31 dezembro 2019

Deixando a mentira

Conta-se uma história atribuída a Tomás de Aquino de que ele estava debruçado sobre os seus livros e seus amigos, querendo lhe pregar uma pela, se aproximaram dizendo: - Veja Tomás, uma vaca voando! Mais do que depressa Aquino se levantou e passou a olhar para o céu de um lado para o outro enquanto seus amigos gargalhavam. Eles perguntaram, então, se Aquino acreditava em vacas voadoras, ao que ele respondeu: - Prefiro acreditar que uma vaca voe do que um irmão minta!

Nossa sociedade lida com a mentira de forma bastante hipócrita. Os mesmos pais que ensinam seus filhos que eles não devem mentir se veem no direito de mentir “para o bem” dos filhos. Empresários que exigem um relacionamento honesto por parte dos funcionários por vezes mentem a respeito dos lucros, para fugir dos impostos.

Foi o próprio Senhor Jesus que afirmou que a mentira tem por pai o diabo! Ao confrontar os fariseus que não criam na sua Palavra, o Senhor foi enfático: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira(Jo 8.44).

Os cristãos, por sua vez, são chamados para seguir aquele que é “o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6). Quando o Senhor orou por seus discípulos, rogou ao pai que os santificasse na verdade, que é a própria Palavra (Jo 17.7), e o apóstolo João escreveu que não tinha maior alegria do que a de ouvir que seus filhos andavam na verdade (3Jo 4). Há muitas outras orientações bíblicas para que os crentes vivam e falem a verdade, mas quero citar apenas mais uma: “O nono mandamento é: ‘Não dirás falso testemunho’ (Ex 20.16)” (Resposta à Pergunta 76 do BCW: Qual é o nono mandamento?).

A despeito disso tenho a impressão de que até mesmo para muitos cristãos existem “mentiras bastardas”, isto é, não procedem de Deus, pois ele é a expressão da verdade, mas também não procedem do diabo, pois as intenções por trás delas são boas. Desta forma, para estes, algumas mentiras são justificáveis, por conta de suas intenções “nobres”, como pais que mentem aos filhos pequenos dizendo para não irem a determinados locais por causa do bicho papão, para os “protegerem” de perigos, ou a resposta positiva do visitante ao anfitrião que pergunta se ele gostou da comida do jantar, ainda que não tenha gostado, pois dizer que não gostou soaria como falta de educação. Assim, a mentira ganha outros nomes como proteção, cuidado ou educação, sendo até algo esperado em certas ocasiões, pois é para o “bem do próximo”.

“O nono mandamento exige a conservação e promoção da verdade entre os homens e a manutenção da nossa boa reputação e a do nosso próximo, especialmente quando somos chamados a dar testemunho” (Resposta à Pergunta 77 do BCW: O que o nono mandamento exige?). Logo, precisamos primeiramente entender que o Senhor condena categoricamente a mentira, a despeito de alguns usarem a história das parteiras que mentiram a Faraó para dizer que Deus as abençoou por terem mentido em relação às crianças que elas não mataram, desobedecendo a sua ordem (Ex 1.15-22). Uma leitura mais atenta demonstra que o Senhor as abençoou por salvarem as crianças e não por terem mentido.

Não existem mentiras em favor de outros ou por amor a outros. Na Escritura aprendemos que não se peca em favor de outros, mas por amor a si mesmo. Tiago não deixa dúvidas: “cada um é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido” (Tg 1.14 - NVI). Perceba! Pecamos para conseguir o que desejamos e essa é uma atitude de amor próprio. Amamos tanto a nós mesmos que, impulsionados e iludidos por nossos desejos, estamos dispostos a fazer o contrário do que o Senhor ordena, tentando obter alguma satisfação ou benefício.

