23 abril 2019

Qual é a razão da nossa existência?

Esta é uma questão presente na história da humanidade, cuja resposta varia, dependendo da visão de mundo de quem a elabora. Para aqueles que negam a existência de Deus, a vida, fruto do acaso, encerra-se assim que a pessoa morre. Esta ideia naturalista implica na falta de um referencial para a moralidade. Se não existe um Deus, não existe uma moral absoluta e cada um pode construir a sua própria “moralidade”.

Longe de ser uma novidade, esta visão de mundo e sua consequência foi apontada por Davi em dois de seus salmos, o 14 e o 51, em que afirma:

Diz o insensato no seu coração: Não há Deus”.

O resultado lógico da crença na não existência de um Deus que soberanamente estabelece o que é certo e o que é errado, está na sequência:

“Corrompem-se e praticam iniquidade; já não há quem faça o bem” (Sl 53.1).

Alguém que não crê em Deus não tem esperança e, inevitavelmente buscará uma razão para motivá-lo a viver, visto que, por ter sido o homem criado para adorar a Deus, ao tentar eliminá-lo de sua vida, fatalmente colocará outro deus em seu lugar. Este falso deus que o motivará a viver pode ser a família, o trabalho, o status, ou qualquer outra coisa que ele entenda ser importante e que valha a pena viver por ela. Porém, sem um referencial absoluto de moralidade, pecará para conquistar aquilo que tanto almeja.

Entretanto, Davi descreve como o Senhor enxerga estas pessoas:

“Do céu, olha Deus para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem sequer um” (Sl 53.2-3).

A vida daqueles que não creem em Deus é uma vida sem sentido. Mas não somente a deles, a dos que creem em um deus que é fruto de sua própria imaginação também é uma vida vazia. Uma vez que esta pretensa deidade é falsa, persiste a falta de razão para a existência.

Todavia, uma boa resposta à esta questão foi dada pelos teólogos de Westminster, já na primeira pergunta do Breve Catecismo: “Qual é o fim principal do homem? Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.

A questão da razão da existência está magistralmente colocada aqui. O homem foi feito para dar glória a Deus. É isto que confere razão à sua existência e, ao viver assim, ele encontra verdadeira alegria em tudo o que faz. A alegria no que se faz é fruto de se fazer pela razão correta.

Adão foi criado desta maneira, conforme o relato do livro de Gênesis. O problema é que, com a queda, o homem passou a ser inimigo de Deus. É por isso que ele rejeita a Deus e, ao mesmo tempo, busca falsos deuses. Como afirma Calvino, “sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natural, certo senso da Divindade. [...] Até a idolatria nos serve de grande argumento em favor desta ideia” (Institutas, livro I).

Diante disso, para que o homem encontre novamente a verdadeira razão para viver, Deus enviou seu Filho a fim de resgatá-lo. Após a queda de Adão, o único homem que teve condições de glorificar a Deus e gozá-lo para sempre foi o Senhor Jesus Cristo, por ser o próprio Deus encarnado. Ao viver de forma perfeita e morrer em favor dos seus eleitos para que estes possam ser salvos pela fé, o Senhor Jesus Cristo garante aos que estão unidos a ele condições de também glorificar a Deus e ter alegria nele, para sempre.

Você pode notar isto na oração sacerdotal registrada no Evangelho de João. Jesus diz ao Pai:

“Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste a fazer” (Jo 17.4).

O Filho bendito de Deus, glorificou a seu Pai, realizando uma obra penosa. Lembre-se que em sua obra ele teve de suportar o cálice da ira divina, em lugar dos seus. Após isso ele roga ao Pai:

agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (17.5).

Quando pregou aos judeus, Pedro citou a alegria de Cristo em sua obra, ao aplicar a ele as palavras de Davi:

“Diante de mim via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado. Por isso, se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; além disto, também a minha própria carne repousará em esperança, porque não deixará a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria na tua presença (At 2.25-28).

Jesus glorificou ao Pai e teve alegria nele!

Voltando à oração sacerdotal, Jesus afirma que em seus discípulos ele é glorificado (17.10) e diz:

“agora, vou para junto de ti [do pai] e isto falo no mundo para que eles tenham o meu gozo completo em si mesmos” (17.13).

Comentando esta passagem Carson afirma que “minha alegria [meu gozo] aponta, sem dúvida, para [Jo] 15.11, em que a alegria de Jesus, como a dos discípulos pelos quais Jesus ora, depende do fato de permanecer no amor do Pai, obediente a ele e em fidelidade de coração à Palavra que Jesus ensinou” (Comentário de João).

A obra de Cristo liberta o pecador e o leva à obediência que glorifica a Deus e redunda em alegria nele, para sempre. Se você não entender que a razão da vida está em realizar aquilo para o qual foi você foi criado, continuará a buscar fontes de alegria fora de Deus e razões para continuar que só funcionam enquanto o seu interesse estiver nelas ou você não se decepcionar com elas.

Em Cristo, tudo ganha sentido. Sem ele, a vida se restringe ao que Salomão registra no livro de Eclesiastes:

“Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Ec 1.14).

Crendo em Cristo você tem um referencial absoluto para a sua moralidade e viverá de forma a glorificar a Deus em tudo o que faz, tanto nas coisas menores, “quer comais, quer bebais” – quanto em tudo o mais – “ou façais outra coisa qualquer” (1Co 10.31). Assim, desfrutará de alegria, a despeito das circunstâncias, pois terá aprendido como Paulo “a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.11), sendo Cristo aquele que te fortalece.

Agostinho afirmou em suas Confissões: “porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso”. Este descanso é o Senhor Jesus Cristo, que glorificou ao Pai e tem alegria nele eternamente para que você possa viver da mesma forma. Só em Jesus Cristo há verdadeira razão para viver.

1 comentários:

Eduardo R. Oliveira disse...

Excelente texto! Que Deus nos ajude a viver assim!