31 julho 2019

A maravilhosa graça de Deus

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia...” (Ef 2.4). É assim que o apóstolo Paulo, após descrever o estado de pecado e miséria do homem, enfatiza a graça de Deus em favor dos pecadores.

Estes pecadores são descritos como mortos em delitos e pecados, totalmente rendidos ao curso do mundo, andando segundo o príncipe da potestade do ar, vendidos à sua própria carne e, por tudo isso, naturalmente filhos da ira. Esta situação do pecador, descrita por Paulo, somente enfatiza o quão gracioso é o Senhor. Daí o apóstolo usar uma adversativa (mas) para mostrar que a despeito do homem e daquilo que ele merece, ou seja, o inferno, o Senhor é rico em misericórdia.

O Breve Catecismo pergunta se “Deus deixou todo o gênero humano perecer no estado de pecado e de miséria” e responde afirmando que “tendo Deus, unicamente pela sua boa vontade, desde toda a eternidade, escolhido alguns para a vida eterna, entrou com eles em um pacto de graça, para os livrar do estado de pecado e miséria, e os levar a um estado de salvação, por meio de um Redentor” (Pergunta 20 do CBW).

Você pode perceber nesta resposta que em seu decreto eterno o Senhor escolheu, por livre vontade, aqueles que seriam salvos. É claro que estes foram primeiramente representados por Adão no Pacto das Obras e, como consequência da sua queda, estão dentre aqueles que merecem a ira do Todo-Poderoso. Paulo afirmou isso quando disse aos crentes efésios que “Ele [Jesus] vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora” – e – “entre os quais também todos nós andamos outrora” (Cf Ef 2.1-3). Esta era, se você já crê em Cristo, também a sua situação, morto em delitos e pecados.

Entretanto, aprouve a Deus estabelecer com aqueles que ele escolheu antes da fundação do mundo (Ef 1.4) um pacto de graça, por meio de outro representante. Você deve lembrar que logo após a queda de Adão o Senhor, depois de confrontar o pecado de nossos primeiros pais, amaldiçoa a serpente e anuncia o seu pacto gracioso. O homem deveria morrer, mas o Senhor lhe promete vida, anunciando um Redentor, ao declarar: “porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este lhe ferirá a cabeça , e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Este Redentor é o novo representante no Pacto da Graça. O Catecismo Maior nos ajuda a entender um pouco mais: “Com quem foi feito o pacto da graça? Resposta: O pacto da graça foi feito com Cristo, como o segundo Adão; e, nele, com todos os eleitos, como sua semente” (Pergunta 31 do CMW).

Entendemos, então, que o Pacto da Graça não é uma novidade do Novo Testamento, mas que foi estabelecido tão logo o homem pecou e, a partir de então, merecia nada menos que a morte. O Pacto da graça é bem melhor que o Pacto das obras, pois este foi feito entre Deus e Adão, enquanto aquele foi feito entre o Pai e seu Filho Jesus Cristo. Adão poderia e efetivamente descumpriu os termos do Pacto, mas Cristo nunca fará isso. Como afirma Joel Beeke,

o laço da aliança entre Deus e Adão demonstrou que era frágil, pois havia sido estabelecido de modo exterior ao ser de Deus. Mas quando o Espírito Santo une um pecador a Cristo, o laço é interno ao ser de Deus. Ele é estabelecido dentro da segunda pessoa da Trindade, no Senhor Jesus Cristo. Quando um pecador é unido a Cristo, ele é unido ao Deus Trino com um laço pactual que não poder ser rompido por toda a eternidade. Assim como é impossível separar as naturezas divina e humana de Cristo, é igualmente impossível dissolver o laço pactual entre Deus e seu povo, estabelecido em Cristo.[1]

Você consegue perceber como é imensa a graça de Deus? Foi por entender isso que o apóstolo Paulo pôde afirmar aos romanos que ele não precisavam temer. Suas perguntas retóricas pressupõem esta maravilhosa graça:

“Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? [...] Quem os condenará? [...] Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8.31-35). A resposta não poderia ser outra. Por causa da obra graciosa de Cristo em favor do seu povo, nada pode separar este povo “do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39).

Sim, você merecia somente a morte, mas foi alcançado pela maravilhosa graça e por causa disso pode viver seguro, sabendo “que todas as coisa cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Este propósito, definido por Deus na eternidade, é de forjar em você o caráter de Cristo e, como além de gracioso é poderoso, ele cumprirá tudo aquilo que ele tem determinado para a sua vida.