Deixe-me ilustrar: Certa vez aconselhei a uma senhora e em determinado momento falamos sobre a mentira. Ele afirmou para mim que odiava mentira e que nunca mentia. Diante disso pedi que ele imaginasse a seguinte situação, que eu a tivesse levado em minha casa e minha esposa a recebesse com um bolo fresco e um café quentinho. Ao comer o bolo ela percebe que estava muito salgado (pois minha esposa na pressa confundiu o pote de açúcar com o de sal) e resolve tomar café para ajudar o bolo a “descer”. É quando ela descobre que o café também está salgado, e, de repente, minha esposa diz: “A senhora gostou?”. Perguntei o que ela responderia e, claro, ela disse que diria que havia gostado para não magoar a minha esposa que a tratou com carinho. Continuei: “Vamos esquecer, por enquanto, minha esposa... Se a senhora fosse à casa de sua irmã e acontecesse o mesmo, o que responderia quando ela perguntasse se a senhora havia gostado?”, e rapidamente ela disse: “Mas que bolo ruim!”.

Diante disso, perguntei se ela não tinha medo de magoar a irmã e ela disse que a irmã já a conhecia bem. Foi quando demonstrei que na primeira resposta ela não estava pensando em minha esposa, mas em como minha esposa a veria.

O que levou esta senhora a falar uma mentira foi o mesmo que levou as parteiras de Faraó a mentirem: amor próprio. Ela por não querer ser mau vista, as parteiras por não quererem morrer. De igual forma, a mãe que mente ao filho inventando um bicho papão no quarto não o faz pela segurança do filho, mas pelo seu conforto, pois não precisará mais ficar correndo atrás da criança. O filho que mente ao pai sobre seu estado de saúde não o faz por cuidado, mas, talvez, por não querer sofrer ao ver o pai sofrendo. A amiga que mente para a outra não o faz por educação, mas para não ser tida como grosseira.

“O nono mandamento proíbe tudo o que é prejudicial à verdade, ou injurioso, tanto à nossa reputação como à do nosso próximo” (Resposta à Pergunta 78 do BCW: O que o nono mandamento proíbe?). Como cristão você é chamado para deixar a mentira e falar a verdade (Ef 4.25), não dar lugar ao diabo (Ef 4.25), o pai da mentira, antes resistir a ele (Tg 4.7).

Quem o capacita a viver desta forma é o Senhor Jesus Cristo, aquele que é A Verdade e que foi morto porque os homens quebraram o nono mandamento a fim de o acusarem falsamente e levá-lo à morte. Jesus foi condenado, ainda que nunca tenha dito uma mentira sequer, para que você tenha a verdadeira vida e possa viver pautado pela verdade, a Palavra de Deus. Fale sempre a verdade, em amor!

23 dezembro 2019

Do suor do teu rosto comerás

Vivemos um tempo de contradições. Ao mesmo tempo em que a sociedade cobra honestidade de seus políticos, contribui com o aumento da pirataria. Quando minha filha mais velha ainda estava amamentando estivemos no Hospital da Polícia, veja bem, e na recepção alguns policiais estavam em torno de um vendedor de CD´s e DVD´s piratas.

Conheci um irmão que na sua “boa intenção” em evangelizar fazia várias cópias piratas para uma pequena locadora evangélica. Em sua forma de pensar, quanto mais cópias, mais pessoas teriam acesso à mensagem. Desta forma este irmão fazia da evangelização um salvo conduto para o roubo em nome de um bem maior, como uma espécie de Hobin Hood gospel.

“O oitavo mandamento é: ‘Não furtarás’ (Ex 20.15)” (Resposta à Pergunta 73 do BCW: Qual é o oitavo mandamento?”). O Deus que libertou o povo da escravidão do Egito queria ele bem ciente de que não poderia se apropriar daquilo que era de outrem. Tendo em mente que a segunda tábua da lei trata do amor ao próximo é preciso entender que aquele que rouba não está considerando o labor alheio. “O oitavo mandamento proíbe tudo o que impede ou pode impedir, injustamente, o adiantamento da riqueza ou do bem-estar, tanto nosso, quanto do nosso próximo” (Resposta à Pergunta 75 do BCW: O que o oitavo mandamento proíbe?).

