22 outubro 2019

Cuidado com a idolatria

Você já deve ter ouvido uma ou várias vezes alguém afirmar: “o importante é ter fé, não importa em que”, ou “o importante é ter uma religião, seja qual for”. Este pensamento é muito frequente, principalmente em nossos dias, onde a máxima pós-moderna de que não há verdade ou absolutos é a tônica de muitas conversas.

Lembro-me que em minha adolescência, quando deixei de frequentar a igreja romana, sempre ouvia a minha mãe repetir: “Junior, você precisa de uma igreja, você precisa de um caminho”, ainda que ela mesma não frequentasse nenhuma. Mas isso era só um detalhe, é importante ter uma fé. Será mesmo que o importante é ter fé, ou uma religião, independente de qual seja ou daquilo que se creia?

“O primeiro mandamento é: ‘Não terás outros deuses diante de mim’” (Resposta à Pergunta 45 do BCW: Qual é o primeiro mandamento?”. É importante lembrar o contexto. O povo recém libertado do Egito, onde a adoração à vários deuses era a regra, está sendo conduzido pelo Senhor para a terra da promessa. No deserto Deus está tratando o seu povo e mudando a sua visão de mundo ao revelar-se como o Criador, ao proclamar as suas obras e declarar o seu caráter, por meio de Moisés.

O mandamento é claro! Só há um Deus verdadeiro. Você percebe isso na expressão “Não terás outros deuses”. O ensino aqui não tem por objetivo que o povo escolha um entre várias opções de deuses, mas enfatizar a existência de que há somente um Deus verdadeiro. “O primeiro mandamento exige de nós conhecer e reconhecer a Deus como único Deus verdadeiro e nosso Deus, e como tal adorá-lo” (Resposta à Pergunta 46 do BCW: O que o primeiro mandamento exige?).

A verdade de que só existe um Deus vivo e verdadeiro deixa clara a loucura da idolatria e a inutilidade daqueles que os homens estabelecem como deuses em seu coração. O povo de Israel, que agora recebia a Lei do Senhor, tinha bem vivo em sua mente o confronto entre YAHWEH e os falsos deuses do Egito, por ocasião das dez pragas. “As pragas caem sobre áreas da vida social supostamente protegidas por deuses do Egito, demonstrando assim o poder do Senhor em relação aos deuses do país mais poderoso do mundo” (Nota da Bíblia de Estudo NAA). Entretanto, mesmo diante de toda esta verdade, não foram poucas as vezes que o povo de Deus incorreu em idolatria, durante a sua história, quebrando o mandamento.

É preciso muito cuidado a fim de não incorrermos neste pecado, mas muitos cristãos acham que estão livres da idolatria por considerarem como idolatria somente as imagens de escultura. Entretanto, como todo o pecado, a idolatria começa no coração. A representação iconográfica de algum falso deus é apenas a expressão daquilo que já ocorreu anteriormente no coração. Calvino, acertadamente, afirma que “é lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos”[1]. Por conta disso Deus condena no livro do profeta Ezequiel aqueles que levantam ídolos em seus corações.

Sempre que você buscar em coisas, pessoas ou até mesmo em si mesmo, aquilo que só pode ser encontrado plenamente no Senhor estará incorrendo em idolatria. A idolatria é tão enganosa que muitas vezes nos enganamos. Quando conhecemos alguém que não contribui financeiramente com a igreja, por exemplo, pensamos rapidamente que se trata de um sovina, alguém que ama demais o dinheiro. Por outro lado, quando conhecemos um dizimista fiel e pontual em sua oferta tendemos a achar que ali está um irmão fiel, que ama a Cristo. Entretanto, ambos podem estar amando o dinheiro de forma distinta. O primeiro ama tanto que não se importa com a ordenança bíblica para as contribuições, já o segundo, ama tanto o dinheiro que tem medo que Deus o amaldiçoe tirando os outros noventa por cento que ele acha que são dele, sendo esta a única razão de ser dizimista.

A religião cristã é de caráter exclusivista! Só há um Deus verdadeiro e, como afirma João, “sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” – daí o apóstolo concluir exortando – “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5.20). Valho-me do que escreveu Calvino, comentando o livro de Efésios, “do que ficou dito até aqui, a conclusão será facilmente formulada, ou seja: que fora de Cristo nada existe senão ídolos”[2].

“O primeiro mandamento proíbe negar, deixar de adorar ou glorificar ao verdadeiro Deus, como Deus, e nosso Deus, e dar a qualquer outro a adoração e a glória que só a ele são devidas” (Resposta à Pergunta 47 do BCW: O que o primeiro mandamento proíbe?”. Deus requer do homem exclusividade em seu coração. Por causa da libertação efetuada por Deus ao povo o Senhor não dividiria o seu louvor com quem quer que fosse. “As palavras ‘diante de mim’, no primeiro mandamento, nos ensinam que Deus, que vê todas as coisas, toma conhecimento e muito se ofende do pecado de ter-se em seu lugar outro deus” (Resposta à Pergunta 48 do BCW:O que nos é ensinado, especialmente, pelas palavras ‘diante de mim’, no primeiro mandamento?).

O mandamento chama a atenção para o fato de que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36). Da mesma forma que o Senhor libertou a Israel do cativeiro e ordenou que o povo só tivesse olhos para ele, você é chamado a olhar exclusivamente para Jesus Cristo, autor e consumador da sua fé, que o libertou do império das trevas a fim de que você viva exclusivamente para ele.


[1] João Calvino. Institutas, Livro I (Ed. Clássica), p. 107

[2] João Calvino. Efésios, p. 68

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