28 agosto 2019

Jesus, o Rei dos reis

Vez por outra eu escuto a mesma história: “Deus não tinha planos de um rei para Israel. O reinado foi uma ideia do povo desobediente, que rejeitou o governo do Senhor”. Eu sei que o texto bíblico de 1Samuel pode dar margem à este entendimento, mas somente se ele for tomado fora do contexto imediato e também do contexto mais amplo da Escritura.

Repare bem. O povo neste momento era liderado por juízes constituídos pelo Senhor. O profeta Samuel já estava velho. Ele era visto pelo povo também como juiz e na sua velhice, ele próprio constituiu seus filhos por juízes. Entretanto, o caráter dos filhos de Samuel não era bom. Os anciãos de Israel, vendo a morte de Samuel se aproximar e preocupados com o caráter de seus filhos, vêm a ele e pedem um rei. O problema aqui não é com o rei, em si, mas com a motivação. Eles dizem: “constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações(1Sm 8.4).

Ao pedir um rei o povo expressa que queria ser como as outras nações. A questão é que Israel não era como outras nações, mas foi constituído para ser um reino de sacerdotes e uma nação santa (Ex 19.6). Esta nação tinha leis dadas pelo próprio Deus e os líderes do povo o conduziriam segundo estas leis. Daí o Senhor ter dito a Samuel que o povo, na verdade, estava rejeitando o próprio Deus e o mandou falar acerca de como seria custoso o povo ter um rei. A despeito disso, o povo repete o seu desejo egoísta de ser como as demais nações (1Sm 8.20). Repito, o problema não era o rei, mas a motivação do povo em pedi-lo. Entretanto, para perceber isso, é preciso voltar ao início, quando o povo sequer existia.

Em Gênesis você aprende sobre a formação do povo de Deus. Deus chama Abraão de uma terra idólatra prometendo fazer dele uma grande nação. De Abraão nasce Isaque, deste Jacó, cujos filhos constituirão as 12 tribos de Israel. No capítulo 49, você pode notar que a bênção de Jacó não recaiu sobre o primogênito Rúben, tampouco sobre os filhos seguintes, Simeão e Levi. A bênção recaiu sobre Judá, que ouviu de seu pai: O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão (Gn 49.10 – NVI).

O povo ainda não havia sido politicamente constituído e o Senhor já prometeu um rei, apontando a tribo de onde este rei viria. Após o povo passar quatrocentos anos como escravo no Egito, o Senhor os tirou de lá com mão forte a fim de cumprir a promessa de levá-los à terra prometida. Deus deu ao povo as suas leis e, dentre elas, temos a que diz respeito ao rei (Dt 17.14-20). Quando o povo quisesse um rei, deveria ser um dentre o povo, aquele a quem Deus escolhesse (17.15). Este rei deveria confiar no Senhor e não em seu exército, por isso não deveria multiplicar cavalos (17.16). Não deveria levar o povo de volta ao Egito, terra de sua escravidão (17.16), não deveria multiplicar mulheres para não ter o coração pervertido, nem deveria ser ganancioso (17.17). Deveria ser um rei piedoso, conforme os mandamentos do Senhor (17.19) e deveria servir aos seus irmãos (17.20).

O primeiro rei, dado por Deus para punir o egoísmo de Israel, foi Saul. Ele não andava de acordo com o que a Lei dizia a respeito do rei. Ele é rejeitado e Deus escolhe, da tribo de Judá, a Davi. Quando Davi teve a ideia de construir um templo para o Senhor, Deus disse a ele por meio de Natã que não seria ele, mas o seu descendente que faria isso. Entretanto, Deus prometeu firmar o seu trono, afirmando que o estabeleceria para sempre (2Sm 2.13-16).

Se você conhece a história dos reis, sabe que começando por Davi e passando por seus descendentes, nenhum deles cumpriu com inteireza tudo o que a Lei prescrevia ao rei. Como exemplo, pense no homem mais sábio que já existiu, Salomão, que teve o coração pervertido e chegou a se dobrar diante de ídolos, por causa de suas muitas mulheres (1Re 11.1-13). Por cona da idolatria, Deus tiraria o reino de Salomão, entretanto, por amor de Davi e do povo, por causa de sua promessa, Deus daria uma tribo ao filho de Salomão. Você se lembra qual tribo foi essa? Com o reino dividido temos de um lado Israel e do outro Judá.

Todos estes reis pecaram, pois apontavam para um rei além deles, aquele que havia sido prometido desde Gênesis. Quando Mateus escreve o seu evangelho, começa afirmando a linhagem real de Jesus, filho de Davi, filho de Abraão. Ele está identificando Jesus como aquele em quem as promessas dadas a Abraão (um nome grandioso, um povo e uma terra) e a Davi (um reinado eterno) se cumpriam. É para este grande Rei que todos os outros apontavam.

Jesus, em seu ofício de Rei, foi humilhado. A despeito de ter sido saudado pelo povo na entrada triunfal, entrou na cidade não com a pompa dos reis, mas montado em um jumentinho e João afirma que isso era para se cumprir a Escritura: “Não temas, filha de Sião, eis que o teu Rei aí vem, montado em um filho de jumenta” (Jo 12.14-15). Além disso, ao ser morto de forma humilhante, foi posta na cruz a irônica acusação: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus” (Mt 27.37).

Mas não se engane, o Rei foi exaltado pelo Pai e está assentado em seu trono, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos, como ensina o Credo dos Apóstolos. Sua descrição no Apocalipse é gloriosa. Em vez de montado em um jumentinho, João diz: “Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; e seguiam-no os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com vestiduras de linho finíssimo, branco e puro. Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: rei dos reis e Senhor dos Senhores” (Ap 19.11-16).

Eis que aqui é visto o cumprimento pleno do que foi dito a Judá, a respeito do Rei a quem as nações obedecerão. O Breve Catecismo ensina que o Senhor Jesus “Cristo exerce as funções de rei, sujeitando-nos a si mesmos, governando-nos e protegendo-nos, contendo e subjugando todos os seus e os nossos inimigos” (Resposta à “Pergunta 26: Como Cristo exerce as funções de rei?”).

É este o grande Rei que governa a sua vida. Olhe para a sua Palavra que, como afirmou Calvino, é o cetro com que ele governa o seu reino. Descanse no seu governo e o honre. Como embaixador de seu reino, proclame as suas virtudes e, confiante, anseie pelo dia glorioso da volta do Rei dos reis.

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