Roubar é apropriar-se de algo que foi conseguido de forma digna pelo semelhante. Talvez seja por conta disso que o ditado popular diga que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, o que nem de longe é verdade. É certo que existem pessoas que enriquecem de forma ilícita e que são roubadas, mas neste caso, ambos os ladrões estão em pecado diante de Deus.

A ideia de contentamento está presente no mandamento. Aquele que não se contenta com o que tem será tentado a conseguir o que o seu coração deseja de qualquer forma, até mesmo ilicitamente. Perceba que esta é a preocupação de Agur ao clamar, no livro de Provérbios, “dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o Senhor? Ou, que empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus” (Pv 30.8-9).

A confiança de que se vai receber de Deus o que é necessário livra o homem da tentação de apropriar-se do que é do seu próximo. Isso aponta para a importância da petição ensinada pelo Senhor Jesus na oração do Pai Nosso: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Mt 6.11).

Bem sabemos que o pão não cai do céu, daí entendermos que “o oitavo mandamento exige que procuremos o lícito adiantamento das riquezas e do estado exterior, tanto o nosso como o de nosso próximo” (Resposta à Pergunta 74 do BCW: O que o oitavo mandamento exige?). Isso significa que é preciso trabalhar. Alguns pensam que o trabalho é fruto do pecado, entretanto, o Senhor criou o homem para trabalhar, espelhando assim a imagem de Deus que, segundo Jesus, “trabalha até agora” (Jo 5.17). Quando Deus, após a queda, disse para Adão que ele comeria do suor do seu pão, estava apontando para o fato de que com o pecado, o trabalho seria penoso.

Se você lembrou do maná, quando eu afirmei que sabemos que pão não cai do céu, é preciso entender que mesmo o maná, dado milagrosamente por Deus, exigia trabalho. O maná caia pela manhã e o povo precisava ter fé de que Deus faria chover o maná e sair para colher. Se fossem muito tarde nada achariam, pois com o calor ele derretia. Não podiam deixar para o dia seguinte, pois ele se estragaria. O povo deveria receber de Deus o pão de cada dia, exceto no sexto dia, que antecipava o dia de descanso, em que o povo poderia colher o dobro e o maná não estragava. A lição aqui é que a fé no Deus que concede o pão não exclui o trabalho, mandamento de Deus, por meio do qual o Senhor concede o sustento.

Em Cristo, o trabalho após a queda ganha novo sentido. Adão ouviu que o seu trabalho seria penoso, mas o salmista diz do homem que teme ao Senhor: “do trabalho de tuas mãos comerás, feliz será, e tudo te irá bem” (Sl 128.1). Aquele que teme o Senhor encontra satisfação, pois trabalha como ordena Paulo, não “como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus” (Ef 6.6). Para estes o trabalho não tem por fim ganhar o pão de cada dia, sendo este uma consequência daquilo que está sendo feito, primariamente, para a glória de Deus.

Infelizmente, até entre cristãos há murmuração quanto ao trabalho. Nas redes sociais são frequentes as piadas anunciando com alegria o fim de semana e com tristeza a segunda-feira. Cristão precisam ter prazer no trabalho a fim de cumprir o oitavo mandamento.

Cristãos também glorificam a Deus ajudando o próximo. Isto está implicado no mandamento de não furtar como pode ser notado na carta de Paulo aos efésios. Ao exortar os irmãos para que andassem em santidade o apóstolo ordena que “aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28). Ou seja, não basta apenas não roubar, é preciso trabalhar a fim de acudir a outros. O mandamento estimula doar em vez de se apropriar do que é de outrem.

Em Levítico temos uma lei que demonstra o cuidado para com o outro de forma interessante. Deus ordena àqueles que colhiam em sua terra que não voltasse atrás para colher o que porventura ficasse para trás, além de ordenar que não se colhesse totalmente. Essa ordem que para alguns pode parecer um incentivo ao desperdício tinha por objetivo que o pobre e o estrangeiro pudessem se alimentar, assim, eles também não precisariam roubar, recebendo, por meio dos donos dos campos, o cuidado do Senhor.

