08 outubro 2019

A regra de obediência

Tenho um filho de 5 anos de idade. Em uma de minhas conversas com ele após uma desobediência, a fim de ensinar que ele não pode fazer o que bem entende, expliquei que todos nós estamos debaixo de algum tipo de autoridade e que precisamos obedecer. Em um dos exemplos que dei disse que quando ele trabalhar terá um chefe e que não poderá fazer as coisas do jeito dele, sob o risco de ser mandado embora. Passam uns dois dias e ele pergunta para a mãe: “Quando eu trabalhar eu tenho de ter um chefe?”, sim, respondeu ela, e perguntou a razão do questionamento dele. A resposta foi ligeira: “Eu quero ser o chefe!”.

A questão do meu garotinho serve para mostrar o que é o anseio natural do homem após a queda, não querer obedecer a ninguém. Entretanto, a despeito de sua tentativa de autonomia, o homem foi criado para ser um servo e, como tal, deve satisfação ao seu Senhor.

“O dever que Deus exige do homem é obediência à sua vontade revelada” (Resposta à Pergunta 39 do BCW: O que Deus exige do homem?), ensina a pergunta 39 do Breve Catecismo. Perceba duas lições importantes aqui. A primeira é que Deus revelou a sua vontade ao homem. Isso é visto já no primeiro livro da Bíblia. Adão é formado e Deus revela qual a sua vontade para ele. Ele deveria encher a terra e dominar sobre ela. Além disso, ele não poderia tomar da árvore do conhecimento do bem e do mal, a única que foi vedada por Deus. Para isso, Deus deu a ele uma auxiliadora idônea. A segunda é que a obediência foi requerida. Caso desobedecesse, o homem experimentaria a morte.

Uma das questões que me chamam mais atenção na narrativa da queda é o fato de a serpente ter se dirigido primeiramente à mulher. Perceba algo aqui. Adão devia obediência a Deus, mas a mulher, além de obedecer a Deus, deveria obedecer àquele de quem era ela uma auxiliadora, seu marido Adão. É para ela que Satanás sugere que não era preciso obedecer a ninguém, nem a Adão, tampouco ao Senhor, pois se tomasse do fruto proibido, todos seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal. Logo, não haveria necessidade de alguém para apontar o que é bem ou o que é mal. O desejo por autonomia leva homem e mulher à ruína.

Há quem pense que a Lei foi dada ao homem somente no Sinai. Entretanto, temos no Breve Catecismo a pergunta: “O que revelou Deus primeiramente ao homem para regra de sua obediência?”, seguida da resposta que diz: “A regra que Deus revelou primeiramente ao homem para sua obediência foi a lei moral” (Pergunta 40 do BCW). Este ensino refere-se ao que temos na epístola aos Romanos. Em Romanos Paulo demonstra que tanto judeus quanto gentios estão sob a condenação de Deus. Os gentios porque Deus se revelou na criação, o que os torna indesculpáveis. Os judeus porque tinham a revelação especial da Palavra de Deus. Entretanto, ainda que os gentios não tivessem acesso à revelação especial, Paulo afirma que por vezes eles agem, “por natureza”, de acordo com a lei e afirma que “estes mostram a norma da lei gravada no seu coração” (Rm 2.15).

Mas o que é essa lei moral, gravada no coração? “A lei moral está resumidamente compreendida nos Dez mandamentos” (Resposta à Pergunta 41 do BCW: Onde a lei moral está resumidamente compreendida?”). Neste ponto, alguém poderia dizer: “Está vendo? Isso mostra que a lei foi dada somente no Sinai. Foi lá que Deus deu os Dez mandamentos à Moisés!”, mas pense um pouco mais comigo. Quando Paulo escreveu aos efésios ensinou que eles deveriam andar em santidade. Esta santidade consistia em abandonar padrões antigos e assumir novos padrões, daí ele dizer que os que roubavam, quebrando o oitavo mandamento, deveriam agora trabalhar fazendo com as próprias mãos para acudir ao necessitado (Ef 4.28).

Isso demonstra que o padrão de santidade de Deus exige trabalho e doação em vez de roubo. Ora, não foi isto que Deus revelou a Adão no Éden? Adão deveria trabalhar. A lei moral foi dada no Éden de forma positiva. O padrão normativo estabelecido por Deus está na criação. Como exemplo, o homem deveria deixar pai e mãe e casar-se com a sua esposa (sétimo mandamento), deveria trabalhar (oitavo mandamento) e deveria dar ouvidos à verdade da Palavra (nono mandamento), sendo pecado a desobediência a este padrão. Por isso, após a queda, Deus dá a lei em forma de tábuas no Sinai, para que o homem viva de acordo com o padrão original, por isso não pode adulterar, nem roubar, tampouco dar falso testemunho, visto de forma positiva nos exemplos citados. A forma como Deus dá o quarto mandamento também aponta para a lei na criação. Repare que ele inicia com “lembra-te do dia de descanso” (Ex 20.8), demonstrando o padrão estabelecido na criação (Gn 2.3). O Pacto de obras consistia na obediência à esta lei, para justificação ou condenação[1].

Mas pense um pouco mais. “Os dez mandamentos se resumem em amar ao Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças e de todo o nosso entendimento; e ao nosso próximo como a nós mesmos” (Resposta à Pergunta 42 do BCW: Em que se resumem os Dez mandamentos?). Esta resposta à pergunta 42 do BCW, é exatamente a resposta de Jesus aos fariseus que o interrogaram acerca do mandamento mais importante. Jesus resume desta forma, pois os quatro primeiros mandamentos versam sobre o amor a Deus e os seis últimos tratam do amor ao próximo.

Se você acha que aqueles que advogam que a Lei foi dada somente no Sinai estão certos, talvez se surpreenda com o fato de José, que resistiu à tentação da esposa de Potifar, ter dado como razão para a sua atitude exatamente o resumo da Lei, ao dizer: “Ele [Potifar] não é maior do que eu nesta casa e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como, pois, cometeria eu tamanha maldade [quebrando o sétimo mandamento e não amando o próximo] e pecaria contra Deus [não amando o Senhor] (Gn 39.9). José resistiu à tentação por amar a Deus e a Potifar.

A regra de obediência, dada por Deus a Adão e à sua posteridade como um pacto de obras foi a sua Lei Moral, reflexo de seu caráter santo. É por isso que Paulo pode afirmar que “a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom” (Rm 7.12). É claro que após o pecado o homem não consegue cumprir perfeitamente esta lei, contudo, o Catecismo Maior ensina que a lei moral continua útil a todos os homens após a queda, a fim de instruí-los acerca de Deus, seu caráter e sua vontade. Além disso, ela é útil aos não regenerados para que tenham consciência de sua imperfeição e busquem a Cristo. Por fim, ela é útil aos regenerados a fim de lhes mostrar o quanto devem a Cristo e buscarem viver em acordo com ela, não para serem salvos, mas para glorificar aquele que os salvou, Jesus Cristo, que cumpriu cabalmente toda a Lei (Mt 5.17).

Diante de tudo isso, como Davi, você precisa estimar a Lei do Senhor e considera-la mais desejável que o ouro e mais doce que o mel e o destilar dos favos.


[1] Ver Confissão de Fé de Westminster, XIX.I,V,VI

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