20 novembro 2019

O que está proibido no dia do Senhor?

Esta é uma das questões que tenho ouvido recorrentemente quando se trata do dia do Senhor. O problema, a meu ver, é que geralmente aqueles que a fazem acham que se guardarem o dia do Senhor, como requerido nas Escrituras, perderão oportunidades, principalmente de lazer.

Antes de ir ao seminário precisei passar pelo exame do presbitério que avaliaria a minha vocação. Um dos pastores, que já havia sido pastor de minha igreja e conhecia muito bem a prática comum em minha cidade, me perguntou: “Jovem, você vai à praia antes ou após a Escola Dominical?”. Depois de me ouvir responder que eu ia sempre após, ele emendou outra pergunta: “E você acha que isto está correto?”. Confesso que eu nunca tinha pensado a respeito disso, até porque eu nunca tinha ouvido acerca do que a Confissão de Fé de Westminster estabelece sobre o Dia do Senhor. Respondi que não via problema algum, visto que eu trabalhava de segunda a sábado até o horário do almoço, restando-me pouco tempo para o lazer. Como não havia programação na igreja na parte da tarde, eu aproveitava, então, para meu deleite.

Cito a história apenas para demonstrar que eu também já estive entre aqueles que questionam o ensino, mas, pela graça de Deus, tive meu entendimento mudado. Se atentarmos para o mandamento, veremos que o Senhor foi claro ao estabelecer que em seis dias faríamos toda a nossa obra, mas que o sétimo dia era dele. Um dia em sete, estabelecido exclusivamente para o Senhor. É por isso que creio que ao invés de perguntar o que podemos fazer no dia do Senhor, deveríamos perguntar como podemos honrar o Senhor em seu dia.

Deus ordena que lembremos do dia de descanso para o santificar. Santificar, na Escritura, quer dizer separar, consagrar. “Deve-se santificar o Domingo com um santo repouso por todo esse dia, mesmo das ocupações e recreações temporais que são permitidas nos outros dias, empregando todo o tempo em exercícios públicos e particulares de adoração a Deus, exceto o tempo suficiente para as obras de pura necessidade e misericórdia” (Reposta à Pergunta 60 do BCW: De que modo se deve santificar o Domingo?).

Repare bem, santificamos o Domingo amando a Deus e ao próximo, ou seja, cumprindo o que a Lei ordena. O amor bíblico é sempre dirigido para fora de nós. É por isso que nunca somos incentivados a amar a nós mesmos, sendo o amor próprio uma característica ruim dos homens nos últimos dias, como afirmou Paulo (2Tm 3.2). Jesus mesmo afirmou que aqueles que queriam segui-lo deveriam negar a si mesmos. Nesse sentido, temos no Catecismo o ensino de que, sobretudo no dia do Senhor, adoramos a Deus e servimos ao próximo, em obras de necessidade e misericórdia.

É preciso entender bem isso para não incorrermos em legalismo. Você lembra que Jesus foi acusado de ser um transgressor do sábado? Em Lucas 13 Jesus está ensinando na sinagoga em dia de sábado. Uma mulher que andava encurvada, possessa de um espírito de enfermidade há 18 anos foi àquele lugar e Jesus a curou. Isso fez com que o chefe da sinagoga ficasse indignado e dissesse ao povo: “seis dias há em que se deve trabalhar; vinde, pois, nesses dias para serdes curados e não no sábado” (Lc 13.14). Jesus acusou aqueles homens de hipócritas, demonstrando que, em dia de sábado, eles não deixavam de dar água a seus bois e jumentos. Sendo assim, não haveria razão de não fazer o bem àquela filha de Abraão.

Jesus não quebrou o sábado, mas guardou-o de forma correta. Há cristãos que, na ânsia de combater o ensino adventista, afirmam que Jesus não guardou o sábado. Esse é um erro terrível, pois se Jesus não guardou o sábado, quebrou a Lei de Deus e não poderia se dar em favor de seu povo.

É fácil constatar se você considera importante ou não o Dia do Senhor. Se por quaisquer motivos você deixa de se reunir com o povo de Deus nesse dia, mas esses mesmos motivos não são razão para que você falte o seu trabalho, está claro que você está mais comprometido com o seu reino particular que com o reino de Deus. Se você entende que pode faltar à Escola Dominical por estar muito cansado, mas não tem coragem de ligar para o seu chefe na segundo dizendo que faltará o trabalho porque está precisando dormir um pouco mais, está evidente o lugar que o Senhor ocupa em seu coração.

“O quarto mandamento proíbe a omissão ou a negligência no cumprimento dos deveres exigidos, e a profanação desse dia por meio de ociosidade, ou por fazer aquilo que é em si mesmo pecaminoso, ou por desnecessários pensamentos, palavras ou obras acerca de nossas ocupações e recreações temporais” (Resposta à Pergunta 61 do BCW: O que o quarto mandamento proíbe?). O dia de descanso não é uma licença para a ociosidade, mas para a glória de Deus.

“As razões anexas ao quarto mandamento são: a permissão que Deus nos concede de fazermos uso dos seis dias da semana para os nossos interesses temporais; o reclamar ele para si a propriedade especial do dia sétimo, o seu próprio exemplo, e a bênção que ele conferiu ao dia de descanso” (Resposta à Pergunta 62 do BCW: Quais são as razões anexas ao quarto mandamento?).

Se você entender biblicamente o Dia do Senhor, louvará a Deus que dá a você saúde, capacidade, emprego e sustento, será grato por tudo o que ele tem feito em sua vida, sobretudo, pela salvação concedida por causa da obediência perfeita de Cristo em seu lugar, e ansiará pelo dia em ele promete falar especialmente à sua Igreja, por meio da pregação da Palavra, no culto do Dia do Senhor!

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