Observando o oitavo mandamento você glorifica o Deus que enviou seu único Filho, que por meio de sua obra (trabalho) de redenção o reconciliou com o Pai ao cumprir toda a obra que Adão não conseguiu levar a cabo. É por causa do trabalho de Cristo e do seu resultado, a salvação, doada a você pela graça, que você pode parar de roubar a glória de Deus vivendo para si mesmo e dar a ele o louvor que só a ele é devido.

12 dezembro 2019

A santidade do sexo

Nossa sociedade está cada vez mais erotizada. Seja nas novelas, comerciais, filmes, banca de jornal ou internet, o que não falta é estímulo à sexualidade e sempre de uma forma distorcida. Tudo isso tem contribuído para o afrouxamento dos padrões morais até mesmo entre aqueles que dizem professar o nome de Cristo. Em vez de lutar contra a imoralidade, muitos estão sucumbindo e acabando por viver desta forma.

Não foi assim desde o princípio! Quando o Senhor formou o primeiro casal eles viviam de forma santa e experimentavam a sexualidade dentro do padrão estabelecido por Deus. O Senhor formou o homem e deu a ele uma mulher. Moisés afirma que “por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2. 24-25).

O relacionamento sexual foi dado ao homem dentro de uma relação pactual, logo, ele é devidamente experimentado quando glorifica a Deus e serve ao próximo, neste caso, o cônjuge. Entretanto, com a queda, este padrão foi pervertido, pois o homem criado para amar a Deus e ao próximo passou a viver de forma egoísta, amando a si mesmo e vivendo para os seus próprios interesses, movidos pelos desejos pecaminosos de seu coração ensimesmado. Apesar de o sexo em si não ser pecado, quando os desejos por sexo brotam de um coração cobiçoso e centrado em si mesmo dão origem a toda sorte de perversidades sexuais.

Tudo isso demonstra a importância de se entender o sétimo mandamento. “O sétimo mandamento é: ‘Não adulterarás’” (Ex 20.14 – Resposta à Pergunta 70 do BCW: Qual é o sétimo mandamento?). A exigência mais clara neste mandamento diz respeito à fidelidade no relacionamento conjugal. Foi o Senhor que instituiu o matrimônio e ele trata com seriedade este relacionamento pactual.

Tenho me referido ao casamento como um relacionamento pactual porque biblicamente ele é um reflexo do Pacto de Deus com o seu povo. Esta figura é vista tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Deus é retratado como o marido de Israel e Cristo como o noivo da Igreja. É por conta disso que a fidelidade é um aspecto fundamental no relacionamento pactual, seja de Deus com seu povo, seja do marido com sua esposa. O primeiro mandamento demonstra claramente esta verdade, quando Deus proíbe que Israel tenha outro deus além dele.

É também por conta desta realidade que em ambos os testamentos Deus repreende duramente o seu povo por conta da infidelidade, tratando-o como adúltero (Os 2.2-5; Tg 4.4). O Deus Fiel a seu povo exige que os cônjuges sejam fiéis um ao outro. A infidelidade é algo tão sério que é uma das duas únicas razões em que o Senhor permite o divórcio (1Co 7.10-15). É claro que a infidelidade não torna o divórcio uma obrigação, pois o ideal é sempre o perdão, desde que haja arrependimento.

O sexo é, então, corretamente experimentado dentro de uma relação pactual, a saber, no casamento, sendo exigido por Deus completa fidelidade. Portanto, “o sétimo mandamento exige a conservação da nossa própria castidade, e da do nosso próximo, no coração, nas palavras e nos costumes” (Resposta à Pergunta 71 do BCW: O que o sétimo mandamento exige?). Desta forma, quando alguém se separa do cônjuge por alguma razão que não o adultério ou a deserção e se casa novamente comete adultério e expõe o outro também ao adultério (Mt 19.3-12). É preciso dizer, entretanto, que isso não é um pecado imperdoável. O único pecado que não tem perdão é a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12.31-32). Se há arrependimento, há garantia de perdão da parte de Deus (1Jo 1.9).