Creia nisso e deixe de lado as angústias, a insegurança, o medo, a ansiedade, e tudo o mais que o aflige. A graça de Deus foi tamanha que estabeleceu entre você e o Santo Deus um laço de vida inviolável, por meio do Senhor Jesus Cristo. Por vezes os cristãos são rápidos para crer que Deus é poderoso para salvá-los, mas se angustiam pelas coisas menores. O Senhor Jesus fez os seus discípulos ponderarem a respeito disso quando ordenou que eles não andassem ansiosos pelo que comer ou pelo que vestir e perguntou: “Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que as vestes?” (Mt 6.25). A resposta é óbvia! A lição, então, é que o Deus que deu o que é mais valioso, a vida e o corpo, daria também o que era menos valioso, o alimento e as vestes.

O que tem tirado o seu sossego? O que tem angustiado a sua vida? Lembre-se da maravilhosa graça de Deus, razão pela qual você foi alcançado por Cristo Jesus. Você estava morto em delitos e pecados, “mas Deus, sendo rico em misericórdia” livrou a sua vida do inferno ao castigar em seu Filho amado os seus pecados. Lembre-se do belo hino que declara: “Foi na cruz, foi na cruz que um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus! Foi ali pela fé que meus olhos abri e agora me alegro em sua luz” (Conversão – HNC).

Entender a graça de Deus dá a você razão para se alegrar. Alegre-se, portanto, e confie no seu gracioso Redentor.


[1] Joel Beeke. A união com Cristo – Bíblia de Estudo Herança Reformada

25 julho 2019

A realidade da nossa miséria

Você já se pegou decepcionado com alguma atitude que tomou? Se isso nunca aconteceu você precisa dar uma olhada em sua aparência quando refletida pela santa Lei de Deus. Foi isso o que aconteceu com o jovem rico. Se no início de sua conversa com o Senhor Jesus ele estava convicto de que era bom e que merecia a vida eterna, ao ser passado pelo crivo da Lei se viu transgressor e se entristeceu (Mc 10.17-22).

Isso acontece porque “a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom” (Rm 7.12). Ela é tudo isso porque é o reflexo do caráter de Deus, diante de quem nos vemos inequivocamente como pecadores. A experiência de Isaías aponta para isso. Você tem no capítulo cinco do seu livro o profeta proferindo vários ais, dirigidos aos que pecam contra Deus. Entretanto, no início do capítulo seis você tem o profeta contando que ele mesmo viu o Senhor assentado em seu trono. Além disso, ele viu serafins, seres sem pecado, que não ousavam olhar para Deus e cobriam os pés em sinal de respeito diante do Senhor. O resultado de contemplar o Senhor foi a afirmação: “ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos! (Is 6.1-5).

É isso que o Breve Catecismo ensina quando pergunta “qual foi o estado a que a queda reduziu o gênero humano?” e responde que “a queda reduziu o gênero humano a um estado de pecado e miséria” (Pergunta 17 do BCW). Se antes da queda o homem espelhava perfeitamente o seu Criador, após a queda a imagem de Deus nele se tornou deformada.

Este estado de pecado em que estamos é declarado por Paulo que afirma aos crentes de Roma que “por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação” e “pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores” (Rm 5.18a,19a). Por causa desse primeiro pecado todos os nossos atos, pensamentos e sentimentos estão maculados. Pecamos em Adão e pecamos a cada dia contra o Senhor.

Esta situação é tão terrível que Paulo explica que tanto os judeus que tinham a revelação da Lei do Senhor, quanto os gentios, que tem a Lei gravada apenas no coração, estão na mesma situação, condenados diante de Deus. O homem pecador, mesmo o que não conhece a Lei de Deus, estabelecerá padrões morais de conduta e não conseguirá viver por eles. Ninguém consegue viver o tempo todo em coerência com seus padrões morais. O pecado é terrível. Não é à toa que a Escritura descreve a situação do homem pós-queda como morto em delitos e pecados (Ef 2.1; Cl 2.13).

O ensino do Catecismo é preciso: “O estado de pecado em que o homem caiu consiste na culpa do primeiro pecado de Adão, na sua falta de retidão original e na corrupção de toda a sua natureza, o que ordinariamente se chama de pecado original, juntamente com todas as transgressões atuais que procedem dele” (Resposta à “Pergunta 18 do BCW: Em que consiste o estado de pecado em que o homem caiu?).

