30 outubro 2019

Você precisa ver para crer?

“O segundo mandamento é: ‘Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo da terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Resposta à Pergunta 49 do BCW: Qual é o segundo mandamento?”).

Se o primeiro mandamento estabelece o objeto de culto, isto é, quem deve ser adorado, o segundo trata da maneira como Deus deve ser adorado. Não sei mencionar quantas vezes ouvi a mesma ladainha: “Deus não se importa com a maneira, mas com a sinceridade do coração”. Não era assim que entendiam os nossos pais puritanos. Nas respostas às perguntas 50 e 51 do Breve Catecismo temos: “O segundo mandamento exige que recebamos, observemos e guardemos puros e intactos o culto e as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra” (Resposta à Pergunta 50 do BCW: O que o segundo mandamento exige?) e “o segundo mandamento proíbe adorar a Deus por meio de imagens, ou de qualquer outra maneiras não prescrita em sua Palavra” (Resposta à Pergunta 51 do BCW: O que o segundo mandamento proíbe?).

A ideia aqui é rejeitar qualquer coisa que não esteja prescrita nas Escrituras para a adoração a Deus. É ele e somente ele que estabelece o culto. Temos exemplos claros na Escritura de que as coisas são assim. Quando o Senhor veio em socorro de nossos primeiros pais no Éden, após o pecado, rejeitou a “roupa” de folhas que eles fizeram e providenciou novas vestimentas. Para isso, o sangue de uma animal foi derramado e a mensagem aqui está explícita: o pecado leva à morte.

Quando Caim e Abel se apresentaram diante do Senhor, um trouxe do fruto da terra, enquanto outro trouxe das primícias do seu rebanho. Deus rejeitou o culto de Caim e aceitou o de Abel. A razão: “Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gn 3.4,5). Deus julgou tanto a intenção quanto a forma. Nesse ponto, talvez alguém questione (esse já foi também meu questionamento) que eles não sabiam como deveriam adorar, entretanto, creio que o princípio estabelecido na Confissão de Fé de Westminster pode nos ajudar a pensar: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.VI).

Jeremiah Burroughs demonstra este princípio de forma magistral ao apontar que apesar de não haver nenhuma proibição de se oferecer fogo estranho ao Senhor, Nadabe e Abiú foram mortos porque fizeram isso. Ele diz que “Deus queria que eles percebessem a sua intenção. No final do capítulo 9 [de Levítico], Deus mandou fogo do céu e lhes ordenou que conservassem constantemente esse fogo no altar para que nunca se apagasse. Parece que Deus queria que eles percebessem a sua intenção, [...] embora Deus jamais tenha lhes dito diretamente nestas palavras: ‘Deveis usar unicamente este fogo e nenhum outro’, ele queria que eles tivessem entendido a sua vontade. Por essa razão, o pecado deles consistiu em oferecer fogo estranho”[1]. Temos ainda os exemplos de Saul (1Sm 15) e Uzias (2Cr 16) reprovados por Deus ao fazer o que não lhes era ordenado.

Terry Johnson afirma que o princípio de fazer somente o que Deus ordenou ficou conhecido como “princípio regulador”. O princípio católico romano, luterano e anglicano é que existem normas, mas se alguma coisa não é expressamente proibida, pode ser feita. “A prática reformada é mais rigorosa. Ela afirma que tudo aquilo que não for ordenado pela Escritura (ou por mandamento, exemplo, ou ainda dedução de princípios abrangentes) é proibido”[2].

O segundo mandamento, então, se ocupa do culto ao Senhor. “As razões anexas ao segundo mandamento são a soberania de Deus sobre nós, o seu direito de propriedade sobre nós e o zelo que ele tem pelo seu culto” (Resposta à Pergunta 52 do BCW: Quais são as razões anexas ao segundo mandamento?). Mas não é só isso, vimos que é exigido que guardemos puros o culto e as ordenanças religiosas.

Não são poucos os que não veem problemas em fazer representações de Jesus ou das pessoas da Trindade. A proibição é de se fazer para adorar, dizem eles. A despeito disso, temos no Catecismo Maior a resposta ampliada que trata do segundo mandamento e podemos ler que é pecado “fazer qualquer imagem de Deus, de todas ou de qualquer das três Pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente, em qualquer forma de imagem e semelhança de alguma criatura” (Pergunta 109).

Em Deuteronômio Moisés lembrou ao povo que por ocasião de terem recebido os mandamentos o Senhor vos falou [com o povo] do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma [...] Guardai, pois, cuidadosamente a vossa alma, pois aparência nenhuma vistes no dia em que o Senhor, vosso Deus, vos falou em Horebe, no meio do fogo; para que não vos corrompais e vos façais alguma imagem esculpida na forma de ídolo...” (Dt 4.12-16). O texto é claro. Deus não se mostrou de forma aparente para que o povo não inventasse de tentar reproduzir em imagens que porventura tivessem visto.

E quanto a Jesus?, pode alguém perguntar, ele não tinha aparência? Os homens não o viram? Sim Jesus tinha um corpo e foi visto. João afirma que eles viram “a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Paulo afirma que ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). Ainda assim, ninguém nunca retratou o Senhor. Isso, por si só, deveria chamar a atenção. A segunda Confissão Helvética estabelece que “embora Cristo tenha assumido a natureza humana, não a assumiu para fornecer modelo a escultores e pintores. Afirmou que não veio ‘revogar a lei ou os profetas’ (Mt 5.17). E as imagens são proibidas pela lei e pelos profetas (Dt 4.15; Is 44.9)”.

Aqueles que fazem ilustrações de Jesus cairão em um de dois erros: Ou farão uma imagem de Deus, o que é proibido, ou dirão que ali está representado somente o homem Jesus, incorrendo em heresia ao separar a natureza divina da natureza humana de nosso Salvador.

Quando Filipe pediu a Jesus para que lhes mostrasse o Pai, ouviu do Mestre: “Há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Um dia, todos os crentes terão o mesmo privilégio. Verão o Pai por meio do Filho, na glória eterna. Até lá, cabe a nós a mesma palavra que Jesus disse a Tomé: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29).


[1] Jeremiah Burroughs. Adoração evangélica. P. 13,14

[2] Terry L. Johnson. Adoração reformada. P.31,32

0 comentários: