09 julho 2019

O Soberano (e Santo) Deus

Por meio do profeta Isaías o Senhor declara a Israel a sua Soberania. Diferente dos ídolos, que precisam ser levados sobre os ombros dos seus adoradores e que ao ser colocados em algum lugar não se movem e nem podem responder à petições, o Senhor diz ao seu povo: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade(Is 46.9-10).

O texto é claríssimo! O Senhor anuncia tudo o que vai acontecer, pois ele mesmo decretou, daí dizer que o seu conselho (desígnio, propósito) irá permanecer e que ele cumprirá a sua vontade. O Breve Catecismo de Westminster declara esta doutrina da seguinte maneira: “Pergunta 7. O que são os decretos de Deus? Resposta: Os decretos de Deus são o seu eterno propósito, segundo o conselho da sua vontade, pelo qual, para a sua própria glória, ele preordenou tudo o que acontece”.

Esta declaração bíblico-confessional deixa muitas pessoas, incluindo cristãos professos, desconfortáveis e inquietas. Uma das perguntas que automaticamente vem à mente é: Quer dizer que as tragédias que acontecem ou os problemas que eu enfrento são vontade de Deus? Uma resposta breve seria um sonoro sim, pois como afirma Davi, “no teu livro [de Deus] foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16).

Entretanto, diante desta resposta, alguns irão recorrer à falácia de dizer que Deus, então, não é bom, pois deixa tragédias acontecerem com pessoas boas. E se ele é bom e não quer que elas aconteçam, ele não é Todo-Poderoso, pois não tem condição de impedi-las. Esta última conclusão, inclusive, foi a que chegou um famoso pastor brasileiro por ocasião do tsunami ocorrido na Ásia em 2006. Na ânsia de “preservar” a bondade de Deus ele afirmou: “Não aceito que Deus, para alcançar seu propósito, produza um sofrimento brutal em tanta gente miserável, que não pediu para nascer na beira de uma praia paupérrima. [...] Acredito que diante duma tragédia dessa magnitude precisamos repensar alguns conceitos teológicos. [...] Só uma réstia da revelação brilha em minha alma: o Deus da Bíblia soberanamente criou o universo, mas ao formar homens e mulheres, abriu mão de sua Soberania para estabelecer relacionamentos verdadeiros. [...] Não, ele não pôde evitar a catástrofe asiática”[1].

Ao tentar preservar Deus do veredito de ser mal, Gondim criou um deus segundo os seus anseios, segundo a sua imaginação, um Deus fraco conforme a imagem e semelhança do homem pecador que o criou.

É claro que Deus é bom! As Escrituras afirmam isto de forma abundante (Ed 3.11; Sl 34.8; Sl 86.5; Sl 100.5) e declaram ao mesmo tempo a sua total soberania. Nabucodonosor chegou a declarar que “não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35).

Aqueles que negam a soberania de Deus baseando-se nas tragédias ou nas mazelas da vida esquecem-se de questões básicas, como: 1) Houve uma queda; 2) O homem tornou-se totalmente corrompido e destituído da glória de Deus, merecendo apenas a sua ira; 3) A criação foi afetada pela queda, logo, vivemos num mundo quebrado e inóspito. Logo, o Senhor não é obrigado a ser benevolente com o homem.

Mas talvez alguém diga: Não foi a queda também decretada por Deus? Logo, a culpa é dele. É por isso que precisamos avançar um pouco mais no entendimento da questão. A sucinta resposta do Breve Catecismo precisa ser entendida à luz da Confissão de Fé de Westminster, que ao tratar desse assunto diz que “desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou a contingência das causas secundárias, antes estabelecidas” (CFW III.I).

Ou seja, Deus é soberano e o homem é responsável. Aqui a próxima pergunta do Breve Catecismo nos ajuda um pouco mais: “Pergunta 8. Como Deus executa os seus decretos? Resposta: Deus executa os seus decretos nas obras da criação e da providência”. Isso quer dizer que Deus soberanamente criou, mas não só isso, ele também dirige todas as coisas em sua providência. É assim que o Senhor usa até mesmo os atos maus dos homens para cumprir os propósitos que ele mesmo estabeleceu.

Pense em alguns exemplos bíblicos. Deus usou o pecado dos irmãos de José a fim de fazê-lo governador do Egito e, assim, salvar o povo da fome, preservando a linhagem do Messias (Gn 37 a 50). Você acha que o Senhor precisou colocar maldade no coração dos irmãos de José?

Deus usou o pecado de Davi a fim de que, por meio de Bate-Seba, a linhagem de onde viria o Messias continuasse. Mateus chega a escancarar o pecado de Davi quando registra a genealogia de Jesus e relata que “o rei Davi [gerou] a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6). Está claro que em sua providência Deus usou o ato mau do rei para cumprir sua vontade, mas Davi, livremente, pecou por cobiçar a Bate-Seba (2Sm 11.2-4).

Mais ainda, estava declarado que o Messias seria traído (Sl 41.9 conf. Jo 13.18). Contudo, não foi preciso que Deus movesse o coração de Judas para o mal. Ele traiu a Jesus porque desejava receber por isso. Judas amava o dinheiro e, como tesoureiro dos apóstolos, até roubava das ofertas (Mt 26.15; Jo 12.6). Em Atos Lucas registra que Pedro, ao pregar para os judeus, apontou tanto para a soberania de Deus quanto para a responsabilidade do homem ao tratar da morte de Jesus e acusar: “sendo este entregue pelo determinado desígnio de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.23).

Tudo está decretado por Deus e em sua providência ele leva a cabo seu plano usando, inclusive, os atos pecaminosos dos homens. Foi assim que ele cumpriu o seu plano de dar o seu Filho em favor de pecadores. Não tivesse o Senhor usado o falso testemunho dos homens, Jesus não teria sido jamais condenado, pois era Justo!

Este é o Soberano Deus que governa a sua vida. Entendendo que ele está no controle de todas as coisas, que seu plano é santo e sábio e que ele fará tudo para a sua própria glória, você pode descansar em seu governo e afirmar como Jó, “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2.10) e, assim, experimentar a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2), enquanto aguarda a consumação desse plano perfeito, na vinda do nosso Redentor!


[1] Ricardo Gondim. Quem Deus ouviu primeiro?, acessado em 05/07/19: encurtador.com.br/kmzTW

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