31 dezembro 2019

Deixando a mentira

Conta-se uma história atribuída a Tomás de Aquino de que ele estava debruçado sobre os seus livros e seus amigos, querendo lhe pregar uma pela, se aproximaram dizendo: - Veja Tomás, uma vaca voando! Mais do que depressa Aquino se levantou e passou a olhar para o céu de um lado para o outro enquanto seus amigos gargalhavam. Eles perguntaram, então, se Aquino acreditava em vacas voadoras, ao que ele respondeu: - Prefiro acreditar que uma vaca voe do que um irmão minta!

Nossa sociedade lida com a mentira de forma bastante hipócrita. Os mesmos pais que ensinam seus filhos que eles não devem mentir se veem no direito de mentir “para o bem” dos filhos. Empresários que exigem um relacionamento honesto por parte dos funcionários por vezes mentem a respeito dos lucros, para fugir dos impostos.

Foi o próprio Senhor Jesus que afirmou que a mentira tem por pai o diabo! Ao confrontar os fariseus que não criam na sua Palavra, o Senhor foi enfático: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira(Jo 8.44).

Os cristãos, por sua vez, são chamados para seguir aquele que é “o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6). Quando o Senhor orou por seus discípulos, rogou ao pai que os santificasse na verdade, que é a própria Palavra (Jo 17.7), e o apóstolo João escreveu que não tinha maior alegria do que a de ouvir que seus filhos andavam na verdade (3Jo 4). Há muitas outras orientações bíblicas para que os crentes vivam e falem a verdade, mas quero citar apenas mais uma: “O nono mandamento é: ‘Não dirás falso testemunho’ (Ex 20.16)” (Resposta à Pergunta 76 do BCW: Qual é o nono mandamento?).

A despeito disso tenho a impressão de que até mesmo para muitos cristãos existem “mentiras bastardas”, isto é, não procedem de Deus, pois ele é a expressão da verdade, mas também não procedem do diabo, pois as intenções por trás delas são boas. Desta forma, para estes, algumas mentiras são justificáveis, por conta de suas intenções “nobres”, como pais que mentem aos filhos pequenos dizendo para não irem a determinados locais por causa do bicho papão, para os “protegerem” de perigos, ou a resposta positiva do visitante ao anfitrião que pergunta se ele gostou da comida do jantar, ainda que não tenha gostado, pois dizer que não gostou soaria como falta de educação. Assim, a mentira ganha outros nomes como proteção, cuidado ou educação, sendo até algo esperado em certas ocasiões, pois é para o “bem do próximo”.

“O nono mandamento exige a conservação e promoção da verdade entre os homens e a manutenção da nossa boa reputação e a do nosso próximo, especialmente quando somos chamados a dar testemunho” (Resposta à Pergunta 77 do BCW: O que o nono mandamento exige?). Logo, precisamos primeiramente entender que o Senhor condena categoricamente a mentira, a despeito de alguns usarem a história das parteiras que mentiram a Faraó para dizer que Deus as abençoou por terem mentido em relação às crianças que elas não mataram, desobedecendo a sua ordem (Ex 1.15-22). Uma leitura mais atenta demonstra que o Senhor as abençoou por salvarem as crianças e não por terem mentido.

Não existem mentiras em favor de outros ou por amor a outros. Na Escritura aprendemos que não se peca em favor de outros, mas por amor a si mesmo. Tiago não deixa dúvidas: “cada um é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido” (Tg 1.14 - NVI). Perceba! Pecamos para conseguir o que desejamos e essa é uma atitude de amor próprio. Amamos tanto a nós mesmos que, impulsionados e iludidos por nossos desejos, estamos dispostos a fazer o contrário do que o Senhor ordena, tentando obter alguma satisfação ou benefício.

Deixe-me ilustrar: Certa vez aconselhei a uma senhora e em determinado momento falamos sobre a mentira. Ele afirmou para mim que odiava mentira e que nunca mentia. Diante disso pedi que ele imaginasse a seguinte situação, que eu a tivesse levado em minha casa e minha esposa a recebesse com um bolo fresco e um café quentinho. Ao comer o bolo ela percebe que estava muito salgado (pois minha esposa na pressa confundiu o pote de açúcar com o de sal) e resolve tomar café para ajudar o bolo a “descer”. É quando ela descobre que o café também está salgado, e, de repente, minha esposa diz: “A senhora gostou?”. Perguntei o que ela responderia e, claro, ela disse que diria que havia gostado para não magoar a minha esposa que a tratou com carinho. Continuei: “Vamos esquecer, por enquanto, minha esposa... Se a senhora fosse à casa de sua irmã e acontecesse o mesmo, o que responderia quando ela perguntasse se a senhora havia gostado?”, e rapidamente ela disse: “Mas que bolo ruim!”.

Diante disso, perguntei se ela não tinha medo de magoar a irmã e ela disse que a irmã já a conhecia bem. Foi quando demonstrei que na primeira resposta ela não estava pensando em minha esposa, mas em como minha esposa a veria.

O que levou esta senhora a falar uma mentira foi o mesmo que levou as parteiras de Faraó a mentirem: amor próprio. Ela por não querer ser mau vista, as parteiras por não quererem morrer. De igual forma, a mãe que mente ao filho inventando um bicho papão no quarto não o faz pela segurança do filho, mas pelo seu conforto, pois não precisará mais ficar correndo atrás da criança. O filho que mente ao pai sobre seu estado de saúde não o faz por cuidado, mas, talvez, por não querer sofrer ao ver o pai sofrendo. A amiga que mente para a outra não o faz por educação, mas para não ser tida como grosseira.

“O nono mandamento proíbe tudo o que é prejudicial à verdade, ou injurioso, tanto à nossa reputação como à do nosso próximo” (Resposta à Pergunta 78 do BCW: O que o nono mandamento proíbe?). Como cristão você é chamado para deixar a mentira e falar a verdade (Ef 4.25), não dar lugar ao diabo (Ef 4.25), o pai da mentira, antes resistir a ele (Tg 4.7).

Quem o capacita a viver desta forma é o Senhor Jesus Cristo, aquele que é A Verdade e que foi morto porque os homens quebraram o nono mandamento a fim de o acusarem falsamente e levá-lo à morte. Jesus foi condenado, ainda que nunca tenha dito uma mentira sequer, para que você tenha a verdadeira vida e possa viver pautado pela verdade, a Palavra de Deus. Fale sempre a verdade, em amor!

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