiago fala da dinâmica do pecado e afirma que “cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz ao pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.14-15).

Biblicamente não há problema com o desejo em si, mas com o mau desejo, que é a forma como a Bíblia Nova Versão Internacional traduz a palavra cobiça no texto de Tiago. Podemos pensar em mau desejo em pelo menos dois sentidos: primeiro, é mau desejo tudo aquilo que é diretamente proibido pela lei de Deus. Entretanto, há outro sentido em que é preciso considerar. Bons desejos podem tornar-se maus quando queremos que eles se concretizem custe o que custar. A partir desse momento eles deixam de ser simples desejos para serem os nossos senhores. Eles dominam e ordenam que ajamos desta ou daquela maneira em seu nome. Bons desejos podem se tornar senhores cruéis, é por isso que precisamos manter em mente a exortação paulina, “todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12).

O décimo mandamento ensina, portanto, que o pecado nasce no coração. Como afirma Calvino, “por meio destas palavras, é como se o Senhor pusesse rédeas curtas em todos os nossos fortes desejos que ultrapassam os limites impostos pelo amor aos outros. Todos os outros mandamentos proíbem a prática de atos contra a regra do amor, mas este proíbe até concebê-los no coração”[1].

Com este mandamento o Senhor quer também ensinar o seu povo a estar satisfeito com aquilo que possui. Este povo havia sido libertado da escravidão do Egito, mas continuamente murmurava diante de Deus cobiçando o que deixaram no Egito em vez de se alegrar com o que tinham recebido do seu Redentor. Nas palavras do Breve Catecismo, “o décimo mandamento exige pleno contentamento com a nossa condição, bem como disposição para com o nosso próximo e tudo o que lhe pertence” (Resposta à Pergunta 80 do BCW: O que o décimo mandamento exige?).

Robert Jones instrui sobre como saber se estamos descontentes:

“Um meio prático para identificar raízes do descontentamento é responder honestamente a essas perguntas diagnósticas: ‘O que eu creio que me faria contente? O que eu necessito que aconteça para que eu fique contente?’. Se as suas respostas envolvem alguma mudança de circunstância, ou melhora de um relacionamento, perceba que isso está agora funcionando como a sua fonte de contentamento. Se você tivesse isso, você seria feliz, e se você não tivesse, estaria triste. Você é como um iô-iô no cordão, essa coisa terá você amarrada a si e o lançará para cima e para baixo. Isso é um ídolo que funciona como o seu deus”[2].

É importante sondar sempre o coração, pois aqueles que vivem descontentes estão incorrendo no mesmo pecado dos israelitas no deserto, que esquecendo-se da bênção de ter sido libertos do Egito, ou, em nosso caso, do pecado, olhavam com cobiça para aquilo que seus corações tanto desejavam naquele momento.

“O décimo mandamento proíbe todo descontentamento com a nossa condição, todo movimento de inveja ou pesar à vista da prosperidade do nosso próximo e todas as tendências e afeições desordenadas a alguma coisa que lhe pertença” (Resposta à Pergunta 81 do BCW: O que o décimo mandamento proíbe?). Isso não significa que não possamos almejar ou desejar algo. A Escritura não estimula a passividade ou à falta de propósito na vida. É desejo sadio aspirar um bom emprego, uma melhor condição de vida, etc., desde que isso não nos domine ou que estejamos de olho naquilo que é de outrem.

Se você confia no cuidado de Deus e em sua Palavra, poderá vencer a tentação da cobiça. Olhe para o exemplo do Senhor. Mateus diz que ele foi “levado ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites teve fome” (Mt 4.1-2). Não seria errado que o nosso Senhor desejasse comida naquele momento. Entretanto, o diabo aparece na história e coloca em dúvida a sua filiação. Se ele era mesmo o Filho de Deus, bastava ordenar que as pedras se transformassem em pães.

Jesus responde que “está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). A resposta de Jesus, não entendida por muitos, revela sua confiança no Pai. Basta olhar para o contexto anterior e você percebe isso. Ao ser batizado, os céus se abriram, o Espírito desce sobre o Senhor e uma voz, vinda do céu, afirma: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16-17). A palavra que havia saído da boca de Deus já havia afirmado a filiação, não era preciso pão, ainda que com fome, para que isso fosse comprovado. O desejo lícito pelo pão, neste momento seria mau, caso levasse Jesus a duvidar da palavra do seu Pai.

Firmado na Palavra de Cristo você pode viver satisfeito e até mesmo cumprir a ordenança de se alegrar com os que se alegram, ainda que a alegria do outro seja por ter conseguido aquilo que você também almejava e não obteve, como uma vaga de emprego, a aprovação no vestibular ou a aquisição de uma casa própria, por exemplo. Não obstante, coloque seus desejos diante do Senhor, em nome de Jesus, lembrando-se sempre que precisamos rogar que seja feita a vontade dele e de que “Deus, o vosso [seu] Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.8).


[1] João Calvino. A verdade para todos os tempos, p. 33

[2] Robert Jones. Aprendendo o contentamento em todas as circunstâncias, p. 28

0 comentários: