12 dezembro 2019

A santidade do sexo

Nossa sociedade está cada vez mais erotizada. Seja nas novelas, comerciais, filmes, banca de jornal ou internet, o que não falta é estímulo à sexualidade e sempre de uma forma distorcida. Tudo isso tem contribuído para o afrouxamento dos padrões morais até mesmo entre aqueles que dizem professar o nome de Cristo. Em vez de lutar contra a imoralidade, muitos estão sucumbindo e acabando por viver desta forma.

Não foi assim desde o princípio! Quando o Senhor formou o primeiro casal eles viviam de forma santa e experimentavam a sexualidade dentro do padrão estabelecido por Deus. O Senhor formou o homem e deu a ele uma mulher. Moisés afirma que “por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2. 24-25).

O relacionamento sexual foi dado ao homem dentro de uma relação pactual, logo, ele é devidamente experimentado quando glorifica a Deus e serve ao próximo, neste caso, o cônjuge. Entretanto, com a queda, este padrão foi pervertido, pois o homem criado para amar a Deus e ao próximo passou a viver de forma egoísta, amando a si mesmo e vivendo para os seus próprios interesses, movidos pelos desejos pecaminosos de seu coração ensimesmado. Apesar de o sexo em si não ser pecado, quando os desejos por sexo brotam de um coração cobiçoso e centrado em si mesmo dão origem a toda sorte de perversidades sexuais.

Tudo isso demonstra a importância de se entender o sétimo mandamento. “O sétimo mandamento é: ‘Não adulterarás’” (Ex 20.14 – Resposta à Pergunta 70 do BCW: Qual é o sétimo mandamento?). A exigência mais clara neste mandamento diz respeito à fidelidade no relacionamento conjugal. Foi o Senhor que instituiu o matrimônio e ele trata com seriedade este relacionamento pactual.

Tenho me referido ao casamento como um relacionamento pactual porque biblicamente ele é um reflexo do Pacto de Deus com o seu povo. Esta figura é vista tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Deus é retratado como o marido de Israel e Cristo como o noivo da Igreja. É por conta disso que a fidelidade é um aspecto fundamental no relacionamento pactual, seja de Deus com seu povo, seja do marido com sua esposa. O primeiro mandamento demonstra claramente esta verdade, quando Deus proíbe que Israel tenha outro deus além dele.

É também por conta desta realidade que em ambos os testamentos Deus repreende duramente o seu povo por conta da infidelidade, tratando-o como adúltero (Os 2.2-5; Tg 4.4). O Deus Fiel a seu povo exige que os cônjuges sejam fiéis um ao outro. A infidelidade é algo tão sério que é uma das duas únicas razões em que o Senhor permite o divórcio (1Co 7.10-15). É claro que a infidelidade não torna o divórcio uma obrigação, pois o ideal é sempre o perdão, desde que haja arrependimento.

O sexo é, então, corretamente experimentado dentro de uma relação pactual, a saber, no casamento, sendo exigido por Deus completa fidelidade. Portanto, “o sétimo mandamento exige a conservação da nossa própria castidade, e da do nosso próximo, no coração, nas palavras e nos costumes” (Resposta à Pergunta 71 do BCW: O que o sétimo mandamento exige?). Desta forma, quando alguém se separa do cônjuge por alguma razão que não o adultério ou a deserção e se casa novamente comete adultério e expõe o outro também ao adultério (Mt 19.3-12). É preciso dizer, entretanto, que isso não é um pecado imperdoável. O único pecado que não tem perdão é a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12.31-32). Se há arrependimento, há garantia de perdão da parte de Deus (1Jo 1.9).

É preciso estar atento, pois como afirma Jeffey Black, “qualquer prática sexual que não expresse essa união [pactual], mesmo dentro do casamento, falha em cumprir o propósito designado por Deus. [...] Considerando o que acabamos de dizer, há um grande número de maridos e esposas dentro das nossas igrejas que são ateus funcionais”[1].

Mas o mandamento exige também pureza de pensamento. Isso pode ser notado claramente quando o Senhor Jesus o interpreta. Em vez de tratar somente do adultério em si, ele trata das intenções do coração, por isso afirma que “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28). Com isso o Senhor está ordenando que se mantenham puros os pensamentos. “O sétimo mandamento proíbe todos os pensamentos, palavras e ações impuros” (Resposta à Pergunta 72 do BCW: O que o sétimo mandamento proíbe?).

Cristãos precisam levar “cativo todo o pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.5) lembrando que “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4.8). Em tempos em que a pornografia está ao alcance das mãos, por conta dos smartphones, é preciso fazer aliança com os olhos (Jó 31.1). Há cristãos acreditando que se as coisas acontecem apenas na imaginação não há problema e lançam-se em fantasias virtuais.

Nos relacionamentos interpessoais, é preciso tratar as moças como irmãs (1Tm 5.2), e vice versa, e estar convictos de que a vontade de Deus para o seu povo é que seja santo, se abstendo da prostituição e que “cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com lascívia como os gentios que não conhecem a Deus” (1Ts 4.3-5). John Bunyan ensina que

quando Paulo pede a Timóteo que suplique às moças para que andem conforme a dignidade do Evangelho, também pede que ela faça isso com toda a pureza. É como se estivesse dizendo: ‘Tome cuidado para que, enquanto instrui à santidade, você mesmo não seja corrompido pela concupiscência dos seus olhos’[2].

É claro que você não pode fazer isso por suas forças. Jesus foi categórico: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Mas se você está em Cristo, aquele que deu a vida pela noiva que constantemente adultera contra ele, a fim de santificá-la e apresentá-la perfeita para si mesmo no dia final, você tem condições de experimentar pureza em sua sexualidade, aguardando o dia em que poderá se alegrar com a bênção do relacionamento sexual ou, se já é casado, servir a seu cônjuge nesta área, para a glória de Deus.


[1] Jeffey S. Black – Uma perversão da Intimidade – p. 99 (Coletâneas de aconselhamento bíblico)

[2] John Bunyan. Piedade cristã – os frutos do cristianismo verdadeiro, posição 1185 de 1627

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