13 novembro 2019

Qual é o dia de descanso?

Um assunto controverso no meio cristão é o que diz respeito ao dia de descanso. Para muitos irmãos, o quarto mandamento não tem validade nos dias atuais. Certa vez eu ensinava a respeito desse tema numa congregação que pastoreei e um dos membros chegou a dizer que a defesa do quarto mandamento é coisa de adventista, pois Jesus aboliu a lei.

É claro que Jesus não aboliu Lei. Já vimos que temos a obrigação de guardar a Lei moral, resumida nos dez mandamentos, e o quarto mandamento não é uma exceção. É preciso olhar para ele dentro de uma perspectiva pactual a fim de perceber quais aspectos continuam e quais descontinuam neste mandamento.

“O quarto mandamento é: ‘Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus, não fará nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e , ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Resposta à Pergunta 57 do BCW: Qual é o quarto mandamento?).

Um dos problemas quando pensamos nesse dia é que a palavra shabbat que aparece no mandamento significa literalmente “descanso”, mas ela é traduzida praticamente transliterada. Assim, em vez de termos “lembra-te do dia de descanso”, temos “lembra-te de dia de sábado”, o que faz com que muitos entendam que se for para guardar um dia, precisa ser necessariamente o sétimo, o nosso sábado.

No Antigo Testamento havia vários dias de descanso. Por esta razão, o Catecismo ensina que “o quarto mandamento exige que consagremos a Deus os tempos determinados em sua Palavra, particularmente um dia inteiro em cada sete, para ser um dia de santo descanso dedicado a ele” (Resposta à Pergunta 58 do BCW: O que o quarto mandamento exige?).

O que vemos no quarto mandamento é que o Senhor, além de prescrever como deve ser o culto, também prescreveu a seu povo o dia em que esse culto se daria. Ainda que em todos os dias devamos fazer todas as coisas para a glória de Deus, há um dia especialmente ordenado para o ajuntamento do povo a fim de adorar o seu Santo Nome. Aqueles que advogam que não é necessário um dia exclusivamente para Deus, por todos os dias serem dele, lançam por terra o ensino e a esperança do descanso final, para o qual aponta o mandamento.

“Desde o princípio do mundo, até à ressurreição de Cristo, Deus designou o sétimo dia da semana para o descanso semanal; e desde então, prevaleceu o primeiro dia da semana para continuar sempre até o fim do mundo, que é o sábado cristão, ou Domingo (o dia do Senhor)” (Resposta à Pergunta 59 do BCW: Qual dos sete dias Deus designou para esse descanso semanal?). No Antigo Testamento o descanso era no mesmo dia em que o Senhor descansou de sua obra de criação, no Novo Testamento, o descanso passa a ser no dia em que o Senhor Jesus Cristo descansou de sua obra redentiva, ressuscitando dentre os mortos.

Com a ressurreição do Senhor no primeiro dia da semana, vemos em Atos dos Apóstolos que a Igreja passa a guardar o domingo (sábado cristão), dia em que o Senhor Jesus descansou de sua obra (At 20.7; 1Co 16.1,2) e que é chamado na Escritura de dia do Senhor (Ap 1.10). A seita Adventista do Sétimo dia acusa os cristãos de ter mudado o dia de adoração do sábado para o domingo por causa do imperador Constantino, contudo, podemos ver que o Antigo Testamento já apontava para este dia.

Em Levítico 23.9-14 há o estabelecimento da festa das primícias. O povo deveria oferecer a Deus um molho das primícias da colheita ao Senhor e o sacerdote moveria a oferta no dia imediato ao sábado (23.12), ou seja, no primeiro dia da semana. Paulo associa a ressurreição de Cristo no primeiro dia da semana à festa das primícias, quando fala do Senhor como sendo “as primícias dos que dormem” (1Co 15.20). Do mesmo modo que a festa das primícias anunciava a boa colheita que viria, a ressurreição de Cristo aponta para a ressurreição daqueles que foram redimidos por ele.

Além disso, quando o Senhor cumpriu a promessa de enviar o “outro Consolador”, a saber, o seu Espírito Santo, o fez no dia de Pentecostes, que era realizado cinquenta dias após a Páscoa. Em um Domingo, então, a Igreja foi revestida de poder para ser testemunha do Senhor em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra (At 1.8; 2.1-4). Portanto, o Antigo Testamento já apontava para o sábado cristão, dia em que a Igreja do Senhor se reúne a fim de prestar culto e honrar aquele que a redimiu. Deve ser o dia mais esperado da semana, dia de serviço a Deus e júbilo diante dele.

Joseph Pipa, em seu excelente livro O dia do Senhor demonstra claramente no capítulo sete que o dia foi mudado, mas a obrigação de sua guarda não. É em razão disso que os crentes precisam estimar este dia, em que o Senhor promete bênçãos a seu povo, quando diz: “Se desviares os pés de profanar o sábado [descanso] e de cuidar dos seus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então te deleitarás no Senhor. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do Senhor o disse (Is 58.13-14).

O dia de descanso, principalmente após a queda, apontava para a vinda do Messias. Agora que Cristo já veio, ele continua sendo um dia em que recordamos e celebramos a sua obra em favor do seu povo, enquanto aguardamos sua segunda vinda. É um dia, então, em que vislumbramos aquele descanso final que teremos por ocasião do retorno do Salvador.

Deleite-se nesse dia!

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