Diante desta realidade é comum que para se sentirem bem consigo mesmos os homens acabem achando alguém pior que eles a fim de estabelecer a sua justiça própria e dizem, bem, não sou perfeito, mas pelo menos não sou como fulano. Nossas comparações sempre serão no nível horizontal, escolhendo aqueles que são piores que nós como referência. E ainda pior, ao comparar, costumamos confrontar nossas qualidades com os defeitos alheios, como por exemplo, “eu sou bom em matemática e você canta desafinado”. Entretanto, Deus não nos mede assim. O padrão para nos avaliar é o seu Filho Perfeito, o Senhor Jesus Cristo, que cumpriu perfeitamente a Lei e diante de quem todos estão condenados. Diante de Deus não importa o “pelo menos”, a obediência precisa ser pessoal, perfeita e perpétua.

Todos os homens, então, a partir do momento em que são gerados, merecem somente a justa e santa ira de Deus. Eles estão separados dele por causa dos seus pecados (Is 59.2) e como transgressores do Pacto a sua condenação é justa. Nada há que eles possam fazer a fim de remediar esta triste situação. Todas as suas ações são pecaminosas em si, pois não são feitas para a glória de Deus, daí Isaías ser categórico ao afirmar que diante dele “todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapos da imundícia” (Is 64.6). Ao responder a questão sobre “qual é a miséria do estado em que o homem caiu?” – o Breve Catecismo deixa isso claro: “Todo gênero humano, pela sua queda, perdeu a comunhão com Deus, está debaixo de sua ira e maldição, e, assim, sujeito a todas as misérias nesta vida, à própria morte e às penas do inferno para sempre” (Pergunta 19 do BCW).

Todos os males que possam sobrevir a uma pessoa nesta vida, por mais terríveis que possam ser, não são injustiça, mas apenas “adiantamentos” do terrível salário devido a todos aqueles que estão nesta situação: a morte eterna! Todavia, por causa de Cristo os crentes podem “ter por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18), entretanto, sem Cristo, aqueles que receberem o salário da morte como consequência de seu pecado, perceberão que as mazelas que sofreram na vida não foram nada comparados ao terrível peso da ira do Santo Deus e, se pudessem escolher, iriam preferir dez mil anos de sofrimento terreno a um breve instante diante da ira do Poderoso Deus.

O estado de pecado e miséria do homem após a queda, se bem compreendido, leva o homem a dar glória a Deus por Jesus Cristo, pois “aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.20 – NAA). Entendendo o seu estado você pode alcançar o perdão de Deus e não precisará mais se medir pelos outros a fim de sentir-se um pouco melhor acerca de si mesmo, mas unido a Cristo, será visto pelo Senhor pela mediação dele. Como resultado, o Catecismo de Heildelberg afirma que “Deus me trata como se eu nunca tivesse cometido pecado algum ou jamais tivesse sido pecador; e, como se pessoalmente eu tivesse cumprido toda a obediência que Cristo cumpriu por mim” (Pergunta 60: Como você é justo perante Deus?).

O estado de pecado e miséria é real, mas louve a Deus porque consciente dele você pode se esconder em Jesus Cristo!

19 julho 2019

O Deus Pactual

O Deus da Bíblia é o Soberano Deus que faz todas as coisas segundo o Conselho de sua vontade. Entretanto, ainda que tudo o que aconteça esteja debaixo de sua vontade, ele não é o autor do pecado, mas o Santo Deus. Em sua soberania e segundo a sua própria vontade ele decidiu relacionar-se com o homem por meio de um pacto.

“Quando Deus criou o homem, fez com ele um pacto de vida, com a condição de perfeita obediência, proibindo-lhe comer da árvores da ciência do bem e do mal, sob pena de morte” (Resposta à pergunta 12 do BCW: Que ato especial de providência Deus exerceu para com o homem, no estado em que ele foi criado?”). Para entender a razão do pacto ser descrito como um ato de especial providência é preciso lembrar da grandeza de Deus e da pequenez do homem. Isaías demonstra essa distância grandiosa entre o Criador e a criatura ao dizer que “todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo” – e perguntar em seguida – “Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.17,18).

Por esta razão, a Confissão de Fé explica que “tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele, como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de um pacto” (VII.I). Ou seja, as criaturas devem obediência a Deus e não tem o direito de receber nada em troca. Entretanto, ao estabelecer o pacto, Deus prometeu a vida, mediante à livre obediência do homem.

Se era necessária a obediência de Adão, pressupõe-se que havia um padrão a ser obedecido. Mas que padrão era esse? A resposta à pergunta 12 nos remete à ordem dada a Adão no livro de Gênesis: “De toda árvore do jardim comerás, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17).

