19 julho 2019

O Deus Pactual

O Deus da Bíblia é o Soberano Deus que faz todas as coisas segundo o Conselho de sua vontade. Entretanto, ainda que tudo o que aconteça esteja debaixo de sua vontade, ele não é o autor do pecado, mas o Santo Deus. Em sua soberania e segundo a sua própria vontade ele decidiu relacionar-se com o homem por meio de um pacto.

“Quando Deus criou o homem, fez com ele um pacto de vida, com a condição de perfeita obediência, proibindo-lhe comer da árvores da ciência do bem e do mal, sob pena de morte” (Resposta à pergunta 12 do BCW: Que ato especial de providência Deus exerceu para com o homem, no estado em que ele foi criado?”). Para entender a razão do pacto ser descrito como um ato de especial providência é preciso lembrar da grandeza de Deus e da pequenez do homem. Isaías demonstra essa distância grandiosa entre o Criador e a criatura ao dizer que “todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo” – e perguntar em seguida – “Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.17,18).

Por esta razão, a Confissão de Fé explica que “tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele, como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de um pacto” (VII.I). Ou seja, as criaturas devem obediência a Deus e não tem o direito de receber nada em troca. Entretanto, ao estabelecer o pacto, Deus prometeu a vida, mediante à livre obediência do homem.

Se era necessária a obediência de Adão, pressupõe-se que havia um padrão a ser obedecido. Mas que padrão era esse? A resposta à pergunta 12 nos remete à ordem dada a Adão no livro de Gênesis: “De toda árvore do jardim comerás, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17).

Mas a lei não era somente esta. Pensando em nossos símbolos de fé, temos no Catecismo Maior a afirmação de que neste primeiro pacto, que chamamos de Pacto das Obras, o Senhor entrou com o homem em um pacto de vida “sob a condição de obediência pessoal, perfeita e perpétua, da qual a árvore da vida era um penhor” (CMW – Pergunta 20). Quando o Catecismo Maior trata da Lei Moral, que está resumida nos dez mandamentos, afirma que ela é “a declaração da vontade de Deus, feita ao gênero humano, que dirige e obriga todas as pessoas à conformidade e obediência pessoal, perfeita e perpétua a ela” (Pergunta 93). Ou seja, a vida é garantida para aqueles que cumprem os termos do Pacto, a saber, a Lei Moral, e isso de forma perfeita. Isso explica o porque de Jesus, ao ser interpelado pelo jovem rico que gostaria de saber o que fazer para herdar a vida eterna tenha apontado para a Lei recitando os mandamentos (Mc 10.17-22).

Ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal Adão vai contra a Lei Moral de Deus. Ele coloca a sua vontade à frente da vontade de Deus fazendo dele mesmo o seu deus (1º mandamento), desrespeita a autoridade superior de Deus (5º mandamento), leva à morte não somente ele, mas toda a sua posteridade (6º mandamento), se apropria do que não lhe pertencia (8º mandamento), dá ouvidos à mentira do diabo (9º mandamento), além de cobiçar (10º mandamento), que, conforme Tiago é o que dá à luz ao pecado.

O que percebemos no terceiro capítulo da Bíblia é que “nossos primeiros pais, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, caíram em estado em que foram criados, pecando contra Deus” (Resposta à pergunta 13 do BCW: Os nossos primeiros pais se conservaram no estão em que foram criados?). A definição do Breve Catecismo é que “pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgressão dessa lei” (Resposta à Pergunta 14 do BCW: O que é pecado?). Deus havia prometido a Adão vida, caso ele permanecesse em obediência pessoal, perfeita e perpétua, o que não aconteceu. “O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados foi terem comido do fruto proibido” (Resposta à pergunta 15 do BCW: Qual foi o pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados?”).

Quando falamos da ira de Deus sobre o homem pecador, muitos questionam dizendo que isso é injusto, visto que quem pecou foi Adão. O problema é que Adão ali não agia somente em nome dele, mas em nome de toda a sua posteridade. Deus estabeleceu o pacto com a humanidade por meio de seu representante, Adão. Nas palavras do Breve Catecismo, “visto que o pacto foi feito com Adão, não só para ele, mas também para a sua posteridade, todo o gênero humano, que dele procede por geração ordinária, pecou nele e caiu com ele na sua primeira transgressão” (Resposta à “Pergunta 16: Todo o gênero humano caiu pela primeira transgressão de Adão?”).

Esta é a realidade que o homem experimenta após a queda. Ele é nascido em pecado (Sl 51.5) e está destituído da glória de Deus (Rm 3.23). A única coisa que ele merece é a ira de Deus, pois o salário do pecado é a morte. Isso foi realidade tanto para Adão quanto para a sua descendência.

Voltemos, então, ao jovem rico. Por qual razão Jesus respondeu que ele herdaria a vida eterna, caso guardasse os mandamentos, se o homem está morto em delitos e pecados, sem condição de cumprir a Lei. Aquele moço entendia que era bom e que merecia a salvação. Por esta razão, após ouvir dele que desde a juventude ele guardava os mandamentos, Jesus o põe à prova: “Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me” (Mc 10.21). O resultado foi que, confrontado com a Lei, ele se viu um transgressor, um quebrador do décimo mandamento, o único mandamento da segunda tábua da Lei que Jesus não havia citado até então. Ele retirou-se triste.

Esta é a situação de muitas pessoas hoje. Se você perguntar se elas merecem ir para o céu a resposta, possivelmente será que sim, já que não matam, não roubam, etc. O homem precisa se ver pelo espelho da perfeita Lei de Deus a fim de entender a sua real situação, um pecador condenado por causa do seu represente. Essa é uma das funções da Lei, mostrar ao homem a sua incapacidade.

Como Deus se relaciona por meio de representantes, o homem precisa de um representante melhor do que Adão, alguém que consiga cumprir os mandamentos de forma pessoal, perfeita e perpétua. Alguém como o Senhor Jesus Cristo, o Redentor do seu povo.

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