É preciso estar atento, pois como afirma Jeffey Black, “qualquer prática sexual que não expresse essa união [pactual], mesmo dentro do casamento, falha em cumprir o propósito designado por Deus. [...] Considerando o que acabamos de dizer, há um grande número de maridos e esposas dentro das nossas igrejas que são ateus funcionais”[1].

Mas o mandamento exige também pureza de pensamento. Isso pode ser notado claramente quando o Senhor Jesus o interpreta. Em vez de tratar somente do adultério em si, ele trata das intenções do coração, por isso afirma que “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28). Com isso o Senhor está ordenando que se mantenham puros os pensamentos. “O sétimo mandamento proíbe todos os pensamentos, palavras e ações impuros” (Resposta à Pergunta 72 do BCW: O que o sétimo mandamento proíbe?).

Cristãos precisam levar “cativo todo o pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.5) lembrando que “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4.8). Em tempos em que a pornografia está ao alcance das mãos, por conta dos smartphones, é preciso fazer aliança com os olhos (Jó 31.1). Há cristãos acreditando que se as coisas acontecem apenas na imaginação não há problema e lançam-se em fantasias virtuais.

Nos relacionamentos interpessoais, é preciso tratar as moças como irmãs (1Tm 5.2), e vice versa, e estar convictos de que a vontade de Deus para o seu povo é que seja santo, se abstendo da prostituição e que “cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com lascívia como os gentios que não conhecem a Deus” (1Ts 4.3-5). John Bunyan ensina que

quando Paulo pede a Timóteo que suplique às moças para que andem conforme a dignidade do Evangelho, também pede que ela faça isso com toda a pureza. É como se estivesse dizendo: ‘Tome cuidado para que, enquanto instrui à santidade, você mesmo não seja corrompido pela concupiscência dos seus olhos’[2].

É claro que você não pode fazer isso por suas forças. Jesus foi categórico: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Mas se você está em Cristo, aquele que deu a vida pela noiva que constantemente adultera contra ele, a fim de santificá-la e apresentá-la perfeita para si mesmo no dia final, você tem condições de experimentar pureza em sua sexualidade, aguardando o dia em que poderá se alegrar com a bênção do relacionamento sexual ou, se já é casado, servir a seu cônjuge nesta área, para a glória de Deus.


[1] Jeffey S. Black – Uma perversão da Intimidade – p. 99 (Coletâneas de aconselhamento bíblico)

[2] John Bunyan. Piedade cristã – os frutos do cristianismo verdadeiro, posição 1185 de 1627

05 dezembro 2019

Não seja um assassino

A violência está cada dia mais comum em nossos dias, tão comum que muitos nem se assustam mais com as atrocidades que são noticiadas dia após dia nos jornais. Entretanto, a violência não é uma novidade de nossos dias. Já no capítulo quatro de Gênesis temos o relato do assassinato de Abel, por seu irmão. A razão? Ele estava irado por Deus ter aceitado a oferta de Abel e rejeitado a sua. Ainda no capítulo quatro um descendente de Caim, Lameque, conta como vantagem às suas esposas o assassinato de um homem e de um rapaz. O motivo? Um homem o havia ferido e um rapaz o havia pisado.

No capítulo seis do livro de Gênesis somos informados que uma das razões do dilúvio foi que a maldade do homem se havia multiplicado. Se avançarmos um pouco mais na leitura perceberemos também que no cativeiro o povo de Deus experimentou a violência, desde a matança dos primogênitos, a mando de Faraó, até a opressão e maus-tratos sobre o povo que havia sido escravizado.

Desde a queda os relacionamentos humanos, que foram estabelecidos para ser de serviço mútuo, foram afetados pelo egoísmo que passou a reinar no coração humano. A violência é fruto deste egoísmo. Deus dá ao seu povo, recém libertado do cativeiro e acostumado com a violência, um mandamento para demonstrar a santidade que há na vida humana.