Mas a lei não era somente esta. Pensando em nossos símbolos de fé, temos no Catecismo Maior a afirmação de que neste primeiro pacto, que chamamos de Pacto das Obras, o Senhor entrou com o homem em um pacto de vida “sob a condição de obediência pessoal, perfeita e perpétua, da qual a árvore da vida era um penhor” (CMW – Pergunta 20). Quando o Catecismo Maior trata da Lei Moral, que está resumida nos dez mandamentos, afirma que ela é “a declaração da vontade de Deus, feita ao gênero humano, que dirige e obriga todas as pessoas à conformidade e obediência pessoal, perfeita e perpétua a ela” (Pergunta 93). Ou seja, a vida é garantida para aqueles que cumprem os termos do Pacto, a saber, a Lei Moral, e isso de forma perfeita. Isso explica o porque de Jesus, ao ser interpelado pelo jovem rico que gostaria de saber o que fazer para herdar a vida eterna tenha apontado para a Lei recitando os mandamentos (Mc 10.17-22).

Ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal Adão vai contra a Lei Moral de Deus. Ele coloca a sua vontade à frente da vontade de Deus fazendo dele mesmo o seu deus (1º mandamento), desrespeita a autoridade superior de Deus (5º mandamento), leva à morte não somente ele, mas toda a sua posteridade (6º mandamento), se apropria do que não lhe pertencia (8º mandamento), dá ouvidos à mentira do diabo (9º mandamento), além de cobiçar (10º mandamento), que, conforme Tiago é o que dá à luz ao pecado.

O que percebemos no terceiro capítulo da Bíblia é que “nossos primeiros pais, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, caíram em estado em que foram criados, pecando contra Deus” (Resposta à pergunta 13 do BCW: Os nossos primeiros pais se conservaram no estão em que foram criados?). A definição do Breve Catecismo é que “pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgressão dessa lei” (Resposta à Pergunta 14 do BCW: O que é pecado?). Deus havia prometido a Adão vida, caso ele permanecesse em obediência pessoal, perfeita e perpétua, o que não aconteceu. “O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados foi terem comido do fruto proibido” (Resposta à pergunta 15 do BCW: Qual foi o pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados?”).

Quando falamos da ira de Deus sobre o homem pecador, muitos questionam dizendo que isso é injusto, visto que quem pecou foi Adão. O problema é que Adão ali não agia somente em nome dele, mas em nome de toda a sua posteridade. Deus estabeleceu o pacto com a humanidade por meio de seu representante, Adão. Nas palavras do Breve Catecismo, “visto que o pacto foi feito com Adão, não só para ele, mas também para a sua posteridade, todo o gênero humano, que dele procede por geração ordinária, pecou nele e caiu com ele na sua primeira transgressão” (Resposta à “Pergunta 16: Todo o gênero humano caiu pela primeira transgressão de Adão?”).

Esta é a realidade que o homem experimenta após a queda. Ele é nascido em pecado (Sl 51.5) e está destituído da glória de Deus (Rm 3.23). A única coisa que ele merece é a ira de Deus, pois o salário do pecado é a morte. Isso foi realidade tanto para Adão quanto para a sua descendência.

Voltemos, então, ao jovem rico. Por qual razão Jesus respondeu que ele herdaria a vida eterna, caso guardasse os mandamentos, se o homem está morto em delitos e pecados, sem condição de cumprir a Lei. Aquele moço entendia que era bom e que merecia a salvação. Por esta razão, após ouvir dele que desde a juventude ele guardava os mandamentos, Jesus o põe à prova: “Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me” (Mc 10.21). O resultado foi que, confrontado com a Lei, ele se viu um transgressor, um quebrador do décimo mandamento, o único mandamento da segunda tábua da Lei que Jesus não havia citado até então. Ele retirou-se triste.

Esta é a situação de muitas pessoas hoje. Se você perguntar se elas merecem ir para o céu a resposta, possivelmente será que sim, já que não matam, não roubam, etc. O homem precisa se ver pelo espelho da perfeita Lei de Deus a fim de entender a sua real situação, um pecador condenado por causa do seu represente. Essa é uma das funções da Lei, mostrar ao homem a sua incapacidade.

Como Deus se relaciona por meio de representantes, o homem precisa de um representante melhor do que Adão, alguém que consiga cumprir os mandamentos de forma pessoal, perfeita e perpétua. Alguém como o Senhor Jesus Cristo, o Redentor do seu povo.

