23 dezembro 2019

Do suor do teu rosto comerás

Vivemos um tempo de contradições. Ao mesmo tempo em que a sociedade cobra honestidade de seus políticos, contribui com o aumento da pirataria. Quando minha filha mais velha ainda estava amamentando estivemos no Hospital da Polícia, veja bem, e na recepção alguns policiais estavam em torno de um vendedor de CD´s e DVD´s piratas.

Conheci um irmão que na sua “boa intenção” em evangelizar fazia várias cópias piratas para uma pequena locadora evangélica. Em sua forma de pensar, quanto mais cópias, mais pessoas teriam acesso à mensagem. Desta forma este irmão fazia da evangelização um salvo conduto para o roubo em nome de um bem maior, como uma espécie de Hobin Hood gospel.

“O oitavo mandamento é: ‘Não furtarás’ (Ex 20.15)” (Resposta à Pergunta 73 do BCW: Qual é o oitavo mandamento?”). O Deus que libertou o povo da escravidão do Egito queria ele bem ciente de que não poderia se apropriar daquilo que era de outrem. Tendo em mente que a segunda tábua da lei trata do amor ao próximo é preciso entender que aquele que rouba não está considerando o labor alheio. “O oitavo mandamento proíbe tudo o que impede ou pode impedir, injustamente, o adiantamento da riqueza ou do bem-estar, tanto nosso, quanto do nosso próximo” (Resposta à Pergunta 75 do BCW: O que o oitavo mandamento proíbe?).

Roubar é apropriar-se de algo que foi conseguido de forma digna pelo semelhante. Talvez seja por conta disso que o ditado popular diga que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, o que nem de longe é verdade. É certo que existem pessoas que enriquecem de forma ilícita e que são roubadas, mas neste caso, ambos os ladrões estão em pecado diante de Deus.

A ideia de contentamento está presente no mandamento. Aquele que não se contenta com o que tem será tentado a conseguir o que o seu coração deseja de qualquer forma, até mesmo ilicitamente. Perceba que esta é a preocupação de Agur ao clamar, no livro de Provérbios, “dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o Senhor? Ou, que empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus” (Pv 30.8-9).

A confiança de que se vai receber de Deus o que é necessário livra o homem da tentação de apropriar-se do que é do seu próximo. Isso aponta para a importância da petição ensinada pelo Senhor Jesus na oração do Pai Nosso: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Mt 6.11).

Bem sabemos que o pão não cai do céu, daí entendermos que “o oitavo mandamento exige que procuremos o lícito adiantamento das riquezas e do estado exterior, tanto o nosso como o de nosso próximo” (Resposta à Pergunta 74 do BCW: O que o oitavo mandamento exige?). Isso significa que é preciso trabalhar. Alguns pensam que o trabalho é fruto do pecado, entretanto, o Senhor criou o homem para trabalhar, espelhando assim a imagem de Deus que, segundo Jesus, “trabalha até agora” (Jo 5.17). Quando Deus, após a queda, disse para Adão que ele comeria do suor do seu pão, estava apontando para o fato de que com o pecado, o trabalho seria penoso.

Se você lembrou do maná, quando eu afirmei que sabemos que pão não cai do céu, é preciso entender que mesmo o maná, dado milagrosamente por Deus, exigia trabalho. O maná caia pela manhã e o povo precisava ter fé de que Deus faria chover o maná e sair para colher. Se fossem muito tarde nada achariam, pois com o calor ele derretia. Não podiam deixar para o dia seguinte, pois ele se estragaria. O povo deveria receber de Deus o pão de cada dia, exceto no sexto dia, que antecipava o dia de descanso, em que o povo poderia colher o dobro e o maná não estragava. A lição aqui é que a fé no Deus que concede o pão não exclui o trabalho, mandamento de Deus, por meio do qual o Senhor concede o sustento.

Em Cristo, o trabalho após a queda ganha novo sentido. Adão ouviu que o seu trabalho seria penoso, mas o salmista diz do homem que teme ao Senhor: “do trabalho de tuas mãos comerás, feliz será, e tudo te irá bem” (Sl 128.1). Aquele que teme o Senhor encontra satisfação, pois trabalha como ordena Paulo, não “como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus” (Ef 6.6). Para estes o trabalho não tem por fim ganhar o pão de cada dia, sendo este uma consequência daquilo que está sendo feito, primariamente, para a glória de Deus.

Infelizmente, até entre cristãos há murmuração quanto ao trabalho. Nas redes sociais são frequentes as piadas anunciando com alegria o fim de semana e com tristeza a segunda-feira. Cristão precisam ter prazer no trabalho a fim de cumprir o oitavo mandamento.

Cristãos também glorificam a Deus ajudando o próximo. Isto está implicado no mandamento de não furtar como pode ser notado na carta de Paulo aos efésios. Ao exortar os irmãos para que andassem em santidade o apóstolo ordena que “aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28). Ou seja, não basta apenas não roubar, é preciso trabalhar a fim de acudir a outros. O mandamento estimula doar em vez de se apropriar do que é de outrem.

Em Levítico temos uma lei que demonstra o cuidado para com o outro de forma interessante. Deus ordena àqueles que colhiam em sua terra que não voltasse atrás para colher o que porventura ficasse para trás, além de ordenar que não se colhesse totalmente. Essa ordem que para alguns pode parecer um incentivo ao desperdício tinha por objetivo que o pobre e o estrangeiro pudessem se alimentar, assim, eles também não precisariam roubar, recebendo, por meio dos donos dos campos, o cuidado do Senhor.

Observando o oitavo mandamento você glorifica o Deus que enviou seu único Filho, que por meio de sua obra (trabalho) de redenção o reconciliou com o Pai ao cumprir toda a obra que Adão não conseguiu levar a cabo. É por causa do trabalho de Cristo e do seu resultado, a salvação, doada a você pela graça, que você pode parar de roubar a glória de Deus vivendo para si mesmo e dar a ele o louvor que só a ele é devido.

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