05 julho 2019

O único Deus verdadeiro

Este é o assunto da quinta pergunta do Breve Catecismo. A pergunta “Há mais de um Deus?”, traz uma resposta simples e direta: “Há um só Deus, o Deus vivo e verdadeiro”.

A consciência de que existe um Deus está em todos os homens. Calvino, acertadamente, afirmou que “sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natural, certo senso da Divindade. Para que não nos refugiemos na alegação de ignorância, o Senhor nos dotou de certa percepção de Sua majestade”[1]. O ensino do reformador ecoa as palavras de Paulo que afirmou aos romanos que

“o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles [os homens], porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.19-20).

Entretanto, esta consciência de Deus, por meio da criação, não é suficiente para a salvação. Daí o primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster afirmar que

“ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis; contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso, foi o Senhor servido [...] revelar-se [...]; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade [...] foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada” (I.I).

É por meio da Escritura, e somente por ela, que o homem pode ter conhecimento de Deus. Por vezes cristãos tentam provar de outras formas a existência de Deus, esquecendo-se que o simples assentimento de que existe um Deus não é suficiente para a salvação e de que isso a própria criação já faz. Deus tem que ser conhecido como revelado na Escritura.

Gosto muito da forma como o livro de Gênesis se inicia. “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Moisés não gasta tempo tentando provar que Deus existe, ele pressupõe isso e no decorrer do livro vai ensinar ao povo recém libertado do cativeiro quem é esse Deus Salvador. Em Deuteronômio, Moisés declara os mandamentos que o Senhor mandou ensinar a Israel e afirma: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6. 4). Este verso se constituiu numa importante declaração de fé para os judeus.

Se existe somente um Deus vivo e verdadeiro, todos os homens estão obrigados a dar a ele glória e louvor. Como já foi dito, ele é revelado na criação, mas Paulo afirma que os homens em seu pecado “inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.22,23). É por isso que precisamos proclamar Deus aos homens, como ele se revelou na Bíblia.

Na pergunta 6 do Breve Catecismo temos um pouco mais a respeito daquilo que entendemos que o Senhor revelou acerca de si mesmo em sua Palavra: “Quantas pessoas há na divindade? Resposta: Há três pessoas na Divindade: O Pai, o Filho e o Espírito Santo, e essas três são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e glória”.

O único e verdadeiro Deus é o Deus Trino! Esta é a verdade declarada na Escritura e que precisa ser crida pela Igreja. Não cremos em um deus qualquer, mas no Deus que se revela por meio do seu Filho, Jesus Cristo, que conforme afirmou Paulo “é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15), aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas (Cl 1.16, Jo 1.3). Cremos no Pai que, juntamente com o Filho, nos envia o seu Espírito, eternamente procedente de ambos. É o Deus Trino que trabalha na criação, redenção e glorificação daqueles que creem em Jesus Cristo.

Neste trabalho, cada Pessoa Divina realiza uma função, o que a teologia denomina de economia (ou administração) da Trindade. Não obstante, é o único e verdadeiro Deus que trabalha em todo o tempo. Tomo como exemplo a obra de salvação em que a Escritura declara que fomos eleitos por Deus, o Pai (Ef 1.3,4), redimidos na cruz por Deus, o Filho (Ef 1.7) e selados por Deus, o Espírito Santo, que habita em nós (Ef 1.13).

A realidade de um Deus Trino tem implicações diretas para o nosso viver diário, como iremos notar. Somos chamados a amar. Biblicamente, o amor é sempre direcionado para fora, daí sermos ordenados a amar a Deus e ao próximo, ao mesmo tempo em que somos ordenados a não ser egoístas, ou seja, a não amarmos a nós mesmos. A Bíblia afirma que Deus é amor! Mas ele não se tornou amor ao criar o homem a fim de ter alguém a quem amar. Deus é amor desde a eternidade, o que pode ser percebido quando João afirma que “o Pai ama o Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos” (Jo 3.35). Nosso amor é reflexo da imagem de Deus em nós. Este amor se tornou egoísta com a queda, mas é reorientado quando somos redimidos por Cristo e inseridos em seu corpo, a Igreja.

A esta Igreja é ordenado que viva em unidade. Paulo escreve aos efésios e diz: “rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados [...] esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.1,3). Mais uma vez é possível perceber a ação da Trindade para que a Igreja cumpra o que lhe foi ordenado. A unidade da Igreja é obra do Espírito Santo. Nós não promovemos a unidade, mas preservamos a unidade. Para isso, nosso Mediador orou intercedendo por nós: “guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um” (Jo 17.11).

Que pedido maravilhoso! Por ter sido feito por Jesus ao Pai, temos a garantia de que o Pai o ouve. Mas há algo ainda mais maravilhoso a ser notado, a saber, que a base para a unidade da Igreja é a unidade da Trindade Santa. Jesus disse: “para que eles sejam um, assim como nós. [...] a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti também sejam eles em nós;” (Jo 17.11,21).

Esta unidade, reflexo do Deus Trino, é para que o único Deus receba a glória devida ao seu nome. Jesus afirmou que isso é “para que o mundo creia que tu me enviaste. [...] eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.21b,23).

O único e verdadeiro Deus é o Deus Trino, que nos ama, nos dirige e nos abençoa, a fim de proclamarmos o seu Santo Nome.


[1] João Calvino. Institutas da Religião Cristã, Livro I

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