13 julho 2019

O Deus da providência

O poderoso Deus, como vimos, decretou todas as coisas que acontecem e certamente levará a cabo todo o seu plano. A pergunta 8 do Catecismo se ocupa em declarar que o Senhor executa os seus decretos por meio das obras da criação e da providência. Vamos entender um pouco mais isso, olhando as próximas perguntas.

“A obra da criação é aquela pela qual Deus fez todas as coisas do nada, pela palavra do seu poder, no espaço de seis dias, e tudo muito bem” (Resposta à pergunta 9. Qual é a obra da criação?). Você pode perceber aqui que o Deus que decretou todas as coisas na eternidade, começou a executar o seu plano criando, do nada, todas as coisas. Somos chamados a crer naquilo que o Senhor fez. O escritor aos Hebreus diz que “pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hb 11.3). Na criação o Senhor estabeleceu o cenário onde cumpriria todo o seu santo propósito.

Deus falou e tudo veio a existir! Seu poder é imenso. Para ilustrar este poder o salmista descreveu o que os navegantes veem ao descer aos mares, eles “veem as obras do Senhor e as suas maravilhas nas profundezas do abismo. Pois ele falou e fez levantar o vento tempestuoso, que elevou as ondas do mar” (Sl 107.24,25). A descrição que se segue é terrível. Homens cambaleando como ébrios por causa do agito do barco em meio ao poderoso mar, até que oraram ao Senhor e ele “fez cessar a tormenta, e as ondas se acalmaram” (Sl 107.29). A criação é grandiosa, mas muito menor que o seu Criador e está sujeita à ele.

Quando Jesus acalmou a tempestade que assolava o barco dos seus discípulos, despertou neles admiração e temor que podem ser vistos na pergunta: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41). Certamente os discípulos tinham em mente o ensino do Salmo 107, acerca daquele que tem poder para acalmar o mar. João demonstra em seu evangelho que tudo foi feito por Jesus Cristo ao declarar que “no princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito” (Jo 1.1,3 – NVI).

Este Deus bendito e poderoso também criou o homem à sua imagem e semelhança, como parte dos seus decretos. O Catecismo declara que “Deus criou o homem, macho e fêmea, conforme a sua própria imagem, em conhecimento, retidão e santidade, com domínio sobre as criaturas” (Resposta à pergunta 10. Como Deus criou o homem?).

Até aqui percebemos que Deus criou todas as coisas e deu a cada uma delas uma finalidade específica. Mas ele não somente criou, ele cumpre seus decretos também por meio da sua providência. “As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas” (Resposta à pergunta 11. Quais são as obras da providência de Deus).

Já foi dito que o Senhor, em sua providência, usa todos os atos dos homens para levar a cabo a sua vontade, mas de uma maneira que ele não é o autor do pecado. Cada um é responsável por suas ações e um dia responderão por elas diante do tribunal de Cristo (2Co 5.12). Mas um pouco mais precisa ser dito sobre os decretos e a providência.

O governo santo de Deus é diferente de fatalismo. Por não entender a providência, muitos, ao pensar na doutrina da eleição, chegam à conclusão de que se todos aqueles que Deus escolheu serão salvos, não é preciso pregar o evangelho, nem mesmo viver de forma santa. Por isso é importante destacar que no decreto o Senhor estabelece o que vai ocorrer, enquanto na providência temos os meios que o Senhor usará para chegar ao fim do seu propósito.

Pense em algo simples. Se no livro de Deus estão escritos e determinados todos os nossos dias antes de eles terem acontecido (Sl 139.16), significa que se você hoje tomou leite no café da manhã, isto já estava determinado. Se alguém pensa que Deus não está preocupado e não interfere nessas pequenas coisas precisa lembrar que o Senhor Jesus afirmou aos seus temerosos discípulos que eles não precisavam temer a morte, pois “até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.30). Mas voltemos ao leite do café da manhã. O fato de isto estar decretado não significa que a pessoa se assentou à mesa e, num passe de mágica, apareceu diante dela um copo de leite. Imagine quantas coisas precisaram ocorrer para alguém se deliciar com seu leite no café da manhã! Dentre tantas outras coisas foi preciso alguém criar vacas, ordenha-las, processar o leite, vender ao supermercado, foi preciso ainda que a pessoa trabalhasse, ganhasse o seu salário, fosse ao supermercado, comprasse o leite, levantasse cedo, preparasse, etc., ou seja, entre o decreto eterno e o seu cumprimento num momento da história, Deus governou todas as ações de suas criaturas para um determinado fim.

