31 janeiro 2020

Incapacidade e condenação

Há uma confusão em certos círculos evangélicos no que diz respeito à doutrina da salvação. É o entendimento equivocado de que no Antigo Testamento o homem era salvo pelo cumprimento da Lei. Paulo explica isso ao dizer que “é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (Gl 3.11). O mesmo apóstolo declara que “sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras de lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado (Rm 3.19-20).

Isto é assim porque “nenhum homem, desde a queda de Adão, é capaz, nesta vida, de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus; mas diariamente os quebra por pensamentos, palavras e obras” (Resposta à Pergunta 82 do BCW: Alguém será capaz de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus?). É bem verdade que existe também no meio evangélico aqueles que entendem que o cristão pode viver sem pecar, razão de precisarmos ter sempre em mente o que afirmou João, de que “se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1.10).

Já foi dito anteriormente que após a queda o homem passou a amar a si mesmo em vez de amar a Deus e ao próximo. Esta nova condição implica na incapacidade de guardar os mandamentos. Até mesmo quando o homem natural age em conformidade com a Lei, só o consegue fazer de forma externa. Um ímpio, ainda que seja honesto (conformação externa), está pecando contra Deus, pois a razão para a sua honestidade não é a glória de Deus, mas motivações diversas como o medo da punição, a vergonha de ser visto como alguém desonesto ou mesmo o entendimento de que ele não pode fazer a outros o que não gostaria que fosse feito com ele. Cada uma dessas razões tem como motivação a preocupação consigo mesmo.

O homem natural não faz outra coisa senão pecar. Como aponta Sproul,

“Agostinho explicou que na queda, a raça humana perdeu o posse non peccare [posso não pecar], e nossa posição se tornou non posse non peccare [não posso não pecar], e isso significa que não temos mais a capacidade de não pecar. Em outras palavras, o poder de pecar está tão profundamente arraigado no coração e na alma de pessoas mortais que é impossível não pecarmos. Somos tão pecaminosos por natureza que nunca encontraremos alguém que não peque”[1].

Quando falamos em quebra da Lei é importante pontuar que “alguns pecados, em si mesmos, e em razão de circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros” (Resposta à Pergunta 83 do BCW: Todas as transgressões da lei são igualmente odiosas?).

Não é difícil você encontrar cristãos afirmando que não existe esse negócio de “pecadinho e pecadão”, pois todos os pecados são iguais. Esta afirmação contém uma verdade e um erro. A verdade é que “cada pecado merece a ira e a maldição de Deus, tanto nesta vida como na vindoura” (Resposta à Pergunta 84 do BCW: O que merece cada pecado?), seja ele grande ou pequeno. Como afirma a Confissão de Fé de Westminster, “não há pecado tão pequeno que não mereça a condenação” (CFW XV.IV), ou seja, se fosse possível uma pessoa cometer somente um pecado em toda a sua vida ela seria lançada no inferno, fosse por roubar um docinho da festa ou por ter cometido um genocídio. Isso aponta para a gravidade do pecado, pois é cometido contra um Deus Santíssimo.

O erro está no fato de que se até mesmo os homens pecadores sabem diferenciar delitos, entendendo ser uns mais outros menos graves, quanto mais não saberia o Justo Deus? O texto em que Jesus repreende as cidades em que ele havia feito muitos milagres demonstra isso: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (Mt 11.19).

O texto não poderia ser mais claro. Aqueles que estavam diante do Messias que realizava milagres sofreriam juízo mais severo que aqueles que contemplavam de longe a sua vinda. Alexander Hodge afirma que os sofrimentos dos que forem condenados no juízo “serão de diversos graus, proporcional ao demérito de cada pessoa (em função da menor ou maior gravidade dos pecados de cada pessoa)”[2]. Packer diz que os descrentes “terão um destino proporcional ao modo de vida ímpio que escolheram, e esse destino lhes virá de acordo com seu próprio demérito (Rm 2.6-11). O quanto eles conheceram da vontade de Deus será o gabarito pelo qual seu demérito será medido (Mt 11.20-24; Lc 11.42-48; Rm 2.12)”[3].

Na parábola do servo vigilante Jesus ensina isso afirmando que o servo que conheceu a vontade do seu Senhor, mas foi negligente, será punido. Entretanto, o servo que não soube a vontade do seu Senhor e procedeu mau, levaria poucos açoites pois “a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12.35-48). Tiago também adverte aos seus leitores de que aqueles que querem ser mestres receberão um maior juízo (Tg 3.1).

Tudo isso aponta para a sua responsabilidade em viver de forma coerente com aquilo que tem aprendido de Cristo. Por causa de Cristo, aqueles que estão unidos a ele, podem viver uma vida agradável diante de Deus, na força e no poder do Espírito Santo. Isso significa que é também sua responsabilidade, como testemunha de Cristo, notificar aos homens as suas faltas, anunciar o santo Evangelho, pois, voltando ao ensino da Confissão de Fé, “como não há pecado tão pequeno que não mereça a condenação, assim também não há pecado tão grande que possa trazer a condenação sobre os que se arrependem verdadeiramente” (CFW XV.IV).

Louve a Deus pela salvação em Cristo e proclame-o a fim de os eleitos de Deus sejam chamados à fé no Salvador.


[1] R.C. Sproul. Somos todos teólogos, p. 165

[2] A.A. Hodge. Esboços de teologia, p. 811

[3] J.L. Packer. Teologia concisa, p. 236

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