“O sexto mandamento é: ‘Não matarás’” (Resposta à Pergunta 67 do BCW: Qual é o sexto mandamento?). Literalmente o que está sendo proibido aqui é o assassinato. Há diferença entre matar e assassinar. Quem assassina está matando, mas nem sempre que está matando comete assassinato. O assassinato pressupõe dolo. É em razão disso que o Catecismo ensina que “o sexto mandamento proíbe tirar a nossa própria vida, ou a do nosso próximo, injustamente, e tudo aquilo que para isso concorra” (Resposta à Pergunta 69 do BCW: O que o sexto mandamento proíbe?).

Você percebe esta questão de forma clara nas Escrituras. A pena capital foi estabelecida pelo Senhor assim que Noé saiu da Arca, por ocasião da reafirmação do Pacto. O Senhor determinou que quem assassinasse alguém também seria morto. A razão para isso foi “porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (Gn 9.6). Portanto, a morte de alguém não é injusta “no caso de justiça pública, guerra legítima ou defesa necessária”[1].

A imagem de Deus no homem concede a ele dignidade. É por isso que a vida precisa ser preservada. “O sexto mandamento exige todos os esforços lícitos para conservar a nossa vida e a dos outros” (Resposta à Pergunta 68 do BCW: O que o sexto mandamento exige?).

Isso significa que o descaso para com a vida, tanto a própria quanto à do próximo, constitui-se em quebra do mandamento. Aqui estão incluídos, então, a eutanásia, o aborto, e a forma como os cristãos cuidam de seus corpos. A Escritura oferece vários exemplos de que é preciso o devido cuidado com a vida. Em Efésios temos a ordenança é para que os maridos amem suas esposas, alimentando e cuidando (Ef 5.28,29), no evangelho de Mateus Jesus ordena aos discípulos pregarem o evangelho sob perigo de virem a morrer e, adverte-os a não se exporem a riscos desnecessários fugindo de onde acontecesse a perseguição (Mt 10.23). No primeiro livro dos reis temos também um exemplo claro da preservação da vida do próximo. Jezabel estava matando os profetas do Senhor e Obadias, para salvá-los, os escondeu e alimentou (1Rs 18.4).

João explica isso de maneira bela. Ao ensinar sobre o amor ao próximo ele exemplifica o amor afirmando que quem tem recursos deve amparar o irmão que passa por necessidade. Caso isso não ocorra, “como pode permanecer nele o amor de Deus? (1Jo 3.17), pergunta o apóstolo.

A abrangência do mandamento é, então, maior que simplesmente o assassinato. Você percebe isso na forma como o Senhor Jesus lidou com o sexto mandamento. No sermão do Monte ele afirmou que os seus ouvintes ouviram o que havia sido dito pelos fariseus, que quem matasse estava sujeito a julgamento. Entretanto, os fariseus entendiam que era quebra do mandamento apenas se houvesse morte física. Jesus demonstrou que as exigências da lei eram mais profundas, afirmando que “todo aquele que sem motivo se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.21-22).

Creio que não estarei exagerando ao dizer que a interpretação de Jesus coloca todos os homens como quebradores do sexto mandamento, pois em algum momento da vida, nos iramos de forma pecaminosa. Pense, por exemplo, nos filhos que são disciplinados pelos pais, não é incomum eles se irarem por causa do castigo.

Geralmente as pessoas interpretam o mandamento da mesma forma que os fariseus. Lembro-me que eu ainda era novo convertido e ao evangelizar uma pessoa falei que estamos condenados por não guardar os mandamentos. O rapaz rapidamente respondeu: eu nunca matei ninguém, e ficou assustado quando eu respondi que tinha matado muitas pessoas. Foi aí que expliquei a exigência de Cristo e a nossa incapacidade diante da Lei. Só em Cristo temos esperança de salvação, visto que ele cumpriu a Lei por nós.

Em vez de se irar, visto que

“a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20), você é ordenado a amar, inclusive os inimigos. Quanto aos que fizerem mal a você, lembre-se das palavras de Paulo: “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quando depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.17-21).

Em Cristo, e somente nele, você pode agir assim!


[1] Resposta à Pergunta 136 do CMW: Quais são os pecados proibidos no sexto mandamento?