Este entendimento beneficiará a sua vida, pois por um lado, você terá a certeza de que não precisa temer e de que o Senhor está governando cada minuto de sua vida e por outro lado, não se acomodará e fará tudo aquilo que você pode, precisa e é ordenado pela Palavra a fazer. Em razão disso vemos o mesmo Paulo que declarou que Deus tem “misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm 9.18) perguntando: “Como crerão naquele de que nada ouviram? E como ouvirão se não há quem pregue?” (Rm 10.14), e afirmando que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.15).

José passou por muitas aflições sofrendo por causa dos seus próprios pecados e dos pecados de outros contra ele, mas no fim da história, quando seus irmãos estavam temendo que ele viesse a se vingar, ele fez uma declaração maravilhosa, que aponta para a providência de Deus: “Não temais; porventura estou eu em lugar de Deus? Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê hoje em dia, para conservar muita gente com vida” (Gn 50.19,20 – ACF).

Os exemplos bíblicos demonstram Deus não somente criando por meio de Cristo, mas também “ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser [do Deus invisível] sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). Este é o nosso Deus providente! Em suas mãos você está seguro, podendo descansar em seu governo ainda que não saiba o que o espera. Na verdade, você não precisa conhecer o futuro, mas aquele que tem todas as coisas sob o seu governo, como expressa o belo hino que diz: “Não sei o que de mal ou bem é destinado à mim; Se maus ou áureos dias vêm, até da vida o fim. Mas eu sei em quem tenho crido e estou bem certo que é poderoso! Guardará, pois, o meu tesouro até o dia final” (A certeza do crente – nº 105 do HNC).

Confie nele a cada dia!

09 julho 2019

O Soberano (e Santo) Deus

Por meio do profeta Isaías o Senhor declara a Israel a sua Soberania. Diferente dos ídolos, que precisam ser levados sobre os ombros dos seus adoradores e que ao ser colocados em algum lugar não se movem e nem podem responder à petições, o Senhor diz ao seu povo: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade(Is 46.9-10).

O texto é claríssimo! O Senhor anuncia tudo o que vai acontecer, pois ele mesmo decretou, daí dizer que o seu conselho (desígnio, propósito) irá permanecer e que ele cumprirá a sua vontade. O Breve Catecismo de Westminster declara esta doutrina da seguinte maneira: “Pergunta 7. O que são os decretos de Deus? Resposta: Os decretos de Deus são o seu eterno propósito, segundo o conselho da sua vontade, pelo qual, para a sua própria glória, ele preordenou tudo o que acontece”.

Esta declaração bíblico-confessional deixa muitas pessoas, incluindo cristãos professos, desconfortáveis e inquietas. Uma das perguntas que automaticamente vem à mente é: Quer dizer que as tragédias que acontecem ou os problemas que eu enfrento são vontade de Deus? Uma resposta breve seria um sonoro sim, pois como afirma Davi, “no teu livro [de Deus] foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16).

Entretanto, diante desta resposta, alguns irão recorrer à falácia de dizer que Deus, então, não é bom, pois deixa tragédias acontecerem com pessoas boas. E se ele é bom e não quer que elas aconteçam, ele não é Todo-Poderoso, pois não tem condição de impedi-las. Esta última conclusão, inclusive, foi a que chegou um famoso pastor brasileiro por ocasião do tsunami ocorrido na Ásia em 2006. Na ânsia de “preservar” a bondade de Deus ele afirmou: “Não aceito que Deus, para alcançar seu propósito, produza um sofrimento brutal em tanta gente miserável, que não pediu para nascer na beira de uma praia paupérrima. [...] Acredito que diante duma tragédia dessa magnitude precisamos repensar alguns conceitos teológicos. [...] Só uma réstia da revelação brilha em minha alma: o Deus da Bíblia soberanamente criou o universo, mas ao formar homens e mulheres, abriu mão de sua Soberania para estabelecer relacionamentos verdadeiros. [...] Não, ele não pôde evitar a catástrofe asiática”[1].

Ao tentar preservar Deus do veredito de ser mal, Gondim criou um deus segundo os seus anseios, segundo a sua imaginação, um Deus fraco conforme a imagem e semelhança do homem pecador que o criou.

É claro que Deus é bom! As Escrituras afirmam isto de forma abundante (Ed 3.11; Sl 34.8; Sl 86.5; Sl 100.5) e declaram ao mesmo tempo a sua total soberania. Nabucodonosor chegou a declarar que “não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35).

