11 setembro 2019

Como podemos ser salvos?

Certa vez, um homem rico se aproximou de Jesus questionando o que ele deveria fazer para herdar a vida eterna. O Senhor, sabendo que aquele homem entendia ser um cumpridor da lei, apontou para os mandamentos como meio para a salvação. A resposta que Jesus ouviu era que desde a infância aquele homem já fazia isso. Foi, então, que Jesus o colocou em um teste prático. Ele havia citado ao homem quase todos os mandamentos da segunda tábua, exceto um. Agora ele o põe à prova com o décimo mandamento, não cobiçarás, afirmando que só lhe faltava uma coisa: “vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me” (Lc 18.18-22).

Se você lembra da história sabe que este homem, ao ouvir estas palavras, “ficou muito triste, porque era riquíssimo” (Lc 18.23). Jesus o havia feito enxergar que ele não conseguia cumprir os mandamentos. Como bom judeu, ele sabia que “qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Aquele homem, ao cobiçar riquezas, as colocava como mais importantes que o próprio Deus. Jesus demonstrou que seu entendimento a respeito de quem pode ser salvo era errado.

Entretanto, não era somente o entendimento deste homem que estava errado, mas também o dos discípulos. Lucas continua a narrativa relatando que Jesus afirmou o quão difícil seria para um rico entrar no céu e que, mais fácil que isso, seria um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Diante disso, os discípulos ficaram espantados e perguntaram: “Sendo assim, quem pode ser salvo?” (Lc 18.26). A pergunta tinha como pressuposição o entendimento de que os ricos eram abençoados por Deus. Se eles, que eram abençoados por Deus, não podiam ser salvos, quem poderia? Jesus respondeu enfaticamente: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19.26).

A resposta de Jesus não deixa dúvida. Se depender do homem, morto em seus delitos e pecados, a salvação é impossível. O homem natural não quer a Cristo, logo, não pode alcançar a salvação. Entretanto, em sua obra, Jesus conquistou para o seu povo a redenção. A pergunta a ser feita é: “Como nos tornamos participantes da redenção adquirida por Cristo?” (Pergunta 29 do BCW). A resposta que temos no catecismo é que “tornamo-nos participantes da redenção adquirida por Cristo, pela eficaz aplicação dela a nós pelo seu Santo Espírito”.

A redenção nos é aplicada pelo Espírito de Cristo, o único que pode convencer “o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8). Mas “como o Espírito aplica-nos a redenção adquirida por Cristo?” O Espírito aplica-nos a redenção adquirida por Cristo, operando em nós a fé, e unindo-nos a Cristo por meio dela em nossa vocação eficaz”, responde o Breve Catecismo na pergunta 30.

Vocação eficaz é como chamamos a obra de convencimento do Espírito Santo no coração do pecador. A Confissão de Fé de Westminster ensina que o Senhor chama “eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito” (CFW X.I) aqueles que Deus predestinou para a salvação. Quando o evangelho é pregado, cai em ouvidos surdos. O homem, morto em seus delitos e pecados, não tem condições de responder com fé ao que ele ouve. A Palavra precisa ser proclamada, mas sem a operação sobrenatural de Deus, ela nunca será crida.

Um exemplo claro disto é o momento em que Paulo discursa diante do rei Agripa, em Atos dos apóstolos. O apóstolo começa dizendo estar feliz em apresentar defesa perante Agripa, visto ser ele versado nos costumes dos judeus (At 26.2). Após isso ele faz um arrazoado e termina perguntando: “Acreditas, ó rei Agripa, nos profetas? Bem sei que acreditas” (26.27).

Aqui a tradução da Bíblia Revista e Atualizada nos confunde um pouco. Ela traz a resposta de Agripa da seguinte maneira: “Por pouco me persuades a me fazer cristão” (26.28), dando a impressão ao leitor desatento de que Paulo quase convenceu Agripa, faltando mesmo bem pouquinho. John Wesley, certa vez, pregou um sermão intitulado “Os quase cristãos” e começando com este texto declarou que “muitos há que chegam até este ponto: pelo menos, desde que apareceu no mundo a religião cristã, sempre houve muitos, em todas as épocas e nações, que quase chegaram a ser persuadidos a se fazerem cristãos[1].

Esta é uma visão equivocada do texto. A tradução Revista e Corrigida de Almeida traz uma tradução melhor: “E disse Agripa a Paulo: Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!”. A fala de Agripa é jocosa. O rei desdenha da pregação de Paulo afirmando que não se tornaria cristão com tão pouco. A resposta de Paulo colabora para este entendimento: Assim Deus permitisse que, por pouco ou por muito, não apenas tu, ó rei, porém todos os que hoje me ouvem se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias” (At 26.29). Não existem quase cristãos ou quase salvos. Quando a pregação do evangelho encontra ouvidos mortos, sempre haverá rejeição. Entretanto, se juntamente com o chamado externo houver o chamado eficaz do Espírito, homens se renderão a Cristo.

Este é um alento para aqueles que cumprem o seu papel de testemunhas de Cristo e proclamam o evangelho. Podemos pregar e chamar homens ao arrependimento não porque somos eloquentes, mas porque o Senhor agirá na salvação dos eleitos. Apesar de termos de nos esmerar a fim de apresentar o evangelho da forma mais clara que conseguirmos, a salvação do pecador não depende da eloquência do pregador, mas da poderosa operação do Espírito Santo, por meio da sua Palavra.

O Breve Catecismo descreve assim este processo. “Vocação eficaz é a obra do Espírito Santo pela qual, convencendo-nos de nosso pecado e de nossa miséria, iluminando nosso entendimento pelo conhecimento de Cristo, e renovando a nossa vontade, ele nos persuade e habilita a abraçar Jesus Cristo, que nos é oferecido de graça no evangelho” (Resposta à “Pergunta 31 do BCW: O que é vocação eficaz?).

As palavras do Senhor Jesus Cristo aos discípulos são, então, um alento para a nossa alma. A salvação é impossível para os homens, mas para Deus não há impossíveis. Ele concede salvação pela graça, por meio da fé, que é dom concedido por ele (Ef 2.8).

Louve a Deus pelo privilégio de ter sido feito um filho de Deus, por meio da obra de Jesus Cristo aplicada em seu coração pelo Espírito de Deus e viva para a glória dele.


[1] Sermões de John Wesley no site da Igreja Metodista do Brasil: encurtador.com.br/qsyEV

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