Aqueles que negam a soberania de Deus baseando-se nas tragédias ou nas mazelas da vida esquecem-se de questões básicas, como: 1) Houve uma queda; 2) O homem tornou-se totalmente corrompido e destituído da glória de Deus, merecendo apenas a sua ira; 3) A criação foi afetada pela queda, logo, vivemos num mundo quebrado e inóspito. Logo, o Senhor não é obrigado a ser benevolente com o homem.

Mas talvez alguém diga: Não foi a queda também decretada por Deus? Logo, a culpa é dele. É por isso que precisamos avançar um pouco mais no entendimento da questão. A sucinta resposta do Breve Catecismo precisa ser entendida à luz da Confissão de Fé de Westminster, que ao tratar desse assunto diz que “desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou a contingência das causas secundárias, antes estabelecidas” (CFW III.I).

Ou seja, Deus é soberano e o homem é responsável. Aqui a próxima pergunta do Breve Catecismo nos ajuda um pouco mais: “Pergunta 8. Como Deus executa os seus decretos? Resposta: Deus executa os seus decretos nas obras da criação e da providência”. Isso quer dizer que Deus soberanamente criou, mas não só isso, ele também dirige todas as coisas em sua providência. É assim que o Senhor usa até mesmo os atos maus dos homens para cumprir os propósitos que ele mesmo estabeleceu.

Pense em alguns exemplos bíblicos. Deus usou o pecado dos irmãos de José a fim de fazê-lo governador do Egito e, assim, salvar o povo da fome, preservando a linhagem do Messias (Gn 37 a 50). Você acha que o Senhor precisou colocar maldade no coração dos irmãos de José?

Deus usou o pecado de Davi a fim de que, por meio de Bate-Seba, a linhagem de onde viria o Messias continuasse. Mateus chega a escancarar o pecado de Davi quando registra a genealogia de Jesus e relata que “o rei Davi [gerou] a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6). Está claro que em sua providência Deus usou o ato mau do rei para cumprir sua vontade, mas Davi, livremente, pecou por cobiçar a Bate-Seba (2Sm 11.2-4).

Mais ainda, estava declarado que o Messias seria traído (Sl 41.9 conf. Jo 13.18). Contudo, não foi preciso que Deus movesse o coração de Judas para o mal. Ele traiu a Jesus porque desejava receber por isso. Judas amava o dinheiro e, como tesoureiro dos apóstolos, até roubava das ofertas (Mt 26.15; Jo 12.6). Em Atos Lucas registra que Pedro, ao pregar para os judeus, apontou tanto para a soberania de Deus quanto para a responsabilidade do homem ao tratar da morte de Jesus e acusar: “sendo este entregue pelo determinado desígnio de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.23).

Tudo está decretado por Deus e em sua providência ele leva a cabo seu plano usando, inclusive, os atos pecaminosos dos homens. Foi assim que ele cumpriu o seu plano de dar o seu Filho em favor de pecadores. Não tivesse o Senhor usado o falso testemunho dos homens, Jesus não teria sido jamais condenado, pois era Justo!

Este é o Soberano Deus que governa a sua vida. Entendendo que ele está no controle de todas as coisas, que seu plano é santo e sábio e que ele fará tudo para a sua própria glória, você pode descansar em seu governo e afirmar como Jó, “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 2.10) e, assim, experimentar a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2), enquanto aguarda a consumação desse plano perfeito, na vinda do nosso Redentor!


[1] Ricardo Gondim. Quem Deus ouviu primeiro?, acessado em 05/07/19: encurtador.com.br/kmzTW

05 julho 2019

O único Deus verdadeiro

Este é o assunto da quinta pergunta do Breve Catecismo. A pergunta “Há mais de um Deus?”, traz uma resposta simples e direta: “Há um só Deus, o Deus vivo e verdadeiro”.

A consciência de que existe um Deus está em todos os homens. Calvino, acertadamente, afirmou que “sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natural, certo senso da Divindade. Para que não nos refugiemos na alegação de ignorância, o Senhor nos dotou de certa percepção de Sua majestade”[1]. O ensino do reformador ecoa as palavras de Paulo que afirmou aos romanos que

“o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles [os homens], porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.19-20).

Entretanto, esta consciência de Deus, por meio da criação, não é suficiente para a salvação. Daí o primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster afirmar que

“ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis; contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso, foi o Senhor servido [...] revelar-se [...]; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade [...] foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada” (I.I).

É por meio da Escritura, e somente por ela, que o homem pode ter conhecimento de Deus. Por vezes cristãos tentam provar de outras formas a existência de Deus, esquecendo-se que o simples assentimento de que existe um Deus não é suficiente para a salvação e de que isso a própria criação já faz. Deus tem que ser conhecido como revelado na Escritura.

Gosto muito da forma como o livro de Gênesis se inicia. “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Moisés não gasta tempo tentando provar que Deus existe, ele pressupõe isso e no decorrer do livro vai ensinar ao povo recém libertado do cativeiro quem é esse Deus Salvador. Em Deuteronômio, Moisés declara os mandamentos que o Senhor mandou ensinar a Israel e afirma: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6. 4). Este verso se constituiu numa importante declaração de fé para os judeus.

Se existe somente um Deus vivo e verdadeiro, todos os homens estão obrigados a dar a ele glória e louvor. Como já foi dito, ele é revelado na criação, mas Paulo afirma que os homens em seu pecado “inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.22,23). É por isso que precisamos proclamar Deus aos homens, como ele se revelou na Bíblia.

Na pergunta 6 do Breve Catecismo temos um pouco mais a respeito daquilo que entendemos que o Senhor revelou acerca de si mesmo em sua Palavra: “Quantas pessoas há na divindade? Resposta: Há três pessoas na Divindade: O Pai, o Filho e o Espírito Santo, e essas três são um Deus, da mesma substância, iguais em poder e glória”.

O único e verdadeiro Deus é o Deus Trino! Esta é a verdade declarada na Escritura e que precisa ser crida pela Igreja. Não cremos em um deus qualquer, mas no Deus que se revela por meio do seu Filho, Jesus Cristo, que conforme afirmou Paulo “é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15), aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas (Cl 1.16, Jo 1.3). Cremos no Pai que, juntamente com o Filho, nos envia o seu Espírito, eternamente procedente de ambos. É o Deus Trino que trabalha na criação, redenção e glorificação daqueles que creem em Jesus Cristo.

Neste trabalho, cada Pessoa Divina realiza uma função, o que a teologia denomina de economia (ou administração) da Trindade. Não obstante, é o único e verdadeiro Deus que trabalha em todo o tempo. Tomo como exemplo a obra de salvação em que a Escritura declara que fomos eleitos por Deus, o Pai (Ef 1.3,4), redimidos na cruz por Deus, o Filho (Ef 1.7) e selados por Deus, o Espírito Santo, que habita em nós (Ef 1.13).

A realidade de um Deus Trino tem implicações diretas para o nosso viver diário, como iremos notar. Somos chamados a amar. Biblicamente, o amor é sempre direcionado para fora, daí sermos ordenados a amar a Deus e ao próximo, ao mesmo tempo em que somos ordenados a não ser egoístas, ou seja, a não amarmos a nós mesmos. A Bíblia afirma que Deus é amor! Mas ele não se tornou amor ao criar o homem a fim de ter alguém a quem amar. Deus é amor desde a eternidade, o que pode ser percebido quando João afirma que “o Pai ama o Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos” (Jo 3.35). Nosso amor é reflexo da imagem de Deus em nós. Este amor se tornou egoísta com a queda, mas é reorientado quando somos redimidos por Cristo e inseridos em seu corpo, a Igreja.

A esta Igreja é ordenado que viva em unidade. Paulo escreve aos efésios e diz: “rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados [...] esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.1,3). Mais uma vez é possível perceber a ação da Trindade para que a Igreja cumpra o que lhe foi ordenado. A unidade da Igreja é obra do Espírito Santo. Nós não promovemos a unidade, mas preservamos a unidade. Para isso, nosso Mediador orou intercedendo por nós: “guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um” (Jo 17.11).

Que pedido maravilhoso! Por ter sido feito por Jesus ao Pai, temos a garantia de que o Pai o ouve. Mas há algo ainda mais maravilhoso a ser notado, a saber, que a base para a unidade da Igreja é a unidade da Trindade Santa. Jesus disse: “para que eles sejam um, assim como nós. [...] a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti também sejam eles em nós;” (Jo 17.11,21).

Esta unidade, reflexo do Deus Trino, é para que o único Deus receba a glória devida ao seu nome. Jesus afirmou que isso é “para que o mundo creia que tu me enviaste. [...] eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.21b,23).

O único e verdadeiro Deus é o Deus Trino, que nos ama, nos dirige e nos abençoa, a fim de proclamarmos o seu Santo Nome.


[1] João Calvino. Institutas da Religião Cristã, Livro I